segunda-feira, 28 de março de 2011

IDÍLIO EM BICICLETA


Estava um calor abrasado(r) e, ao inflectir para a esquerda, um vendedor de gelados, daqueles que transformam a bicicleta em triciclo e instalam um pequena caixa térmica à frente, chama-me. Na verdade ainda pensei ignorá-lo, fingir que não o ouvi, pois certamente queria bombardear-me com perguntas sobre a viagem e, com este calor, não me apetecia. Mas lá virei a cabeça e ele acenou-me para lá ir (ainda por cima tinha de ser eu a deslocar-me, pensei). Depois de me apertar a mão, abriu a caixa dos gelados e estendeu-me um dulcíssimo gelado de manga, de fabrico caseiro, já se vê, envolto numa película de plástico transparente e com o pauzinho artesanal. Ainda lhe perguntei se podia pagar-lho, mas respondeu-me com um sorriso feliz, que nem pensar, era “regalo” para me refrescar de tanto calor. E lá foi e eu lá fui, por caminhos que não mais se cruzarão, apenas na memória simples destas palavras singelas.

Texto e imagem de Idílio Freire

HÁ OUTRAS LUTAS A NÃO PERDER!...


Por 300 votos, os sportinguistas parecem ter decidido ficar na mesma. Parece que Bruno de Carvalho não parecia ser honesto. Ao contrário de Godinho Lopes, o dos paquetes, Luís Duque, com termo de identidade e residência, e Paulo Cristóvão, o do caso da mãe de Joana. Uma coisa é certa: o Sporting é o clube mais português de Portugal. Endividado e ingovernável.

Daniel Oliveira aqui

domingo, 27 de março de 2011

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Este anúncio foi publicado no “Diário Popular” de 2 de Setembro de 1969 e promovia o Algarve, hoje chamam-lhe Allgarve, mais concretamente Vilamoura, com oferta de “equipamento de recreio do mais alto nível com campo de golfe de 18 buracos, equitação, ténis, um lago artificial e pela primeira vez em Portugal um porto de recreio para 1000 barcos.”

Um Algarve que, antes anos, começara a ser destruído com a invasão de ingleses e alemães. Mário Ventura no romance, “O Despojo dos Insensatos” (1968), reporta o hediondo crime.

“Fazer fortuna a vender a sua terra a essa cambada toda que vem lá de fora… Era negócio que não me tentava. Qualquer dia não temos um único bocado nosso onde pousar os pés.”
“Oh doutor!, isso nem parece seu!, exclama o Silva Sequeira, cuja importância cresceu igualmente com a fartura turística. “Não me diga que deu agora em isolacionista. Que seria de nós se ninguém viesse a esta ponta da Europa ajudar-nos a viver? Ainda bem que assim é. Deixe-os vir, deixe-os vir, que isso có é bom para nós” (…) “Deixe-os lá! Trazem dinheiro, é o que importa! O senhor verá o que é este Algarve daqui por uns anos. Nem o reconhece!”

Silva Sequeira tinha razão: ninguém hoje reconhece o Algarve… mas pelos piores motivos!

Em Janeiro de 1963, na revista “Távola Redonda”, Sophia Mello Breyner Andresen escreveu um artigo que intitulou “Pelo negro da terra e pelo branco do muro” onde dava conta das suas preocupações com o que estava a acontecer no Algarve. Hoje, verificamos que o pessimismo de Sophia se transformou num enorme pesadelo.

“Há uma beleza que nos é dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas.
Mas há também uma outra beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham.
A beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um princípio de educação e de alegria.
(…)
Quando olhamos à nossa roda as aldeias, vilas e cidades de Portugal temos de constatar que quase tudo quanto se construiu nas últimas décadas é feio. Feio e - ai de nós! - para durar: Feias as obras públicas e feias as obras particulares. As excepções à regra de fealdade são raras.
Costuma dizer-se que a nossa pobreza é a origem dos nossos males. Mas o que caracteriza grande parte da nossa arquitectura desta época é o novo-riquismo. Um novo-riquismo exibicionista – quase sempre sem funcionalidade e sempre sem cultura e sem sensibilidade
(…)
Penso neste momento especialmente na terra do Algarve, com suas praias, suas grutas, seus promontórios, seus muros brancos, sua luz claríssima. É preciso não destruir estas coisas. É preciso que aquilo que vai ser construído não destrua aquilo que existe.
A arte é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia. A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitectura.
Afirma-se que é necessário desenvolver turisticamente o Algarve. Para isso será preciso construir. Mas é necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. Existem todas as condições para que se possa criar no Algarve uma boa arquitectura: ali temos uma paisagem e uma luz que pedem “arquitectura”, ali encontramos um uso belo e tradicional do barro e da cal; ali temos uma arquitectura local lisa e pura como uma arquitectura moderna, uma arquitectura popular cujos temas o arquitecto poderá desenvolver duma forma mais técnica e mais culta: ali temos um clima que facilita a vida e propõe soluções de extrema simplicidade.
Ali poderemos ter os materiais, as inovações, a técnica e a cultura do nosso tempo. Ali poderão trabalhar os arquitectos competentes que existem no nosso país.
Mas é urgente evitar os seguintes perigos:

A incompetência
O saloísmo
As especulações com os terrenos
Os maus arquitectos
O falso tradicionalismo
A mania do luxo e da pompa
As obras de fachada

Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor: De todas as artes a arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura.”

Nota do editor: as transcrições do texto de Sophia aqui reproduzidas, são retiradas de uma divulgação feita pelo “Público” em Agosto de 2004.

sábado, 26 de março de 2011

POSTAIS SEM SELO


Em prinípios do século XIX as castas plantações de algodão que havia nas margens eram trabalhadas  por negros, se sol a sol. Dormiam em barracas de madeira, sobre o, piso de terra. Fora da relação mãe e filho, os parantescos eram convencionais e turvos. Tinham nomes, mas podiam prescindir de apelidos. Não sabiam ler. A sua voz enternecida de falsete cantarolava em inglês de lentas vogais. Trabalhavam em filas, curvados sob o azorrague do capataz. Fugiam, e homens valentes saltavam sobre formosos cavalos, levando em seu rasto fortes mastins.

Jorge Luís Borges, em História Universal da Infâmia

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS



Por aquele tempo dizia-se que a “TV” era fácil de lavar, rápida a secar e que dispensava “realmente” o ferro.

Ainda se lembram do “slogan”?

“TV: A CAMISA DO HOMEM QUE A MULHER PREFERE.”

Anúncio publicado no “Diário de Notícias” de 3 de Dezembro de 1968.

sexta-feira, 25 de março de 2011

IDÍLIO EM BICICLETA



Aqui não existe antes nem depois...
...apenas a simplicidade do instante.

Texto e Imagem de Idílio Freire

POSTAIS SEM SELO


“O Sol parece a canção do memino que saboreou aroma de baunilha pela primeira vez numa manhã de Priamavera.”

Mário Castrim

ELOGIO DA DIALÉCTICA


“A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo não diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.”

Bertolt Brecht em “Poemas”, tradução de Arnaldo Saraiva, Editorial Presença, Lisboa s/d

quinta-feira, 24 de março de 2011

LUA DO DIA DO PAI


Estou certa que muitos de vós repararam na lua de sábado, e com certeza muitos a fotografaram. Pois bem, eu também me deparei com uma lua absolutamente fantástica e posicionada de uma forma indescritível, criando um cenário soberbo!
Foi com muita pena minha que não consegui dedicar o tempo que esta foto merecia, tive tempo apenas para dar um disparo e em modo automático.
Mesmo assim partilho com vocês a foto que tirei que está longe, muito longe do cenário real. O que me conforta é que mesmo não tido tempo para poder montar o tripé e fazer dezenas de disparos em modo manual até conseguir a "FOTO", é saber que esta imagem irá para sempre ficar na minha memória e que a lua apesar de ser a mesma, não é igual para todos.

Texto e imagem de Vanessa Mira

A VIDA SEGUNDO WOODY ALLEN


“Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente.

Começar morto, para despachar logo o assunto.

Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.

Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.

Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo.

E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé inocente até nascer.

Por fim, passo nove meses flutuando num "spa" de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois - "Voilà!" - desapareço num orgasmo.”

O Scott Fitzgerald fez um conto com base numa história deste tipo, que deu origem a um filme recente de algum sucesso: “O Estranho Caso de Benjamin Button”

Cortesia de Luís Miguel Mira

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


PORNOCINE


“Ah, deixem-se de abraços e de beijos,
de grandes planos de frentes e traseiros!
Não se lambam sob a luz cruenta
dos projectores.
Poupem-nos a essas cópulas
tecnicolores.
Na posição de «o missionário», denegrida,
ainda se move muita gente, muita vida.

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!

A gratificação oral, que põe os olhos
do homem iguais aos do carneiro
mal morto,
é barco balanceiro
que encontra, no cinema, alguns escolhos,
por isso não se pisam os canteiros
ao entrar em tal horto.

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!

Das cruas sodomias
pé ante pé a câmara se aproxima.
Por ângulos interessantes,
quase se espiritualizam os amantes.
Bertolucci emprega a margarina
no seu escabroso edificante.
Porém, lambe de mais o filme,
lambe de mais a cria,
e é assim - clássico! - que já está na estante...

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!

Mais corajoso - e feio - o Pasolini serve-se
do amor com truculência, verve
e poucas ilusões.
Nele, a fornicação é quase sempre assalto
a privilégios.
Talvez por isso não mandem os colégios
ver as suas sessões...
E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
De modo que a câmara aguenta
mais depressa a velatura que a franqueza.
Para que Eros durma em nossa casa
É preciso saber abrir-lhe a cama
E pôr-lhe a mesa...
E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana,
eroturismo à portuguesa!”

Alexandre O'Neill, em “Anos 70 Poemas Dispersos”, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2005

quarta-feira, 23 de março de 2011

SUBITAMENTE NA NOITE PASSADA



Morreu Liz Taylor, aos 79 anos, a inglesa por mero acaso, foi uma das grandes Divas de Hollywood. Nunca tive uma admiração extraordinária por ela, só a sua ligação a um dos meus grandes ídolos, James Dean, me fez prestar-lhe mais atenção. O dono aqui da tasca fará concerteza uma homenagem à altura da personalidade, eu limito-me a assinalar e a lembrar o seu desempenho em "O Gigante".

terça-feira, 22 de março de 2011

INCENDIÁRIOS


Imagine-se um pinhal a arder, e em vez de se chamarem os bombeiros, chamarem-se os incendiários para apagar o fogo....eis a situação actual em que Portugal se encontra. E os patetas alegres batem palmas, considerando que quem nos colocou na crise são os mais "responsáveis" para nos tirar dela, ou será para afundar isto em definitivo ?

OLHARES



Aos anos que este carro faz parte da decoração desta loja de trapos na Rua do Loreto em Lisboa

A APRENDIZAGEM DO OLHAR


Pode-se ensinar a técnica, o manuseamento correcto da máquina, a escolha certa dos tempos de exposição, as virtudes da profundidade de campo, os mecanismos complicados da revelação e da ampliação, as regras antigas da composição. Pode até ensinar-se a imitar o que os outros fizeram. O que não se ensina (o que não quer dizer que não se aprenda) é a ver. E é bom que assim seja. Se todos tivéssemos o olhar do Cartier Bresson, todos fotografaríamos como ele, o que, além de monótono, seria triste. A aprendizagem do olhar faz-se só. Não serve adoptar um olhar dum mestre senão para tentar ir mais longe que do que ele ou, por rebeldia, fazer o que ele não fez.

Texto e fotografia de Gérard Castello-Lopes

POSTAIS SEM SELO


José Gomes Ferreira, na entrada do dia 28 de Abril de 1967, do seu “Dias Comuns”, vol II

“Sempre é verdade que se envelhece?

Legenda: fotografia de Luís Miguel Mira

segunda-feira, 21 de março de 2011

O QUE DIZ MOLERO


No semanário  Sete, de 13 de Julho de 1978, Dinis Machado começa assim uma sua crónica:

Um dia, a long time ago, como dizia Ed. G. Robinson mascarado de gangster nostálgico já não me lembro em que fita, abri os olhos. Fiquei espectador.

Esse dia de Dinis Machado ficar espectador, aconteceu em Lisboa, levava o Março de 1930, 21 dias.
Andou escondido num tal de Dennis McShade e escreveu três policiais. Um dia abalançou-se a um outro género, deu-lhe o título  de O Que Diz Molero e colocou-lhe nome próprio. Luiz Pacheco, com o seu olho de águia, topou o livro à primeira, botou crítica no suplemento literário do Diário Popular e o livro, logo no ano de publicação, 1977,  teve cinco edições – um enorme sucesso de público e crítica.

No 10º aniversário da publicação de  O Que Diz Molero, Dinis Machado deu uma entrevista ao JL em que humildemente reconhece que não estava preparado para o sucesso do livro. A jornalista pergunta-lhe se o êxito do livro não o estimulara a escrever, durante esses dez anos, mais nenhum romance.

Paralisou-me. Embora o meu projecto, desde miúdo, fosse fazer um livro memorável, não compreendi o que se estava a passar. Perdi sentido crítico.

Volta e meia volto a  O Que Diz Molero.

Dizia o Helder Piunho que um livro como este só poderia ter sido escrito em Lisboa e por quem a conhecia muito bem , por dentro, por fora, palmo a palmo.

Então a tua tia chalou?, perguntou um dia o Zuca", disse Austin "como é que ela faz?, tem ataques?, é maluca de ter de ficar atada?, de ter ataques com espuma na boca ou é só maluca de não ligar a nada?, o rapaz disse que era maluca de falar em comboios e em serradura, que era um bocado triste e não fazia mal a ninguém, fazia-lhe impressão porque ela já não o conhecia, estava paradinha no banco de lona, então o Bertinho Ranhoso dizia que os malucos com uma grande calma às vezes eram os piores, estão com uma grande calma e só pensam em meter facas no bucho das pessoas, o Peida Gadocha dizia que também tinha uma tia maluca, mas era só maluca de comprar vestidos, tinha mais de quatrocentos vestidos, comprava os vestidos e passava-lhes a mão, era maluca de passar a mão pelos vestidos, o Zuca dizia que quatrocentos vestidos era uma peta das antigas, isso ninguém tinha, o Peida Gadocha dizia que se não eram quatrocentos eram duzentos, isso não interessava, ela era chalada de mexer nos vestidos e de estar sempre a dizer está bem mas tenho de mudar de vestido, dizia os meus vestidinhos, os meus vestidinhos, depois ficava nervosa e ia comprar mais vestidos, o Mané Borbulhas dizia que tinha um tio e uma tia que ficaram malucos ao mesmo tempo, foi por causa de uma roca, ele tinha uma roca em cima da mesinha-de-cabeceira, ela começou a embirrar com a roca, que ele gostava mais da roca do que dela, ele disse que nem ligava à roca, estava ali porque tinha um feitio giro, tinha-a comprado na Feira da Ladra, mas para a chatear começou a cantar uma música que é a Traviata com versos a falar da roca, que lindo som que esta roca tem, tatati, tatatitati, ela para se vingar escondeu-lhe as calças e ele não podia sair de casa, cantava a Traviata à procura das calças, e ao fim de três dias chateou-se e saiu para a rua em cuecas e a tocar a roca, foi logo engavetado pelo polícia, a família toda foi à esquadra, a minha mãe levou-lhe umas calças do meu pai, mas ele não quis, que ficava em cuecas e a tocar a roca enquanto não lhe dessem as calças dele, a minha tia disse que lhe dava as calças se ele deitasse a roca fora, depois fizeram as pazes, o meu tio deu a roca à minha mãe, que ma deu a mim, era eu puto, eles depois deixaram de ficar malucos, a roca é que os chalava, o Zuca então dizia que também tinha um tio maluco, andava sempre de boca aberta e a pensar em nada, era despedido dos empregos porque o apanhavam de boca aberta e a pensar em nada, andava aí pelas ruas com livros debaixo do braço, vai lá a casa só no Natal, dizia ele, no último Natal ficou de boca aberta no meio do jantar, fez-me uma festa na cabeça e foi-se embora, deixou a perna de peru no prato, às vezes encontro-o e faz-me uma festa na cabeça, depois ficamos a olhar um para o outro, pergunta-me se eu já ando na escola, eu começo a falar e ele fica de repente de boca aberta, faz-me outra festa na cabeça e vai-se embora, ninguém consegue falar com ele, desliga quando lhe dá o aparte de ficar de boca aberta e de pensar em nada, o que ele gosta é de dar milho aos pombos nas praças, um dia o meu pai deu-lhe uma grande descompostura, disse-lhe o piorzinho, e depois no fim perguntou-lhe e agora o que é que vais fazer?, vou dar milho aos pombos, disse ele, fez-me uma festa na cabeça e foi-se embora de boca aberta, parece que os pombos é que o conhecem bem, poisam-lhe nos ombros e na cabeça, comem o milho da mão dele, um emprego de dar milho aos pombos é que era bom para ele, às vezes ele anda aqui no Largo do Navegante a dar milho aos pombos muito satisfeito da vida, anda de largo em largo, senta-se nos degraus das estátuas e põe-se a ler uns livros que ninguém percebe nada de um gajo chamado Pessoa, não é o António Pessoa, porque esse é o das balanças, é outro, se calhar é um livro sobre pombos, não sei, uma vez foi para a tropa e desertou, foram dar com ele numa praça a dar milho aos pombos, perguntaram-lhe porque é que ele tinha desertado e ele disse que marchar lhe fazia bolhas nos pés, acabou por ser preso e apanhou uma data de castigos, mas punha-se de boca aberta e não ligava a nada, depois mandaram-no para um manicómio e foi uma grande confusão, o médico perguntou ao meu pai se o meu tio tinha uma coisa que era intermitências não sei quê, o meu pai perguntou ao meu tio se ele tinha essas intermitências, o meu tio perguntou de que cor?, depois viram-lhe a língua e os olhos, ele nos intervalos perguntava ao enfermeiro não se importa de me dar o meu Pessanha?, que é um livro de outro gajo, o médico fazia-lhe perguntas para malucos, mas ele não ligava, só ligava ao Pessoa e ao Pessanha, queria era ficar de boca aberta a pensar em nada, devia sentir a falta dos pombos, acabaram por mandá-lo embora porque não havia lugares, os lugares eram precisos para os malucos assassinos e para os que espumam da boca, vai lá a casa no Natal, agora mesmo está ele, até aposto, a dar milho aos pombos num largo qualquer, a ler livros e de boca aberta, há malucos à brava mas não são perigosos, o meu pai diz que o Bigodes Piaçaba é maluco de ajudar os pobres, de querer pias limpas e banheiras e de acabar com os percevejos, de fazer umas grandes fitas com os senhorios e de querer endireitar o mundo, é um maluco que pensa nas coisas, em escolas e em hospitais, há malucos com outros apartes, de andarem a falar sozinhos ou de arriarem sempre do melhor, como o Joca Farpelas, ou de fazerem discursos que não interessam nada, e os malucos de contar o dinheiro, contam o dinheiro quinhentas vezes, depois falta-lhes um tostão e voltam a contar, se a porra do tostão não aparece até ficam doentes de cama, e os malucos de tocar pífaro só gostam de estar a tocar pífaro e o resto não interessa, todos os gajos têm um tio maluco, às vezes há gajos que têm uma data de malucos na família, o Padeirinha diz que a avó dele é maluca de dizer que lhe roubam coisas da caixa da costura, os dedais, as agulhas e os botões, um dia foi cá uma fita por causa de um botão de madrepérola, o avô do Padeirinha foi aos arames e disse que queria que o botão se fodesse, e bateu com a porta como de costume, o Padeirinha anda sempre a arranjar a fechadura, pede à avó que acabe com a mania que lhe roubam a caixa da costura e ao avô para não bater com a porta, mas eles não ligam, os malucos não ligam, é esse o aparte deles, até a minha mãe um dia acordou maluca, subiu-lhe à cabeça uma coisa que é a ureia, começou a dizer ao meu pai que andava um cágado nas dunas, o meu pai à rasca dizia um cágado nas dunas?, um cágado nas dunas?, levou-a para o hospital das pernas partidas, conhecia lá um enfermeiro, o meu pai começou a dizer às pessoas todas que a minha mãe dizia que andava um cágado nas dunas, uma enfermeira disse que ali era o hospital das pernas partidas, das doenças de pus e coisas assim, dizia que as doenças de cágados nas dunas era no manicómio.

Legenda: Esta fotografia de Dinis Machado é da autoria de Augusto Cabrita, seu cunhado.

DIA DA POESIA


Os que passam por aqui sabem que não necessitamos de um dia de para trazer as palavras dos poetas. O Cais do Olhar é por si uma ideia de que não há olhares sem poesia, nem cais sem chegadas e despedidas, o mundo demasiado grande a engolir-nos, o adeus, mas viramo-nos para a frente, para a seguinte aventura louca sob os céus, tal como escreveu Jack Keroauc pela estrada fora.
Maria do Rosário Pedreira é quem nos visita neste dia, dito da poesia, que também é dia da árvore, e bom seria que as gentes pensassem todos os dias em poesia, na poesia e não apenas porque é dia de.


“Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.
 
 Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.
 
 Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.
 
 Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.”

Maria do Rosário Pedreira em “O Canto do Vento nos Ciprestes” Gótica Editora, Lisboa 2007

OLHARES


Não devemos adiar conversas mais de vinte anos e tirei a conversa do espeto com Delmiro, o galego. O Delmiro trabalha na casa Os Perus, à praça do Chile, a vinte metros da estátua de Fernão de Magalhaes, é a cervejaria com dois grandes machos de leque aberto no “placard” da porta, mas nunca lá assou perus, só frangos.
Sao os melhores do mundo que conheço, e já dei umas voltas, sao muito anos a assar frangos, diz-se, mas aqui é uma vida. Comi no Chile, na fronteira como Peru, em Arica, ondes os pelicanos atravessam a rua fora da passadeira, os papos gigantes de escroto a abanar, e era um bom frango assado mas nao como o do Delmiro Candeira Gonzalez, o galego. Carvao com espeto: o frango sobe e desce patamares, rolando feliz nas brasas como a Terra ao Sol.
Há vinte anos vivi nesta zona onde mulheres de salto esclareciam a noite:
- Levas uma naifada nos tomates que tos abro até o pescoço...
mudei de casa sete vezes mas sempre cruzei Lisboa, uma vez por semana, pelos frangos do Delmiro. Os dias de futebol, europeus, mundiais, pedem-me frango. Nunca tivemos a conversa. Nem demos um passou-bem completo, ele estende o braço para nao me sujar, os dedos dourados de sal grosso, limao, louro e sumo picante de frango. Uma vez, Delmiro lembrou José Cardoso Pires a terminar as madrugadas na tasca ao lado, a antiga Casa dos Perus, hoje fechada, onde ele e o seu irmao poeta galego cresceram, mais nada.”

Rui Cardoso Martins, “Público”, 6 de Junho de 2010

domingo, 20 de março de 2011

OLHAR AS CAPAS


Todos os Anos Pela Primavera

Luís de Sttau Monteiro
Guimarães Editores
Lisboa, Novembro 1963

Primeiro preso – Você está aqui há sessenta e sete dias sozinho? (Senta-se e enterra a cabeça nas mãos) Meu Deus!
Segundo Preso – Não há Deus
Primeiro Preso – Não há…
Segundo preso (interrompendo) – Não. (Pausa) Não há Deus.
Primeiro preso – Então o que há?
Segundo preso – Filhos da puta, bandidos, o que você quiser… mas Deus não: Deus é coisa que não existe.
Primeiro preso – Para mim existe.
Segundo preso – Se Deus existe, está tudo perdido, tudo.

OLHARES


O DINHEIRO DO POVO



Dois títulos retirados da "Vida Mundial" nº 1853 de 20 de Março de 1975.

sábado, 19 de março de 2011

QUOTIDIANOS


Há aquele poema do Alexandre O’Neill que diz que o medo vai ter tudo e é isso que o medo quer. 

O medo do medo.

A luta contra Salazar e Caetano está cheia de histórias, umas pequenas, outras grandes.

António Alçada Baptista esbanjou a herança que lhe deixaram na criação da “Moraes Editora” e da revista “O Tempo e o Modo”.

Um dia contou esta pequena história:

“A situação do medo era tal que as pessoas nem o disfarçavam, achavam-no natural. Lembro-me que uma vez, alguém me encontrou na rua, deu-me os parabéns pela existência de “O Tempo e o Modo” e disse-me: “Sabe, eu não sou assinante, eu compro sempre nas livrarias porque tenho medo que um dia vá lá a PIDE buscar o ficheiro dos assinantes.”

POSTAIS SEM SELO


Experimento uma terrível clareza em momentos em que a natureza é tão linda. Perco a consciência de mim mesmo e os quadros vêm como um sonho.

Vincent Van Gogh

Legenda:  Sunset de Van Gogh