terça-feira, 6 de outubro de 2015

VOLTAR A CASA


Quando regressados de umas férias ou de uma estada num outro sítio, reabrimos a porta de casa é como se esse mundo, tão íntimo, a ponto de confundir-se connosco mesmos, tivesse ganho, pelo efeito da distância, uma visibilidade que nos surpreende.


Legenda: pintura de Stephen Darbishire

APANHADOS DO FACEBOOK


De Ana Costa Lemos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Portugal dói-me tanto – e quero-lhe tanto!...

José Rodrigues Miguéis em Correspondência com José Saramago

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

V.S.T. & ETC





Eu estava no jornal. E de vez em quando precisava de ir ao meu quartinho buscar um livro ou qualquer coisa para trabalho. Quando lá chegava, deixando sempre as portas e janelas tudo aberto, tinha o quarto inundado daquela pretalhada toda, nomeadamente o Vítor Maria José, que limpava o meu quarto e era muito engraçado. Eu tinha um pequeno “pick up” de plástico Philips em que os tipos aprenderam a mexer, e como tinha aqueles discozinhos de 45 rotações da Bessie Smith, da Mahalia Jackson, chegava lá e estava tudo numa grande alegria a ouvir. Eu entrava, tirava as minhas coisas e ia-me embora.
Quem eram eles? Contratados. Como me viam lá às vezes a pintar coisas, um dia vieram com uma grande conversa. O que é que era? Quando acabava o contrato, para aqueles que não eram mortos – embora os contratos fossem muito continuados, mas a certa altura era demais, e eram obrigados a devolvê-los às terras de onde os tinham tirado –, o Estado tinha de arranjar uma camioneta. Juntava aquela gente toda e eles tinham uns paus com umas bandeiras, era um momento de grande alegria porque iam regressar. E então vinham-me pedir a mim para fazer as bandeiras. Andei a pedir pano de lençol por todo o lado e fiz um sol, estrelas, coisas assim muito berrantes, lindíssimas, fui mais considerado por essa gente do que qualquer Picasso ou Miró – espero que isso não apareça no jornal senão o Joe Berardo vai saber onde é que estão essas bandeiras e ainda apareço no Centro Comercial de Belém. De modo que fui encarregado das bandeiras da liberdade.
Um dia chego, e só lá está o tal criado do meu quartinho, muito triste, sentado na cama. “Epá, o que é que se passa? Então agora que vais embora é que estás triste?” Ele começa com uma grande conversa. O que é que ele queria? Levar com ele o disco de 45 rotações da Mahalia Jackson com o retrato dela na capa. Dei-lho.
Mas haveria alguma hipótese deste homem voltar a ouvir o disco? Algures no interior daquele “hinterland” deve estar um disco de Mahalia Jackson jamais ouvido. Mas tinha-o ele dentro do coração, do sangue, da cabeça. Levou aquilo como quem leva um pedacinho de Deus

ALEGRA-TE


Tirado de Entre As Brumas da Memória.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

NOTÍCIAS DO CIRCO


Ah sim, ontem, houve eleições legislativas.
Faltando conhecer os resultados nos círculos da Europa e fora da Europa, são estes os resultados:

PAF         38,8%
PS            32,4%
BE            10,2%
CDU          8,3%
PAN           1,4%

A abstenção Continua a subir sendo superior à de 2011, passando de 41,08% para 43,07%.
Com nulos e brancos são mais de 46% os portugueses que não querem saber dos partidos para nada. 

De crucifixo na mão – foi-lhe oferecido, disse aos jornalistas – Passos Coelho, de braço dado com Portas, foram alertando para os perigos que o país corria, se a coligação não ganhasse.
Com o medo instalado, conseguiu levar a água ao moinho.
Não toda, é certo… mas quase…

O PS não conseguiu cavalgar a onda de descontentamento provocada por  quatro anos de austeridade.
Verificou-se o contrário.
E a coligação esteve à beira de nova maioria absoluta!
Como se estes atrozes quatro anos fossem mero produto de imaginações doentias e não uma monstruosa calamidade.
Preocupante.
O nosso futuro continua ameaçado
Apetece escrever que é preciso acreditar, apesar de tudo.
Mas estamos cansados e possuídos de uma tristeza que a pouco ou nada conduz. 

domingo, 4 de outubro de 2015

PORQUE HOJE É DOMINGO


Porque hoje não é um domingo qualquer.
Talvez que o nosso destino mude.
Nem que seja um poucochinho.
Bom domingo!

sábado, 3 de outubro de 2015

POSTAIS SEM SELO

Porque ficou assente: a literatura não é nada de sério.

Herberto Helder em Photomaton & Vox

V.S.T. & ETC



Temos andado asaltitar pela entrevista que Alexandra Lucas Coelho fez a Vitor Silva Tavares e hoje, a Alexandra pergunta-lhe quantos cigarros fuma por dia:

Um maço e meio. Indo ao cinema de 15 em 15 dias, ou uma vez por semana, porque gosto muito de cinema, tenho com a minha companheira, que trabalha no aeroporto, um tipo de vida muito estreito do ponto de vista económico, mas com muito conforto. Comemos muito bem lá em casa, as coisas são bem escolhidas, cozinho bem, logo ninguém pode ouvir da minha boca qualquer queixume, coitadinho de mim que sou tão pobrezinho. Não me importo nada de ser pobre. Não trocava a minha posição de modo algum com o Belmiro ou o Berardo. Tenho pena deles. Se o Berardo ou o Belmiro perderem 25 tostões, ou dois euros e meio nessa noite eles não dormem. Ai eu durmo regaladamente.

Do que tenho um bocadinho de pena, e por isso, evito, é de ir a certas livrarias. Poderia ter a tentação deste ou daquele livrito, Evito e custa-me evitar. Eu que faço livros não tenho dinheiro para comprar livros. Mas tirando isso, não me custa nada viver como vivo.

Legenda: fotografia de Nuno Ferreira Santos, Público.

OS IDOS DE OUTUBRO DE 1975


3 de Outubro de 1975

Os finais de Setembro já foram bem quentes, pelo que a entrada em Outubro não poderia de ser de modo diferente.
O desenrolar dos caminhos que nos levarão a esse 25 de Novembro.
Desse 25 de Novembro falará Maria Velho da Costa, de um modo muito seu, em Cravo:
Não se pode ser nada, quando o solo debaixo dos pés é um coágulo informe sorvido por outros corpos sociais dominantes de que os que governam são. 
As espingardas começavam a ser contadas,

Na página 225 de Portugal Depois de Abril, pode ler-se:


De imediato, o Partido Socialista punha a circular este comunicado:


No Diário Popular, o jornalista Rodrigues da Silva titulava, deste modo:
Se a Rádio e a TV alarmam muita gente, há partidos que alarmam muito mais:


E Manuel de Azevedo, na última página do Diário de Lisboa, falava de panelas de pressão a ferver:


No meio de toda esta barafunda, o jornalista Manuel Anta, no Diário de Lisboa, escrevia a Otelo Saraiva de Carvalho:


Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Ces]ario Borga, Mário Cardoso,
  Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976.

DEIXA LÁ COMPANHEIRA!


Deixa lá, companheira!
Que havemos de fazer?
Fecharam-nos a porta e quase nos cuspiram.
Pisaram-te e, a mim, vergastaram-me as mãos.
Deixa lá! Deixa lá! Eu beijarei teus pés
e tu farás sarar as minhas mãos.
Para lá da última casa ainda há terra
e céu e água e luz...

Ainda há vida para lá.

Deixemos para eles o som vazio das gargalhadas
e a luxúria do oiro.
Ainda há vida para lá.
O nosso horizonte é mais vasto em cada instante.
A nossa voz mais rica em cada instante.
O nosso querer mais certo em cada instante.
Ainda há vida para lá.
Sigamos nossa rota, companheira.
Enxugarei teu rosto com cuidado.
Tu farás o meu canto.
E para além das barreiras do tempo
milhões de homens nos esperam com os braços abertos,
que desde a primeira hora serão braços de irmãos.

Mário Dionísio, Poemas dos Cães Danados (4) em Novo Cancioneiro.

Legenda: Desenho de Cipriano Dourado

OLHARES


Pedro Cabrita Reis, à porta do British-Bar, a acender um Cohiba.

Legenda: fotografia do Notícias Sábado, 29 de Abril de 2006.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Já votei algumas vezes mas, francamente, tenho uma certa aversão a esta política portuguesa de dois partidos, em que ora manda um ora manda outro e, ao fim e ao cabo, mandam sempre as mesmas pessoas. Essa bipolarização desgosta-me bastante porque se na aparência são inimigos, a verdade é que uma mão lava a outra.


V.S.T. & ETC



Ninguém tem salário. Tudo quanto tenho, porque comecei a trabalhar muito cedo – antes de ir para África, trabalhava numa grande casa de material cirúrgico, e como era o mais puto enfiaram-me como estabelecimentos a Cadeia Penitenciária de Lisboa, os Hospitais Psiquiátricos, Júlio de Matos e Miguel Bombarda e a Ortopedia de São José... –, mercê dos pagamentos à segurança social hoje usufruo de uma pensão de 250 euros. A casa onde vivo é minha, sou apoiado, como sempre fui desde miúdo. E é por causa destas circunstâncias materiais que o etc se pode dar ao luxo de ser um luxo. De poder continuar a funcionar completamente à margem da engrenagem das indústrias e comércios editoriais. O etc não ptecisa de “marketing”, porque quem faz 300 livros não precisa de “marketing”.

Ao profissionais propriamente ditos, pago sim senhor, pago religiosamente a tipografia, não tenho uma dívida à praça,. Não devo um tostão ao banco. O meu banco é a tipografia Minerva. Porque se eu disser: “Ó senhor Gomes, faça-me mil livros”, ele faz. Ou: “São cinco livros”, e ele faz. Porque sabe de ciência certa e cega que o senhor Vítor jamais deixaria de pagar um cêntimo àquela casa. Portanto esse trabalho é pago, claro.

Ao fim e ao cabo os autores que para aqui mandam os seus originais, também os mandam porque sabem que seria um horror se graças ao trabalho artístico ou intelectual estivesse eu com o meu popó. Eles sabem de ciência certa que não é isso. O projecto do etc não passou desde o início por irmos fazer lucro. E sempre foi dito que no caso de termos algum lucrozito era para meter num novo livrito, e assim sempre.

 Porque se publico pela primeira vez um autor que não é nome conhecido já sei que dificilmente a gente vai vender 200 livros. E se vendermos 200 é porque já aqui estamos há tantos anos que de qualquer modo já houve um pequeno público habituado, ou porque gosta do livrinho, ou de os ter todos, ou porque as capas são muito bonitas, ou porque acham que a casa tem algum rigor. Mas algumas vezes, muitas vezes, esses livritos não chegam para pagar à tipografia. Os autores em geral não gostam de saber destas coisas, nem eu vou dizer a um autor: “Oiça lá, foi um buraco de todo o tamanho.” Deu prejuízo? Já sei que vai dar. Mesmo assim faço. Por coerência. Estou dentro de uma engrenagem que tudo faz para abafar, para fazer desaparecer de vez aventuras desta natureza. Enquanto puder hei-de resistir. Como? Desta maneira. Do ponto de vista pessoal sou um indivíduo baratíssimo desde miúdo. Sei comprar a minha comida, sei fazê-la.

Legenda: fotografia de Graça Martins.

APANHADOS DO FACEBOOK


Porque voto?! Podia dizer apenas porque sim e ponto. Mas eu tenho motivos. Voto porque houve gente que morreu e foi torturada para que eu pudesse votar. Pela minha prima Clara que ficou sem pai em criança porque o mataram na prisão. Pelo meu amigo José Pedro que esteve preso e sofreu a tortura do sono nas garras da PIDE, Pela minha amiga  Maria que não teve infância por andar com os pais na clandestinidade. Pelo Zeca que a PIDE "engavetava" regularmente em vésperas do 1º de Maio. Por mim que fui para uma guerra que não desejei. Pelos meus pais cuja passividade ignorante ajudaram a que isto fosse assim. Pelos meus netos que não têm culpa de nada!


De Cesino Alves

SIM, A INDIFERENCA,,,


Foi a indiferença que nos levou a suportar quase meio século de ditadura.
Foi a indiferença que permitiu que uns, sabemos os nomes, destruíssem os sonhos de Abril.
Foi a indiferença que colocou nos governos gentes que nunca olharam o povo, apenas interesses próprios e dos amigos.
Foi a indiferença…
... ou como escreveu Afonso Cruz

Pesar da necessidade inerente ao ser humano de procurar um espaço de liberdade e uma sociedade harmónica e justa, de viajar e sofrer para encontrar esse lugar, a maior parte das vezes tememos deixar o calor da sala de estar para empreender uma pequena viagem – por vezes não é mais do que uma avenida de comprimento – para defender os nosso direitos mais legítimos.

Por vezes, receamos tanto este tipo de viagem que, nas próximas eleições, votaremos nos mesmos faraós.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Não há-de ser por mim que a coligação ganha.

José Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo, ontem na Sic Notícias.

DE ALEGRE SE FEZ TRISTE


A campanha eleitoral dá os últimos suspiros.
Sorte nossa.
Por aqui, passou-nos completamente ao lado.
Já vimos de tudo.
Possivelmente, na segunda-feira, vamos ouvir os mesmos lamentos de quem lhes rouba as reformas e os empregos, os coloca no limiar da pobreza.
Não mais os lamentarei.
Mas, agora, se aqui trago a campanha é porque li algo que, completamente, me tira do sério.
Num comício do PS, Manuel Alegre teve esta tirada:
O que a CDU e o Bloco de Esquerda estão a fazer é um grande frete à direita.
Que tristeza, caro Alegre.
De quem tudo viu em Nambuangongo, esperava-se, outro olhar, outra lisura, outros… não sei o bem o quê…

OLHAR AS CAPAS


E Agora, José?

José Cardoso Pires
Moraes Editores, Lisboa, Novembro de 1977

De resto quem te ouve? Quem dá crédito à tua liberdade? Vamos, fuma, José. Pensa bem esse cigarro. Mede e golpeia a memória, repisa nos teus avisos enquanto o cabelo te embranquece. Olha, é entardecer. E está tão claro.
A´, nesse espelho, há um não sei quê de pobre diabo no cidadão que te faz frente, aferrado a um orgulho pacato. Orgulho? Pior para ele, que pouco fez para mudar as coisas e muito para não se deixar mudar. Razão? Vigilância? Está bem, deixa-o dizer.
Deve andar nos cinquenta, mais ano, menos ano, e se calhar é por isso que te sonda com tamanha inclemência. Cinquentas, meio século de vislumbrada malícia de si mesmo e de nicotina. Cancro apalavrado, ai coitadinho. De quando em quando noto-lhe talvez um perpassar de ironia a traquinar-lhe no rosto, mas se o tem em luz breve e para mais magoada. Não dá sequer para temperar o ar endurecido que há nele e que provém mais do desalinho e do à-balda que doutra coisa. No resto, pouco a acrescentar. Visagem martelada, máscara prevenida, assimetrias de quem se talhou ao azar – e disse. Acta est fabula, se assim me posso exprimir.
É este o homem que te contempla. José. Que te fuma. Que te duvida.

QUOTIDIANO PERDIDO


O tabaco e o vinho
não resolvem
mas outro dia

Agora
o que me falta
rigorosamente
és tu

sem literatura

O poema é morfina
                 não cura

Os sinais que deixaste na cama
a presença do teu corpo singular
a tua mão na minha ao adormeceres
o deitar o vinho no teu copo
o gesto teu de acender o cigarro
as palavras nervosas tranquilas
tudo quotidiano
necessário
sem rotina

Os meus cinco sentidos
te reclamam
exactamente como és

sem tirar nem pôr
da cabeça aos pés

Tu és o meu dicionário
sem ti tropeço nas palavras

noite a noite
iludo no vinho
o meu vocabulário

Mendes de Carvalho em Poemas de Ponta e Mola

Legenda: fotografia de Steve Almond

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC




E vou trabalhar para uma casa no Areeiro, onde estão agora As Chaves do Areeiro, que fazia uns acessórios para automóveis. Como tinha muito jeito de mãos puseram-me a fazer em gesso uns moldes aerodinâmicos, cinematográficos. Ah, porque a minha cultura começa a ser cinematográfica. Tive tantos dias de expulsão e castigo no liceu que passava o tempo a ir para o Paris ou para o Jardim Cinema ver filmes. Até entrei para o Cineclube Imagem, que era vermelho, e tinha lá dentro o Vasco Granja, o Henrique Espírito-Santo, o José Fonseca e Costa. E houve uma altura, até, em que a PIDE prendeu a direcção toda do Cineclube Imagem.

Foi para mim uma autêntica escola, não só de cinema, mas também daquilo em que o cinema, como qualquer outra das artes, deve ter a sua função política. Isto em tempos já muito politizados. Por leituras, e depois pelo cinema, e por estes contactos, comecei a ser aquilo a que hoje se chama uma pessoa de esquerda.
Sem nunca ter pertencido ao PCP, não deixei de ser aliciado pelo PCP, e de qualquer modo era um ponto de referência, sempre. E nessas relações no decorrer da vida, nas Áfricas, quando regresso, a dirigir a Ulisseia, depois no etc do Fundão, no “Diário de Lisboa”, é natural que tivesse sofrido, nomeadamente no “Diário de Lisboa”, pressões que não vinham apenas da censura.

Muitas vezes voto no PCP e não é por causa do PCP, é por causa de mim. O que tenho a ver com o PCP? Nada. Gosto de ir votar porque a junta de freguesia é ali na Rua da Esperança, e vota-se ao domingo, e ao domingo aquilo é uma aldeia. Até os cavalheiros podem aparecer de chapéu, porque é quase tudo emigrantes, de Ovar, daqui e dacolá. Põem os seus melhores fatinhos, as esposas ou viúvas também, e é-me ternurento ver como aquela gente vai tão respeitosamente votar. Então, eu gosto de ver aquilo e também vou.Isso explica por que vai votar....

Como vê, não é por causa da “democracia”.

Mas porque é que vota no PCP?

Sou totalmente fiel à minha condição. Não tenho qualquer ilusão sobre de onde venho, como fui sendo e agindo. E sou de tal modo fiel a isso e a convicções iniciais nunca perdidas, que posso não me interessar em particular pelo partido comunista, mas por certas ideias comunistas, mesmo aquelas que passaram primeiro pelos Bakunines, ou pelos comunistas utópicos, como o Charles Fourier, com o falanstério. Eu venho dessa família de socialistas idealistas, onde meto um certo comunismo inicial que nada tem a ver com o Estaline, se calhar nem com a revolução de Outubro, sabendo-se que a revolução de Outubro começou por assassinar os de facto socialistas, revolucionários.

Está mais próximo da minha condição e formação enquanto pessoa.
Isto tem que ver com as ideias e a minha integração num sítio.
A minha Lisboa é muito pequena. Falo dela como o meu Triângulo das Bermudas. A casa da Rua das Madres onde vejo, enquanto os arquitectos deixarem, a mesma nesga de rio que via quando era miúdo. Parece que o Norman Foster vai dar cabo disto. O tal muro de betão que uma certa Lisboa pôde fazer parar há meia dúzia de anos vai ser transferido simplesmente para o outro lado da 24 de Julho.
Aquilo é uma pequena aldeia, eu de manhã vou tomar o meu cafezinho ao mais pequeno estabelecimento do mundo, que é a Geninha, tenho lá a voz do bairro, o mulherame todo, sei logo tudo. Aquele português que lá se fala é do melhor Gil Vicente, nomeadamente as mulheres, e eu delicio-me. Reencontro aí uma língua portuguesa que é escusado estar a ler a Agustina.

Depois faço a Calçada do Combro a pé e estou na Lisboa do Chiado romântico, onde sempre trabalhei.

OS AMANTES DE LIVROS E OS OUTROS


Já foi há um bom par de meses que se ficou a saber que os herdeiros de José Cardoso Pires decidiram que as obras do autor deixavam de ter a chancela das Publicações Dom Quixote.

A editora perde, dos seus catálogos, um nome de vulto da literatura portuguesa.

Desde que a Leya comprou editoras como as Publicações Dom Quixote, a Caminho, bem como outras, aos poucos tem vindo a perder autores que saem muito pouco satisfeitos com o trabalho do consórcio.

Entre outros já saíram José Saramago, Mário de Carvalho, João Tordo e agora José Cardos Pires.

Fica ainda António Lobo Antunes mas acredita-se que só por ali se mantém porque é «surdo».

Talvez que a aglutinação de editoras seja algo inevitável.

O problema da Leya é que, desde o seu começo, apenas esteve interessada em lucros, nunca em cultura.
Ao contrário da Texto Editora, que também comprou outras editoras, mas que teve o cuidado de colocar à frente da edição um homem que sabe o real e único valor dos Livros: o poeta Manuel Alberto Valente.

Que em Maio de 2008 teve o cuidado de dizer:

Os primeiros sinais que surgem entre nós deixam antever uma filosofia  a subordinação dos diferentes quadros editoriais a um «comité central» completamente alheio ao mundo do livro.

 A Leya pouco ou nada se preocupou com livros e com os autores.

 Aliás tudo aquilo começou mal, no exacto momento em que dispensaram, verdadeiro crime de lesa pátria, o editor Nelson de Matos que, durante anos, foi a trave mestra da Dom Quixote.

À agência Lusa, o editor João Amaral, das Publicações D. Quixote, que detinha os direitos da obra de Cardoso Pires, confirmou a saída do autor do seu catálogo, por decisão das herdeiras.“Fiz tudo o que podia fazer pela obra de Cardoso Pires, e é um autor em que nada me pesa na consciência”, disse.

José Cardoso Pires passa a ser editado pela Relógio d’Água que à frente tem Francisco Vale, escritor e um homem que há muitos anos tem conseguido edificar um projecto editorial de qualidade.


Disse o editor, à Lusa:

Até meados de junho, a Relógio D’Água vai editar quatro obras de José Cardoso Pires, contribuindo assim para o regresso às livrarias de um dos mais importantes prosadores portugueses do século XX”, disse fonte da editora. “Os livros reproduzem as últimas edições revistas pelo autor”, mas têm novos prefácios: o romance “Balada da praia dos cães” será prefaciado por António Lobo Antunes, a novela “O anjo ancorado”, por Mário de Carvalho e, “O delfim”, por Gonçalo M. Tavares.

Porque isto de editar livros não é para qualquer um.

O editor francês Galimard era de opinião de que o verdadeiro editor é aquele que procura publicar um livro que gostaria de encontrar como leitor.

É uma relação de amor, de gosto, de responsabilidade.

Os livros não são coisas pontuais

A leitura faz de nós melhores pessoas, melhor ainda quando há editores que quando nos apresentam as obras dos autores o fazem em edições bonitas, agradáveis.

Nos inícios dos anos 80, quando Henrique Monteiro assumiu a direcção da Assírio & Alvim, que estava à beira da falência,  disse:

Gosto de pensar que edito livros como quem trata de uma vinha.

Um outro exemplo: 

Em Junho de 2011 o editor José da Cruz Santos começou a disponibilizar novas edições da obra de Eugénio de Andrade.

Aconteceu, porém, que uma gralha caiu no título de uma das obras.

De imediato o editor fez publicar, nos jornais, um pedido de desculpas e de rectificação e assegurava que devolvia o dinheiro, mais os portes, a todos os que não quiserem ficar com o livro.

Estão a ver Miguel Pais do Amaral, corredor de automóveis (correr em Le Mans é o máximo, o prazer de correr é único e sinto-me um privilegiado, disse, um dia, numa entrevista) a ter uma atitude destas?

Claro que não!

No dia 2 de Outubro, José Cardoso Pires faria 90 anos.

Legenda: retrato de José Cardoso Pires por Júlio Pomar e capa de O Anjo Ancorado, publicado pela Relógio D’Água e com prefácio de Mário de Carvalho

QUOTIDIANOS


Gulliver estava há três dias no quarto alugado que escolhera para poder executar o trabalho, Passava horas seguidas em frente da janela. Comia sandes, fumava e lavava as mãos com álcool. De vez em quando falava com o retrato do pai. Ou, então, ficava simplesmente a olhar para ele.
Ao segundo dia sentira a náusea mais intensa dos últimos anos. Vomitara tudo o que comera e mais ainda não sei quê. Quando olhou para o espelho, os olhos, do outro lado, disseram-lhe coisas estranhas. Por exemplo: pode-se vomitar tudo menos o medo e a solidão.
Esta frase idiota fora-lhe dita, uma vez, por um médico que morrera atropelado por um camião.

Dennis McShade em Blackpot

Legenda: pintura de Jack Vettriano

SERÁ ESSE O PRAZER DE QUE SE FALA?


Até ouço dizer que a velhice é boa coisa, tem encantos, prazeres, eu pergunto quis. Saber um pouco mais, ser menos limitado, menos preconceituoso? De que adianta se a vida já se vai e a experiência não serve a nada nem servirá a outem, experiência não se herda, não se doa em testamento.
A quantas misérias o homem se vê sujeito quando a idade pesa e o passo se faz trôpego, vacilante. Sem quere falar na solidão, a que tantos estão condenados na velhice, basta pensar no desencontro entre o desejo e a competência nas comarcas do leito: o desejo embacia os olhos, queima o peito, desce aos quimbas e os quimbas pururucas cumprem mal o seu dever, se é que o cumprem.
O douto descobrirá no ocaso da vida o prazer mais refinado, o mais subtil, servirá de consolo e de deleite, leio nos livros da sabedoria. Mirabeau, um sábio, vive na saudade: aqueles tempos – recorda-se, recorda-me – em que a gente era capaz de dar três e quatro sem tirar o pau de dentro. Recordar aqueles tempos será esse o prazer de que se fala?

Jorge Amado em Navegaçãode Cabotagem

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.