domingo, 11 de outubro de 2015
OLHAR AS CAPAS
Conhecimento do Inferno
António Lobo Antunes
Colecção O Chão da Palavra
Editorial Vega, Lisboa, 1980
O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem: estendem conscienciosamente as toalhas na serradura da areia, protegem-se com óculos do sol de papel. passeiam encantados no palco de Albufeira em que funcionários públicos, disfarçados de hippies de carnaval, lhes impingem acocorados no chão, colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo, e acabam por ancorar ao fim da tarde em esplanadas postiças, onde servem bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas da televisão.
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António Lobo Antunes Livros,
Olhar as Capas
PORQUE HOJE É DOMINGO
Deu-me para recordar Caterina Valente.
Tem hoje com 84 anos.
Muito popular nos meus tempos de miúda, cantava em diversas línguas.
Arranha o Samba de Uma Nota Só de António Carlos Jobim e diverte-se com o velho Dino,
rapaz muito cá de casa.
Bom domingo!
sábado, 10 de outubro de 2015
POSTAIS SEM SELO
Estamos todos condenados à prisão solitária, dentro da
nossa própria pele, para toda a vida.
Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.
OS IDOS DE OUTUBRO DE 1975
10 de Outubro de
1975
Carta de Mário
Castrim publicada, há 40 anos, no Diário de Lisboa.
SALDANHA
SANCHES, director do Luta Popular, órgão central do MRPP, foi expulso
doeste partido.
O jornalista
José Freire Antunes, da comissão de imprensa do MRPP, tentou explicar que
Saldanha Sanche, representava os interesses da burguesia tendo sido
considerado irrecuperável.
Fontes:
- Acervo
pessoal;
- Os Dias
Loucos do PREC de Adelino
Gomes e José Pedro Castanheira.
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Mário Castrim,
Verão Quente 1975
V.S.T. & ETC
Velhadas que
sou, apetece-me o desplante de dizer que não mais voltarei a encontrar uma
figura como Vitor Silva Tavares.
Estive com ele
apenas duas vezes.
Uma à porta da
Livraria Sá da Costa aquando do lançamento de Para Já Para Já.
Outra, numa
manhã de Abril do ano passado, no Subterrâneo 3.
A primeira foi
circunstancial a outra demorada e inesquecível.
Tão inesquecível,
a conversa envolveu-me tanto, que esqueci, até de tirafazer um boneco ao Vítor
e às mágicas paredes recheadas de livros do Subterrâneo, com aquele cheiro
que um dia ouvi designar por cheiro a romances policiais.
O Vitor tem
vindo aqui por estes dias
Pelos dias que
forem calhando, assim continuará.
Pode ser a
evocação que alguém lhe fez.
Ou ma frase sua,
um pedacinho de texto que deixou escrito por ali, por acolá.
Por isso, saco
de Para Já Para Já, este murmúrio para infância, de uma ternura
arrepiante:
DITOS & REDITOS
Não há sábado sem sol nem domingo sem missa.
Ser simples não é fácil.
Sem memória nada terá futuro algum.
A música clássica serve apenas para confirmar a nossa
solidão.
Cada tempo tem um preço.
Ir sem saber se vai voltar.
E é bem provável que se vá morrer um dia.
À CONVERSA
Perguntaram-lhe:
É mais importante que o seu partido ganhe as eleições
ou que o Benfica seja campeão?
Ricardo Araújo
Pereira, respondeu;
Há muito poucas coisas que sejam mais importantes do que o Benfica ser
campeão.
A PONTA DE UM CORNO
De uma entrevista de João César Monteiro a Adelino Tavares da Silva e publicada em O Diário de 6 de Junho de 1982.
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
POSTAIS SEM SELO
Estou triste e só. Ligo o rádio. Oiço duas das últimas
Canções de Strauss. Sinto de uma maneira profunda a sua fluidez cromática, a
sua riqueza orquestral. Os metais soam como vibrantes florestas. A voz da
cantora é a de uma grande ave solitária. Sinto-me um lobo sem alcateia. Quando
se está muito só o gemido transforma-se em uivo.
V.S.T. & ETC
Vitor Silva
Tavares morreu no dia 21 de Setembro.
O JL saíu
para as bancas a 30 de Setembro.
Tem uma breve
chamada na 1ª página que remete para a página 8 onde é publicado um excerto de
uma entrevista que o Vitor concedeu a Rebeca Hernández, uma professora da área
de Filologia Portuguesa da Universidade de Salamanca e que, em Julho, o entrevistara
por causa de um trabalho que está a escrever sobre Os Condenados da Terra
de Frantz Fanon, livro que o Vitor publicou na Ulisseia e que, segundo ele, servia de bíblia aos guerrilheiros ditos
terroristas.
A conversa com a professora girou à volta da passagem do
Vitor Silva Tavares pela Ulisseia.
Sabemos que publicações como o JL, são pensadas, compostas e impressas com alguma antecedência.
Admitimos que não houve condições para que a morte de
Vitor Silva Tavares tivesse um outro olhar, pelo que aguardamos que em próximos
números do quinzenário seja dado o devido destaque a um editor que deve ser um caso único na Europa.
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
OS IDOS DE OUTUBRO DE 1975
8 de Outubro de
1975
Segundo o Comité
Central da Fretilin, às primeiras horas da manhã, a Indonésia, com unidades do
Exército, Marinha e Força Aérea, terá lançado um grande ataque contra a povoação
fronteiriça de Batugalé, em Timor ainda sobre a protecção portuguesa.
Há uma semana a
Fretilin lograra expulsar da Batugalé as forças d UDT e seus aliados, ficando a
controlar todo o Timor Português, à excepção da Ilha do Ataúro, onde se mantém
o governador Lemos Pires.
A conquista de
Batugadé e, dentro de uma semana, de Balibó, marca o início efectivo da invasão
indonésia de Timor.
Após o 25 de
Abril por motivos pouco claros, Timor nunca conseguiu fazer parte dos planos de
autodeterminação das colónias portuguesas.
Portugal abandonava
um povo que durante séculos fora feitoria e colónia.
Em 11 de Julho
de 1975, foi publicada a lei que previa a nomeação de um Alto Comissário
português, e, em Outubro do mesmo ano, a eleição de uma Assembleia Popular para
definir o seu estatuto político. O diploma previa um período de transição de
cerca de três anos.
Segundo
observadores de então, a esmagadora maioria dos timorenses recusava totalmente
a integração na Indonésia.
Começou, então, uma
luta fraticida e partidária de que resultarão milhares de mortos.
No dia 28 de
Novembro de 1975, após 400 anos de administração, a bandeira portuguesa é
arriada na praça de Dili e é proclamada, pela FRETILIN, a independência do
território.
No dia seguinte
tropas indonésias, a pretexto de proteger os seus cidadãos em território timorense
lançam uma ofensiva com vista à ocupação do território e de imediato se
fica a saber que a FRETILIN não tem forças
nem armamento suficientes para fazer face ao ataque indonésio.
Em 1998, com a
queda de Suharto, e após uma longa e sangrenta luta de resistência do povo
timorense, cujo marco trágico é, em Novembro de 1991, o massacre do Cemitériode Santa Cruz. os novos governantes, sob pressão internacional, acabam por
concordar com a realização de um referendo onde a população votaria
"sim" se quisesse a integração na Indonésia com autonomia, e
"não" se preferisse a independência.
O referendo foi realizado
em 30 de Agosto de 1999 e, com mais de 90% de participação no referendo e 78,5%
de votos, o Povo Timorense rejeitou a autonomia proposta pela Indonésia,
escolhendo, assim, a independência.
Em 20 de Maio de
2002 nasce um novo país: Timor Lorosae.
Por mera
curiosidade, retira-se das Farpas, Vol. XIII de Ramalho Ortigão, um texto,
datado de Agosto de 1872, com notícias de Timor:
Eis o que um viajante inglês, Russell Wallace, diz em
resumo daquela colónia, onde chegou depois de ter atravessado as ricas e
poderosas colónias holandesas:
«Metade de Timor, pertence aos portugueses: é
extraordinário o contraste entre esta região e a parte holandesa: há três
séculos que os portugueses a possuem e não há em todo o país uma légua de
estrada, nenhum residente europeu no interior. Os
empregados do governo roubam os indígenas, como num
saque, e apesar disso nenhum meio de defesa no caso de um ataque da cidade de
Dilhi. Os oficiais portugueses são ali tão ignorantes que tendo recebido um
pequeno morteiro e obuses não sabiam servir-se deles. Durante a estada de
Russell Wallace, rebentou uma ressurreição: o comandante que a devia combater
fechou-se em casa dando parte de doente: os insurgentes cortavam com toda a
facilidade os víveres à cidade, de sorte que foi necessário ir suplicar um
socorro tardio ao governador holandês de Amboine…»
Desleixo, roubo, estupidez e covardia! Parece-nos que
Portugal seria exigente, - desejando aos que governam e defendem as suas
colónias – maior soma de qualidades nobres.
Fontes:
- Acervo
pessoal;
- Os Dias
Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- As Farpas, Vol.
XIII, de Ramalho Ortigão, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1945
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Ramalho Ortigão,
Timor,
Verão Quente 1975
NOTÍCIAS DO CIRCO
Sou suspeito.
Nunca gostei do personagem.
Se eu mandasse, pontapeava-o de imediato, a pão e água, - e já é muito!... - para o olho da rua.
V.S.T. & ETC
Na habitual coluna dos domingos no Público, Não Ficções, Alexandra Lucas Coelho escreve sobre a morte de Vitor Silva Tavares.
Chamou-lhe & Obrigada,
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Alexandra Lucas Coelho,
Vitor Silva Tavares
QUOTIDIANOS
- De resto tive a impressão de que você ia recusar-me. Quer saber uma coisa? Sinto a atracção do abismo. A meia dúzia de homens que, até hoje, convidei a irem para a cama, recusaram. Moral: nunca se ve convidar um homem para a cama.
Dennis McShade em Mão Direita do Diabo
Legenda: pintura de Diego Rivera
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
V.S.T. & ETC
Terminamos o voo
que fizemos pela entrevista que Vitor Silva Tavares concedeu a Alexandra Lucas
Coelho.
Uma lindíssima e
imprescindível entrevista para se perceber tudo sobre o Vitor, a &etc, o
panorama cultural e político de Portugal nos finais do século passado.
A entrevista
está publicada em &etc Uma Editora no Subterrâneo que é livro a não
perder e onde gente que trabalhou com Vitor Silva Tavares, o homenageia. Um
desfilar de histórias e historietas de encantar.
Desde o meu antigo encantamento pela Ulisseia, mas
também pela velha editora Inquérito, do Salgueiro. Foi-me dito pelo Luiz
Pacheco que o velho Eduardo Salgueiro conseguiu aguentar a Editorial Inquérito
50 anos na falência. Eu ainda só vou fazer 35. Quem me dera poder chegar a esse
número e dizer: há 50 anos que estamos falidos, mas de porta aberta.
Mais próximos de nós, um grande editor, maluco, nem por isso muito culto, mas com um instinto, um faro, e também um gosto de fazer a toda a prova, Fernando Ribeiro de Mello, das Edições Afrodite, o tal que queria fazer a revolução sexual em Portugal. Fez a dele, já não está mal. Meu grande amigo e sócio no arranque do etc.
Tive muita pena de ter ido abaixo o projecto da Hiena. Arrancou muito bem, aí estava um homem amante do livro [Rui Martiniano]. A Hiena começou com...
Uma tradução sua, “O Sorriso aos Pés da Escada”.
O (Henry) Miller, exactamente. E quando me vieram dizer até fiquei zangado. Porquê? Não foi por terem editado, nunca faço reedições, muito menos isso, uma coisa que tinha feito na Ulisseia há não sei quantos anos. Foi por não me ter dito nada. Então alguma vez eu ia levantar qualquer problema em o homem usar o prefácio ou a tradução ou coisa assim? Então, de todo em todo, não me estava a conhecer. O trabalho, aqui, quem quiser tira. O “copyright” é dos autores. O etc não tem “copyright”. É sabido que em “n” casos sou um editor pirata. Sim senhor, corro esse risco. Também lhe digo que essas piratarias nunca foram feitas sobre autores vivos, ponto um. Ponto dois, nunca eu retirei delas um tostão de lucros. Ponto três, parte das piratarias aqui feitas são de pequenos textos, laterais à obra dos autores, com tão pequena dimensão que até os vendedores do “copyright” não vendem por não terem interesse comercial nisso, o que quer dizer que se deixa de publicar uma quantidade de coisas por causa do “copyright”. Então, eu borro-me para o “copyright”, podendo apanhar uma denúncia, sim senhor, Para passar os livros.
São ainda piratarias poéticas. Então tive pena – pena – de projectos como a Hiena, ou quando a Fenda foi abaixo – felizmente o Vasco [Santos] tem sabido pô-la em pé. De certo modo a Fenda também nasceu por causa da etc. Ou como a Contexto, que foi abaixo.
Mais próximos de nós, um grande editor, maluco, nem por isso muito culto, mas com um instinto, um faro, e também um gosto de fazer a toda a prova, Fernando Ribeiro de Mello, das Edições Afrodite, o tal que queria fazer a revolução sexual em Portugal. Fez a dele, já não está mal. Meu grande amigo e sócio no arranque do etc.
Tive muita pena de ter ido abaixo o projecto da Hiena. Arrancou muito bem, aí estava um homem amante do livro [Rui Martiniano]. A Hiena começou com...
Uma tradução sua, “O Sorriso aos Pés da Escada”.
O (Henry) Miller, exactamente. E quando me vieram dizer até fiquei zangado. Porquê? Não foi por terem editado, nunca faço reedições, muito menos isso, uma coisa que tinha feito na Ulisseia há não sei quantos anos. Foi por não me ter dito nada. Então alguma vez eu ia levantar qualquer problema em o homem usar o prefácio ou a tradução ou coisa assim? Então, de todo em todo, não me estava a conhecer. O trabalho, aqui, quem quiser tira. O “copyright” é dos autores. O etc não tem “copyright”. É sabido que em “n” casos sou um editor pirata. Sim senhor, corro esse risco. Também lhe digo que essas piratarias nunca foram feitas sobre autores vivos, ponto um. Ponto dois, nunca eu retirei delas um tostão de lucros. Ponto três, parte das piratarias aqui feitas são de pequenos textos, laterais à obra dos autores, com tão pequena dimensão que até os vendedores do “copyright” não vendem por não terem interesse comercial nisso, o que quer dizer que se deixa de publicar uma quantidade de coisas por causa do “copyright”. Então, eu borro-me para o “copyright”, podendo apanhar uma denúncia, sim senhor, Para passar os livros.
São ainda piratarias poéticas. Então tive pena – pena – de projectos como a Hiena, ou quando a Fenda foi abaixo – felizmente o Vasco [Santos] tem sabido pô-la em pé. De certo modo a Fenda também nasceu por causa da etc. Ou como a Contexto, que foi abaixo.
OS IDOS DE OUTUBRO DE 1975
7 de Outubro de 1975
TÍTULO e notícia
na 1ª página do Diário de Lisboa.
MIGUEL TORGA, no
seu Diário, escreve sobre a da chegada dos retornados:
Retorno maciço dos portugueses do ultramar. Na aflição
da fuga, até de barco de pesca vieram muitos, a ponto de alguém dizer que fomos
descobrir o mundo em caravelas e regressámos dele em traineiras. A fanfarronice
de uns, a incapacidade de outros, a irresponsabilidade de todos deu este
resultado: o fim sem grandeza de uma grande aventura. Metade de Portugal a ser
o remorso da outra metade. Os judeus da diáspora ansiavam por voltar a Canaan.
Povo messiânico também, mas de sentido exógeno, para nós o regresso é o exílio.
A nossa Terra Prometida estava fora de Portugal.
Fontes:
- Acervo
pessoal;
- Os Dias
Loucos do PREC de Adelino
Gomes e José Pedro Castanheira.
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Miguel Torga,
Verão Quente 1975
OUTROS AMARÃO AS COISAS QUE EU AMEI
No âmbito da
estreia do filme com e sobre João Bénard da Costa: Outros Amarão As Coisas
Que Eu Amei, de Manuel Mozos, a Distribuidora Alambique estende a homenagem
a João Bénard da Costa através da reposição em sala do seu filme preferido, Johnny
Guitar, de Nicholas Ray, e lançará em simultâneo uma edição em DVD de oito
filmes que integraram o programa transmitido na RTP2, No Meu Cinema.
Ao que venho é a guiar-vos para imagens e memórias cá
de mim, puxadas de onde tiver que ser para onde me apetecer que seja. Terei por
companheiros os que já tiveram os apetecimentos ou os que passarem a ter porque
apeteceram o que lhes dei a provar,
palavras de João Bénard da Costa.
O filme de
Manuel Mozos chega amanhã às salas de cinema.
Uma homenagem ao
cinema a pretexto da extraordinária vida do director da Cinemateca Portuguesa
durante 18 anos, esta é uma inusual biografia que conta a vida do homem através
dos seus amores, medos e contemplações, impressas na arte da pintura, do cinema
e literatura. Da pintura barroca à literatura de Borges, este é o amado diário
de um homem universal.
Bénard da Costa
afirmou tê-lo visto cerca de 68 vezes, entre 1957 e 1988.
À pergunta Dá
para saber de cor?, respondia: Nunca se sabe o Johnny Guitar de cor.
Cada vez é uma nova vez..
A partir de 15
de Outubro, haverá oportunidade para revisitar um dos westerns maiores da
história do cinema, um filme no qual, segundo Truffaut, os cowboys desmaiam
e morrem com a graça das bailarinas.
No mesmo dia,
chegará às lojas uma edição em DVD de oito filmes.
Filmado por
Margarida Gil, No Meu Cinema foi um programa transmitido na RTP2, no
qual João Bénard da Costa fez introduções e comentários finais sobre os seus
filmes preferidos.
A colecção No
Meu Cinema integrará oito desses filmes com a inclusão dos comentários de
João Bénard da Costa:
À Beira do mar
Azul, de Boris Barnet
Feras Humanas, de Fritz Lang
O Rio Sagrado,
de Jean Renoir
Para Sempre
Mozart, de Jean-Luc Godard
Paregrinaqção
Exemplar, de Robert Bresson
Senrimento, de
Luchino Visconti
Um Caso de Vida
e de Morte, de Michael Powell e Emeric Pressburger
Um Verão de Amor,
de Ingmar Bergman
Tenho, gravados
em cassettes VHS, todos os filmes que João Bénard da Costa apresentou em No
Meu Cinema, com as respectivas introduções e os comentários.
João Bénard da
Costa não se limitava a debitar textos.
Representava-os.
E isso é um
espectáculo à parte.
Pena que, nesta
escolha da Alambique não esteja contemplado Cruel Victoria de Nicholas
Ray.
Um filme muito
lá de casa do João Bénard da Costa.
O filme que
levou Jean Luc-Godard a dizer: E o Cinema é Nicholas Ray.
É admirável a
representação que Bénard da Costa faz dos seus comentários.
OLHAR AS CAPAS
A Emissora Nacional Nos Primeiros Anos do Estado Novo
Nelson Ribeiro
Quimera
Editores, Lisboa, 2005
A Emissora Nacional mantinha como característica principal
«o seu ar ponderado e grave», como era reconhecido numa notícia inserida no jornal
oficial da estação, em Fevereiro de 1938. Aliás, a Comissão Administrativa fomentava
esta imagem, repreendendo os locutores sempre que estes ousavam imprimir uma
leitura menos formal aos textos:
«Julgava já desnecessário esconder aos senhores
locutores que lhe é vedado fazer ao microfone prova dos eu espírito com as
alusões jocosas, os risos e as inflexões de voz intencionadas que em certa
altura constituíram moda neste estabelecimento. Vejo que infelizmente assim não
é ao tomar conhecimento do que passou com a leitura do argumento da Ópera
«Tristão e Isolda» feita pelo locutor Sr. Fernando Pessa, em que, perdido por
completo o sentido das proporções, este senhor permitiu sublinhar com risos
certas passagens do mesmo argumento. (…) A fim de evitar a repetição de factos
semelhantes que seja punido o locutor (…) com a pena de repreensão registada.
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terça-feira, 6 de outubro de 2015
V.S.T. & ETC
Passo da entrevista de Alexandra Lucas Coelho a Vitor Silva Tavares em que se fala da
colaboração do Vitor com essa extraordinária difusora cultural e política que é
Eduarda Dionísio, filha do pintor e poeta Mário Dionísio:
Eduarda Dionísio (com quem trabalhou na associação Abril em Maio e recentemente no jornal PREC) diz que não há coisa de que o
Vítor Silva Tavares goste mais do que a tipografia, e o Alberto Pimenta (um dos
autores mais da casa, na & etc) crê que a fusão inseparável da estética e
da ética é o que melhor o define. Tudo o que disse sobre a artesania do livro
se relaciona bem com essa fusão.
Agora preside à Abril em Maio, que está num limbo. O que
o fez querer pertencer a este colectivo? Como resistência – não sei se a
palavra é a boa?
É essa. É a única.
Um dia a Abril em
Maio pediu para aqui uns livritos, disse onde era, à Graça, fui lá a um debate,
um rés-do-chão de uma casa antiga, fiquei encantadíssimo por ver aquele espaço
e reencontrar finalmente a Eduarda Dionísio, que conhecia de nome. Sabia-a
filha de quem era, mas nunca tinha tido relacionamento próximo.
E ao saber que aquela coisa tão encantadora que ali estava, onde um disco daqueles que não aparecem em lado nenhum – sei lá, o García Lorca a tocar piano – está ao lado de uma garrafa de azeite, de um boneco de barro, de um livro; ao ver o tipo de pe, ssoas, a miudagem; ao ver que também ali não havia nenhum propósito lucrativo, era uma associação cultural propriamente dita, e que também ela não dependia de nenhuma espécie de subsídios, nem disto nem daquilo, ou não estivesse lá a Eduarda Dionísio: havendo afinidades que não se podem circunscrever ao ideológico, que têm a ver com a maneira de estar e de fazer cultura, alheia ao “mainstream”; eu, que jamais tinha pertencido a qualquer clube resolvi ser sócio daquele.
Estava longe de imaginar que iria filiar-me numa associação que tinha a sua morte anunciada. Ser sócio não é só pagar a quota. Não posso abandonar o etc, onde faço de tudo, sou eu que varro também o chão, essas coisas, a minha disponibilidade está repartida, sempre. De qualquer modo tive trabalhos, iniciativas, ideias na Abril em Maio, daquela pulga eléctrica que é a Eduarda Dionísio. Tenho uma grande ternura por ela, uma grande admiração por aquela capacidade de mobilizar e de fazer, também pela sua capacidade de organização, eu que sou desorganizado. Muitas afinidades. De tal modo que não me interessa assim tanto a Abril em Maio. Quando gosto de uma pessoa, sou de uma fidelidade total. Só estou lá porque lá está a Eduarda, cultivando com ela o mesmo tipo de fidelidade. É um mau feitio que me quadra muito bem. Quem me dera ter dez por cento daquele mau feitio. É sempre recto.
Sempre falou no trabalho como uma fruição, parte da vida, dos amigos. É raro as pessoas estarem numa coisa porque gostam muito de alguém. Têm objectivos, têm projectos, podem ganhar isto, aquilo.
Eu e a Eduarda gostamos de fazer coisas. Com as mãos, com os pés, com a língua. Não vamos teorizar muito sobre as coisas. Temos afinidades, é escusado estar a gastar saliva. Entendemo-nos muito bem. Podemos passar logo para a acção e mobilizar outros para esse trabalho.
A ideia do PREC?
Nasceu aqui. O título foi meu. Quem tiver ideias sobre o nome a dar a esta folha, que é para ler e não para ver, portanto vamos inundar a mancha com letras, uma letra vale mais que mil imagens...
Isso hoje é um verdadeiro PREC.
Exacto. Então, quem tiver ideias ponha no papel. E eu tenho aqui uma que é uma dupla provocação: desta porta para fora, quando sair, e desta porta para dentro, para as cabecinhas de todos nós que aqui estamos. A minha proposta é chamar-lhe PREC.
Ponto dois, toda a gente vai associar PREC ao processo revolucionário em curso. Só que nós vamos utilizar cada número para aquilo que nos der na bolha, e assim subvertermos a própria ideia feita do PREC, porque no interior das letrinhas vamos sempre meter coisas distintas, o que foi praticado com algum humor.
PREC porquê? Porque é PREC, sim senhor, contra-corrente, o próprio formato, outra vez o papel manteigueiro, e, à semelhança dos velhos jornais, encher aquela página literalmente com um corpo tão pequenino que vale pela mancha. É, em sim mesmo, uma afirmação estética, tipográfica. Depois, se as pessoas quiserem ler, com esforço, claro, até têm lá coisas para ler.
E de um trabalho tão duro, por vezes até às duas, três da manhã, conseguirmos um momento lúdico de trabalho, sempre a rir, e sem expectativas.
Fazemos as coisas porque temos de as fazer, porque está na nossa condição. Depois já não é connosco, já está para fora de nós. E a mim tanto me faz que haja só uma pessoa que tenha lido, criticado aquilo, como dez mil, uma que fosse. Aí não tenho espírito de missão, nem aqui dentro. Isto não é nenhuma igreja, não há aqui nenhuma crença, faz-se porque se tem de fazer, está na nossa condição fazer, fazer assim, saber porque fazemos assim. Perseguimos, sim, uma ideia de harmonia, de beleza, de intervenção, e sabemos que é uma resistência. Resistência é a palavra, à falta de ar vigente, ao obscurantismo, à criação permanente de falsos mitos passageiros.
Legenda: pormenor do Subterrâneo 3 onde se encontra instalada a &etc.
Estantes com arquivos e os exemplares mão esgotados dos
livros &etc. A secretária e a cadeira de recosto onde o Vitor se sentava à
conversa com quem ia aparecendo. Falta, na secretária, a máquina de escrever.
Sim, porque ali nunca houve compudadores.
Fotografia tirada de &etcUma Editora no Subterrâneo.
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