domingo, 11 de outubro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Conhecimento do Inferno

António Lobo Antunes
Colecção O Chão da Palavra
Editorial Vega, Lisboa, 1980

O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem: estendem conscienciosamente as toalhas na serradura da areia, protegem-se com óculos do sol de papel. passeiam encantados no palco de Albufeira em que funcionários públicos, disfarçados de hippies de carnaval,  lhes impingem acocorados no chão, colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo, e acabam por ancorar ao fim da tarde em esplanadas postiças, onde servem bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas da televisão.

PORQUE HOJE É DOMINGO



                                    
Deu-me para recordar Caterina Valente.
Tem hoje com 84 anos.
Muito popular nos meus tempos de miúda, cantava em diversas línguas.
Arranha o Samba de Uma Nota Só de António Carlos Jobim e diverte-se com o velho Dino,
rapaz muito cá de casa. 
Bom domingo!




sábado, 10 de outubro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Estamos todos condenados à prisão solitária, dentro da nossa própria pele, para toda a vida.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OS IDOS DE OUTUBRO DE 1975


10 de Outubro de 1975

Carta de Mário Castrim publicada, há 40 anos, no Diário de Lisboa.

SALDANHA SANCHES, director do Luta Popular, órgão central do MRPP, foi expulso doeste partido.
O jornalista José Freire Antunes, da comissão de imprensa do MRPP, tentou explicar que Saldanha Sanche, representava os interesses da burguesia tendo sido considerado irrecuperável.

Fontes:
- Acervo pessoal;

- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

V.S.T. & ETC


Velhadas que sou, apetece-me o desplante de dizer que não mais voltarei a encontrar uma figura como Vitor Silva Tavares.
Estive com ele apenas duas vezes.
Uma à porta da Livraria Sá da Costa aquando do lançamento de Para Já Para Já.
Outra, numa manhã de Abril do ano passado, no Subterrâneo 3.
A primeira foi circunstancial a outra demorada e inesquecível.
Tão inesquecível, a conversa envolveu-me tanto, que esqueci, até de tirafazer um boneco ao Vítor e às mágicas paredes recheadas de livros do Subterrâneo, com aquele cheiro que um dia ouvi designar por cheiro a romances policiais.
O Vitor tem vindo aqui por estes dias
Pelos dias que forem calhando, assim continuará.
Pode ser a evocação que alguém lhe fez.
Ou ma frase sua, um pedacinho de texto que deixou escrito por ali, por acolá.
Por isso, saco de Para Já Para Já, este murmúrio para infância, de uma ternura arrepiante:

Vó: a litografia da Nossa Senhora da Conceição chegou a sair do prego?

DITOS & REDITOS


Não há sábado sem sol nem domingo sem missa.

Ser simples não é fácil.

Sem memória nada terá futuro algum.

A música clássica serve apenas para confirmar a nossa solidão.
Cada tempo tem um preço.

Ir sem saber se vai voltar.

E é bem provável que se vá morrer um dia.

Alto e pára o baile!

À CONVERSA


Perguntaram-lhe:

É mais importante que o seu partido ganhe as eleições ou que o Benfica seja campeão?

Ricardo Araújo Pereira, respondeu;

Há muito poucas coisas que sejam mais importantes do que o Benfica ser campeão.

A PONTA DE UM CORNO


De uma entrevista de João César Monteiro a Adelino Tavares da Silva e publicada em O Diário de 6 de Junho de 1982.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Estou triste e só. Ligo o rádio. Oiço duas das últimas Canções de Strauss. Sinto de uma maneira profunda a sua fluidez cromática, a sua riqueza orquestral. Os metais soam como vibrantes florestas. A voz da cantora é a de uma grande ave solitária. Sinto-me um lobo sem alcateia. Quando se está muito só o gemido transforma-se em uivo.


Legenda:  não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

V.S.T. & ETC


Vitor Silva Tavares morreu no dia 21 de Setembro.
O JL saíu para as bancas a 30 de Setembro.
Tem uma breve chamada na 1ª página que remete para a página 8 onde é publicado um excerto de uma entrevista que o Vitor concedeu a Rebeca Hernández, uma professora da área de Filologia Portuguesa da Universidade de Salamanca e que, em Julho, o entrevistara por causa de um trabalho que está a escrever sobre Os Condenados da Terra de Frantz Fanon, livro que o Vitor publicou na Ulisseia e que, segundo ele, servia de bíblia aos guerrilheiros ditos terroristas.
A conversa com a professora girou à volta da passagem do Vitor Silva Tavares pela Ulisseia.
Sabemos que publicações como o JL, são pensadas, compostas e impressas com alguma antecedência.
Admitimos que não houve condições para que a morte de Vitor Silva Tavares tivesse um outro olhar, pelo que aguardamos que em próximos números do quinzenário seja dado o devido destaque a um editor que deve ser um caso único na Europa.

OLHARES


Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo.

David Mourão-Ferreira 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

OS IDOS DE OUTUBRO DE 1975


8 de Outubro de 1975

Segundo o Comité Central da Fretilin, às primeiras horas da manhã, a Indonésia, com unidades do Exército, Marinha e Força Aérea, terá lançado um grande ataque contra a povoação fronteiriça de Batugalé, em Timor ainda sobre a protecção portuguesa.

Há uma semana a Fretilin lograra expulsar da Batugalé as forças d UDT e seus aliados, ficando a controlar todo o Timor Português, à excepção da Ilha do Ataúro, onde se mantém o governador Lemos Pires.

A conquista de Batugadé e, dentro de uma semana, de Balibó, marca o início efectivo da invasão indonésia de Timor.

Após o 25 de Abril por motivos pouco claros, Timor nunca conseguiu fazer parte dos planos de autodeterminação das colónias portuguesas.

Portugal abandonava um povo que durante séculos fora feitoria e colónia.

O Governo Português autorizou a criação de partidos políticos, surgindo assim três organizações partidárias em Timor Leste: UDT (União Democrática Timorense), que preconizava a integração de Timor numa comunidade de língua portuguesa; a ASDT (Associação Social-Democrata Timorense) depois transformada em FRETILIN (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) , defendia o direito à independência; e a APODETI (Associação Popular Democrática Timorense), propunha a integração com autonomia na comunidade Indonésia.


Em 11 de Julho de 1975, foi publicada a lei que previa a nomeação de um Alto Comissário português, e, em Outubro do mesmo ano, a eleição de uma Assembleia Popular para definir o seu estatuto político. O diploma previa um período de transição de cerca de três anos.

Segundo observadores de então, a esmagadora maioria dos timorenses recusava totalmente a integração na Indonésia.

Começou, então, uma luta fraticida e partidária de que resultarão milhares de mortos.

No dia 28 de Novembro de 1975, após 400 anos de administração, a bandeira portuguesa é arriada na praça de Dili e é proclamada, pela FRETILIN, a independência do território.

No dia seguinte tropas indonésias, a pretexto de proteger os seus cidadãos em território timorense lançam uma ofensiva com vista à ocupação do território e de imediato se fica  a saber que a FRETILIN não tem forças nem armamento suficientes para fazer face ao ataque indonésio.


Em 1998, com a queda de Suharto, e após uma longa e sangrenta luta de resistência do povo timorense, cujo marco trágico é, em Novembro de 1991, o massacre do Cemitériode Santa Cruz. os novos governantes, sob pressão internacional, acabam por concordar com a realização de um referendo onde a população votaria "sim" se quisesse a integração na Indonésia com autonomia, e "não" se preferisse a independência.

O referendo foi realizado em 30 de Agosto de 1999 e, com mais de 90% de participação no referendo e 78,5% de votos, o Povo Timorense rejeitou a autonomia proposta pela Indonésia, escolhendo, assim, a independência.

Em 20 de Maio de 2002 nasce um novo país: Timor Lorosae.

Por mera curiosidade, retira-se das Farpas, Vol. XIII de Ramalho Ortigão, um texto, datado de Agosto de 1872, com notícias de Timor:

Eis o que um viajante inglês, Russell Wallace, diz em resumo daquela colónia, onde chegou depois de ter atravessado as ricas e poderosas colónias holandesas:

«Metade de Timor, pertence aos portugueses: é extraordinário o contraste entre esta região e a parte holandesa: há três séculos que os portugueses a possuem e não há em todo o país uma légua de estrada, nenhum residente europeu no interior. Os


empregados do governo roubam os indígenas, como num saque, e apesar disso nenhum meio de defesa no caso de um ataque da cidade de Dilhi. Os oficiais portugueses são ali tão ignorantes que tendo recebido um pequeno morteiro e obuses não sabiam servir-se deles. Durante a estada de Russell Wallace, rebentou uma ressurreição: o comandante que a devia combater fechou-se em casa dando parte de doente: os insurgentes cortavam com toda a facilidade os víveres à cidade, de sorte que foi necessário ir suplicar um socorro tardio ao governador holandês de Amboine…»

Desleixo, roubo, estupidez e covardia! Parece-nos que Portugal seria exigente, - desejando aos que governam e defendem as suas colónias – maior soma de qualidades nobres.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- As Farpas, Vol. XIII, de Ramalho Ortigão, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1945 

NOTÍCIAS DO CIRCO


José Rodriguesdos Santos diz que Quintanilha foi "eleito ou eleita"

Sou suspeito.
Nunca gostei do personagem.
Se eu mandasse, pontapeava-o de imediato, a pão e água,  - e já é muito!... - para o olho da rua. 

V.S.T. & ETC


Na habitual coluna dos domingos no Público, Não Ficções, Alexandra Lucas Coelho escreve sobre a morte de Vitor Silva Tavares.
Chamou-lhe & Obrigada,

QUOTIDIANOS


- De resto tive a impressão de que você ia recusar-me. Quer saber uma coisa? Sinto a atracção do abismo. A meia dúzia de homens que, até hoje, convidei a irem para a cama, recusaram. Moral: nunca se ve convidar um homem para a cama.

Dennis McShade em Mão Direita do Diabo

Legenda: pintura de Diego Rivera

COM OS OLHOS POSTOS NO FUTURO DE PORTUGAL


Tal como ficou prometido em AH!...AS ABÓBORAS!...

OLHARES

Cabeçalho de Granam, órgão ofocial do Comité Central do Partido Comunista de Cuba.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

NOTÍCIAS DO CIRCO


V.S.T. & ETC

Terminamos o voo que fizemos pela entrevista que Vitor Silva Tavares concedeu a Alexandra Lucas Coelho.

Uma lindíssima e imprescindível entrevista para se perceber tudo sobre o Vitor, a &etc, o panorama cultural e político de Portugal nos finais do século passado.

A entrevista está publicada em &etc Uma Editora no Subterrâneo que é livro a não perder e onde gente que trabalhou com Vitor Silva Tavares, o homenageia. Um desfilar de histórias e historietas de encantar.

Desde o meu antigo encantamento pela Ulisseia, mas também pela velha editora Inquérito, do Salgueiro. Foi-me dito pelo Luiz Pacheco que o velho Eduardo Salgueiro conseguiu aguentar a Editorial Inquérito 50 anos na falência. Eu ainda só vou fazer 35. Quem me dera poder chegar a esse número e dizer: há 50 anos que estamos falidos, mas de porta aberta.
Mais próximos de nós, um grande editor, maluco, nem por isso muito culto, mas com um instinto, um faro, e também um gosto de fazer a toda a prova, Fernando Ribeiro de Mello, das Edições Afrodite, o tal que queria fazer a revolução sexual em Portugal. Fez a dele, já não está mal. Meu grande amigo e sócio no arranque do etc.
Tive muita pena de ter ido abaixo o projecto da Hiena. Arrancou muito bem, aí estava um homem amante do livro [Rui Martiniano]. A Hiena começou com...


Uma tradução sua, “O Sorriso aos Pés da Escada”.

O (Henry) Miller, exactamente. E quando me vieram dizer até fiquei zangado. Porquê? Não foi por terem editado, nunca faço reedições, muito menos isso, uma coisa que tinha feito na Ulisseia há não sei quantos anos. Foi por não me ter dito nada. Então alguma vez eu ia levantar qualquer problema em o homem usar o prefácio ou a tradução ou coisa assim? Então, de todo em todo, não me estava a conhecer. O trabalho, aqui, quem quiser tira. O “copyright” é dos autores. O etc não tem “copyright”. É sabido que em “n” casos sou um editor pirata. Sim senhor, corro esse risco. Também lhe digo que essas piratarias nunca foram feitas sobre autores vivos, ponto um. Ponto dois, nunca eu retirei delas um tostão de lucros. Ponto três, parte das piratarias aqui feitas são de pequenos textos, laterais à obra dos autores, com tão pequena dimensão que até os vendedores do “copyright” não vendem por não terem interesse comercial nisso, o que quer dizer que se deixa de publicar uma quantidade de coisas por causa do “copyright”. Então, eu borro-me para o “copyright”, podendo apanhar uma denúncia, sim senhor, Para passar os livros.

São ainda piratarias poéticas. Então tive pena – pena – de projectos como a Hiena, ou quando a Fenda foi abaixo – felizmente o Vasco [Santos] tem sabido pô-la em pé. De certo modo a Fenda também nasceu por causa da etc. Ou como a Contexto, que foi abaixo.

OS IDOS DE OUTUBRO DE 1975


7 de Outubro de 1975

TÍTULO e notícia na 1ª página do Diário de Lisboa.

MIGUEL TORGA, no seu Diário, escreve sobre a da chegada dos retornados:
Retorno maciço dos portugueses do ultramar. Na aflição da fuga, até de barco de pesca vieram muitos, a ponto de alguém dizer que fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos dele em traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros, a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem grandeza de uma grande aventura. Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade. Os judeus da diáspora ansiavam por voltar a Canaan. Povo messiânico também, mas de sentido exógeno, para nós o regresso é o exílio. A nossa Terra Prometida estava fora de Portugal.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

OUTROS AMARÃO AS COISAS QUE EU AMEI


No âmbito da estreia do filme com e sobre João Bénard da Costa: Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei, de Manuel Mozos, a Distribuidora Alambique estende a homenagem a João Bénard da Costa através da reposição em sala do seu filme preferido, Johnny Guitar, de Nicholas Ray, e lançará em simultâneo uma edição em DVD de oito filmes que integraram o programa transmitido na RTP2, No Meu Cinema.

Ao que venho é a guiar-vos para imagens e memórias cá de mim, puxadas de onde tiver que ser para onde me apetecer que seja. Terei por companheiros os que já tiveram os apetecimentos ou os que passarem a ter porque apeteceram o que lhes dei a provar, palavras de João Bénard da Costa.

O filme de Manuel Mozos chega amanhã às salas de cinema.

Uma homenagem ao cinema a pretexto da extraordinária vida do director da Cinemateca Portuguesa durante 18 anos, esta é uma inusual biografia que conta a vida do homem através dos seus amores, medos e contemplações, impressas na arte da pintura, do cinema e literatura. Da pintura barroca à literatura de Borges, este é o amado diário de um homem universal.

A homenagem a João Bénard da Costa estende-se, para além da estreia do filme de Manuel Mozos, através da reposição de um dos seus filmes preferidos no Cinema Ideal e no Cinema Medeia Monumental: Johnny Guitar de Nicholas Ray.


Bénard da Costa afirmou tê-lo visto cerca de 68 vezes, entre 1957 e 1988.

À pergunta Dá para saber de cor?, respondia: Nunca se sabe o Johnny Guitar de cor. Cada vez é uma nova vez..

A partir de 15 de Outubro, haverá oportunidade para revisitar um dos westerns maiores da história do cinema, um filme no qual, segundo Truffaut, os cowboys desmaiam e morrem com a graça das bailarinas.

No mesmo dia, chegará às lojas uma edição em DVD de oito filmes.

Filmado por Margarida Gil, No Meu Cinema foi um programa transmitido na RTP2, no qual João Bénard da Costa fez introduções e comentários finais sobre os seus filmes preferidos. 


 A colecção No Meu Cinema integrará oito desses filmes com a inclusão dos comentários de João Bénard da Costa:

​À Beira do mar Azul,  de Boris Barnet
Feras Humanas,  de Fritz Lang
O Rio Sagrado, de Jean Renoir
Para Sempre Mozart, de Jean-Luc Godard
Paregrinaqção Exemplar, de Robert Bresson
Senrimento, de Luchino Visconti
Um Caso de Vida e de Morte, de Michael Powell e Emeric Pressburger
Um Verão de Amor, de Ingmar Bergman

Tenho, gravados em cassettes VHS, todos os filmes que João Bénard da Costa apresentou em No Meu Cinema, com as respectivas introduções e os comentários.

João Bénard da Costa não se limitava a debitar textos.

Representava-os.

E isso é um espectáculo à parte.

Pena que, nesta escolha da Alambique não esteja contemplado Cruel Victoria de Nicholas Ray.

Um filme muito lá de casa do João Bénard da Costa.

O filme que levou Jean Luc-Godard a dizer: E o Cinema é Nicholas Ray.

É admirável a representação que Bénard da Costa faz dos seus comentários.

Não foi por mero capricho que, como actor, arranjou um nome para as suas aparições: Duarte deAlmeida.

OLHAR AS CAPAS



A Emissora Nacional Nos Primeiros Anos do Estado Novo

Nelson Ribeiro
Quimera Editores, Lisboa, 2005

A Emissora Nacional mantinha como característica principal «o seu ar ponderado e grave», como era reconhecido numa notícia inserida no jornal oficial da estação, em Fevereiro de 1938. Aliás, a Comissão Administrativa fomentava esta imagem, repreendendo os locutores sempre que estes ousavam imprimir uma leitura menos formal aos textos:

«Julgava já desnecessário esconder aos senhores locutores que lhe é vedado fazer ao microfone prova dos eu espírito com as alusões jocosas, os risos e as inflexões de voz intencionadas que em certa altura constituíram moda neste estabelecimento. Vejo que infelizmente assim não é ao tomar conhecimento do que passou com a leitura do argumento da Ópera «Tristão e Isolda» feita pelo locutor Sr. Fernando Pessa, em que, perdido por completo o sentido das proporções, este senhor permitiu sublinhar com risos certas passagens do mesmo argumento. (…) A fim de evitar a repetição de factos semelhantes que seja punido o locutor (…) com a pena de repreensão registada.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Enviado de Alhambra pela Angelika e o Hans-Martin.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Tem dito e feito tanto disparate que, quando se for embora, já é tarde.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC


Passo da entrevista de Alexandra Lucas Coelho a Vitor Silva Tavares em que se fala da colaboração do Vitor com essa extraordinária difusora cultural e política que é Eduarda Dionísio, filha do pintor e poeta Mário Dionísio:

Eduarda Dionísio (com quem trabalhou na associação Abril em Maio e recentemente no jornal PREC) diz que não há coisa de que o Vítor Silva Tavares goste mais do que a tipografia, e o Alberto Pimenta (um dos autores mais da casa, na & etc) crê que a fusão inseparável da estética e da ética é o que melhor o define. Tudo o que disse sobre a artesania do livro se relaciona bem com essa fusão.
Agora preside à Abril em Maio, que está num limbo. O que o fez querer pertencer a este colectivo? Como resistência – não sei se a palavra é a boa?

É essa. É a única.

Um dia a Abril em Maio pediu para aqui uns livritos, disse onde era, à Graça, fui lá a um debate, um rés-do-chão de uma casa antiga, fiquei encantadíssimo por ver aquele espaço e reencontrar finalmente a Eduarda Dionísio, que conhecia de nome. Sabia-a filha de quem era, mas nunca tinha tido relacionamento próximo.

E ao saber que aquela coisa tão encantadora que ali estava, onde um disco daqueles que não aparecem em lado nenhum – sei lá, o García Lorca a tocar piano – está ao lado de uma garrafa de azeite, de um boneco de barro, de um livro; ao ver o tipo de pe, ssoas, a miudagem; ao ver que também ali não havia nenhum propósito lucrativo, era uma associação cultural propriamente dita, e que também ela não dependia de nenhuma espécie de subsídios, nem disto nem daquilo, ou não estivesse lá a Eduarda Dionísio: havendo afinidades que não se podem circunscrever ao ideológico, que têm a ver com a maneira de estar e de fazer cultura, alheia ao “mainstream”; eu, que jamais tinha pertencido a qualquer clube resolvi ser sócio daquele.

Estava longe de imaginar que iria filiar-me numa associação que tinha a sua morte anunciada. Ser sócio não é só pagar a quota. Não posso abandonar o etc, onde faço de tudo, sou eu que varro também o chão, essas coisas, a minha disponibilidade está repartida, sempre. De qualquer modo tive trabalhos, iniciativas, ideias na Abril em Maio, daquela pulga eléctrica que é a Eduarda Dionísio. Tenho uma grande ternura por ela, uma grande admiração por aquela capacidade de mobilizar e de fazer, também pela sua capacidade de organização, eu que sou desorganizado. Muitas afinidades. De tal modo que não me interessa assim tanto a Abril em Maio. Quando gosto de uma pessoa, sou de uma fidelidade total. Só estou lá porque lá está a Eduarda, cultivando com ela o mesmo tipo de fidelidade. É um mau feitio que me quadra muito bem. Quem me dera ter dez por cento daquele mau feitio. É sempre recto.


Sempre falou no trabalho como uma fruição, parte da vida, dos amigos. É raro as pessoas estarem numa coisa porque gostam muito de alguém. Têm objectivos, têm projectos, podem ganhar isto, aquilo.

Eu e a Eduarda gostamos de fazer coisas. Com as mãos, com os pés, com a língua. Não vamos teorizar muito sobre as coisas. Temos afinidades, é escusado estar a gastar saliva. Entendemo-nos muito bem. Podemos passar logo para a acção e mobilizar outros para esse trabalho.

A ideia do PREC?

Nasceu aqui. O título foi meu. Quem tiver ideias sobre o nome a dar a esta folha, que é para ler e não para ver, portanto vamos inundar a mancha com letras, uma letra vale mais que mil imagens...

Isso hoje é um verdadeiro PREC.

Exacto. Então, quem tiver ideias ponha no papel. E eu tenho aqui uma que é uma dupla provocação: desta porta para fora, quando sair, e desta porta para dentro, para as cabecinhas de todos nós que aqui estamos. A minha proposta é chamar-lhe PREC.
Ponto dois, toda a gente vai associar PREC ao processo revolucionário em curso. Só que nós vamos utilizar cada número para aquilo que nos der na bolha, e assim subvertermos a própria ideia feita do PREC, porque no interior das letrinhas vamos sempre meter coisas distintas, o que foi praticado com algum humor.

PREC porquê? Porque é PREC, sim senhor, contra-corrente, o próprio formato, outra vez o papel manteigueiro, e, à semelhança dos velhos jornais, encher aquela página literalmente com um corpo tão pequenino que vale pela mancha. É, em sim mesmo, uma afirmação estética, tipográfica. Depois, se as pessoas quiserem ler, com esforço, claro, até têm lá coisas para ler.

E de um trabalho tão duro, por vezes até às duas, três da manhã, conseguirmos um momento lúdico de trabalho, sempre a rir, e sem expectativas.

Fazemos as coisas porque temos de as fazer, porque está na nossa condição. Depois já não é connosco, já está para fora de nós. E a mim tanto me faz que haja só uma pessoa que tenha lido, criticado aquilo, como dez mil, uma que fosse. Aí não tenho espírito de missão, nem aqui dentro. Isto não é nenhuma igreja, não há aqui nenhuma crença, faz-se porque se tem de fazer, está na nossa condição fazer, fazer assim, saber porque fazemos assim. Perseguimos, sim, uma ideia de harmonia, de beleza, de intervenção, e sabemos que é uma resistência. Resistência é a palavra, à falta de ar vigente, ao obscurantismo, à criação permanente de falsos mitos passageiros.

Legenda: pormenor do Subterrâneo 3 onde se encontra instalada a &etc.
Estantes com arquivos e os exemplares mão esgotados dos livros &etc. A secretária e a cadeira de recosto onde o Vitor se sentava à conversa com quem ia aparecendo. Falta, na secretária, a máquina de escrever. Sim, porque ali nunca houve compudadores.