sábado, 7 de maio de 2016

OLHARES


Se há jardim de Lisboa que me dê gosto maior é o do Príncipe Real. Primeiro, por causa da árvore-mãe que tem ao centro, baixinha e de ventre antigo, e de ramagem tão extensa que dá abrigo a meio mundo. Depois, porque o conheci rodeado de poetas, uns em verso, outros em prosa: O’Neill morou-lhe quase em frente, na Rua da Escola Politécnica, Vieira de Almeida mesmo ao lado. Ruy Cinatti na Rua da Palmeira e Agostinho da Silva na Travessa do Abarracamento de Peniche, que é um recanto pacífico para meditar.

José Cardoso Pires em A Cavalo no Diabo

Legenda: João César Monteiro no jardim do Príncipe Real, fotograma do seu filme Vai e Vem

sexta-feira, 6 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Os homens amam os bares e os bons bares merecem ser amados.

Jack Kerouac em Viajante Solitário

Legenda: fotografia de David Aguilar

O GLORIOSO PELOS CÉUS DO MUNDO


QUOTIDIANOS


Maio chuvoso.

SOMOS TODOS IRMÃOS


Tal como ficou prometido em Ah!...AS ABÓBORAS!...

OLHAR AS CAPAS


 Borobudur
Viagem a Bali, Java e Outras Ilhas

Roger Vailland
Tradução: Maria Teresa Camilo
Capa: António Domingues
Prelo Editora, Lisboa, Março de 1961

Em Java faz-se um grande comércio de orquídeas, que são expedidas de avião para todas as capitais do mundo.
O preço caro de uma orquídea não deriva só da sua raridade, que provém da dificuldade de reproduzir em estufa as condições especialíssimas do desenvolvimento de uma planta que muitas vezes se encontra simultaneamente como parasita e parasitária; é preciso portanto reconstituir à volta dela todo o seu universo. Mas nunca qualquer florista pensou em introduzir no mercado a soldanela das neves, que no entanto, seria uma estranha e milagrosa extravagância, pois que ela nasce na Primavera sobre as neves no começo do degelo, só vive um dia, e é tão frágil que murcha, que se desvanece na palma da mão, como o floco de que ela imita a forma cristalóide.
O amador de orquídeas não é exclusivamente seduzido pela riqueza das cores. As numerosas variedades de túlipas oferecem-lhe uma gama mais rica de tons, dos mais puros aos mais sombrios, dos mais discretos aos mais faustosos. O encanto tão especial da flor da orquídea reside em grande parte na complexidade da sua estrutura, da sua protecção, da sua reserva.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


O tornar ao Passado é sempre um resto,
Ou pior, uma falta de saúde.


Afonso Duarte em Ossadas

V.S.T. & ETC


A singularidade dos livros da & etc, não reside apenas no seu formato, antes na qualidade da sua concepção gráfica.

Tal como se pode ler em uma editora no subterrâneo:

A & etc marca a diferença para a «engrenagem parideira» da indústria do livro – com os seus gestores iletrados secundados por homens da publicidade – pela relação de profunda cumplicidade que mantém com os autores, ilustradores, revisores, gráficos e outros colaboradores, materializada no subterrâneo 3 da Rua da Emenda.

Onde os livros são compostos e impressos, eventualmente a data da sua manufactura, surge, por norma, em escassas linhas publicadas nas últimas páginas.

O que acima se mostra, é o modo de como  esses pormenores eram entendidos por Vitor Silva Tavares.

São  detalhes que colhem a feitura das grandes obras, a enorme diferença para com a «engrenagem parideira» da indústria do livro.

Vitor Silva Tavares deixou seguidores. 

Poucos, mas muito bons: A Letra Livre é um desses exemplos.

Legenda: do livro O Ano da Morte de José Saramago de Amadeu Baptista

NOTÍCIAS DO CIRCO


Segundo a primeira página do Correio da Manhã de hoje, novo milagre à vista para os lados de Fátima.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO



Dizia que os livros só faziam mal
e talvez tivesse razão, nessa casa
onde nem uma Bíblia havia.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

OLHARES


A Sé de Lisboa, o quiosque e os Tuk-Tuk.

SIM, A CULTURA




Podemos não concordar com muitos dos pensamentos, opções ideias de Marcelo Rebelo de Sousa.

Mas é gratificante saber que temos um presidente que se preocupa com a cultura do país.

Alguma vez a múmia de Boliqueime se preocupou com o Acordo Ortográfico?

Nunca!

Apenas números.

E mesmo assim, mal!

QUOTIDIANOS


Ontem andei pela Baixa e fiquei espantadíssimo. Era um sítio onde me sentia em casa e agora não percebo nada. As lojas parecem-me todas as mesma, os restaurantes também. A minha irmã vai daqui a uns dias fazer 80 anos e não sei onde a levar a almoçar. Devia ser um sítio de que ela goste, de onde tivesse memórias mas já não há nada. Desapareceu tudo. Suponho que seja normal. É isso a velhice. Mas faz-me impressão a transformação ter sido tão rápida. Estamos aqui na Rua da Escola Politécnica há quase quatro anos. Já quase não há nenhuma das lojas que abriram quando já cá estávamos. Abriram, fecharam e já são outras. É estranhíssimo. Não consigo habituar-me.

Jorge Silva Melo

OLHAR AS CAPAS


O Ano da Morte de José Saramago

Amadeu Baptista
Capa e Extra-Texto de Ana Biscaia
&etc., Lisboa, Setembro de 2010

Hoje são as exéquias do José Saramago,
não falta o trânsito dos corvos na câmara ardente,
mas em três dias tudo estará esquecido,
as cinzas semeadas não frutificarão,
ponham—nas ou não sob a oliveira ressequida
na Azinhaga do Ribatejo, em frente à Biblioteca,
ou em Lanzarote, sob o vulcão
- umas oliveiras nascem,
outras morrem,
outras estão a permanecer mais um dia,
mais uma noite,
mais uma derrogação
para que as cinzas fiquem agora decididamente em Lisboa
e às barcas seja permitido flutuar
por uma vez, as barcas novas do Tejo
e do texto de João Zorro,

Ai, minha senhora velida! 

terça-feira, 3 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.

Alberto Caeiro

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

DEPOIS


Primeiro sabem-se as respostas.
As perguntas chegam depois,
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e de respostas.

Que coração, no entanto, pode repousar
com o restolhar de asas no telhado?
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado.

Porquê, tão tardo, o passado?
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração o saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolhem também sob
lembranças extenuadas? 
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro
as coisas inacabadas.


Manuel António Pina em  Poesia Reunida

Legenda; fotografia de Jeanloup Sieff

OLHAR AS CAPAS


O Deserto Habitado

Júlio Conrado
Capa: Dorindo de Carvalho
Prelo Editora, Lisboa, 1974

Há tempos, o professor Olívio perguntou-me:
- Que esperas vir a ser quando fores crescido?
- Revisor de comboios – respondi.
O professor Olívio não foi capaz de esconder a sua surpresa:
- E por quê, não me dirás?
- Para me fartar de andar de comboio. Não é maravilhosos viajar durante o dia inteiro?
Se calhar respondi assim porque só vou à capital uma ou duas vezes por ano. Esplêndida aventura, a de me deslocar no comboio eléctrico tão veloz, tão limpinho, tão diferente do correio ronceiro e carvoento da minha terra. Que sensação estupenda, quando à saída de Caxias, deslizo vertiginosamente ao lado do Tejo e quase lhe toco as águas. O comboio transforma-se num navio que corre, corre, corre, isto é, navega, serpenteia aqui, serpenteia acolá, rechaça o ímpeto das vagas que nos dias de temporal se atiram, à falsa fé, contra a muralha e depois contra ele. Admiro a força das ondas mas comparo-as um pouco à brutalidade do Artur. É por isso que nesses dias esmago o nariz e a boca contra a vidraça da janela (visto conhecer a grotesca feição que aparece ao lado de fora) para troçar delas ao Vê-las bravas. Logo que chega à Cruz Quebrada o meu barco passa de novo a ser o meu comboio.

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro na Rua do Salvador.

NOTÍCIAS DO CIRCO


segunda-feira, 2 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Para a solidão nascemos. Outras vozes
nos chamam e invocam, outros corpos
se perfilam radiosos contra a noite.
Nós não somos daqui. Num intervalo
de campanhas esquecidas nos dizemos,
abrindo o coração aos de passagem.
Mas quando a manhã chega nós partimos,
mais livre o coração, longa a viagem.

Luís Filipe Castro Mendes

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

DO BAÚ DOS POSTAIS


Valência,
Enviado pela Angelika e pelo Hans-Martin.

OLHAR AS CAPAS


Cartas a um Poeta

Rainer Maria Rilke
Tradução e Introdução: Fernanda de Castro
Colecção Documentos Humanos nº 5
Portugália Editora, Lisboa, s/d

Se o quotidiano lhe parecer pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser bastante poeta para conseguir apropriar-se das suas riquezas: Para i criador nada é pobre, não há sítios pobres, indiferentes. Mesmo numa prisão cujas paredes abafassem todos os ruídos do Mundo, não lhe restaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa magnífica riqueza, esse tesouro de recordações?

domingo, 1 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Não me recordo bem porque foi um baralhanço total. O que aconteceu para mim de surpreendente foi o 1.º de Maio, foi uma experiência má. Pensava: isto é um país de revolucionários, de repente! Um dos meus ofícios era ajudar pessoas a sair do país, e era uma trabalheira porque eram raros os que se comprometiam. De repente estava tudo na rua. Aqui há batota, pensei.

Frei Bento Domingues em entrevista ao Diário de Notícias

O MEU PRIMEIRO DE MAIO


Sozinho, sempre sozinho,
mesmo quando vou a teu lado.

De ti que constróis o rumor das cidades
e no campo, semeias, lavras,
e pisas
o sabor do vinho.

Sozinho, sempre sozinho.
aqui  vou a teu aldo
eu, o poeta, operário de palavras
- as palavras «sonho?, «bandeira*, «esperança», «liberdade» -
instrumentos de pureza irreal
que tornam a Realidade
ainda mais real
e transformam os bairros de lata
em futuras cidades de cristal
num planeta de paisagens de prata
onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,
da brancura do linho
e das foices de gume doirado
cantarão um dia connosco a Internacional
- que eu continuarei a cantar sozinho,
sempre sozinho,
a  teu lado.

José Gomes Ferreira em O Diário, s/d


PRIMEIRO DE MAIO


Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhar do seu ventre
O homem de amanhã

Chico Buarque de Holanda e Milton Nascimento