quarta-feira, 15 de julho de 2020

TERESINHA


Aquele que amei tive de deixar no sítio
mesmo onde nunca soube perdoar:
aí persiste observando o rancor
que lhe impede a respiração da pele
até ao dia em que se desfará —
pedaços de lepra contra a consciência.
Pratico com ele a indiferença, exigente
solução de diluir o que não irá mudar.

Aquele que instintivamente toquei
não deu mais satisfações;
imagino-o absorto numa oficina
com um escopro ou um compasso
descrevendo a solidão, satisfeito consigo.
ou no convívio de terceiras pessoas.
Por ele, sem que que tenha esquecido,
disciplinei o corpo a emudecer.

Aquele a quem um instante quis chegar
não fica, antecipa partidas, vai
e volta, vai mais vezes do que volta;
retira as esperanças, logo não desilude:
quando vem traz o coração aberto
e os braços um tanto ocupados.
Admito com ele ter suspendido
a fraqueza em virtude do acanho.

Aquele a quem não pedi nada
e que invoco às manhãs,
aparece todavia pelas tarde com notícias
e tempo, que estende em desafogo aparente,
às vezes na cama demora quanto quer
e deixa os lábios no meu ombro.
Trato com ele a justiça que suscita
o que reconhecemos e não nos interroga.

Margarida Vale de Gato

Legenda. Pintura de Simon Jerchim

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