domingo, 10 de outubro de 2010

A HORA DAS NOVELAS

Chegam ao fim os discos de vinil com Bandas Sonoras de Telenovelas. Seguir-se-ão os CDs.
Este disco é uma edição as Selecções do Reader’s Digest e reúne temas das novelas “Gabriela”, “O Casarão” – “O Astro”, “Dona Xepa”, “Olhai os Lírios do Campo”, Água Viva”, “Baila Comigo”, “Pai Herói”, “O Bem Amado”, “A Guerra dos Sexos”, “A Sucessora”

sábado, 9 de outubro de 2010

IDÍLIO EM BICICLETA


O gemido triste do comboio, silencia o uivo do último lobo da pradaria e acorda-me de mansinho…

Texto e fotografia de Idílio Freire

HOMENAGEM A CHE GUEVARA


As palavras eram força justa
seu vestido as árvores sua casa
constante sonda da miséria funda
por não saber contar sua mudez.

Soletrou a tiros de espingarda
vozes de milhões de voz logo amputada
no berço alheio que os fez submissos
ao nulo programa dos anos de não ter

senão os corpos morenos calibrados
na medida inversa da esperança.
Corpos de cumprir a morte arando pastos
às feras iguais fardadas de comando.

Nada se perdeu no rosto que nos mostram
derrubado  ao peso de oito balas.
- Por cada voz de nítido protesto
Cada testemunho cada alarme

um  grito medo ou fome de criança
as palavras actos permanecem
renovadas sempre necessárias:

QUEM PÁRA MORRE. EU RETOMO A ESTRADA.

Marta Cristina Araújo em “Poemas a Guevara”, “Editora Limiar, Janeiro 1975

SARAMAGUEANDO


Tanto quanto é possível saber, não se conhece um padrão base para a atribuição do Nobel da Literatura.

Alfredo Nobel, deixou escrito, no seu testamento, que o prémio se destina a premiar anualmente “a obra que mais se distinguir, numa perspectiva idealista”.

Mas como interpretar a “perspectiva idealista”?

Um conselheiro de Nobel esclareceu um dia que para o grande capitalista, ateu e no fundo um anarquista convicto, “Obras idealistas são as que geram a crítica, a polémica, em relação à religião, a monarquia, ao matrimónio e à ordem social.”

Há prémios que foram atribuídos a autores que, já na altura, ninguém conhecia e que hoje continuam completamente ignorados. De 1901 a 2010 existem tantas escolhas acertadas como equívocos. Há escritores famosos que morreram sem que o Nobel lhes fosse atribuído, laureados há que não se vislumbra porque foram galardoados, como é o caso, por exemplo, de Winston Churchill.

Num artigo publicado há uns anos no “Spiegel” e publicado no “Diário de Notícias”, s/d, um crítico literário escrevia que na primeira década da atribuição dos prémios de literatura estes foram entregues a “patetas”, enquanto Tolstoi, Zola, Ibsen , Strindber foram “propositamente ignorados: porque os membros da Academia não gostavam dos movimentos em que se inseriam. Ao mesmo tempo que revelava que Alberto Moravia, não recebeu o prémio por causa da sua “mania do erotismo”, e Graham Greene por causa do seu êxito de massas.

Um dia quando disseram a Graham Greene que, mais uma vez, não ganhara o Prémio Nobel, limitou-se a dizer: “Para um escritor, o sucesso é apenas um fracasso adiado.”

O espantalho do comunismo foi ,durante muito tempo,  para Estocolmo um osso muito  duro de roer. O primeiro russo a ser galardoado, foi, em 1933, não Maximo Gorki,, cujo livro “A Mãe” fez mais pela revolução do que milhares de inflamados discursos, mas sim Ivan Bunin, um conservador exilado.

Soube-se recentemente que a concessão do Nobel da Literatura a Boris Pasternak, em 1958, rodeou-se de aspectos rocambolescos. Os membros da Academia receberam a versão russa do livro “Doutor Jivago” na própria manhã de 25 de Setembro em que decidiram atribuir-lhe o Nobel, em detrimento do italiano Alberto Moravia e da dinamarquesa Karen Blixen.

O romance fora publicado em italiano quase um ano antes, mas o prémio só podia ser atribuído, se a obra estivesse já impressa na sua versão original, em russo. E desse autêntico milagre encarregou-se a CIA e assim se ludibriou a proibição soviética.

Para além da política, também os lobbies das editoras, dos agentes literários entram na roda-viva da escolha do Prémio Nobel da Literatura, uma gente vária que, dizem, são quem mexe todos os possíveis e imaginários cordelinhos.

Aparentemente a panela da poção mágica é mexida por tanta e variada gente que António Lobo Antunes, há uns anos, revelou que José Sócrates pensou fazer “lobbying” a seu favor junto da Academia Sueca. 

Mas, lamentavelmente, ele faltou ao jantar em que tudo seria combinado…

O FERNANDO


Há muito que não vejo o Fernando, um  jovem cego que percorria as carruagens do metro.
Entre o entrar a porta e o chegar ao corredor cantarolava:
“Ora podem crer que eu continuo a agradecer a alguém que tenha a bondade ou a possibilidade de me auxiliar”
Depois começava a bater  com a bengala no chão, com um pauzinho na lata das esmolas, ritmava nos varões da carruagem e tudo aquilo sova a uma qualquer batida, bem ritmada, talvez rap e entoava de novo:
“Ora podem crer que eu continuo a agradecer a alguém que tenha a bondade ou a possibilidade de me auxiliar”
Quando as moedas não caíam na lata, exaltava-se, ficava uma pilha de nervos e dizia:
“Vocês rezem para que eu nunca veja!”
“Para a merda da bola todos têm dinheiro!”
Há muito que não ouço o rap do Fernando.
Que lhe terá acontecido?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

SARAMAGUEANDO


Quando, após a morte de José Saramago, por aqui andei a reproduzir as capas dos livros da biblioteca da casa, outra pretensão não houve de, à minha maneira, fazer uma homenagem, expressar um agradecimento a um escritor de que muito gosto e que me marcou profundamente.
Também lhe podem chamar vaidade minha, mas “cada qual é aquilo que lê”.
Por essa altura houve oportunidade de reler livros e também um passear de olhos sobre uma imensidão de recortes que, ao longo de anos, o mais antigo data de 10 de Novembro de 1966, fui guardando.
Por tudo isso entendi que voltaria a José Saramago.
Volta e meia surgirão textos de/sobre José Saramago. Também memórias.
Chamar-se-á “Saramagueando”.
E porque hoje se cumprem 12 anos, sobre o dia em que o Mundo soube que o Prémio Nobel da Literatura de 1998 era português e se chamava José Saramago, a apresentação fica feita.
Resta começar a “saramaguear.”
Até já!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

LLOSA, PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA


Mario Vargas Llosa, o eterno candidato, é o Prémio Nobel da Literatura de 2010.

O escritor, de 74 anos, foi distinguido "pela sua cartografia das estruturas de poder e pelas suas imagens mordazes da resistência, revolta e derrota dos indivíduos", justifica a Academia.

A agradável memória de um Verão de 1973 em que me maravilhei com a leitura de “Conversa ma Catedral” de Mario Vargas Llosa. 

Ficou-me a leve impressão de que Vargas não repetiria outro livro como aquele. Estava certo, mas é apenas uma opinião minha, nada mais.

“Da porta de “La Cronica”, Santiago contempla a Avenida Tacna, sem amor: automóveis, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos a flutuar na neblina, o meio-dia cinzento. Em que altura se tinha fodido o Perú?”

Não sei se já está nos escaparates das livrarias, mas tenho muita curiosuidade em ler “A Tia Julia e o Escrevidor” de Mario Vargas Losa, um livro autobiográfico com as aventuras e desventuras do seu casamento com uma ex-tia por afinidade.

Tempo para lamentar que ainda não foi este ano que Philip Roth ganhou o Prémio Nobel da Literatura. 

Mais um dos muitos “esquecimentos” da Academia.

Possivelmente Roth morrerá sem ver esse reconhecimento por parte da Academia. 

Mas tem o reconhecimento dos seus muitos milhões de leitores espalhados pelo mundo.
Philip Roth: uma obra simplesmente notável!

O Nobel que vá pr'o inferno!

SALAZAR; CEREJEIRA & MARCELO


Ao mesmo tempo em que se consumava a vitória da República, chegou a Coimbra, aquele que, vinte anos mais tarde, se empenhará em destruí-la – António de Oliveira Salazar.

Quando em 1912 a República permite a reabertura do “Centro Académico de Democracia Cristã” (C.A.D.C.), organização católica com fins exclusivamente políticos, Salazar fez parte da direcção, tendo a seu lado um outro estudante, Manuel Gonçalves Cerejeira, futuro Cardeal Patriarca.

Carlos Ferrão, na sua “História da 1ª República”, deixa claro que Salazar, apesar de monárquico, “proclamava uma indiferença completa em relação às formas de governo e nesse ponto se distinguia dos outros professores afastados do ensino que não ocultavam a sua filiação monárquica.”

Será no C.A.D.C. que Salazar recrutará todos os ministros, deputados, altos funcionários administrativos que serão o suporte do “Estado Novo”.

No combate feito à República por católicos, monárquicos, nacionalistas, conservadores, há-de destacar-se uma revista integralista dirigida pelo estudante da Faculdade de Direito, Marcelo Caetano, que deste modo se definia e declarava:

“Ordem Nova. Revista antimoderna, antiliberal, antidemocrática, antiburguesa, antibolchevista, contra-revolucionária, reaccionária, católica, apostólica romana, monárquica, intransigente, insolidária com escritores, jornalistas e quaisquer profissionais das letras, das artes e da Imprensa.”

Nos últimos anos temos vindo a assistir a um movimento tendente a branquear o funesto papel que na história cabe a Oliveira Salazar, Cardeal Cerejeira, Marcelo Caetano. Deles se diz que foram pensadores, escritores, gigantes da cultura, figuras marcantes do seu tempo. Um livro recente de Irene Flunser Pimentel, chega a chamar ao Cardeal Cerejeira, “o príncipe da Igreja”.
Os três, juntamente com outros figurantes e figurões, cedo acertaram o passo para levar a cabo o pesadelo de uma ditadura de quase cinquenta anos.

“Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a Pátria e a sua história.”

Em nome desse Deus, dessa pátria, dessa autoridade, milhares de portugueses foram perseguidos, espancados, mortos e milhares de jovens, enquanto os pais pagavam promessas em Fátima, morreram na guerra colonial, uma Igreja de que, em vão, se esperou uma palavra de repúdio pelo regime.

"Os ventos da História hão-de dar-nos razão."

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

SACRIFÍCIOS PARA TODOS


Crónica de Manuel António Pina no “Jornal de Notícias” de 5 de Outubto:

“O"i" fez as contas e concluiu que o esforço de mil milhões de euros - sem contar com as reduções de benefícios fiscais - exigido pelo aumento de impostos anunciado por Sócrates será equitativamente dividido: os consumidores suportarão 93% e os bancos... 7%.
Só que os bancos acham 7% muito. Faria de Oliveira, presidente da CGD, já avisou que "é evidente" que os bancos repercutirão nos clientes os custos da nova taxa sobre o sector financeiro (se esta alguma vez vier, claro, a consumar-se). E, como seria de esperar, lá sairão os 7% igualmente do bolso dos consumidores.
O comentário a mais ingénuo, ou mais bem humorado, ao "aviso" de Faria de Oliveira foi decerto o do presidente da SEFIN que apelou à banca (cuja ganância e falta de escrúpulos está, como se sabe, na origem da crise) para que se preocupe com o interesse nacional, não se furtando a ajudar o Estado que, antes, nela enterrou em ajudas milhões dos contribuintes (no caso português, os 4,5 mil milhões metidos no BPP e BPN chegariam agora para, sem aumento de impostos, baixar o défice de 7,3% para 4,6%).
Ora a ajuda dos bancos ao Estado funciona assim: financiam-se no BCE, que está impedido de emprestar directamente aos Estados, a taxas de 1% e, depois, emprestam esse mesmo dinheiro ao Estado (só até Julho foram 12,9 mil milhões de euros) a 3% e 6%. Com amigos destes a ajudar, paraque precisa o interesse nacional de inimigos?”

MEMÓRIAS

Concerto de Roberto Carlos no Pavilhão Atlântico no dia 9 de Março de 2005

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

QUOTIDIANOS


O Tribunal de Celorico da Beira condenou na semana passada Jorge Gonçalves Rodrigues, de 34 anos, ao pagamento de uma multa de 250 euros, por condução da sua carroça em estado de embriaguez, registando uma taxa de álcool de 3,26 por litro.

Neste caso a Justiça foi célere.

A detenção verificou-se nos primeiros dias de Fevereiro e a sentença foi conhecida agora. Mas ainda houve tempo para o Jorge Rodrigues, em Agosto passado, ter sido novamente apanhado a conduzir a carroça embriagado, tendo já sido julgado em processo sumário e condenado ao pagamento de multa.

O Tribunal aplicou-lhe ainda duas coimas, por contraordenações, nos termos do Código da Estrada, uma pela falta de iluminação da carroça e outra por conduzir fora de mão
.
Após a leitura da sentença, o juiz explicou ao arguido que "a aplicação de uma pena tem tão só como objectivo que o senhor não volte a cometer o crime. Exorto-o a não beber quando conduzir ou, quando beber, deixe o veículo e circule com qualquer outro meio".

Jorge Rodrigues afirmou aos jornalistas que a condenação do Tribunal lhe servirá de emenda para o futuro, garantindo que quando voltar a beber "o burro já não sai da loja".

A advogada de defesa irá propor ao Tribunal que a multa seja substituída "por trabalho a favor da comunidade, uma vez que não tem meios para pagar o referido valor".

Esta possibilidade agrada ao arguido, que disse estar disponível para fazer "tudo".

"No cemitério é que não", afirmou, rejeitando a eventualidade de poder prestar serviço comunitário como coveiro.

6 DE OUTUBRO DE 1910


No dia 6 de Outubro de 1910, o jornal “O Século” fez três edições.
Em todas elas dava conta do entusiasmo com que todo o País saudava a Proclamação da República.

IDÍLIO EM BICICLETA


E além disto, silêncio. O profundo silêncio do que não volta mais.

Mário Dionísio

terça-feira, 5 de outubro de 2010

OLHARES


São João da Caparica.
No dia 5 de Outubro de 2006, uma quinta-feira, o sol pôs-se às 19h 14m.

CARTAS VICIADAS


Crónica de Manuel António Pina publicada no “Jornal de Notícias “ de 1 de Outubro:

“Na deplorável partida de póker em que se tornou a luta política, a aposta de Passos Coelho no extremar de posições em relação ao Orçamento seguida da ameaça de Sócrates de se demitir no caso de ele não ser aprovado, revelou o óbvio: que Coelho fizera "bluff" e não iria pagar para ver. Os inúmeros "bluffs" de Sócrates anunciando, dia sim, dia não, o "fim da crise" (ainda em Maio Portugal era "o primeiro país a sair da recessão") não têm sido menos desastrados. Os aumentos da Função Pública há um ano, em véspera de eleições, lembram Beau Geste no deserto, cercado e acossado pela sede, lavando desafiadoramente as botas com o último cantil de água. A crise não é, contudo, tão impressionável como os "tuaregs", e Sócrates exige agora a devolução, com juros, desses aumentos. Ao mesmo tempo opta pela que, em Março, era a solução "mais fácil", o do aumento dos impostos, e por receitas extraordinárias como as que criticou a Ferreira Leite. Precisa de 4,5 mil milhões para levar o défice de 7,3 a 4,6 %. Tanto quanto enterrou no BPN e BPP. Como confiar o nosso dinheiro (e o nosso futuro) a jogadores destes?”

100 ANOS DA REPÚBLICA



Há 100 anos era proclamada a República.

A vigência da primeira República Portuguesa correspondeu ao período compreendido entre 5 de Outubro de 1910 e 28 de Maio de 1926.

Jacinto Baptista no seu livro “O Cinco de Outubro”, Editora Arcádia, Outubro de 1964:
“Glorioso e, acaso, dos mais intensos e felizes do nosso povo, em toda a sua história, foi – então no consenso de muitos, e ainda hoje no de alguns – o dia 5 de Outubro de 1910, a data da implantação da República em Portugal, a memorável jornada que, logo após, “O Mundo”, em extasiado alvoroço, julgou ter inaugurado, definitivamente, para os Portugueses, “uma era de paz, de prosperidade e de justiça”.

Paz, prosperidade, justiça: estas eufóricas e confiantes palavras do jornal de França Borges, desdobradas a toda a largura da primeira página do combativo órgão da propaganda republicana e arauto da revolução triunfante, reflectiam – e alimentavam, também – as ilusões de muitos. Despertam elas, hoje, em nós, mais do que um melancólico sorriso?

“Que ventura ideal me inunda o coração!” – exclama, numa fantasia dramática alusiva à instauração do novo regime, a “Liberdade”, quando em voluptuosa expansão, se entrega a Portugal.
“Hoje sou tua emfim!... Aperta-me nos braços!” – acrescenta; e o pano, prematuramente, desce.”


José Saramago no seu “Levantado do Chão”:

“Então chegou a república. Ganhavam os homens doze ou treze vinténs, e as mulheres menos de metade, como de costume. Comiam ambos o mesmo pão de bagaço, os mesmos farrapos de couve, os mesmos talos. A república veio despachada de Lisboa, andou de terra em terra pelo telégrafo, se o havia, recomendou-se pela imprensa, se a sabiam ler, pelo passar de boca em boca, que sempre foi o mais fácil. O trono caíra, o altar dizia que por ora não era este reino o seu mundo, o latifúndio percebeu tudo e deixou-se estar, e um litro de azeite custava mais de dois mil réis, dez vezes a jorna de um homem.
Viva a república, Viva. Patrão, quanto é o jornal agora, Deixa ver, o que os outros pagarem, pago eu também, fala com o feitor, Então quanto é o jornal, Mais um vintém, Não chega para a minha necessidade, Se não quiseres, mais fica, não falta quem queira, Ai minha santa mãe, que um homem vai rebentar de tanta fome, e os filhos, que dou eu aos filhos, Põe-nos a trabalhar, E se não há trabalho, Não faças tantos, Mulher, manda os filhos à lenha e as filhas ao rabisco da palha, e vem-te deitar, Sou a escrava do senhor, faça-se em mim a sua vontade, e feita está, homem, eis-me grávida, pejada, prenhe, vou ter um filho, vais ser pai, não tive sinais, Não faz mal, onde não comem sete, não comem oito.
Viva a república, Viva. Por todas as herdades corria um vento mau de insurreição, um rosnar de lobo acuado e faminto que grande dano lhe causaria se viesse a transformar-se em exercício de dentes. Havia pois que dar um exemplo, uma lição.
Já lá vai adiante o esquadrão da guarda, amorosa filha desta república, ainda os cavalos tremem e a espuma fica pelo ar em flocos repartida, e agora passa-se à segunda fase do plano da batalha, é ir por montes e montados em rusga e caça aos trabalhadores que andam incitando os outros à rebelião e à greve, deixando os trabalhadores agrícolas parados e o gado sem pastores, e assim foram presos trinta e três deles, com os principais instigadores, que deram entrada nas prisões militares. Assim os levaram, como a récua de burros albardados de açoites, pancadas e dichotes vários, filhos da puta, vê lá onde é que vais dar com os cornos, viva a guarda da república, viva a república da guarda."

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

É PRECISO TER LATA!...


O deputado do Partido Socialista, Ricardo Gonçalves, a quem um dia, em pleno plenário da Assembleia da República, Maria José Nogueira Pinto, chamou “palhaço",  disse ao "Correio da Manhã",que “se abrissem a cantina da Assembleia da República à noite, eu ia lá jantar. Eu e muitos outros deputados da província. Quase não temos dinheiro para comer".
Sua deputência aufere, por mês, cerca de 3.700 euros, mais 60 euros por dia para ajudas de custo e reagiu assim ao corte de 5% que será aplicado de forma progressiva na Função Pública a quem recebe mais de 1500 euros.
"Tenho 60 euros de ajudas de custos por dia. Temos de pagar viagens, alojamento e comer fora. Acha que dá para tudo? Não dá!"
Chama-se a isto gozar com o pagode.
Não se pode exterminá-lo?

OLHARES


Reguinho da Água Boa, Barroselas.

OLHARES


"Mas é no Alto de Santa Catarina que eles praticam os seus encontros de azar e de fortuna em à-vontade, No alto, bem no alto, quase a prumo sobre o Tejo e com a estátua do mostrengo Adamastor a protegê-los, calculam os lances de olhos postos nas nuvens e mexem lábios mudos, como se rezassem lá para eles.
A cidade parou ali, parece. A pouca gente que passa é de vizinhos que não perdem tempo a admirar o vazio luminoso que se abre por cima do rio até á linha da Outra Banda.
Os velhos também não (os seus horizontes são breves, a vida já não lhes dá tempo para mais). Estudam as cartas, medem os parceiros, estão em suma, entregues a uma confabulação marginal no cume do mundo que lhes fugiu. A seus pés descem ruas a a pino e travessas em escadaria a caminho do Conde barão, mas eles, que as conhecem desde sempre, já nem sequer dão por elas. Nem por elas nem por o elevador da Bica que anda num vaivém enfadado por entre roupa a secar às janelas, conversações de porta a porta e putos em pé de guerra. È uma carruagem festiva, uma instituição de vizinhos. Às vezes, duma taberna alguém estende uma cerveja ao condutor e o homem leva a garrafa à boca em golos demorados para fazer durar.
Enquanto isso, sobranceiro e em paz distante, o Alto de Santa Catarina é como se não tivesse nada a ver com o que se passa em redor. Céu e Tejo é o que lhe faz companhia; e há um silêncio de província que nos afasta do tempo. Aqui pode-se olhar em solidão para lá do horizonte: quando os lisboetas dizem "ver navios no Alto de Santa Catarina" referem-se a isso mesmo. Estão a assinalar este lugar como o mira-douro duma viagem que se sonha e se vai a nossos olhos. Penso nesta expressão cada vez que vejo os velhos a iludirem a sorte naquele exílio tão perto do céu. Um deles, um dos mais antigos, anunciou que quando morresse queria ir para a outra vida com um crucifixo na mão e um baralho de cartas marcadas no bolso.”

José Cardoiso Pires em “Lisboa Livro de Bordo”, “Publicações Dom Quixote”,  Lisboa 1997

domingo, 3 de outubro de 2010

A HORA DAS NOVELAS


Ainda a Banda Sonora de "Roque Santeiro" (1985)

Roque Santeiro – Sá e Guarabyra
Chora Coração – Wando
De Volta Pro Aconchego – Elba Ramalho
Malandro Sou Eu – Beth Carvalho
Vitoriosa – Ivan Lins
Dona – Roupa Nova
Verdades e Mentiras – Sá e Guarabyra
Aqui Tá Bom Demais – Dominguinhos com Chico Buarque
Mal Nenhum – Joana
Entra e Sai de Amor – Altay Velloso

POSTAIS SEM SELO


Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados, dizendo aos pais que era uma árvore.
Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.
Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.
Mas os pais disseram olha é Outono.

Russell Edson em O Túnel

sábado, 2 de outubro de 2010

A HORA DAS NOVELAS

Banda sonora da telenovela “Roque Santeiro” (1985)

Sem Pecado e Sem Juízo – Baby Consuelo
Coração Aprendiz – Fafá de Belém
Santa Fé – Moraes Moreira
A Hora e a Vez – Claudio Nucci e Zé Renato
Coisas do Coração – Ritchie
Fruta Mulher – Nana Cayimi
Mil e Uma Noites de Amor – Pepeu Gomes
Indecente – Anne Duá
Mistérios da Meia-Noite – Zé Ramalho
A Outra – Simone
Pelo Sim Pelo Não – Claudio Nucci e Zé Ramalho

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

POSTAIS SEM SELO


Se um homem escreve bem só quando está bêbado dir-lhe-ei: embebede-se. E se
ele me disser que o seu fígado sofre com isso respondo: o que é o seu
fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que
escrever vivem sem enquanto.

Fernando Pessoa em Livro do Desassossego

Legenda: Fotografia tirada hoje de manhã frente à Brasileira do Chiado.

IDÍLIO EM BICICLETA


“A bicicleta é um dos picos do génio tecnológico humano. Quando se popularizou, nos finais do século XIX, antes da entrada em cena do automóvel, provocou uma revolução social. Pela primeira vez na História, toda a gente se tornou móvel. Passou a ser possível percorrer grandes distâncias de forma autónoma, rápida e barata. Surgiu também a ideia, até então inconcebível para os milhões de pobres de todo o mundo, de viajar por puro prazer. A bicicleta não consome combustível. Por isso, quanto mais andar, mais justifica o investimento.
A capacidade de viajar tornou-se um bem ilimitado e isso foi o princípio da libertação dos trabalhadores, que devem ao inventor da bicicleta muito mais do que a Karl Marx. Foi também o ponto de partida para a libertação da mulher, permitindo-lhe sair de casa, trabalhar e conquistar a independência.
Todos os outros veículos precisam de energia externa. A bicicleta é independente. Vive da nossa força muscular, que multiplica com eficácia cada vez maior.
O objectivo da ciência ciclística é tornar o veículo mais leve, mais aerodinâmico, mais funcional. Os quadros, forquetas e guiadores começaram a ser construídos em alumínio, depois em fibra de carbono. Carretos, cremalheiras, correntes passaram a ser feitos em ligas metálicas resistentes e virtualmente isentas de peso.
Sem recurso a nenhuma fonte externa de energia, à custa, apenas, do seu próprio desenho, a bicicleta é, hoje, um veículo extraordinário. Aproxima-se da perfeição, ou seja, de um limite utópico em que não seria preciso, sequer, pedalar. Esse momento, sim, representaria a nossa vitória sobre a Natureza. Até lá, é melhor sermos amigos dela.”

Paulo Moura no “Público”, 2007

Fotografia de Idílio Freire