quarta-feira, 16 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


E alguém escreveu: saber que um livro novo nos espera em casa para ser lido, é dos melhores sentimentos!

Autor desconhecido

Legenda: Marilyn Monroe

40 ANOS


Quarenta anos sem o Rei.
Lido hoje no Diário de Notícias:

Desde 1977 até hoje, foram publicadas 94 compilações discográficas de Presley. O que permite dizer que, 40 anos depois de falecer, ele ainda figura entre os artistas musicais mais rentáveis do mundo. 


ESCOLHAS


À partida, tanto quanto posso recuar no tempo, a questão política está antes de começar a escrever. Ainda no liceu, quando fazíamos escolhas para jogar futebol, já fazíamos escolhas políticas. Eu lembro-me que só tive três colegas negros em cento e tal alunos. Mesmo assim quando fazíamos as escolhas para jogar pequenos jogos de futebol, ficávamos juntos, de um modo geral, por exemplo, Gentil Viana, Iko Carreira, na mesma equipa e os outros ficavam noutra equipa. Era uma escolha. Não percebo como, porque é aquela escolha em que se põe um pé à frente do outro, até que quem pisa escolhe primeiro… No fim dávamos conta que eram quase sempre os mesmos na «nossa» equipa. Numa dada altura, com 15/16 anos, houve um clivagem entre os que, na Mocidade portuguesa, escolheram ir para a milícia, para a parte mais militarizada, e os que escolheram ir para os desportos náuticos. E aí nós dividimo-nos. Depois fui-me dando conta da realidade com a leitura dos russos: Gorki, Turguêniev, Techkhov, Dostoievski… só depois Tolstoi… o melhor veio pela literatura.

José Luandino Vieira em Os Papéis da Prisão

OLHAR AS CAPAS


A Janela Alta

Raymond Chandler
Tradução: Almeida campos
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 155
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Eram duas horas quando regressei a Hollywood, arrumei o carro e subi as escadas até ao meu apartamento. O vento cessara completamente, mas na atmosfera havia a secura e a leveza do deserto. O ar no apartamento estava pesado e a ponta do charuto de Breeze tornara-o um pouco pior que pesado. Abri as janelas e deixei arejar a casa enquanto me despia e despejava as algibeiras do fato. Delas, entre outras coisas, saiu a factura de fornecimentos de artigos para dentistas. Continuava a ser uma factura passada em nome de um certo H. R. Teager para 15 kg de cristobolite e 12 kg de albastone
Pus a lista telefónica em cima da mesa da sala de estar e procurei nela o nome Teager. Depois a memória confusa transformou-se em imagem real. O endereço dele era 422 Wet Ninth Street. H.R. Teager, Laboratório Dentário, fora um dos nomes que eu tinha lido nas portas dos escritórios do sexto andar do Edifício Belfont quando havia descido as escadas de incêndio depois de ter descoberto o cadáver de Elisha Morningstar.

No entanto, toda a gente tem que dormir e Marlowe estava absolutamente necessitado disso. Fui para a cama.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Valem mais três horas adiantadas do que um minuto de atraso.


William Shakespeare

NOTÍCIAS DO CIRCO



Pedro Tadeu no Diário de Notícias

COMO SOBREMESA NÃO ESTÁ MAL!


Em 1979, o Diário de Lisboa, publicou em folhetim, O Imenso Adeus de Raymaond Chandler, numa tradução de Mário-Henrique Leiria. A apresentação do folhetim foi feita pelo Eduardo Guerra Carneiro com o título Com Chandler e Marlowe nos Bares do Cais do Sodré publicado no Diário de Lisboa de 31 de Março de 1979 e que o Eduardo nunca incluiu em nenhum dos livros onde reuniu crónicas e textos publicados na imprensa.

Começa assim:

Marlowe entra no “British-Bar”, despe a trincheira, sacode-a da chuva de Março que, em morrinha, como em Vigo ou no Porto, ainda pinga, atira o chapéu para o bengaleiro e pede um “gimlet” duplo.
Humphrey Bogart está ao balcão e sorri-lhe, de esguelha, com o paivante aceso ao canto da boca. A “magrinha” ainda não tinha chegado. Eu bebia gin tónico, numa mesa do canto com o Chandler. O Mário-Henrique Leiria não pôde vir: mandou recado a dizer para bebermos dois ou três copos por ele. Lauren Bacall chegou agora, senta-se à nossa mesa e pede-me um cigarro na sua voz rouca, inconfundível. Reparo que Bogey está com ciúmes. Como não quer a coisa, de uma velha telefonia vem uma música de piano: “Casablanca”. Afinal Bogart deve estar ainda à espera da Ingrid Bergman. Chandler, que nada tem a ver com isto, começa a falar da Cabeleira de Prata.
Interrompo Raymond para lhe contar uma história insólita, mas verdadeira. Esta, do parágrafo seguinte:
-Era um jantar em casa do Buda, ali junto à Escola Politécnica. Como de costume, raparigas bonitas, boa comida, muito vinho, muito álcool. Presente: o Mário Henrique-Leiria que traduziu o teu «The Long Goodbye». Conversas sobre a América do Sul, guerrilheiros, generauis de opereta ou de bananas, prisões, copos, a receita do «gimlet» que o Terry Lennox conta – partes iguais de gin e sumo de lima, mais nada. De repente – acredita, sócio! – a conversa começou a ficar tão quente, tão quente, que a gente foi à varanda p’ra apanhar fresco. Olhámos: a Faculdade de Ciências estava a arder!

Na notícia da morte de Mário Henrique-Leiria, que o Eduardo Guerra Carneiro escreveu para o Portugal Hoje, 14 de Janeiro de 1980, lembra o parágrafo atrás transcrito e acrescenta:

O que não escrevi faço-o agora – é que dizias, com o humor negro sempre engatilhado: «Como sobremesa não está mal!»

Legenda: fotografia de Rui Ochôa, Expresso

CANÇÕES QUE VIERAM DO NADA


Já não tentava captar o poder de expressão de uma ideia. Conseguia facilmente recusá-la e manter-me afastado. Já não me obrigava. Já não esperava voltar a escrever. Também já não precisava de mais canções.
Tudo mudou – numa noite em que, como sempre, todos dormiam e eu estava sentado à mesa da cozinha, com o horizonte em frente onde se só via uma camada brilhante de luzes. Escrevi cerca de vinte versos para uma canção chamada «Political World» e esta foi a primeira de vinte canções que escreveria no mês seguinte. Vieram do nada. Se calhar não as teria escrito se não estivesse acordado àquelas horas. Se calhar sim, se calhar não. Eram fáceis de escrever, pareciam fluir com a corrente do rio. Não que parecessem propriamente desmaiadas ou distantes – estavam mesmo a frente dos meus olhos, mas se não as olhássemos atentamente, desapareceriam.
Uma canção é como um sonho e faz-se tudo para que se realize. É como um país estranho em que se quer entrar. Pode-se escrever uma canção em qualquer sítio, num compartimento de uma carruagem, num barco, no dorso de um cavalo – estar em movimento ajuda. Às vezes as pessoas que têm o maior dos talentos para escrever canções não as escrevem porque não estão em movimento. Eu não estava em movimento em nenhuma destas canções, pelo menos, exteriormente. Mesmo assim fi-las todas como se estivesse. Coisas que vemos e ouvimos à nossa volta influenciam por vezes uma canção. A canção «Political World» pode ter sido inspirada por acontecimentos banais. Estava-se à beira de uma renhida corrida presidencial, não se conseguia evitar ouvir falar sobre ela. Mas eu não tinha interesse na política como forma de arte e penso que não foi apenas por isso. A canção é demasiado abrangente. O mundo político da canção é mais um submundo, não o mundo em que os homens vivem, trabalham arduamente e morrem como homens. Com a canção pensei que tinha atingido algo importante, Foi como se acordasse de um sono profundo e descansado, e alguém tocasse um pequeno gongo de prata e tudo voltasse à normalidade. Havia pelo menos o dobro dos versos que mais tarde foram gravados. Versos como: «Vivemos num mundo político. Bandeiras a voar ao vento. Vêm do nada – directas a ti – como uma faca a cortar queijo.

Bob Dylan em Crónicas


ONTEM LÁ EM BAIXO NO CANAL


Dizes que tudo é muito simples e interessante
isso torna-me muito melancólico, como se lesse um grande romance Russo
estou tão aborrecido
é quase como ver um mau filme
se não for, mais frequentemente, como ter uma doença aguda no rim
valha-nos deus que não é nada no coração
nada relacionado com gente mais interessante do que eu
yak yak
que pensamento divertido
como pode alguém ser mais divertido que o próprio
como pode alguém não ser
podes emprestar-me o teu quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência de prata
se não se pode ser interessante pelo menos que se seja uma lenda
(mas odeio essa trampa toda)

SARAMAGUEANDO


Excerto da Opinião publicada em 6 de Fevereiro de 1973:

“Num livro publicado em 1933 por António Ferro estão escritas estas palavras de Oliveira Salazar, então e por muito tempo mais Presidente do Conselho: “É certíssimo que, dentro de vinte anos, o nosso actual conceito de liberdade de imprensa estará radicalmente modificado.” Passaram esses vinte anos, passaram quarenta, quase meio século, e a pergunta é inevitável: modificou-se o conceito de liberdade de imprensa? E porquê só o conceito? Seria isso bastante? Será isso bastante para que se crie “uma imagem de Portugal novo, não romântica, folclórica, patriótica ou provinciana”?

José Saramago em As Opiniões que o DL Teve

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

OLHARES


NOTÍCIAS DO CIRCO


Em Loures, há um candidato do PSD à Câmara Municipal que não gosta de ciganos.

O Líder do PSD, ontem no Pontal, saiu-se com esta:

 O que é que vai acontecer ao país seguro que temos sido se se mantiver esta possibilidade de qualquer um viver em Portugal?

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Ouve-se James Baldwin, quase a findar o documentário:

«Vocês inventaram o «nigger», pergumtem-se porquê.»

João Lopes no Diário de Notícias:

Eu Não Sou o Teu Negro surgiu nas salas portuguesas no passado dia 18 de Maio, tendo cumprido uma carreira discreta. Entre as estreias do mesmo dia, o vencedor das bilheteiras foi Alien: Covenant, o regresso de Ridley Scott às histórias de terror galáctico. Porquê tal diferença? Convém lembrar que o filme de Scott (belo espectáculo, não é isso que está em causa) foi lançado em 71 ecrãs do mercado, enquanto Eu Não Sou o Teu Negro ocupou apenas três... Como diria uma personagem de Billy Wilder, isso é outra história.



OLHAR AS CAPAS


Devia Ter Ficado em Casa

Horace McCoy
Tradução: Alberto de Castro
Capa: Sebastião Rodrigues
Colecção Sucessos Literários nº 26
Editora Ulisseia, Lisboa 1962

Toda agente estava a falar de cinema. Dois dos produtores estavam muito preocupados com a anunciada greve das estrelas e não hesitavam em dizê-lo. Mas o terceiro produtor, do outro lado da mesa, ria-se deles.
- Três mil dólares por semana que eles fazem, porque iriam para greve? – disse ele – Não sejam idiotas. Ninguém faz greve quando ganha tanto dinheiro
- Não podes desfazer-te da ameaça a rir.

- As greves são coisas de que percebo – continuou ele, inclinando-se sobre a mesa a gritar um charuto. – Olhem, as greves nunca são ganhas sem a opinião pública. Está bem. As estrelas fazem greve. E nós dizemos aos jornais: «Não compreendemos. Estamos atónitos. Estamos surpreendidos. Eles ganham de dois mil a cinco mil dólares por semana e não estão satisfeitos! Que querem eles? Condições de trabalho? Um mineiro de carvão passa o dia a cavar debaixo da terra, pelo que recebe três dólares por dia, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos. Protesta ele? Cinco mil por semana e não estão satisfeitos!...» Então os jornais imprimem isso. O público lê. Dentro de pouco o público está a pensar que as estrelas não têm razão para fazer greves. Greves…pft!...

FARTO DA CANALHICE AMERICANA


Carta de Jorge de Sena, datada de 7 de Dezembro de 1973, para Eugénio de Andrade:

Com isto aqui, estou mais triste do que nunca. Os inimigos que há na alta administração empenhados em que o Português não exista ou não se desenvolva (é incrível mas é assim) preparam-se para dar-me um golpe tremendo, não renovando o contrato do rapaz que ensina a língua e é o meu braço direito. Que poderei fazer, sozinho depois com um eventual leitor português? É a cepa torta insuportável. A Literatura Comparada vai indo bem, mas tem-me custado arrelias e cabelos brancos sem fim. Estou literalmente farto da canalhice americana a todos os níveis. E só se vê tudo indo de mal a pior, com o insidioso avanço do autoritarismo fascista, e com um custo de vida que faz com que tudo quanto ganho mal me chegue para sustentar a família. Não sei que voltas dar – e de Portugal é o que se sabe. Estamos desesperados, a Mécia e eu.

Em Correspondência

Legenda: Santa Bárbara, Califórnia

TRUMPALHADAS


Sob o lema Unir a direita, a mobilização convocada pela extrema-direita norte-americana juntou no sábado, na cidade de Charlottesville, estado da Virgínia, nacionalistas de direita, supremacistas brancos, neonazis, membros do Klu Klux Klan vindos de todo o país.

A marcha, considerada pelo Southern Poverty Law Center, um dos maiores «encontros de ódio nas últimas décadas nos EUA», surge na sequência da decisão da Câmara Municipal de Charlottesville de retirar do centro da cidade a estátua de Robert E. Lee, general confederado na Guerra da Secessão, e de passar a chamar Emancipation Park ao parque que tinha o nome do general sulista.

Grupos antifascistas, que apoiam as decisões municipais, organizaram uma manifestação em resposta às dos supremacistas, tendo-se registado confrontos violentos. Depois de a Polícia evacuar o Parque da Emancipação, onde os neonazis pretendiam manifestar-se, uma viatura investiu contra um grupo de contramanifestantes, abalroando-os e matando uma mulher de 32 anos.

Levando bandeiras e escudos com simbologia fascista, e brandindo paus e bastões, grupos de neonazis ainda atacaram vários antifascistas espalhados pela cidade universitária da Virgínia, bem como alguns jovens e crianças negros que foram encontrando pelo caminho.


Donald Trump. De férias num dos seus campos de golfe, aproveitou a sua conta de Twitter para afirmar:

«Devemos estar todos unidos e condenar tudo aquilo que o ódio representa. Não há lugar para este tipo de violência na América. Estejamos Unidos!»

A mensagem teria de ser outra:  uma clara condenação da acção destes grupos de extrema-direita na cidade de Charlottesville.


Mas isso seria exigir muito a Trump que, duarnte a campanha presidencial, foi largamente apoiado por nacionalistas de direita, supremacistas brancos, neonazis, membros do Klu Klux Klan.

domingo, 13 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Helena pormenorizou tudo o que ia comprar com seus vinte mil francos: sapatos de camurça com sola de crepe, pneus para a bicicleta – era razoável – um álbum de reproduções a cores das telas de Gauguin. Ou então renunciar aos sapatos e ao álbum e comprar um aparelho de rádio; aos domingos ouviria os concertos.


Roger Vailland em A Roda da Fortuna

CANÇÕES DE ENTARDECERES


São diferentes os entardeceres dos domingos?
Digo que sim.
O poeta António Reis, dizia que «é o único dia que não repetimos e que dura menos.»
É este enlanguescer da natureza, este vago sofrer do fim do dia. Cores fabulosas, um fulgor que não conseguimos definir, que andam pelo cor-de-rosa, violeta, cor-de-laranja, cor de fogo. Um deslumbramento.
Um canção incontornável dos Simon and Garfunkel: Bridge Over Troubled Water.
A versão original e mais duas interpretações de arrebatar: Aretha Franklin e Roberta Flack.




É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio tirado de um velho número da revista Ler de que não tenho registo da data.

RELACIONADOS



O aparelho de rádio tinha um caixilho de madeira e a face era como uma máscara cega, olhos e boca em panos. Havia a mesma melancolia nos brados dos relatos, nas sinfonias, nas novenas de Fátima e na voz quebrada dos discursos de estado. Como se o espírito nos desse sinal do holocausto, alheadas sobre o enlace das silhuetas: estarmos vedadas de tanta finura, veemência ou persuasão. Ainda hoje me assola a tristeza desses sons que não escuto e me temo de um rádio aberto em surdina à minha beira. Vivíamos sob esse rumor a que só mais tardiamente demos sentido, quando o hóquei patinado se tornou uma paixão cívica.

Maria Velho da Costa em Missa in Albis

Rashid: é a primeira casa que vejo sem televisão.
Paul : Já tive uma, mas estragou-se aqui há uns anos e nunca me decidi a substituí-la. De qualquer das maneiras, prefiro não ter nenhuma. Odeio essas porcarias.
Rashid: Mas assim não pode ver os jogos. Disse-me que era fã dos Mets
Paul: Ouço pela rádio. Assim consigo ver muito bem os jogos. O mundo está na nossa cabeça, lembras-te?

Paul Auster em Smoke

A recordação mais antiga que tenho é a de um rádio. O meu pai chegou a casa com uma caixa, e tirou de lá de dentro uma Pilot Baby. Depois o meu pai disse que ia chegar um técnico para montar a telefonia, e nós ficámos todos muito excitados com aquilo, sobretudo uma tia minha que era um bocado nervosa. O técnico chegou, olhou para a mesa onde estava o rádio, olhou para a ficha, e disse "Isto não pode ficar aqui", e arrastou a mesa até à ficha. Depois ajoelhou-se, ligou o rádio, começou a sintonizá-lo, e ouviram-se uns ruídos estranhíssimos (imita esses ruídos). De repente a casa ficou inundada de música. Teria talvez 4 anos. Recordo-me do meu pai encostado ao rádio a ouvir música. Eu fiquei proibido de mexer no rádio, claro. 

Raul Solnado em Infância de Sarah Adamopoulos

A voz aguda do Abelaira (que anda aflito com as provas de “Enreada Amena” contou-me ontem:
- No domingo fui à “matinée” do São Jorge onde se me deparou a seguinte imagem “assombrosa” (palavra de muito agrado do Abelaira): vários espectadores, de rádio portátil na mão e auscultador no ouvido, não perdiam uma sílaba do relato do futebol. Enquanto assistiam, interessados, ao desenrolar da intriga na tela.
Meu Deus! Já não lhe basta um espectáculo. Querem dois ao mesmo tempo! E não tardará o dia em que levarão também uma televisãozinha de bolso para pôr no colo e espreitar, de vez em quando, um episódio qualquer de folhetim parvo.
Em resumo: encher a vida.

José Gomes Ferreira em Passos Efémeros, 1º Volume dos seus Dias Comuns

A MINHA AMIGA RADIO


Agora que a bola voltou a rolar, a sério, nos relvados do Reino, lembro os meus tempos dos relatos de futebol na rádio. Escrevi rádio mas gosto mais de dizer telefonia.

Quando o futebol era jogado apenas nas tardes de domingo, Inverno às três da tarde. Verão às quatro da tarde.

No restaurante que a Aida teve em Almoçageme, não descansámos enquanto não pusemos, na parte da tasca um velho rádio, que só dava onda média e ondas curtas. E nem sempre!

Assim como uma velha crónica do brasileiro Maurício Neves:

«No princípio era o verbo. O Flamengo era pouco mais do que o burburinho do rádio, composto pelo alvoroço dos locutores e pelo chiado das ondas médias, que meu pai tentava reduzir girando o botão maior, o da sintonia. Pacientemente. Às vezes mexia na antena, mudava o aparelho de lugar alguns milímetros, com o cuidado tenso de quem desarma uma bomba. De repente a voz de bluesman de Jorge Curi enchia a sala: “Anooooteeem... Teeeeempo e placaaaarr no maaiooorrrr do muuuundoooo...” Eu sabia poucas coisas. Mas sabia que maior do mundo era como Jorge Curi chamava o Maracanã, e sabia que logo ele estaria gritando um gol de Zico. Aliás, Zico não. Um gol de Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai seguia olhando o rádio, onde estava escrito Philco acima da tela metálica e furadinha. O som enchia a sala de heróis que circulavam ao redor de nós. Uma sucessão de espectros rubro-negros: Zico tocava a Adílio, que driblava um e abria para Júlio César, o entortador, que entortava um, dois, três, e a bola voltava para Zico que então virava Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai sorria olhando para o rádio: o Flamengo saía dali.»

Os relatos do futebol pela rádio.

As perfeitas tardes de domingo de um tempo perdido para sempre, vozes que ainda ouço apesar de já não andarem por aqui.

As tardes de domingo, os jogos a começarem todos à mesma hora, os relatos na Emissora Nacional, as marchas do John Philip de Sousa, enquanto se aguardava a ligação ao estádio, o Artur Agostinho, o Amadeu José de Freitas, o Nuno Brás e era apenas o relato de um jogo, mais tarde passaram a dois: «atenção Nuno, jogada perigosa».

João César Monteiro, em As Recordações da Casa Amarela, deitado na cama do quarto alugado, ouvindo, num rádio de pilhas, o relato da Emissora Nacional. A voz do locutor, de repente, grita: «golo do Benfica», o João César ergue-se, de braços no ar a vitoriar o golo.

Manuel Alegre, no seu livro Alma, recorda essas tarde de relatos de futebol nas tardes de domingo, a voz de Alfredo Quádrios Raposo que eu já não apanhei:

…os jogos de domingo e os relatos de Alfredo Quádrios Raposo, o melhor locutor desportivo de todos os tempos. Nesse tempo não havia transmissões directas e ao fim das tardes de domingo ainda não se sabiam os resultados. Era preciso esperar pelo resumo da primeira parte e o relato da segunda, que eu ouvia no RCA, em companhia dos meus amigos que não tinham rádio. Ouvíamos então a voz inconfundível de Alfredo Quádrios Raposo anunciar os golos do Peyroteu, os tentos do Julinho, as grandes jogadas do Vasques e do Travassos, os cortes de cabeça de Feliciano, os dribles de Mariano Amaro, a recepção de bola com o peito de Francisco Ferreira, capitão do Benfica. E as defesa do Azevedo, do Capela, do Martins, do Barrigana, as intercepções do Guilhar, os remates fulminantes de Araújo. Ou os nomes raros dos jogadores do Sul, como o Abraão e o Grazina, do Olhanense, o Patalino e o Massano, do Elvas. Eram momentos inesquecíveis, sobretudo quando havia jogos entre os grandes. A minha irmã por vezes ia espreitar por detrás do aparelho e nenhum de nós compreendia muito bem como era possível o jogo estar a decorrer nas Salésias, em Alvalade, no Campo Grande ou na Constituição e nós em Alma a ouvir o relato como se estivéssemos a ver. Seguíamos as palavras, as entoações de voz, as mudanças de ritmo, as pausas. E víamos. Era uma forma de ficção, quase sempre mais verdadeira do que a realidade. Nunca ninguém relatou como Alfredo Quádrios Raposo. Ele era a nossa ligação à capital, ao Estádio, ao jogo. Durante muito tempo ele foi a nossa festa, todos os domingos, ao fim da tarde.
Os jogadores viviam na nossa imaginação como figuras de lenda. Conhecíamo-los apenas das fotografias dos jornais, da revista Stadium e dos cromos que comprávamos embrulhados em rebuçados para depois colarmos numa caderneta. Mas era na voz de Alfredo Quádrios Raposo que verdadeiramente víamos os jogadores. Entravam em nossa casa, todos os domingos, ao fim da tarde. Vinham na voz daquele locutor de quem nunca vi o rosto nem faço a mínima ideia de como era, se alto ou baixo, se magro, se gordo, se velho, se novo. Era uma voz, um brado na tarde triste, um drible, um centro cruzado, um remate de cabeça, uma defesa para canto, uma recarga, um golo. Primeiro no RCA, depois no Telefunken trazido da Alemanha por Tiago de Faria, meu tio, que o deu a meu pai, juntamente com uma espingarda, a troco de uma edição rara, senão mesmo a primeira, da Arte de Bem Cavalgar a toda a Sela, de D. Duarte.
Também esses velhos aparelhos, quando aqueciam, tinham um cheiro. Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar, com Feliciano à ilharga, mais um golo do Sporting contra o Belenenses, no Estádio das Salésias.

DITOS & REDITOS


O que o olho não vê, consciência não julga.

Não corre mais quem caminha mas quem imagina.

Os atrasos têm fins perigosos.

Saúde e paz, que o resto a gente faz.

A vida é como um par de sapatos apertados.

Fácil é ser pedra, difícil é ser vidraça.

Só batendo na cangalha o burro entende.

Nada mais estúpido que um homem julgar-se invulgarmente inteligente.

sábado, 12 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


É que, tantas vezes, neste difícil ofício de viver, quem entra nos caminhos da morte, está a procurar o sentido da vida. Vendo bem; da sobrevivência.

Eduardo Guerra Carneiro em Outras Fitas

Legenda: fotograma do filme O Sabor da Cereja de Abbas Kiarostami

À LUZ DE CANDEEIROS


Rua Natália Correia, junto a Sapadores.

OLHAR AS CAPAS



O Fogo e as Cinzas

Manuel da Fonseca
Colecção Os Livros das Três Abelhas nº 7
Publicações Europa-América s/d

Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido; o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.