sexta-feira, 7 de setembro de 2018
GRACELAND
O Miguel e a Cristina, durante o mês de Agosto, andaram em férias pela América.
Trouxeram-me postais e outras maravilhas.
Irei partilhá-las por aqui.
A porta do frigorífico passa a contar com uma nova imagem: Graceland, a casa de Elvis Presley.
DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA
Mário de Carvalho é
um escritor muito cá de casa.
Dei com este
admirável texto que publicou no Facebook e que encontrei no blog Aventar.
Mário de Carvalho
nasceu em Setembro de 1944, eu em Março de 1945.
Morava na Rua das Enfermeiras
da Grande Guerra, eu na Rua Mestre António Martins, ambas para os lados da
Penha de França.
Andámos no Liceu Gil
Vicente, a caminho sentíamos o delicioso cheiro, a chocolate, da Fábrica
Favorita, ali a Sapadores, frequentámos as matinés do Cine-Oriente mas nunca
nos encontrámos.
Talvez um dia.
«Era que trocássemos umas ideias sobre o assunto.»
«Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus
superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de
Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros
miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais
velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a
Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de
ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em
torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o
«venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe
de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe
do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e
Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu
nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças
inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a
acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos
escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca
fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui
em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo
assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca
vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e
papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros
do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os
presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que
tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada,
vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e
insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar
durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e
ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca
fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar
inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave,
no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca
vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de
sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se
encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas,
nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu
nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante
o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio
desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum
cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes
arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da
prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio
memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu
nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e
nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e
comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse
censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido
gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz
num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar
com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial
por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça
aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num
autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado.
Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por
fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da
Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui
sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde.
Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me
apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que
queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui
expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a
minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui
precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na
realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações
«a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar
ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e
condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente
quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze
noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e
ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci
as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que
tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado
à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente
do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade
de conhecer o fascismo.»
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
À BEIRA DE UM PRECIPÍCIO
Carta de António José
Saraiva, desde Amsterdão, 16 de Fevereiro de 1973, para Óscar Lopes onde volta
à divinização de Agustina Bessa-Luís («A
Agustina é infinitamente mais «realista» que o Redol, porque os livros do redol
são mortos e os da Agustina vivos. Quando a leio sinto-me à beira de um precipício,
e por isso não aguento lê-la mais que uma dúzia de páginas seguidas») e um
breve comentário sobre as colónias portuguesas:
As minhas correcções à parte da Agustina visaram sobretudo a dar-lhe o
lugar que ela merece e que não é o de uma simples «escritora feminina». A
Agustina é um dos dois grandes escritores mundiais que Portugal produziu neste
século e está a ser vítima de uma certa mesquinhez nacional, bem ajuizadinha,
cujos grandes símbolos são no nosso século o Teófilo e o Salazar. Não há dúvida
que perdemos nos últimos séculos uma certa capacidade de ver grande como
tiveram o Camões, o Vieira, o Oliveira
Martins, o Pessoa e até certo ponto o Sérgio. Secou-se-nos o grãozinho de
mostarda. Dizer que os últimos livros dela não são tão bons como os primeiros é
fugir à questão. E quanto a não ser traduzida, é lá com os tradutores e os
comerciantes de livros.
Quanto às colónias só há uma alternativa: ou liquidar tudo, limpando
saí as mãos (estado branco independente, ou negociações com os movimentos, ou
outra qualquer solução que entregue aquilo ao diabo); ou então procurar criara
uma sociedade em que os brancos e pretos convivam. Mas esta segunda solução
parece cada vez mais impossível. Somos um país pequeno, pobre, resignado ao
destino que não conhecemos nem queremos conhecer! Isso dói-me.
OLHAR AS CAPAS
Sinais de Fogo
Jorge de Sena
Nota: Mécia de Sena
Prefácio: Arnaldo Saraiva
Capa: A. Saldanha
Coutinho
Edições 70, Lisboa,
Maio de 1981
Uma saciedade contraditória, como de saudade lancinante que se adiasse
tranquila sem deixar de ser agudamente física, se me ajustava à frustração
humilhada. Limpei-me com o lenço. Olhei aflito em volta, com a sensação que antes
não tivera de milhares de olhos escarninhos a observar-me o ridículo. Mas não
havia ninguém. Caminhei até ao murete da linha dos comboios, e procurei na
vedação de arame, que encerrava as linhas pelo outro lado, uma abertura por
onde passar. Encontrei-a mais adiante. Como num entressonhar, fui andando até
chegar a uma azinhaga ao fim da qual via postes de eléctrico. Foi quando uma
onda asfixiante de bem-estar, um bem estar irónico, sardónico, casquinante,
estourou dentro de mim num silenciosos grito que retiniu nos tímpanos, nos
muros, na atmosfera já sombria da azinhaga.
- Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço…
Febrilmente, e ao mesmo tempo com a serenidade de quem está seguro de
que as vozes lhe falam e não vão calar-se (eu já ouvia as cadências
continuar-se), escrevi:
Quanto de ti,
amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre-
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego-
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte-
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor nos traiu-
Quanta traição existe em possuir-te a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro-
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará-
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só-
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro-
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida-
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam-
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre-
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego-
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte-
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor nos traiu-
Quanta traição existe em possuir-te a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro-
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará-
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só-
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro-
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida-
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam-
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.
Etiquetas:
Jorge de Sena Livros,
Jorge de Sena Poemas,
Olhar as Capas
HAVEMOS DE SER OUTROS AMANHÃ
havemos de ser outros amanhã
ou daqui a momentos ou já agora
e dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
em que noutras horas chegámos a nascer
e então meu amor
(não sei se reparaste mas é a primeira vez
que escrevo meu amor)
teremos nos olhos a cor sem cor
das roupas muito usadas
e guardaremos os despojos das noites
em que tudo sem querer nos magoava
nas gavetas daqueles velhos armários
com cheiro a cânfora e a tempo inútil
onde há muitos anos escondemos
um postal da Torre de Belém em tons de azul
e um bilhete para a matiné das seis no São Jorge
onde um homem (que muitos anos depois
segundo me contaram se suicidou)
tocava orgão nos intervalos em que
nos beijávamos às escondidas
e dessas gavetas rebenta a poeira do tempo
que matámos a frio dentro de nós
com os filhos que perdemos em camas de ninguém
e as pedras que nasceram no lugar das cinzas
e havemos de perguntar (mesmo sabendo que
já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
por que nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar
mas enquanto vai escorrendo de nós o pó
desses lugares onde ainda há vozes
que não desistiram de perguntar por nós
vamos bebendo a água inicial das nossas línguas
um ao outro devolvendo o pouco
que conseguimos salvar de todos os dilúvios
ou daqui a momentos ou já agora
e dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
em que noutras horas chegámos a nascer
e então meu amor
(não sei se reparaste mas é a primeira vez
que escrevo meu amor)
teremos nos olhos a cor sem cor
das roupas muito usadas
e guardaremos os despojos das noites
em que tudo sem querer nos magoava
nas gavetas daqueles velhos armários
com cheiro a cânfora e a tempo inútil
onde há muitos anos escondemos
um postal da Torre de Belém em tons de azul
e um bilhete para a matiné das seis no São Jorge
onde um homem (que muitos anos depois
segundo me contaram se suicidou)
tocava orgão nos intervalos em que
nos beijávamos às escondidas
e dessas gavetas rebenta a poeira do tempo
que matámos a frio dentro de nós
com os filhos que perdemos em camas de ninguém
e as pedras que nasceram no lugar das cinzas
e havemos de perguntar (mesmo sabendo que
já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
por que nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar
mas enquanto vai escorrendo de nós o pó
desses lugares onde ainda há vozes
que não desistiram de perguntar por nós
vamos bebendo a água inicial das nossas línguas
um ao outro devolvendo o pouco
que conseguimos salvar de todos os dilúvios
Alice Vieira em Dois Corpos Tombando na Água
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
DUAS ATITUDES
26 de Janeiro de 1947
Há apenas duas atitudes – a cristã e a estóica. Provàvelmente a atitude
comunista serve para as fundir – tem a caridade e o sentido da dureza, sabe
afinal que tudo é duro e no entanto faz o bem.
Cesare Pavese em Ofício de Viver
Etiquetas:
Cesare Pavese Leiruras,
Leituras
OLHAR AS CAPAS
A Fera Tem de Morrer
Nicholas Blake
Tradução: Lima da
Costa
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº
162
Livros do brasil,
Lisboa s/d
20 de Junho de 1937 – Vou matar um homem. Não sei o seu nome, não sei
onde vive, não tenho ideia de com quem ele se parece. Mas vou descobri-lo e
matá-lo…
Deve perdoar-me esta abertura melodramática, amável leitor. Soa a
passagem duma das minhas novelas policiais, não é? Sòmente acontece que esta
história nunca será publicada, e que o «amável leitor» é uma delicadeza
convencional. Proponho-me cometer o que o mundo chama «um crime»; todos os
criminosos, que não têm cúmplices, precisam de um confidente: a solidão, o
isolamento aterrador e a emoção do crime são também demasiadamente fortes para
que um homem os possa manter dentro de si. Mais cedo ou mais tarde contará
tudo e, se ele se mantiver firme, o seu
super-ego atraiçoá-lo-á – aquele moralista estrito com quem brinca ao gato e ao
rato, umas vezes furtivo, outras timorato, outras, ainda, absolutamente seguro,
forçando o criminosos a dobrar a língua, induzindo-o às confidências, pondo-o a
nu, fazendo de agente provocador. Todas as forças da lei e da ordem seriam
impotentes contra um homem completamente destituído de consciência. Mas bem
dentro de todos nós existe aquele impulso para fazer sacrifícios – um sentimento
de culpa, o traidor de portas a dentro. Somos denunciados pelo que ele tem de
falso. Se a língua se recusa a confessar, as acções involuntárias o farão. É
por isso que o criminoso volta à cena do crime. É por isso que estou a escrever
este diário. Você, meu leitor imaginário, hipócrita, meu semelhante, meu irmão,
vai ser o meu confessor. Não lhe esconderei nada. Será você quem me salvará da
forca, se isso for possível.
Etiquetas:
Lima de Freitas,
Nicholas Blake,
Olhar as Capas,
Romances Policiais
O PERFUME DO VERÃO
Deitámo-nos alegremente em leitos de juncos frescos.
Tinham podado há pouco as videiras e, sobre nós, os choupos
e ulmeiros murmuravam como a água que ali passava
vinda da gruta onde vivem as ninfas.
À sombra, mas quentes pelo sol, cantavam as cigarras e
sob as silvas coaxava uma rã. Ouviam-se
a cotovia e o pintassilgo, a rola arrulhava as abelhas,
douradas dançavam em volta da fonte.
Tudo cheirava ao tempo da fruta,
ao perfume do verão.
terça-feira, 4 de setembro de 2018
POSTAIS SEM SELO
Quando se acredita em milagres, já não há nada a esperar da esperança.
José Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis
Etiquetas:
José Saramago,
Postais Sem Selo
O QUE SE ESCREVE QUANDO JÁ A MORTE VEM SUBINDO A ESCADA
Apanhou a carta do chão, meteu-a no sobrescrito, escondeu-a entre os
livros, mas não se há-de esquecer de procurar um sítio mais seguro, um dia
destes vem Lídia fazer a limpeza, dá com a carta, e depois, é certo que ela, a
bem dizer, não tem quaisquer direitos, se aqui vem a casa é porque a vontade
lhe puxa, não porque eu lho peça, mas oxalá não deixe de vir, que mais queria
Ricardo Reis, ingrato homem, meteu-se-lhe uma mulher na cama de seu livre
gosto, assim não precisa de andar por aí arriscado a apanhar uma doença, há
homens com muita sorte, e este ainda queixoso só porque não recebeu de Marcenda
uma carta de amor, não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas, isto
é o que se escreve quando já a morte vem subindo a escada, quando se torna de
súbito claro que verdadeiramente ridículo é não ter recebido nunca uma carta de
amor. Diante do espelho do guarda-fato, que o reflecte em seu inteiro corpo,
Ricardo Reis diz, Tens razão, nunca recebi uma carta de amor, uma carta que só
de amor fosse, e também nunca escrevi uma carta de amor, nem por metade dela ou
minha metade, esses inúmeros que em mim vivem, escrevendo eu, assistem, então a
mão me cai, inerte, enfim não escrevo.
José Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis
Etiquetas:
Cartas,
José Saramago Leituras,
Leituras
RELACIONADOS
Portugueses na Califórnia, a saudade, sentimento a remeter para uma
balada do folclore açoriano, que José Afonso canta, no seu primeiro Lp «Cantares do Andarilho», com uma simplicidade
simplesmente arrepiante.
Saudades.
Ó Tirana saudade
Ó Tirana saudade
Ó Tirana saudade
Saudade, ó minha saudadinha
Foste nada no Faial
Foste nada no Faial
Ó Tirana saudade
Ó Tirana saudade
Saudade, ó minha saudadinha
Foste nada no Faial
Foste nada no Faial
Foste nada no Faial
No Faial baptizada na Achadinha
No Faial baptizada na Achadinha
Saudade onde tu fores
Saudade onde tu fores
Saudade onde tu fores
Saudade leva-me podendo ser
Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Saudade onde tu foras morrer
Saudade onde tu fores
Saudade onde tu fores
Saudade leva-me podendo ser
Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Saudade onde tu foras morrer
A saudade é um luto
A saudade é um luto
A saudade é um luto
Um amor, um amor, uma paixão
É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
Que me morde, que me morde o coração
A saudade é um luto
A saudade é um luto
Um amor, um amor, uma paixão
É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
Que me morde, que me morde o coração
OLHAR AS CAPAS
Portugueses na Califórnia
Helder Pinho
Prefácio: Jorge de
Sena
Posfácio: Eduardo
Mayone Dias
Capa: João da Câmara
Leme
Editorial Notícias,
Lisboa, Outubro de 1978
A saudade e a solidariedade foram as duas características bem
portuguesas que mais nos revelaram os nossos compatriotas. Elas aprendidas e
assimiladas no berço natal, constituem em muitos dos casos a razão de ser da
ligação do emigrante
À pátria que o viu nascer.
- É a maior catástrofe do açoriano, a saudade. Ele não é capaz de
esquecer nada, quando emigra, leva tudo consigo: a ilha, o pai, a mãe, os
gatos, os cães, os coelhos… As ilhas, aquelas queridas ilhas, andam sempre às
costas com ele, açoriano, e, quando volta a pisar terra portuguesa a primeira
coisa que faz é perguntar: ó minha mãe onde é que está isto e aquilo que ali
estava?...
Etiquetas:
Helder Pinho,
Jorge de Sena,
Olhar as Capas
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
POSTAIS SEM SELO
Conhecer o mal é já uma defesa. Onde não há inocência, pode haver
pecado; mas onde não há sabedoria, há sempre desgraça.
Agustina Bessa-Luís
em A Sibila
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
Estava a passar os
olhos por um texto de Camille Paglia, publicado na revista Ler, quando os olhos descansaram nesta frase:
«A primeira personagem feminina e militante mais influente dessa época
foi, provavelmente, Ursula Andress no papel de Honey Rider, uma caçadora de
búzios de temperamento agressivo, no primeiro filme de James Bond, O Agente
Secreto 007, de 1962, em que ela sai do mar num deslumbrante biquíni branco e
com uma faca presa à anca».
É de facto, uma cena
fascinante e arriscaria a dizer que o sucesso futuro das fitas de Bond, o
agente secreto 007 de Sua Majestade com ordem para matar, tem algo a ver com
essa cena.
My Name is Bond, James
Bond.
Bond como o seu
criador, Ian Fleming, gostava de dizer:
«Detesto porções
pequenas de tudo quanto é bom.»
Durante alguns anos fui
um espectador das fitas de Bond, nunca um seguidor incondicional , acabando por
desligar-me quando Sean Connery deixou de o interpretar.
Ian Fleming teria preferido David Niven em vez
de Connery.
Enfim…
Há uns anos, os críticos andaram a tecer umas loas sobre o estupendo desempenho de Daniel Craig em Casino Royale e eu embarquei.
Foi o meu último Bond.
Não desgostei.
O filme tem todos os ingredientes habituais; cenas de
pancadaria, aquelas perseguições malucas
em carros descapotáveis, a engenharia bélica e electrónica com que ele se vai
safando dos inúmeros perigos e
armadilhas e uma longa sequência de um jogo de poker, que acho muito
bem esgalhada, mesmo não percebendo patavina
do jogo.
Há também uma sempre excelente Judi Dench a fazer de “M”, a superior
hierárquica de Bond, e a dizer, para quem a quer ouvir, de que tem
«saudades da Guerra Fria», tal como
Victor da Cunha Rego disse que um
dia ainda haveríamos de lamentar o fim
da União Soviética, porque é sempre bom ter um inimigo e à falta dele o mundo tornou-se mais perigoso.
Um pormenor de diálogo do filme:
James Bond – Você
não faz o meu género.
Vesper Lynd – Por
ser inteligente?
James Bond – Por ser solteira!
A última imagem do filme é uma assombrosa mansão nas
margens do Lago Cuomo.
Claro que os filmes de Bond devem muito a Sean Connerey,
às Bong girls e às canções, que ficaram para a história, de alguns dos filmes.
O primeiro filme,
Doctor No, não tem canção mas apenas aquele lance de jazz que ficou conhecido
como James Bond Theme.
Tenho um velho Cd que
reúne as melhores canções dos filmes de James Bond que ficaram para a história
e cito estas:
From Russia With Love – Matt Munro
Goldfinger – Shirley Bassey
We Have All The Time
in The Word – Louis Armastrog
Thunderball – Tom Jones
Diamonds Are Forever – Shirley Bassey
UM VIAJANTE QUE PERDEU UMA LIGAÇÃO
Nada mais fácil do que identificar-se comigo, por agora o meu
comportamento exterior é o de um viajante que perdeu uma ligação, que é uma
situação que faz parte da experiência de toda gente; porém uma situação que se
verifica no início de um romance remete sempre para qualquer outra coisa que
aconteceu ou que está prestes a acontecer, e é esta qualquer outra coisa que
torna arriscada a identificação comigo, para ti leitor e para ele autor; e
quanto mais cinzento, vulgar e indeterminado for o início deste romance mais tu
e o autor sentirão crescer uma sombra de perigo sobre a fracção de «eu» que
irreflectidamente investiram no «eu» de uma personagem de que ignoram a
história que ela traz consigo, como aquela mala de que tanto desejava conseguir
livrar-se. Livrar-me da mala devia ser a primeira condição para restabelecer a
situação anterior: anterior a tudo o que sucedeu a seguir. É a minha intenção
quando digo que gostaria de remontar o curso do tempo: gostaria de apagar as consequências
de certos acontecimentos e restaurar uma condição inicial. Mas todos os
momentos da minha vida a carretam um montão de factos novos, e todos estes
factos novos acarretam s suas consequências, pelo que quanto mais tento voltar
ao momento zero de que parti, mais dele me afasto: embora tendo todos os meus
actos a intenção de apagar consequências de actos precedentes e conseguindo até
obter resultados apreciáveis neste apagamento, que me abrem o coração a
esperanças de alívio imediato, contudo tenho de considerar que cada uma das
minhas acções para apagar acontecimentos precedentes provoca uma chuva de novos
acontecimentos que complicam ainda mais a situação anterior e que terei de
tentar apagar por sua vez. Por isso tenho de calcular bem todas as acções de
modo a obter o máximo de apagamento com o mínimo de recomplicação.
Italo Calvino em Se Numa Noite de Inverno Um Viajante
Etiquetas:
Italo Calvino Leituras,
Leituras
OLHAR AS CAPAS
Os Meus Amores
Trindade Coelho
Portugália Editora,
Lisboa, Junho de 1962
No velho casarão do
convento é que era a aula. Aula de primeiras letras. A porta lá estava,
com fortes pinceladas vermelhas, ao cimo da grande escadaria de pedra, tão
suave que era um regalo subi-la. Obra de frades, os senhores calculam... Já
tinha principiado a aula quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um
silêncio nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua
tabuada, num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz
da Helena dizer para o Sr. Professor, um de óculos e cara rapada, falripas
brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:
– Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha.
Oh!! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali estava a encomendinha! – Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?
E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu entre os joelhos do Sr. Professor, com o boné numa das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.
Choraminguei, quis sair na companhia dela.
– Não, agora o menino fica – disse-me a Helena.
– Isto aqui é uma escola onde se aprende a ler. – E agachando-se, diante de mim: – Olhe tanto menino, vê?
– Mas fica tu também... – disse-lhe eu então.
Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, iracundo:
– Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai tudo raso com bolaria! Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, pelos modos. Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes; cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão principalmente.
– Isto é preciso muita paciência, Sr.ª Helena, muita soma de paciência. Um mestre precisa de ser um santo –, (Pausa. Olho duro sobre as bancadas.) – Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa hora entrasse...
– Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha.
Oh!! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali estava a encomendinha! – Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?
E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu entre os joelhos do Sr. Professor, com o boné numa das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.
Choraminguei, quis sair na companhia dela.
– Não, agora o menino fica – disse-me a Helena.
– Isto aqui é uma escola onde se aprende a ler. – E agachando-se, diante de mim: – Olhe tanto menino, vê?
– Mas fica tu também... – disse-lhe eu então.
Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, iracundo:
– Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai tudo raso com bolaria! Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, pelos modos. Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes; cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão principalmente.
– Isto é preciso muita paciência, Sr.ª Helena, muita soma de paciência. Um mestre precisa de ser um santo –, (Pausa. Olho duro sobre as bancadas.) – Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa hora entrasse...
Etiquetas:
Olhar as Capas,
Trindade Coelho
domingo, 2 de setembro de 2018
DO FUNDO DO ABISMO
Do fundo do abismo
é que te falo.
Ou me estendes a mão
ou não a estendes.
Disso depende haver
ou não, a madrugada.
Mário Castrim em Do Livro dos Salmos
Etiquetas:
Leituras,
Mário Castrim Salmos
OLHAR AS CAPAS
Noite de Cães
Álvaro Guerra
Círculo de Leitores,
Lisboa, Outubro de 1971
Reconciliação com o absurdo? talvez, talvez seja este conforto de estar
viva entre objectos de acaso, tão desenraizada quanto possível, os pinceis, as
tintas, a espátula, as telas brancas, a autonomia das cores, o resto – móveis
reunidos sem critério – eu tecendo planos de espera e desafio, agora que a
morte de Miguel me completa o remorso que tentarei combater para ganhar-me;
para trás ficaram os meus sonhos de menina, alguns vividos, mesmo os sonhos de
amor, sobretudo os sonhos de amor… Diante de mim, o imenso espaço branco de
outros sonhos para viver.
Etiquetas:
Álvaro Guerra Livros,
Olhar as Capas
sábado, 1 de setembro de 2018
OLHAR AS CAPAS
O Rival
Roger Vailland
Tradução: António
Neves-Pedro
Capa: Aramando Alves
Colecção Metamorfoses
nº 13
Editorial Inova,
Porto, Janeiro de 1975
- Tem entrevista marcada?
- Não.
- Então faça o favor de preencher uma ficha.
Mignot escreveu:
NOME: Fréderic Mignot
FINALIDADE DA VISITA: da parte de secção de Clusot do Partido
Comunista Francês.
- Faça a fineza de esperar um momento, - disse o contínuo, que depois
se dirigiu, coxeando, para escada.
Mignot teve a impressão que o velho lhe lançara um olhar espantado. Na
realidade, há muito que o velho era demasiado míope para ser capaz de ler,
mesmo quando punha os óculos: e era apenas isso que lhe dava aquele ar
assombrado.
- Mande entrar esse senhor imediatamente. – disse Letourneau, que ficou
à espera, com o coração a bater com força.
«Aí está a iniciativa misteriosamente anunciada ontem pela pequena
Amable», pensou ele. «Cumpriu a sua promessa». Estava disposto a fazer algo de
muito importante «introduzindo o inimigo na fortaleza». «Aqui está finalmente o
meu primeiro acto de coragem», disse para si mesmo.
Mignot preparara cuidadosamente toda uma série de argumentos para
persuadir Letourneau a petição para a libertação de… Mas Philippe dispôs-se a
assinar mesmo antes de ouvir uma única palavra.
«Então é apenas isto!» pensava ele. Chegara a temer que Pierrette
exigisse dele uma profissão de fé pública, como, por exemplo, ir ao domingo de
manhã, à saída da missa, vender, berrando o L’Humanité. Tivera receio de ser ridículo. Não que ele ligasse grande importância
à opinião que dele fariam os burgueses, e sabia até, pelo contrário, que os
seus amigos de Lyon ou de Paris teriam achado extremamente divertido que ele andasse a gritar L’Humanité pelas ruas de uma sede de concelho
provincial. Mas temia parecer ridículo aos olhos dos operários: «Não me saberia
comportar como eles, ficaria deslocado.»
Etiquetas:
Armando Alves,
Olhar as Capas,
Roger Vailland Livros
O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS
De amor nada mais
resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te
enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes.
Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em
nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia em Poesia
Completa
Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da
fotografia.
AGORA QUE É SETEMBRO
Procurar cheiros. Os
dias de chuva.
Uma velha canção de
Bécaud, também a contagem dos dias que
faltam para que seja Natal. Outra vez.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

























