sexta-feira, 18 de março de 2016

AS CAMÉLIAS FLORESCEM NO INVERNO


Tenho malas espalhadas pelas minhas diversas
idades, nem grandes, nem pequenas, assim
assim, prontas para partir, com o necessário para
sobreviver até à próxima idade; preciso destas
inutilidades à minha volta, não de diários que não sei
escrever, mas de malas cheias de quase nada: tantas
idades que já tive, malas em cada uma delas, um dia
deixo de ter idades: que mal tem? começo a desfazer
as malas sem ninguém dar conta; as camélias
florescem no inverno, dói-lhe o frio e florescem,
são elas que nos lembram que há árvores
no inverno; um dia deixo de ter idades, acocorado
ao pé das camélias, o inverno a doer nas árvores,
e em mim

Nuno Higino, poema colocado por Nicolau Santos na sua coluna Cem por Cento do Expresso de 22 de Janeiro de 2106.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 17 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Tive sempre uma pequena bússola – para me levar aos pais, aos amigos, aos trabalhos de que gostava. E guiou-me para as auroras boreais dos livros e dos filmes.
A imaginação é um barco.
E se fomos inúteis, de modo nenhum o fomos completamente.


Legenda: pintura de Mihai Criste

A FACE DO AR


O rosto nu perante o mar.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar.
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio.

António Ramos Rosa em Respirar a Sombra Viva

OLHARES


Um pombo descansa na estátua de São Vicente, padroeiro de Lisboa, nas Portas do Sol.

quarta-feira, 16 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Bom é agradecer a luz do coração com que se fazem amigos. Bom é amar em pequenas porções, momentos, pessoas e tudo que não faz costume. Arregaço as mangas, não para escrever um livro, mas para me acotovelar com a multidão. Oh gente tão lenta em perceber que a amamos! É crueldade dar aos livros o tempo com que nascemos. Construir a natureza é o que nos faz calcular a sua vastidão.

Agustina Bessa-Luís em Caderno de Significados

Legenda: fotografia de Gregory Scrawl

FADO PARA SUECOS


Os novos nomes do fado também aparecem na Enciclopédia do fado para suecos

  En Vagvisare Till de Ulf Bergqvist.

OLHAR AS CAPAS


O Jardim do Paraíso

Ernest Hemingway
Tradução: Guilherme de Castilho
Capa: José Teófilo Duarte
Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1998

Na estrada reluzente que subia entre os pinheiros, quando saiu do hotel, sentia o esticão nos braços e nos ombros e o impulso dos pés curvos contra os pedais quando subia sob o sol ardente com o cheiro dos pinheiros e a leve brisa que vinha do mar. Inclinou o corpo para a frente, apoiou-se levemente nas mãos e sentiu o ritmo desconcentrado no princípio da subida começar a suavizar quando passou o marco dos cem metros e depois o primeiro sinal vermelho dos quilómetros e depois o segundo. No promontório a estrada virava para seguir à beira-mar e ele travou e apeou-se e pôs a bicicleta ao ombro e desceu com ela pela vereda até à praia. Encostou-se a um pinheiro q exalava o cheiro a resina no dia quente e desceu para os rochedos e despiu-se e arrumou as sapatilhas com os calções, a camisa e o boné e mergulhou das rochas no mar fundo e frio e transparente.

COMO UMA VULGAR PESSOA


ET: antes de um extraterrestre é alguém, que como uma vulgar pessoa, quer voltar a casa.

Autor desconhecido

Legenda: fotograma do filme E.T.

terça-feira, 15 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Mas só me lembrava, apavorado, de uma anotação de Shakespeare, quando diz que um homem que não gosta de música está pronto a cometer os piores crimes.

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente, 3º Volume.

OLHARES


Marilyn Monroe a rockar com o actor Eli Wallach, perante o olhar divertido de Clark Gable.

Fotografia tirada no intervalo das filmagens de Os Inadaptados.

QUOTIDIANOS


E às quintas-feiras almoço nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o Vitorino. Os Moinhos da Funcheira são o subúrbio do subúrbio, depois da Venda Nova, da Brandoa, da Pontinha: toda a gente acha feio e eu acho lindo. De onde me virá este amor sincero, genuíno, pelo que as pessoas consideram de mau tom, leões de calcário, duendes de gesso, quadros de queimadas, cerâmicas de casa de banho com cisnes doirados?
Quando digo que almoço às quintas-feiras nos Moinhos da Funcheira digo que a empregada nos trata por
- Meu querido
nos traz salsichas com ovos estrelados e nos sentimos indecentemente felizes
Com pena da gente a empregada diz
- Meus queridos
e  soma-nos a conta na toalha.

António Lobo Antunes em Terceiro Livro de Crónicas

Legenda: fotografia do blogue Orgulho Damaiense.

ESTUDAR PARA POETA


Fui sempre um péssimo aluno, no leviano julgamento professoral. Nem me esforçava por pompear virtudes inventadas, pois os programas escolares divergiam totalmente dos meus cujo desiderato, embora inconsciente, resumo agora nestas palavras: «estudar para poeta.»
Quanto às provas do fim do ano, sempre as considerei autênticos sacrifícios de humilhação vexada diante de senhores que falavam numa linguagem inquisitorial de que eu só a custo entendia algumas noções absurdas.
Os meus cursos pouco tinham a ver com os das classes que fingia frequentar. Ou apenas coincidiam com uma ou outra disciplina. A do português, por exemplo (gramática à parte).
Em português, desde que me pedissem que despejasse de cor os artigos, as preposições, os tempos dos verbos, etc., podia pelo menos exibir-me nos pontos escritos que (malbaratados tempos esses!) nunca ninguém me ensinou como se planeavam e faziam. Todos me afiançavam que se tratava de ter nascido com jeito ou sem jeito. Redigir não se ensinava. Nem se aprendia. Tudo se resumia a uma questão de jeiteira. Ou se tinha ou não se tinha habilidade. Como o meu caso evidenciava à maravilha.
Do que eu gostava sobretudo era de faltar à escola – frequentar a liberdade, uma das cadeiras básicas do meu curso especial, tomar contacto com a tumultuosa riqueza da cidade nas aulas livres das ruas, dos cafés, dos bilhares, da feira da ladra, das ruelas sórdidas, onde paradoxalmente os miúdos ostentavam a fome através das panças enormes. Tudo isto entremeado com uma ou duas horas de leituras repoltreadas de livros não recomendados pelos professores que, no entanto, me ensinaram uma disciplina fundamental: a do tédio. (Sem essa aprendizagem poderia lá ter aguentado tantos anos de bocejos!).
Em todo o caso sempre reduzi ao mínimo o enfado de ouvir falar de aritmética, por exemplo. Nos anos normalmente incautos da instrução primária, preferia substituí-la pela contagem rumorejante das folhas das amoreiras do caminho da Charca, para calcular quantos bichos-da-seda conseguiria manter na caixa de sapatos oferecida pela família para meu laboratório pessoal, em que gastava horas a ver criar vida e fabricar casinhas de cores redondas com uma espécie de cuspo em fios.

José Gomes Ferreira em Coleccionador de Absurdos

segunda-feira, 14 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


A única alegria neste mundo é a de começar. É belo viver, porque viver é começar, sempre, a cada instante. Quando esta sensação desaparece – prisão, doença, hábito, estupidez – deseja morrer-se.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

OLHARES


Lisboa.
Telhados de Alfama.

NOTÍCIAS DO CIRCO


POR UMA NECESSIDADE SENTIMENTAL


Uma solidão irredutível perpassa por todo a obra de Fernando Pessoa.

Amiúde deixa escorrer essa solidão pelos seus poemas e outros escritos, principalmente pelo Livro do Desassossego:

Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto, escrito, então, parece-me a eternidade.

O dia 14 de Março de 1916 apanha-o num dessas solidões desesperadas. 

Nesse dia escreve uma carta a Mário Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do "Marinheiro" ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que me sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena - chia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.
Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio amanha, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no "Livro do Desassossego". Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
De que cor será sentir?
Milhares de abraços do seu, sempre muito seu,

Fernando Pessoa

P.S. - Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características...
Você acha-me razão, não é verdade?

domingo, 13 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Infelizmente, Portugal é uma coisa tão medíocre, tão reles. E tão mesquinha, que na falta de inimigos sinceros (que um inimigo português nunca é), a gente tem de contentar-se reconhecidamente com a falta de pontaria dos admiradores devotados – que todos gostam porque sim.

Jorge de Sena em Correspondência com Eduardo Lourenço

OLHARES


Girassóis de plástico na varanda.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Bernardo Ferrão no Expresso.

O LUNA PARQUE


Recordo-me perfeitamente. Era esplêndido, ir aos sábados ao Luna-Parque com a família.
Logo à entrada havia uma série de barracas de tiro ao alvo, com meninas simpáticas a chamar pela gente. Foi aí que o primo Rodrigo, ao disparar com o canhão de 12, se enganou e ficou sem a cabeça.
Havia também carrinhos com amendoins, sorvetes e aquele algodão de açúcar que nos deixava todos lambuzados. Sopeiras e magalas aos pares, de mão dada, a olhar para tudo. Vejam lá há quanto tempo isto foi!
E a Montanha Russa! Ah, a Montanha Russa, como eu gostava de andar nela! Um sábado íamos todos na Montanha Russa. No meio do entusiasmo, o tio Leocádio deu um empurrão à avó Amélia, lá mesmo no alto da maior subida. Sem querer. Esborrachou-se toda cá em baixo, pobre avozinha. Tivemos pena.
Era realmente divertido. Nessas tardes fartava-me de comer tremoços e até bebia o meu pirolito.
Havia também a Grande Roda. Lá de cima via-se o Parque todo, ouvia-se a musiquinha que nos chegava como um som de distância. Era bonito. Certa vez, quando estávamos já na segunda volta, a tia Clarinda inclinou-se para ver melhor e ficou entalada nas engrenagens. Deu um certo trabalho a tirar dali os restos, coitados dos empregados.
No Comboio Fantasma foi-se o tio Geraldo. À saída, quando as portas se abriram e nos libertámos daquela escuridão medonha onde toda a gente dava gritinhos, demos por falta dele. O meu pai disse-me discretamente que devia ter sido um esqueleto que o apanhou. A verdade é que nunca mais o vimos.
E o papagaio que tirava a sina, lembram-se? Metiam-se dez tostões numa caixinha e o papagaio lá ia com o bico, zás, buscar a nossa sina. Como era engraçado!
Mas divertido, divertido mesmo, era o Grande Chicote. Levava-se cada safanão! Os carros batiam uns contra os outros e fartávamo-nos de rir. O Zezito, o filho da tia Josefa, levou um safanão tal que partiu a espinha. Era bom. Que saudade!
Depois comiam-se também umas farturas e eu até tinha direito a um copinho de abafado.
Quando chegava Outubro, com a melancolia das primeiras chuvas e as folhas douradas começando a cair das árvores, o Luna-Parque fechava e eu ficava já a pensar no ano seguinte.
Então o meu pai fazia as contas. Além de nós ali em casa, ainda sobrava o tio Inácio do Ministério, o primo Jerónimo que estava no Brasil, a prima Josefina que depois casou com o Clarimundo da Fonseca, devem estar lembrados, e mais alguns. A família, por esses tempos, era grande, graças a Deus.
Há quantos anos!
Como o tempo passa!
 

Mário-Henrique Leiria em Novos Contos do Gin

Legenda: pintura de John French Sloan

sábado, 12 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Não tenho interesse nenhum em ser rico.
Compreendo o vosso espanto,
Mas compreendo mesmo perfeitamente o vosso espanto.
Confesso que é até por causa dele
Que não tenho nenhum interesse em ser rico.

Eduardo Valente da Fonseca em Mitologia do Nosso Cotidiano

OLHARES


Florida, 1957.
Uma praia onde se passeiam gentes, carros e motas.

OLHAR AS CAPAS


Contos

Vários Autores
Capa: José Araújo
Seis reproduções de quadros a óleo de João Abel Manta
Colecção O Campo da Palavra
Editorial Caminho, Abril de 1985

O Dr. António de Lima Soares, o cristalógrafo, levantou-se nessa manhã de Dezembro cansado do mundo. Não é a própria vida todo um longo processo que conduz à exaustão? Só que ele ia já nos sessenta e cinco anos e ansiava mais pela morte do que pela justiça. Um velho, aliás, já se sente extenuado ao começar qualquer tarefa: ir à retrete, apanhar um autocarro, comer a sopa, olhar as montras, decorar a árvore de Natal.

Alexandre Pinheiro Torres do conto O Heterónimo do Diabo

OLHARES


O Castelo de S. Jorge visto do Largo D. João da Camara.

sexta-feira, 11 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Num certo sentido, eu percebo por que razão o futebol é tão importante.

José Pacheco Pereira