sábado, 12 de agosto de 2017

HOJE VAI-SE AO CINEMA PARA CONSUMIR PIPOCAS



Já chega de salas de coca-colas, perdemos as salas todas. No centro do Porto, não há uma sala de cinema; em Lisboa, só em centros comerciais. É preciso criar dignidade no cinema.
As salas de cinema já não são dignas dos filmes. É uma coisa para aventuras infanto-juvenis. A maioria das pessoas que vão ao cinema são miúdos. Os adultos têm mais relação com as séries televisivas americanas, onde há mais cinema clássico, do que em filmes com três mil planos. Hoje, ir ao cinema é consumir, tanto faz comprar sapatos como ver um filme. Desapareceu a ideia da sala escura, a dignidade do espectáculo.

João Botelho em entrevista ao Ipsilon do Publico, 24 de Setembro de 2010

UMA POESIA QUE ESMAGA


5 de Setembro de 1969

Reli hoje quase inteiramente a obra poética do Jorge de Sena que, mais uma vez, me impressionou pela aparência fácil da sua poesia riquíssima – sem dúvida um das mais importantes do nosso século que, com o tempo, se abrirá em novas descobertas e mistérios.
Só um «senão» lhe posso opor aqui e ali… Certos acasalamentos clássicos de adjectivos  e substantivos…
É uma poesia que esmaga. Pelo menos esmagou-me hoje. Oxalá me esmague menos amanhã. Ou mais.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Alarma-te: metrópoles em pânico
estão a arder. Não penses que o lixo
é só ao lado. Eis que ele se aproxima,
raia a raia.

Eduardo Guerra Carneiro em Lixo

TRUMPALHADAS


Era mais que previsível que a situação chegaria a este ponto.

Dois irresponsáveis brincam às guerras.

O jornal oficial do governo norte-coreano considera que os comportamentos “imprudentes e histéricos” dos Estados Unidos podem reduzir o país “a cinzas a qualquer momento”.

Donald Trump escreve no Twitter que «as soluções militares estão posicionadas, prontas e carregadas caso a Coreia do Norte aja imprudentemente».

A China exige contenção e «diálogo» das duas partes, no dia em que o jornal do Partido Comunista Chinês dá conta de que o país deverá manter-se neutro, na eventualidade de um primeiro ataque da parte da Coreia do Norte.

A China vai ser neutra se a Coreia do Norte lançar primeiro um ataque contra os Estados Unidos, mas irá reagir firmemente no caso de os EUA e a Coreia do Sul «realizarem ataques e tentarem derrubar o regime norte-coreano».

A Rússia, através do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, assegurou que a diplomacia do Kremlin fará os possíveis para evitar o início de um conflito e exortou Washington a dar o primeiro passo para diminuir a tensão.

«Considero que o risco é muito elevado. Sobretudo tendo em consideração a actual retórica: são claras as ameaças sobre o uso da força.»

Estamos nisto!

Até quando?

OLHAR AS CAPAS


Fantasia Para Dois Coronéis e Uma Piscina

Mário de Carvalho
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Outubro de 2003

Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os píncaros da Castro Laboreiro ao Ilhéu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.

CONTRA TUDO E CONTRA TODOS


Acabaram as férias, que me deram apenas para três capítulos de Radice. Os exames que vou fazer a Coimbra me roubaram o tempo, tão valioso!, que eu ganharia a ler o pedagogo italiano. Mesmo assim, quanto não amealhei com aquela leitura! Daria para muitas linhas o que direi em poucas: saí mais consciente da minha missão de Professor, vi mais agudamente a beleza e a responsabilidade de ser Professor, quis ser Professor mais que nunca. Radice cimentou em mim «a coragem de afirmar, contra tudo e contra todos, a verdade de que nos julgamos possuídos. Bendito seja Deus por eu ser Professor.

Sebastião da Gama em Diário

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Eu não aprendi a liberdade em Marx, mas sim na miséria.

Albert Camus

OLHARES


O 28 na Rua da Graça, junto a Sapadores.

COMO LÂMINA CORUSCANTE


O questionário do professor Riley da Mota levantou, no país, uma onda de indignação. A coeducação seria uma porta aberta para a entrada, na nossa doce pátria, das víboras do comunismo. Coeducação quer dizer sexo, sexo quer dizer imoralidade, imoralidade quer dizer desprezo pela doutrina do senhor. O jornal Novidades, pertença da Igreja, abateu-se sobre o questionário do pobre Rikley da Mota como lâmina coruscante. Os professores não têm nada que responder às perguntas subversivas do senhor Director-Geral porque resposta já foi dada, há muito, com luminosa visão, pelo Santo padre Pio XI na sua encíclica Divini Illius Magister. Assim o diz aquele jornal do dia 17 de Janeiro de 1946, em letras carregadas de negro: “Responde Pio XI”. E transcreve parte da encíclica, ajustada à situação. “Erróneo e permissivo à educação cristã é o chamado método da coeducação, baseado para muitos no naturalismo negador do pecado original, e ainda, para todos os defensores deste método, sobre uma deplorável confusão de ideias que confunde a legítima convivência com a promiscuidade e igualdade niveladora. O Criador ordenou e dispôs a convivência perfeita dos dois sexos somente na unidade do matrimónio e gradualmente distinta na família e na sociedade.”
Eu falei em comunismo e não estava a gracejar. O mesmo jornal, três dias depois do que citei, enchia uma das suas páginas com este título: “A coeducação ou o assalto da escola pelo processo soviético”, isto é, comunista.

Rómulo de Carvalho em Memórias

OLHAR AS CAPAS


Cartas Que Me Foram Devolvidas

António Botto
Editora Argo, Lisboa, Abril de 1940

As tuas cartas têm vindo breves, lacónicas, porquê? As minhas já te fadigam? Se assim for, não as rasgues, - devolve-as e não as leias. Recebo-as com esta calma que me veio desde que penso que me foges. Rasgá-las, não. Ao rasgarmos cartas de amor alguma coisa de duas almas se destrói e se perde irremediavelmente.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


O horror da morte é pior que a própria morte, e por isso tantos combatentes, excedidos e alucinados, se precipitam para fora das trincheiras e abrigos e correm para as linhas inimigas, ao encontro dela.

José Rodrigues Miguéis em Um Homem Sorri A Morte – Com Meia Cara

Legenda: fotografia de Pasko Tomic

A CHAMA DOS QUE SE AFASTAM

Como é fácil amar aqueles que se despedem! É que a chama que arde pelos que se afastam é mais pura, alimentada pelo fugidio lenço que nos acena do navio ou da janela do comboio. A distância penetra como uma tinta naquele que desaparece e repassa-o de um fogo suave.

Walter Benjamim em Imagens de Pensamento

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHAR AS CAPAS


A Mulher Fantasma

William Irisch
Tradução: Wilson Velloso
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 38
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Tem o réu alguma coisa a declarar antes que o tribunal anuncie a sentença?
- Que poderei eu dizer, quando afirmam que cometi um crime, e só sei que não o cometi? Quem me dará ouvidos, quem me dará crédito?
- O meretíssimo juiz vai dizer-me que devo morrer e se o disser, morrerei. Não tenho à morte mais medo do que qualquer outro homem. Mas tenho tanto medo de morrer como os outros. Não é fácil morrer, e é ainda mais difícil morrer em consequência de um equívoco. É a forma mais penosa da morte. Quando chegar a minha hora, comportar-me-ei o melhor que puder; nada mais posso fazer.

Mas digo-lhes a todos, a todos os presentes, que não me hão-de ouvir nem crer: não matei. Nem todas as conclusões de todos os júris, nem todos os julgamentos de todos os tribunais, nem todas as execuções de todas as cadeiras eléctricas do Mundo inteiro, transformarão em verdade aquilo que o não é.

É BRUTAL, É O MENOS QUE POSSO DIZER


Carta de Mário-Henrique Leiria, datada de S. Domingos de Rana 15 de Agosto de 1961, para Maria Alves da Silva, advogada da mulher do autor, em processo de divórcio:

Ando numa total desorientação, não por causa do que penso e acredito, mas por causa de certos acontecimentos que, para mim, são contraditórios! Você sabe o que é morrer atropelado por um velho camião já comprado em 2ª mão e guiado por um bêbado? Pois é quase a espécie de morte que me propõem… uma morte destas não é útil para ninguém, nem para o que morre nem para o camião… É claro que falo por imagens (embora baratas), pois ninguém me propôs a morte ou coisas que tais. Mas a vida proposta é idêntica a tal morte (ou talvez pior, porque se continua vivo).
Cara Mª Isabel, também tenho que falar consigo e o mais depressa possível, acerca de coisas legais. A minha estimada esposa escreveu-me (recebi a carta exactamente no dia em que cheguei; agora quer a casa toda!!! É impossível viver-se assim, venerável legista, é impossível, ou acaba-se na loucura ou no suicídio. A uma carta em que se fazem propostas às pessoas para irem para a Alemanha e se mandam beijos, uma carta que até abre uma esperança de talvez não estar tudo perdido, segue-se uma carta de uma injustiça e de uma crueldade inacreditável! Que é isto? Estará ela louca?... Não sei, não percebo nada e ainda menos a percebo a ela…
Escrevi-lhe logo a seguir, oferecendo-lhe aquilo que posso, aquilo que mais me custa e mais me destrói, mas que é a única coisa que posso fazer: o divórcio. Se ela quiser, tê-lo-á imediatamente. Para quê viver assim, para quê amar e estar constantemente a construir uma esperança que, logo a seguir, é destruída? Para quê? É claro que o divórcio não mata o amor mas, pelo menos, talvez a faça feliz… que é afinal, a única coisa que desejo neste momento. Talvez você não acredite, mas desejo mais, muitíssimo mais, a felicidade da minha mulher do que a minha. Não há em mim o menor desejo de vingança, pode crer, existe apenas uma grande amargura e uma enorme solidão… Nada a fazer, parece-me…
Gostaria portanto de “conferenciar” consigo. Se ainda cá estiver e puder, telefone-me entre as 9h e as 10h da manhã para o 044396. Talvez você consiga explicar-me aquilo que não compreendo: uma mulher abandona o lar e o marido declarando abertamente que gosta de outro e depois… depois exige tudo o que abandona (excepto o marido, claro) e continua a torturar o marido, só por saber que ele ainda a adora… É brutal, é o menos que posso dizer.

Cara Isabel, despeço-me com a profunda vénia asiática que é da praxe quando se quer ser “progressivo”…

Um abraço que ainda é de Camarada do

                                                                           Mário-Henrique

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos


terça-feira, 8 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO



Os filmes e os livros de que gosto são os de homens ou mulheres perdidos. Gente que não sabe encontrar o caminho para casa ou nem sequer sabe já o que seja uma casa.

Manuel S. Fonseca

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHARES


Lisboa, Rua da Graça.

OS EMPREGOS DESAPARECERAM


«Youngstown» e «The New Timer», foram duas canções inspiradas por um livro chamado Uma Viagem a Nenhures, dos meus amigos Dale Maharidge e Michael Williamson. Ambas as canções narravam os efeitos pós- industrialização nos Estados Unidos e do fardo dos empregos perdidos, do trabalho subcontratado e do desaparecimento da nossa base de produção que recaía sobre os cidadãos cujo trabalho árduo construíra a América. Eu assistira a esta realidade em primeira mão quando a Tecelagem de Tapetes Karagheusian, sediada em Freehold, fechou a fábrica e rumou a sul de forma a obter trabalho mais barato e não sindicalizado, ao invés de resolver uma contenda laboral com os seus trabalhadores: Os empregos desapareceram. O meu pai trabalhara lá quando eu era miúdo, e a minha vida musical e os Castiles tinham nascido a menos de 45 metros das suas chaminés fumarentas e teares barulhentos. (A fábrica fechou em 1964, após 60 anos de laboração.)

Bruce Springsteen em Born to Run


OLHAR AS CAPAS


Refúgio Perdido

Soeiro Pereira Gomes
Prefácio: Manuel de Azevedo
Capa: Veloso e Mário Bonito
Edições SEM, Porto, Junho de 1950

Há sábios assim: homens que servem a humanidade, e de quem a humanidade não fala…


Nota do editor: Reprodução da capa tirada da edição fac-símile do jornal Público.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


creio num rio
que corre do mar para a montanha
nada mais peço à poesia
do que pôr esse rio no mapa

DO BAÚ DOS POSTAIS


Honfleur.
Postal enviado pela Erma e o Ernst.

NUNCA SE SABE COMO É, COMO NÃO É


No Tarrafal… enquanto nas prisões de Luanda o que funcionava era o sentimento nacional, a comunidade, porque o inimigo estava no exterior e, portanto, nós estávamos ali naquela comunidade nacional, no Tarrafal não havia o inimigo exterior. O Tarrafal é no arquipélago de Cabo Verde, na ilha de São Tiago, a aldeia e o Tarrafal, o campo. Há o mar e o inimigo é a natureza contra a nossa condição de seres humanos. Ali estávamos isolados da nação, o que deu origem a que nos virássemos para dentro de nós. O Tarrafal é a prisão em mim. Virámo-nos para dentro. É certo que estavam presos da UNITA, estava o MPLA, estava a FNLA. Mais tarde vieram os estudantes, vieram os irrecuperáveis dos outros campos, mas muitas contradições já apareciam e os Papéis reflectem isso no que anotei sobre mim próprio, na minha dificuldade em passar de um ambiente em que ear tudo óbvio, para um ambiente em que muitas das atitudes, das acções e muitos dos sentimentos, palavras e conflitos, eram provocados por questões de camada social. Eu não digo de classe, mas de camada social, aquilo a que no tempo se chamava pequena burguesia… nunca se sabe como é, como não é.

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

Legenda: fotografia de um catálogo sobre o Tarrafal do Museu do Neorealismo

PORQUE É QUE ESTE SONHO ABSURDO


Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!


Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.

José Gomes Ferreira em Poesia II

AS CASAS


As casas pertencem as quem as torna melhores.

Bertolt Brecht

OLHAR AS CAPAS


Cadernos Despertar - I

Eduardo Olímpio, José Carlos Ary dos Santos, José Jorge Letria, José Vultos Sequeira, Luís Maçarico, Manuel Branco, Miguel Serrano, Orlando César
Prefácio: Miguel Serrano
Capa: Miguel Eduardo
Publicação não periódica
Edição dos Autores, Lisboa, Junho de 1982

Soneto de Cabeceira

Em mim próprio me gasto e me desgasto
em mim próprio me vergo e desgoverno
de mim próprio varrasco me vergasto
quando pretendo ser perfeito ou terno.

De mim, que eu tanto gosto me desgosto:
sempre que rasgo as teias do inferno
revejo a aranha de viscoso rosto
comendo a mosca do meu sono eterno.

De mim me desencanto e desagravo
De mim me distancio e me separo
Cada vez mais humilde e mais altivo.

É esta a luta que camigo travo:
se o dia de amanhã fôr dia claro
morro cem vezes para ficar vivo.

(José Carlos Ary dos Santos)

domingo, 6 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Com todos os dias da vida, um pedaço de sabedoria será adicionado.

Provérbio vietnamita.

Legenda: fotografia de Matt Valentine