sábado, 24 de agosto de 2013

DO BAÚ DOS POSTAIS


Portinho da Arrábida.

POSTAIS SEM SELO


Enquanto isso era Verão.Verão largo como o pátio vazio nas férias da escola...

Clarice Lispector

Pintura de Diane Romanello

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

DA MINHA GALERIA


Já arranjei muito bem
Tudo quanto convém
P'ra praia levar
O pente, o espelho, o baton
E o creme muito bom
P'ra me bronzear
Tenho o meu rádio portátil
E o bikini encarnado
Também está no meu rol
E como é bom de ver
Não podia esquecer
Os meus óculos de sol
Refrão:
Que levo p'ra chorar uuuuhuh
Sem ninguém ver
P'ra não dar uuuuhuh
A perceber
P'ra ocultar uuuuhuh
O meu sofrer
Pois eu sei que te hei-de encontrar
Talvez deitado à beira-mar
Com outra lado
E eu vou passar
A tarde a chorar
Já pensei não sair
Mas aonde é que eu hei-de ir
Com este calor?
O que é que eu hei-de fazer
P'ra não ter que te ver
Com o teu novo amor?
Ver-te-ei com certeza
Mas eu peço à tristeza
Um pouco de controle
E pelo sim pelo não
Eu vou ter sempre à mão os meus óculos de sol

Vou chorar
Uuuuh uh
Vou sofrer
Uuuuh uh
Vou chorar
Uuuuh uh

POSTAIS SEM SELO


Toda a gente é bissexual até certo ponto. Agora, os homens agem como mulheres e é difícil manter uma relação porque eu gosto de homens à antiga. Gosto de masculinidade e na verdade, só as mulheres são assim agora.

Sharon Stone

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

MARCADORES DE LIVROS


O VENTO IMPREGNADO DE CHEIRO A SALITRE


Max lera uma vez num dos livros do pai que certas imagens da infância ficam gravadas no álbum da mente como fotografias, como cenários aos quais, passe o tempo que passar, voltamos sempre e recordamos. Compreendeu o sentido daquelas palavras a primeira vez que viu o mar. Seguiam há mais de cinco horas no comboio quando, de repente, ao emergir de um escuro túnel, uma infinita lâmina de luz e claridade espectral se estendeu diante dos seus olhos. O azul-eléctrico do mar resplandecente sob o sol do meio-dia gravou-se na sua retina como uma aparição sobrenatural. Enquanto o comboio seguia o seu caminho a poucos metros do mar, Max pôs a cabeça fora da janela e sentiu pela primeira vez na pele o vento impregnado de cheiro a salitre. Voltou-se para olhar o pai, que o observava do extremo da carruagem co comboio com um sorriso misterioso, aquiescendo a uma pergunta que Max não chegara a formular. Soube então que não importava qual fosse o destino daquela viagem nem em que estação pararia o comboio; a partir daquele dia, nunca viveria num lugar de onde não pudesse ver todas as manhãs ao acordar aquela luz azul e deslumbrante que subia até ao céu como um vapor mágico e transparente. Era uma promessa que fizera a si mesmo.

Carlos Ruiz Zafón em O Príncipe da Neblina Planeta. Lisboa 2010

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

DEIXA-ME DAR-TE O VERÃO


O Verão é feito de coisas
que não precisam de nome
um passeio de automóvel pela costa
o tenpo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um por um os peixes do tanque
e abandoná-los depressa
às suas voltas escuras



Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.  

UMA CHUVA DURA VAI CAIR


Oh, onde estiveste, meu filho de olhos azuis?
Oh, onde estiveste, meu jovem querido?
Tropecei na encosta de seis montanhas brumosas
Caminhei e rastejei por seis estradas sinuosas
Entrei pelo meio de sete florestas tristes
Estive na orla de uma dúzia de oceanos mortos
Penetrei dez mil milhas na boca de um cemitério
E é dura, e é dura, é dura, é dura
E é dura a chuva que vai cair

Oh, o que viste, meu filho de olhos azuis?
Oh, o que viste, meu jovem querido?
Vi um recém-nascido rodeado de lobos ferozes
Vi uma estrada de diamantes que ninguém usava
Vi um ramo negro que gotejava sangue
Vi um quarto cheio de homens com martelos sangrentos
Vi uma estrada branca toda coberta de água
Vi dez mil palradores cujas línguas estavam todas destroçadas
Vi armas e espadas cortantes nas mãos de criancinhas
E é dura, e é dura, é dura, é dura
E é dura a chuva que vai cair


E o que ouviste, meu filho de olhos azuis?
E o que ouviste, meu jovem querido?
Ouvi o som dum trovão, rugia um avisos
Ouvi o bramir duma onda que podia afogar o mundo inteiro
Ouvi uma centena de tamborileiros cujas mãoas flamejavam
Ouvi dez mil a sussurrar e ninguém e escutar
Ouvi uma pessoa a morrer de fome, ouvi muita gente a rir
Ouvi a canção dum poeta que morreu na valeta
Ouvi o soluço de um palhaço que gritou na viela
E é dura, e é dura, é dura, é dura
E é dura a chuva que vai cair

Oh quem encontraste, meu filho de olhos azuis?
Quem encontraste, meu jovem querido?
Encontrei uma criança junto a um pónei morto
Encontrei um homem branco que passeava um cão preto
Encontrei uma mulher jovem cujo corpo ardia
Encontrei uma rapariga, ela deu-me um arco-íris
Encontrei um homem ferido de amor
Encontrei um outro homem ferido de ódio
E é dura, é dura, é dura, é dura
É dura a chuva que vai cair

Oh o que farás agora, meu filho de olhos azuis?
Oh, o que farás agora, meu jovem querido?
Vou voltar lá para fora antes que a chuva comece a cair
Caminharei para as profundezas da mais profunda e sombria floresta
Onde as pessoas são muitas e as suas mãos estão completamente vazias
Onde as bolinhas de veneno inundam as suas águas
Onde a casa no vale se funde na suja e húmida prisão
Onde a face do carrasco está sempre bem escondida
Onde a fome é torpe, onde as almas são esquecidas
Onde a cor é o negro, onde nada é o número
E hei-de contá-lo e pensá-lo e dizê-lo e respirá-lo
E espelha-lo da montanha para que todas as almas possam vê-lo
Então erguer-me-ei no oceano até que me comece a afundar
Mas saberei bem a minha canção antes de começar a cantar
E é dura, é dura, é dura, é dura
É dura a chuva que vai cair

 Bob Dylan

 Canção do álbum The Freewheelin’ Bob Dylan (1963)

Nota dos tradutores:

A Hard Rain’s A-Gonna Fall – escrita durante a crise dos mísseis cubanos, em Outubro de 1962, a canção reflecte a angústia da possibilidade de uma guerra nuclear provocada pelo braço de ferro entre Kennedy e Khrusschev. Diz Dylan que, quando a escreveu, pensava não lhe restar muito mais tempo para escrever outras canções, pelo que pôs tudo quanto conseguiu nesta, como se fosse uma canção contendo várias canções.
A estrutura da letra da canção baseia-se em «Lord Randall», uma canção que Dylan aprendeu com Martin Carthy.


Bob Dylan em Canções Volume I (1962-1973) Relógio D’Água, Lisboa Setembro de 2006

terça-feira, 20 de agosto de 2013

OLHAR AS CAPAS


Correspondência

Jorge de Sena e José-Augusto França
Organização e notas: Mécia de Sena
Introdução: José-Augusto França
Biblioteca Autores Portugueses
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa Junho de 2007

Neste país, a fome de tachos é insaciável.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Há um poema do Eduardo Guerra Carneiro onde se pode ler:


Morrer de amor como o King Kong.

Até ler o poema do Eduardo, nunca vira o filme de Meriam C. Cooper.

Apanhei-o tempos depois numa sessão da meia-noite no Cinearte, meados de 1973, depois de umas bifanas e umas largas imperiais nos Caracóis da Esperança.

Uma sala cheia para ver o filme.

Já não há sessões da meia-noite como estas e duvido que um qualquer enchesse, mesmo num outro qualquer horário, para ver King Kong, mesmo que esteja considerado, pelo American Film Institute, como um dos melhores cem filmes de sempre.

A heroína do filme era a actriz Fay Wray.

Apesar de ter participado em mais de uma centena de filmes, foi a sua criação de loura por quem um macaco gigante se apaixona que a tornou famosa. E será sempre a imagem da jovem desfalecida na mão de um macaco gigante, no alto do Empire State Building  a ser atacado  por aviões.

Sim, morrer de amor como o King Kong.

Ir ver um filme por causa de um poema.

Isto Anda Tudo Ligado, já lá dizia o velho.

E dizia bem.

CENTENÁRIO DE ÁLVARO CUNHAL


Na próxima quarta-feira, dia 22, pelas 18,00 Horas, na Escola Secundária Camões, em Lisboa, sessão de lançamento de Fotobiografia de Álvaro Cunhal.

De um texto de Aurélio Santos sobre Álvaro Cunhal:

Recentemente alguém ao referir-se a Álvaro Cunhal afirmou: «o que torna os homens grandes não é o que fizeram por si ou para si, mas o que fizeram pelos outros.»

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O ASSASSÍNIO DE LORCA


No dia 19 de Agosto de 1936, Federico Garcia Lorca foi assassinado nos arredores de Granada.
Lorca, então com 38 anos, foi preso por um deputado católico de direita que justificou a sua prisão dizendo que ele era mais perigoso com a caneta do que outros com o revolver.

Entrada, datada de 19 de Agosto de 1986, de  Miguel Torga no seu Diário:

Há meio século que Lorca foi fuzilado. Mas os anos não atenuaram o horror do crime de Granada. Pelo contrário. E os deuses sabiam que seria assim. Por isso, quiseram que na voragem que abriu as portas à violência do nosso tempo, para opróbrio dos carrascos, a poesia tivesse o seu quinhão. É que só ela, encarnada, poderia ser o símbolo perene e puro do martírio inocente e o mais nobre penhor da eterna ressurreição da liberdade.



Leonard Cohen contou um dia:

Tinha estudado poesia na escola, mas foi só quando, acidentalmente, dei de caras com um livro de Lorca que percebi o que era a poesia. Tocou-me tão fundo, que a partir desse momento, percebi o que queria ser: poeta. Quando a minha filha nasceu resolvi chamar-lhe Lorca Sarah Cohen. Ele teve a mais profunda influência na minha vida e na minha carreira. 

VELHOS DISCOS


Primeiro de alguns non stop dancing da orquestra de James Last.
Comprado, inevitavelmente na Grande Feira do Disco.
Transcrevo o alinhamento para que saibam o quanto é bom dançar, sem parar, músicas como estas:


AMPLA REMODELAÇÃO MINISTERIAL


Neste dia, Salazar assiste, no palácio de Belém, à tomada de posse de novos membros do governo.

Salazar levara a cabo uma ampla remodelação ministerial:

O Presidente da República recebeu no dia 19 passado, no seu gabinete de trabalho, no Palácio Nacional de Belém, o Presidente do Conselho e os novos membros do governo. Seguidamente o Sr. Prof. Doutro Oliveira Salazar fez a apresentação ao Sr. Almirante Américo Thomaz dos novos elementos que a partir desse momento passaram a fazer parte do Governo de que novos membros do governo tomaram posse.

Legenda: O Presidente da República e Oliveira Salazar depois da tomada de posse dos novos ministros. 

domingo, 18 de agosto de 2013

EI-LO QUE VOLTA!


Ainda ontem me ouvi dizer: o futebol, tal como eu o comecei a ver, já não existe.

Deixou de ser um belo espectáculo, a inteligência em movimento, como escreveu Albert Camus, para passar a ser um excelente negócio, com laivos de máfia guardados em cada transferência de jogadores.

O futebol regressou.

Tal como escreveu Mário Castrim, Jornal do Fundão, 16 de Julho de 1972, num contexto de época, mas que pode muito bem estender-se por todos os tempos:

Digo também eu que o futebol é uma arama poderosa mas mãos dos políticos os quais se servem dele (como de outras coisas) para distrair a atenção popular, para a dividir e até para baixar o nível de exigência.

Pois, o futebol regressou.

Tal como Manuel da Fonseca deixou vincado num poema em que fazia tenção de, chegando domingo, tentar as coisas mais belas que um homem pode fazer na vida.

O meu amigo, que era pintor,
Contou-me numa noite de bebedeira:
- Olha,
Quando chega domingo,
Não há nada melhor que ir para o futebol…

Saúde-se, apesar de tudo, o regresso do futebol.

Não podendo deixar de dizer das saudades que já tínhamos de ouvir aquela frase tão querida dos jogadores, quando a derrota lhes bate à porta:

Há que levantar a cabeça e pensar já no próximo jogo.

Legenda: adeptos do Benfica vaiando a equipa, após a derrota de hoje no Funchal.

Imagem de A Bola.

OS CROMOS DO BOTECO


POSTAIS SEM SELO


E caminham sempre, com o furor sensual dum comboio que foge para o mar.

Mário-Henrique Leiria

CORAGEM, MUITA CORAGEM


Entrada de José Gomes Ferreira, escrita no dia 10 de Outubro de 1965, e publicada nos seus Dias Comuns:

O Urbano Tavares Rodrigues contou-me que a sua Imitação da Felicidade foi apreendida pela polícia.
- E em Lourenço Marques fizeram-lhe um auto-de-fé.
- Um auto-de-fé porquê?
- Sei lá! Por qualquer bagatela…
E, dito isto, sumiu-se… levado pelo vento…
Gosto dele. Tem qualquer coisa de sombra que, de vez em quando, se separa do corpo, para parecer mais leve e delicado… Além de trazer sempre a bondade à superfície dos olhos, de não esconder o desejo de ser amado, de querer sacrificar-se e, até, de perdoar aos inimigos. Tudo isto misturado com egoísmo, ideias de força e coragem, muita coragem.
Claro, estas qualidades viram-se muitas vezes contra ele – e dissolvem-no.

José Gomes Ferreira, Dias Comuns, Volume I, Publicações Dom Quixote, Lisboa Outubro de 1990.

sábado, 17 de agosto de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


NO CALÇADÃO DO PONTAL, em pleno querido mês de Agosto, o Pedro falou às hostes partidárias.

Avisou que ninguém tome por adquirido que a crise acabou, ao mesmo tempo lembrou que os sinais económicos, no segundo trimestre do ano, permitem concluir que o país está no rumo certo, reconhecendo ainda  que as recentes medidas propostas pelo governo podem estar feridas de inconstitucionalidade.

Espantoso que o governo decrete medidas que sabe de antemão que não respeitam a Constituição da República.

Mais espantoso ainda que deixe avisos aos juízes do Palácio Ratton, lembrando que, se forem colocadas  barreiras constitucionais, o país pode andar para trás.

Já no passado alguns desses riscos se materializaram e não foi fácil ultrapassá-los, obrigou-nos a aumentar os impostos que era uma opção que não queríamos tomar.

Sublinhou também que, ao contrário das empresas onde é possível negociar salários quando não existe dinheiro para os pagar, no Estado essa hipótese não se coloca por imperativos constitucionais.

MAIS DE DOZE mil casais tinham, no final de Junho deste ano, ambos os cônjuges desempregados, o que representa um aumento de 45% face ao mesmo mês do ano passado, segundo o Instituto do Emprego e Formação Profissional.

No final de Junho, estavam registados nos centros de emprego de Portugal Continental 653.967 desempregados, sendo que 49% eram casados ou viviam em união de facto.

O SECTOR DOS SEGUROS registou lucros de 464 milhões de euros no primeiro semestre, quase o triplo face aos 168 milhões de euros do mesmo período de 2012, divulgou  a Associação Portuguesa de Seguradoras.

ENTRETANTO AS PRÓXIMAS  eleições autárquicas continuam mergulhadas numa confusão total.

Tribunais têm proferido sentenças diferentes sobre candidatos que já completaram três mandados autárquicos.

O Tribunal Constitucional terá a última palavra sobre este lamentável assunto.

A degradação da classe política portuguesa no seu melhor.

A ESMAGADORA MAIORIA dos padres portugueses é de direita.

É sobejamente conhecida a íntima aliança da Igreja com a ditadura de Salazar,  tendo sido um verdadeiro pilar do regime. A igreja, há raras excepções, nunca levantou a voz contra as perseguições políticas, enquanto foi estendendo o silêncio sobre uma guerra estúpida e inútil e que vitimou milhares de portugueses.

O problema do Cónego Melo não foi ter sido um salazarista convicto.

O problema do Cónego Melo é ter sido um assassino.

O seu nome deveria ter sido levado pela água purificadora do autoclismo, mas Mesquita Machado, crónico-socialista-presidente-da-câmara-de-Braga, entendeu que o homem merecia uma estátua.

Colocaram-na numa praça da cidade.

Victor Louro, filho do escritor Victor Sá, proprietário da Livraria Victor, que deu a volta às investidas pidescas, vendendo livros que Salazar não queria que fossem conhecidos, escreveu ao secretário-geral do Partido Socilalista:

Não estão em causa as suas opiniões ou tendências políticas - estamos em democracia. O que está em causa é ele ter sido responsável político pelo MDLP, movimento que espalhou o terror no Norte do País em 1975 contra militantes de Esquerda, contra sedes de partidos políticos de Esquerda, responsável pelo assassinato de cidadãos de Esquerda. A Democracia não pode homenagear pessoas deste jaez, porque o seu objectivo era exactamente destruir a Democracia.

Meu Pai, Victor de Sá, foi obrigado nessa altura (como antes houvera acontecido com a PIDE) a refugiar-se para não ser atacado - como foi atacada a sua livraria, à bala, como ainda hoje lá está visível.

Não é apenas Mesquita Machado quem está empenhado nesse acto, nessa afronta à Democracia e aos democratas, especialmente os bracarenses. O silêncio total dos responsáveis do PS, em especial do seu Secretário-Geral, tornam o PS objectivamente cúmplice dessa afronta.

O que pretendem com este acto, em que conseguem a proeza de estarem politicamente sozinhos? O que os faz correr atrás da memória dessa figura tenebrosa, um dia se saberá. Mas, neste momento, é preciso, é urgente, que o líder do PS ponha cobro a mais esta tentativa desesperada, e respeite a memória daqueles que duramente e corajosamente se bateram contra o fascismo.

Entretanto, no pedestal da estátua, pintadas a vermelho, foram escritas as palavras: fascista e assassino, ao mesmo tempo que foi atirada tinta azul para o conjunto escultórico, que atingiu a própria estátua.

Por uma vez:

TENHAM VERGONHA NAS TROMBAS!

EM JANEIRO, A REVISTA Forbes considerou Isabel dos Santos, a filha mais velha do Presidente angolano José Eduardo dos Santos, como a mulher mais rica de África. Agora, publicou uma investigação em que clarifica a origem da sua fortuna: vem de ficar com uma parte de empresas que querem estabelecer-se em Angola ou da providencial assinatura do pai numa lei ou decreto.

A revista norte-americana diz claramente que a história de Isabel dos Santos, a milionária de 3000 milhões de dólares no país onde 70% dos habitantes vivem com menos de 2 dólares por dia, é uma rara janela para a mesma trágica narrativa cleptocrática em que ficam presos muitos outros países ricos em recursos naturais.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Singapura.
Postal enviado em 20 de Fevereiro de "002 pela Angelika e o Hans-Martin.

ZONAS LUMINOSAS E OBSCURAS


Terei qualidades e defeitos, zonas luminosas e obscuras como todos os seres humanos. Não sei ver-me, mas acho que sou menos egoísta do que a maioria das pessoas que conheço.

Urbano Tavares Rodrigues, entrevista ao JL, 30 de Outubro 2002.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

OLHARES


Luvaria Ulisses.
Quem não conhece esta pequeníssima loja de portas abertas desde 1925 na Rua do Carmo nº 87?
Uma das poucas casas comerciais que se mantiveram após o terrível incêndio que destruiu o Chiado em Agosto de 1988.
A Luvaria Ulisses vende luvas de couro, para damas e cavalheiros, de todas as cores e de fabrico artesanal.
Já não há muito disto.
Sempre que vou ao Chiado delicio-me a olhar esta loja que mais parece uma loja de brincar.

E TUDO SERÁ LUZ


Há uma semana, Urbano Tavares Rodrigues deixou-nos.

É norma dizer-se que parte o homem mas fica a obra.

Sim, a variada obra de Urbano está aí, uma obra que nos anos 50/60, no dizer de Mário Cláudio, foi uma lufada de ar fresco na literatura portuguesa, mas fica a faltar-nos o homem. Esse homem afável e tolerante, a sua delicadeza, a sua integridade, aquela voz pausada, um homem que viu a ditadura de Salazar/Caetano privá-lo do que mais gostava de fazer na vida: ser professor.

Ainda Mário Cláudio: alguém de quem se dizia bem em vida – o que não é habitual entre nós –, não só como escritor mas também no plano cívico. Nunca usou o seu posicionamento político, que era bem conhecido, para fazer qualquer espécie de segregacionismo. Há melhor? Não há. Parecido? Também não. Quase não se acredita que fosse português. Mas era. Por isso, nem toda a esperança está perdida.

É isto que nos fica a faltar, algo mais.

Em Outubro do ano passado, numa entrevista ao Ipsilon, suplemento do Públio, dizia que o sentido da sua vida era um misto de tolerância, de compreensão e respeito pelos outros. Um homem sem ódios mas, com algumas excepções.

Posso sentir ódio contra aqueles que vivem de explorar os outros... mas eu tenho sido mais vítima de ódio. Ainda não tive o prémio Camões porque soube recentemente que há membros do júri que dizem: "esse comunista não terá o Prémio Camões.

A jornalista pergunta-lhe se sente mágoa por não ter ganho o Prémio Camões.

Tenho revolta. Mereço amplamente o Prémio Camões. Não é pelas honrarias, que já tive muitas. Até em França já me deram a Legião de Honra, mas isto é asqueroso.

Já deixara o mesmo desabafo numa  entrevista ao Manuel Rodrigues da Silva.

José Saramago, em Fevereiro de 2003, escrevia-lhe dizendo que com atraso também te há-de ser entregue o “Camões”.

Não aconteceu.

O editor Manuel Alberto Valente foi claro:

 Julgo que Portugal não lhe prestou a merecida homenagem em vida e espero que agora se lembre de lha prestar. Enquanto isso, espero que as pessoas o possam homenagear lendo os seus livros.

Até ao final do ano, a Dom Quixote que, desde 2007 tem vindo a publicar toda a obra de Urbano Tavares Rodrigues, colocará nos escaparates o seu último livro: Nenhuma Vida, um curto romance com um prefácio, escrito pelo próprio Urbano, em que se sente já a sua despedida do mundo, de todos nós.

Daqui me vou despedindo, pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a, dizendo um maravilhado adeus à água fresca do mar e dos rios onde nadei, ao perfume das flores e das crianças, e à beleza das mulheres. Um cravo vermelho e a bandeira do meu Partido hão-de acompanhar-me e tudo será luz.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

MEMÓRIAS DE LISBOA


Este texto de Urbano Tavares Rodrigues encontrei-o no Teia Portuguesa.
É um texto não datado, em que Urbano fala das suas experiências de vida em Lisboa: amores, vivências, conspirações para derrube da ditadura, tertúlias em cafés, quando ainda havia cafés em Lisboa, com José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, José Gomes Ferreira, Armindo Rodrigues.
Um bonito texto sobre uma Lisboa praticamente desaparecida:

Ao atravessar as ruas da Baixa e o Rossio, ainda em obras, quando a poalha desta luz de Maio enevoada doira vagamente as cimalhas e mansardas das velhas casas pombalinas, clareando o ocre do Teatro D. Maria, parece-me ter sonhado a vida que por aqui vivi. Já não me reconheço na criança que às vezes vinha de Moura e atravessava o grande rio, de olhos deslumbrados, entre gaivotas e navios descomunais, e desembarcava no Terreiro do Paço, todo simétrico na sua verde harmonia palaciana. Do alto da sua altivez, o cavaleiro do cavalo negro dominava o mundo e fazia correr mais depressa o sangue nas minhas veias. O táxi entrava na corrente do trânsito, que também me surpreendia, outro tempo ali começava a nascer, e os meus olhos erguiam-se, exorbitados, para o emblema da cidade, talvez a sua alma, aquele arco imenso, com prodigiosas esculturas, umas violentas, tal como eu as retinha, outras majestosas e da brancura dos lugares supremos.

Quando vim morar em Lisboa, já na adolescência, a minha vida decorria sobretudo nas Avenidas Novas e um pouco mais tarde na antiga Faculdade de Letras, Rua da Academia das Ciências. Vinha então à Baixa porque o meu alfaiate (ainda as pessoas comuns faziam os fatos por medida) ficava na Rua de Santa Justa. E, quase sempre que lá ia, passava, como toda a gente (uns mais apressados, outros menos, sinais da roda da fortuna ou do relógio interior de cada um), por aquelas ruas que ainda não me pareciam estreitas, onde o vento por vezes gemia, acompanhando os cegos que tocavam violino e os gritos dos cauteleiros e dos ardinas. Já então a Baixa era um grande centro comercial, onde muitos casais, com os meninos pela mão, vinham aos domingos contemplar as montras. A pequena multidão engrossava às horas de ponta, era por vezes uma autêntica enxurrada de corpos alheios e agressivos, empurrando-se, arfando, tossindo, e onde às vezes se cruzavam dois olhares subitamente acesos em desejo ou compreensão, fadados quiçá para se entenderem por todo o sempre, e que logo se perdiam um do outro, como sucede no giro incessante das grandes cidades.


Continuo a gostar muito da Baixa, do seu estridor, do jardim de saibro que o Rossio já foi, com as suas fontes e estátuas, o falso D. Pedro vestido agora de tapumes. Mesmo cheia de pó, de aterros e buracos traiçoeiros, acidentes transitórios, volto sempre à Baixa dos tocadores de concertina nas escadinhas de Santa Justa, dos turistas coloridos, de binóculo e máquina fotográfica a tiracolo, olhos voltados para cima, acompanhando a pesada gaiola do ascensor. Apesar da falta de pintura dos prédios, do certo abandono de quarteirões inteiros dessa cidade baixa delicadamente setecentista, a sua fauna humana, renovada, persiste: lá vão as melancólicas costureiras de alfaiate, muitas das quais perderam o emprego, o cantor da voz triste, que comovia algum melómano perdido na onda de gente apressada. Eis os cães dos drogados cheirando a hache e a suor curtido; e os mesmos barbeiros, agora cabeleireiros, de bata azul e com o "Record" na mão, espreitando, à porta, o cliente da hora certa; e a insolência dos "klaxons", a empurrarem furiosamente a condutora da frente; o povo a correr para os bancos.

Morava numa trapeira da Rua da Madalena uma das namoradas dos meus 17 anos. Não a primeira, que essa era italiana, estudante e sardenta, e ensinou-me, num ardente Agosto do Estoril, entre mar e casino, quase todos os segredos e requintes do amor fora de regras. A Conceição, corista do Parque Mayer, que chegou logo a seguir à minha educação erótica, era paradoxalmente menos libertina e muito mais romântica. Linda de pasmar, parecia, ora uma "starlet", ora virgem de altar, até pelos azuis vaporosos que vestia. Havia um ou mais sujeitos ricos que a sustentavam (com o que ela ganhava, coitada, não tinha outro recurso), e atrevia-me eu a ter ciúmes, tão pouco sabia das crueldades daquela vida. Um dos banqueiros podia passar por galã maduro, mas só sabia comprar, comprar, até o prazer, que eu colhia de todas as partes do corpo dela, sem saber sequer como a cativara, se por sedução quase inconsciente ou por a fazer rir dos meus despropósitos. Quando ela saía da segunda sessão da revista, já muito tarde, ainda íamos às vezes dançar ao Bar do Cristal, ou então arrastava-me até ao Cais das Colunas, de mão dada, para vermos a noite ainda a arder de estrelas, que caíam no Tejo, e só depois fazíamos amor longamente na trapeira onde ela morava, e as suas lágrimas, no fim da nossa festa e das suas confissões, eram cristais desmaiados que me cortavam a voz.

Adorava roupas à moda, que eu não podia dar-lhe, corria às vezes os olhos aguados pelas montras luxuosas da Rua Augusta, a puxar por mim, se me acontecia passear com ela, de tarde. E íamos beber chocolate à Central da Baixa. Nessa pastelaria calma e elegante, muitos anos depois, sendo eu já redactor do "Diário de Lisboa", acabara de comprar em segunda mão uma arrastadeira de 11 cavalos, creio que foi no ano da Revolta da Sé, acontecia-me não raro ali conspirar e almoçar um bife raspado, à alemã, ou dois pães de leite com fiambre e manteiga e um "indiano" recheado com café.


A Baixa era para mim ponto de encontro com outros oposicionistas, que ali tinham escritório, como o Mário Soares, na Rua do Ouro, ou o Abranches Ferrão, que editou, pelo jornal de Foro, a minha novela "Uma Noite e Nunca", apreendida pela Censura, e que tinha banca na Rua do Crucifixo, com o Luiz Francisco Rebello, o Duarte Vidal e, mais tarde, o José Carlos de Vasconcelos, se a memória não me atraiçoa. É a altura do "Programa para a Democratização da República", que a todos nos levou à PIDE, ao Aljube ou a Caxias, e que a muitos valeu longos meses de encarceramento.

Na Rua de Santa Justa e mais tarde na Rua da Vitória, cortou-me o cabelo durante algumas décadas um alentejano simpático, de bigodinho aventureiro, o Sebastião Carrajola de Figueiredo, ex-menino do coro em Portalegre, cheio de lábia e assanhado defensor do 25 do Quatro, como ele dizia, que ali mesmo combatia a reacção, dentro dos limites que o ofício lhe consentia, e chegou a ter a subida honra (sic) de barbear e pentear o seu camarada Salgado Zenha, cuja candidatura à Presidência da República veio mais tarde a subscrever - e disso muito se orgulhava.

Foi na Rua do Ouro, junto ao elevador de Santa Justa, que numa tarde histórica apanhei um dos panfletos de denúncia do fascismo que o Palma Inácio, ao volante de um avião militar roubado, ou melhor, apreendido em nome da liberdade, lançava sobre Lisboa, numa nuvem branca, cintilante de esperança. Pouco depois do paquete "Santa Maria" ser transformado, por um comando revolucionário, em "Santa Liberdade".

Outra visão: a da Rua do Arsenal, memória viva, inapagável, dos operários da Resistência, como o Bento Gonçalves. E nessa mesma rua, o enxame de lojas e lojinhas de todas as coisas e todos os sonhos, pintado por Cesário Verde, nas "Ave Marias".

Foi o José Cardoso Pires quem me chamou a atenção para as lojas de aparelhos ortopédicos que se seguem umas às outras na Rua dos Fanqueiros, anos antes de descrever admiravelmente essa estranha paisagem urbana em "A Balada da Praia dos Cães".


Por falar em escritores, quero lembrar a Baixa de José Gomes Ferreira e de Armindo Rodrigues, companheiros de deambulações líricas pela noite de Lisboa, que o segundo fixou nas suas "Dez Odes ao Tejo", enquanto o autor do "Poeta Militante" nos fala não só do rio como do Largo de São Domingos e das putas tristes dessa área, fantasmas de um vazio de Julho.

Desapareceram muitos dos cafés do Rossio, onde o surrealismo abancou, sobretudo no Gelo, entre eles o Chave d' Ouro, onde Humberto Delgado deu a célebre conferência de Imprensa, em que estrondeou o "Obviamente demito-o", que tanto afrontou o orgulho de Salazar. Do Chave d'Ouro tenho também na lembrança o David Mourão-Ferreira, supremo encantador da palavra, lendo versos numa tertúlia lá em cima, e o Abelaira escrevendo numa absorta mesa, perto da porta, entre muitas chávenas de café e filosofia viva.

Os mirones do Rossio, que metralhavam as mulheres sós com o olhar concupiscente e lhes segredavam galanteios dos mais obscenos, encandeados pela "seminudez" das refugiadas estrangeiras durante a guerra de 39-45, tiveram o seu apogeu machista nos finais dos anos 60, aquando do primeiro surto das mini-saias e dos "hot-pants", uns shorts muito curtos, género calção de banho em tecido leve. O espaço do ascensor de Santa Justa, agora que sigo vasculhando na memória, foi teatro de muitos momentos da minha vida. No restaurante A Quinta, pendurado sobre a Baixa, mesmo ao lado do elevador, jantámos com o Curt Mayer Clason vários escritores na berra desses mesmos anos 60, entre eles o Cardoso Pires e o Abelaira; e do mirante que fica ao lado mostrei de outra vez a dois grandes poetas, o Murilo Mendes e o Jaime Salinas, o soberbo panorama do Castelo e da Sé, que encimam esse tão especial casario ocre, castiço e lírico, o dos quadros de Carlos Botelho, que vai descendo de Santa Luzia até às gruas dos cais e aos mastros do rio enfadado de sol.

Cá em baixo, junto à base do elevador, à porta do então Salão Império, em 1970 (ou 197l?), estive longos minutos, nervoso, com metade de uma folha do "Borda d'Água", mal cortada, fechada na minha mão, à espera da pessoa, para mim desconhecida, que me traria a outra metade da mesma folha, para um importante encontro clandestino. Era uma rapariga magra, que me pareceu disfarçar o nervosismo com um sorriso. Hoje que tanta gente, velha e nova, vive a farejar o dinheiro, em todos os cantos da cidade e da vida, e a comprar luxos inúteis quase por obrigação, ainda me aquece aquele aperto de mãos, que se davam uma e outra à luta pela liberdade, sonhando um país que (ainda) não existe.

Do calor branco do Verão vinham as flores baratas que comprávamos, à esquina das escadinhas de Santa Justa, para a alegria da namorada ou da parceira de uma noite bonita e casual. Viver à espera da PIDE, com projectos incertos, dava direito a beber de vez em quando a espuma de uma hora louca.
Pelas ruas da Baixa, num 1º de Maio proibido em que a polícia nos dispersou a tiro e com indelével água azul, houve correrias dementes pela Rua do Ouro, trabalhadores e estudantes espancados, o Manuel Vilaverde Cabral ficou, se bem me lembro, todo pintado da cor do céu, e eu por lá andei e escapei dessa vez aos encontrões e às cacetadas.

Relendo os contos que então escrevi, verifico que nalguns reproduzi (e obviamente alterei, acrescentei ou reduzi) os factos reais; noutros, pelo contrário, antecipei, como se adivinho fosse, a vida que ia viver.

Legenda: quadros de Luiza Cardoso.