segunda-feira, 9 de agosto de 2010

CONCEPÇÔES MORAIS E ESTÉTICAS...

Parte do preãmbulo do Decreto-Lei nº 31.247, de 5 de Maio de 1941:

“Factos ocorridos durante a última época balnear mostraram a necessidade de se estabelecerem, com a precisão possível, as normas adequadas à salvaguarda daquele mínimo de condições de decência que as concepções morais e mesmo estéticas dos povos civilizados ainda, felizmente, não dispensam.”

Para dar cumprimento aos preceitos morais do decreto-lei, existiam nas praias, os chamados “cabo de mar” que percorriam, a pé, o areal, em busca de ofensas à moral pública.
Quem fosse apanhado fora das regras era detido e apresentado em tribunal.
Homens, mulheres, também as crianças, usavam uns fatos de banho ridículos, ocultando parte dos corpos, tal como impunham´os zeladores do decoro e da moral.

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


A 9ª Sinfonia de Beethoven era a jóia da coroa.

Tal como, a abrir“Os Clássicos do Meu Pai”, escrevi:

“Ouvir música clássica, a televisão ainda não tinha entrado porta dentro, era um ritual da casa. Volta e meia ouvia-se o no corredor: “Vamos embora que vou pôr a 9ª Sinfionia”.Não era um convite, era quase uma ordem, e eu e o meu avô avançávamos para o escritório e ali ficávamos, em profundo silêncio, a ouvir Beethoven.É uma imagem gratificante que guardo: os três sentados, rodeados de livros, a ouvir música clássica."

Como não poderia deixar de ser a gravação é da “Deutsche Grammophon”,


Solistas:
Clara Ebers, Soprano
Gertrude Pitzinger, Alto
Walther Ludwig, Tenor
Ferdinand Frantz, Barítono

Coro e Orquestra da Bayerischen Rundfunks
A orquestra é dirigida por Eugen Jochum
O coro é dirigido por Josef Kugler

domingo, 8 de agosto de 2010

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

OLHARES

Espingardaria Martins, Guarda, Novembro 2007

A HORA DAS NOVELAS


Banda Sonora de “Escrava Isaura”

Retirantes
– Dorival Caymmi

Banzo – Os Ticoãs
Mãe Preta – Coral Som Livre
Nanã – Orquestra Som Livre
Amor Sem Medo – Francis Hime

sábado, 7 de agosto de 2010

MEMÓRIAS

Este é o veleiro “Sedov” da, então, Marinha Mercante da União Soviética”que, em 7 de Agosto de 1982, deu entrada no porto de Lisboa, participando na “Tall Ship’s Race”, um dos maiores encontros mundiais de veleiros e regatas.

A primeira vez que Lisboa participou neste encontro, ocorreu no ano de 1956. Seguiram-se 1982, 1998 e 2006.

Em 2012 os veleiros e regatas de todo o mundo voltarão a entrar a Barra do Porto de Lisboa.

COM O ESPANTO DE NÃO SABER NADA...



No dia 7 de Agosto de 1945 Miguel Torga, escrevia, no seu Diário:

A primeira bomba atómica. Que maravilhoso bicho, o homem! Teimou, teimou, e descobriu a pedra filosofal.

Harry Truman, presidente dos Estados Unidos: 

Fiz aquilo que era necessário.

Paul Warfield Tibbets Jr., comandante do “B-29”: 

A bomba cumpriu a tarefa que lhe estava destinada: pôr fim à guerra.

Julius Robert Oppenheimer, dirigiu o projecto para o desenvolvimento da bomba atómica: 

É preferível que morram 1000 000 japoneses a que morra um só americano.

Não consta que, qualquer destes três personagens da História, alguma vez tenha conhecido aquele amargo de inquietude, de angústia, que a má consciência, o sentimento de culpa transporta.

Em nenhuma noite os olhos das crianças que morreram com o espanto de não saber nada, lhes terá impedido de, tranquilamente, adormecerem.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

DIÁLOGOS COM JOSÉ SARAMAGO


No 5º volume dos seus “Cadernos de Lanzarote”, José Saramago dá notícia de que, a 25 de Janeiro de 1997, apareceu, em Lanzarote Carlos Reis, “armado de gravador, bloco-notas benevolência com a ideia de me fazer uma entrevista que terá um livro como destino final.”

O livro, “Diálogos com José Saramago” foi publicado, pela Caminho, em Dezembro de 1998.

Na apresentação do livro, escreve Carlos Reis:

“Os “Diálogos com José Saramago” são do escritor, mais do que meus: a forma como fui colocando as questões não expressa, contudo, um apura e neutra indagação. Se intitulei o que aqui fica como “diálogos”, foi porque procurei investir na questionação uma (ainda assim discreta) atitude de interpelação, por vezes até de interlocução argumentativa, em busca não de uma qualquer verdade que sempre se nos escapa, mas, pelo menos, da clarificação de problemas que me parecem significativos: para o escritor, para os seus leitores e para o conhecimento do fenómeno literário em geral. De qualquer forma, repito, o que aqui fica é, pelo menos, um esboço de “poética”: a que, mesmo difusamente, rege as páginas literárias, culturais e ideológicas de um escritor chamado José Saramago. Esse que agora é o Prémio Nobel da Literatura, mas que, para o autor destas linhas, já o era antes de a Academia Sueca se ter lembrado de o confirmar como tal.”

ENOLA GAY



Little Boy, o rapazinho, é o nome do objecto de quatro metros e vinte e cinco centímetros, um metro e meio de diâmetro e quinhentos quilos de peso, nada mais, nada menos que a bomba atómica que seria lançada sobre Hiroxima.

Paul Tibbets, comandante do “B-29” mandou pintar na fuselagem o nome da sua mãe: Enola Gay.

Eu sabia que esse avião haveria de ser famoso e, assim, dei-lhe o nome da minha mãe, porque ela me tinha apoiado quando deixei a Faculdade de Medicina para ir frequentar o curso de pilotos”Dirá mais tarde: “O céu inteiro iluminou-se dos mais belos azuis e cor-de-rosa que vi na minha vida. Foi fantástico.

Robert Lewis, co-piloto do B-29, vendo lá em baixo o cogumelo de fogo e de morte a elevar-se nos ares conseguiu dizer: Meu Deus, Que fizemos?


Em 1980, Andy McCluskey compôs para os Orchestral Manoeuvres in the Dark, a canção Enola Gay, um subtil poema onde se fala de um rapazinho que deveria ter ficado em casa em vez de ter vindo para a rua fazer brincadeiras que deixaram pessoas com lágrimas, mas de que sua mãe muito se orgulhou.


Enola Gay
You should have stayed at home yesterday
Ah-ha words can’t describe
The feeling and the way you lied

These games you play
They’re going to end in more than tears some day
Ah-ha Enola Gay
It shouldn’t ever have to end this way

It’s eight fifteen
And that’s the time that it’s always been
We got your message on the radio
Conditions normal and you’re coming home

Enola Gay
Is mother proud of little boy today
Ah-ha this kiss you give
It’s never going to fade away

Enola Gay
It shouldn’t ever have to end this way
Ah-ha Enola Gay
It shouldn’t fade in our dreams away

It’s eight fifteen
And that’s the time that it’s always been
We got your message on the radio
Conditions normal and you’re coming home


Legenda: Capa do “single” Enola Gay, extraído do álbum “Organisation” (1980)– VVD-45.035 ES, editado e distribuído em Portugal por VADECA-J.C. Donas, Lda sob licença de “VIRGIN RECORDS, LTD”

HIROXIMA



John Hersey, jornalista do “The New Yorker”, em 1946, um ano depois da bomba atómica ter caído sobre Hiroshima, chega à cidade para mostrar, aos seus leitores, o que fora o mais terrível dos dias.

Encontra seis sobreviventes – duas mulheres e quatro homens, um deles religioso alemão e, à volta dos seus depoimentos, das terríveis experiências vividas, escreveu uma vibrante e memorável reportagem, publicada na edição de 31 de Agosto de 1946, que acabaria por receber o “Prémio Pulitzer” e que, mais tarde, sairia em livro.

Com a reportagem de John Hersey, os norte-americanos passavam a ter uma outra visão do que fora o acto vergonhoso de Hiroshima, bem contrária à aura de glória que os governantes sempre quiseram que esse hediondo crime tivesse: que acontecera em nome da Liberdade, da Paz, da Democracia, do Progresso.

Este é o início de “Hiroshima” de John Hersey:

“Exactamente às oito horas e quinze minutos da manhã de 6 de Agosto de 1945, hora japonesa, no momento em que a bomba atómica relampagueou sobre Hiroshima, a Menina Toshiko Sasaki, empregada de escritório na secção de pessoal da “Construções Metálicas da Ásia Oriental, acabava precisamente de sentar-se no seu lugar no escritório da fábrica, e estava a voltar a cabeça para falar à rapariga da secretária mais próxima. No mesmo momento, o dr. Mazakazu Fujii instalara-se de perna traçada no pórtico da sua clínica particular, debruçada sobre um dos sete rios do delta que divide Hiroshima, a fim de ler o “Asahi” de Osaka; a srª Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, encontrava-se à janela da cozinha observando um vizinho que demolia a sua casa situada numa linha de protecção contra incêndios causados por ataques aéreos; o Padre Wilhelm Kleinsorge, sacerdote alemão da Companhia de Jesus, deitado em trajos menores numa cama do último dos três andares do prédio pertencente à sua Ordem, lia uma revista jesuíta, “Stimmen der Zeit”; o dr. Terefumi Sasaki, jovem membro da equipe de cirurgia do amplo e moderno Hospital da Cruz Vermelha da cidade, caminhava por um dos corredores do edifício, levando na mão uma amostra de sangue para uma reacção de Wassermann; e o reverendo sr. Kiyoshi Tanimoto, pastor da igreja metodista de Hiroshima, descansava à porta de um homem rico, em Koi, o subúrbio ocidental da cidade, e preparava-se para descarregar um carro de mão cheio de coisas que tinha evacuado da cidade com medo de um ataque maciço dos B-29 que toda a gente espertava que Hiroshima sofresse. A bomba atómica matou cem mil pessoas e estas seis ficaram entre os sobreviventes. Ainda se espantam de estarem vivos quando tantos outros morreram. Cada um deles aponta os múltiplos pormenores de sorte ou vontade – um degrau subido a tempo, a decisão de entrar num edifício apanhando um eléctrico em vez do eléctrico seguinte – que os salvaram. E agora, cada um deles sabe que no acto de sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais morte do que alguma vez pensara poder ver. Naquele momento nenhum deles percebeu o que quer que fosse.”

John Hersey, “Hiroshima”, nº 87 da “Colecção Miniatura”, edição “Livros do Brasil” Lisboa s/d, Tradução de Rogério Fernandes, capa de Bernardo Marques.

6 DE AGOSTO DE 1945



Maio de 1945.

Um estranho silêncio caiu sobre a Europa. Os canhões tinham cessado de disparar e as bombas deixaram de cair sobre as cidades.

Hiroxima., 6 de Agosto de 1945.

O Japão em guerra, acumula desastres em todas as frentes. Apesar de tudo, era mais um dia para viver: nas escolas, nos escritórios, nas fábricas, nos templos.

McArthur, comandante -chefe das forças do Pacífico, informara o governo dos Estados Unidos, de que o Japão atingira o limite da sua resistência e que, em poucas semanas, o golpe de misericórdia podia ser vibrado pelas armas convencionais.

E de súbito, foi aquele clarão imenso, mais brilhante que cem mil sóis. Não houve tempo sequer para formular uma interrogação e Hiroxima ficou reduzida a escombros, milhares e milhares de mortos, feridos, desaparecidos.

O repórter do “Chugoku Shinibum” saiu para a rua. Poucas vezes disparou a máquina.
“Tive vergonha de fixar aquilo que os meus olhos viam”, disse mais tarde.

A poetisa Yukio Ohta descreverá a situação:

“Vimos um clarão e ficámos assim.
Cada um de nós, durante algum tempo, fez inconscientemente um número infinito de coisas sem saber o que fazia. Depois acordámos e perdemos a vontade de pronunciar palavra. Até os cães, que por ali vagueavam, deixaram de ladrar. Hiroxima não parecia uma cidade destruída pela guerra, mas uma antevisão do fim do mundo”.


Ao menos, o lançamento da bomba sobre Hiroxima correspondia a uma necessidade?

Quer dizer: era indispensável, como medida extrema para pôr fim à guerra e, assim, impedir o derramamento de mais sangue no campo aliado?

Não!

Os Estados Unidos quiseram dar a conhecer ao mundo que, a partir daquele momento, contavam com uma arma de destruição excepcional e urgia que o mundo soubesse quem passaria a “impor o respeito”.

Como se lia no “Daily Mail: “ A diferença em potencial bélico entre nós e o resto do mundo é como se eles não tivessem descoberto a electricidade, ou a energia a vapor…”


Ainda hoje continua a morrer gente por via do trágico bombardeamento: de cancro, leucemia , de desespero, de loucura…


A 9 de Agosto de 1945, os Estados Unidos fariam rebentar uma outra bomba atómica sobre Nagasaqui.

Mais um acto vergonhoso.


Como alguém um dia disse: nenhum povo tem o direito de humilhar, de uma forma tão brutal e desumana, outro povo.

“Voltaremos a encontrar-nos. Não sei onde, nem quando, mas voltaremos a encontrar-nos num dia de sol”, tal como se ouve no final de “Dr. Strange Love” de Stanley Kubrik


Legenda: Fotografia de Alfred Eisenstaedt

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

POSTAIS SEM SELO


A minha cabeça vai estoirar.
Os comprimidos não fazem efeito.
Já não sei o texto. A tristeza afoga-me.
Não há ninguém com quem se possa falar.
Daqui a pouco tenho de sorrir.
Sorrir é uma das coisas que faço bem.
Consigo até sorrir com os olhos.
Poucas pessoas conseguem sorrir assim


Marilyn Monroe

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A CONSISTÊNCIA DOS SONHOS



Catálogo da Exposição “José Saramago: A Consistências dos Sonhos”, editado pela “Editorial Caminho”, Abril 2008.

A 23 de Novembro de 2007 a Fundação César Manrique inaugura uma grande exposição, comissariada por Fernando Gómez Aguillera, dedicada à vida e à obra literária de José Saramago.
A 23 de Abril de 2008 a exposição esteve patente, em Lisboa, no Palácio da Ajuda.

“Estou convencido de que é preciso continuar a dizer não, mesmo que se trate de uma voz pregando no deserto.”

TEMPO DE FÉRIAS


Sua-excelência-o-presidente-da-república-professor-Anibal-Cavaco-Silva, numa daquelas brilhantes tiradas, com que amiúde nos brinda, disse aos portugueses que não fossem para o estrangeiro passar as férias, que deveriam ficar pelo país, para que não saíssem divisas.

A afirmação envolve algo que roça o disparate económico, uma trivialidade oca, mas o pior de tudo, reside no facto de, exceptuando os privilegiados do costume, Cavaco Silva, aparentemente desconhecer, esquecer, que os portugueses não têm dinheiro para gozar férias Tomara que o que ganham, o que vão tendo, lhes dê para (sobre)viver…

No início da estação, os jornais deixaram a notícia de que dois terços dos portugueses não vão sair de casa durante o período de férias, e apenas 7% admite viajar e gastar mais de 1.000 euros.

Mas sua-excelência-o-presidente-de-todos-os-portugueses, é assim…

Não vale a pena bater mais no ceguinho, mas o episódio trouxe-me à lembrança um pedacinho de uma crónica de Soeiro Pereira Gomes, incluída nas suas “Obras Completas”, publicadas em Janeiro de 1972 pelas “Publicações Europa-América”:

“Segunda-feira, sol-nado, fui pescar no bote do meu compadre. O vento enfunava as velas garridas dos barcos e refrescava-me o corpo, suado de puxar as redes, em vão.
Na terça-feira, caiei a minha casa. Pus no trabalho desvelos de artista, e ela ficou encantadora. Porém, o sol continuou à porta.
Deram-me um biscate para acabar, nos dois dias seguintes. À noite, joguei à bisca e ouvi, embevecido, fados plangentes na telefonia da taberna.
Na sexta-feira a mulher ficou de cama, doente, e eu fiquei entregue à vida idílica do lar.
E no último dia de férias vagueei pelas ruas da vila, a sonhar no que poderia comprara com o salário que recebi à tarde para entregar ao padeiro.”

OLHARES



Calçada da Glória, em Lisboa.
Há gente capaz de tudo: estacionar obras frente a uma porta..

terça-feira, 3 de agosto de 2010

JOSÉ SARAMAGO NA FEIRA DO LIVRO DE BRAGA

Na sessão de abertura da Feira do Livro de Braga, realizada de 27 de Fevereiro a 14 de Março de 1959, foi lançado um livro sobre José Saramago que reúne textos, na sua maioria inéditos, de Baptista-Bastos, Carlos Reis, Clara Ferreira Alves, Helena Carvalhão Buescu, José Manuel Mendes, Luísa Lelliud-Franco, Maria Alzira Seixo, Vitor Aguiar e Silva. O livro integra, também, fotografias de anteriores passagens de Saramago pela Feira do Livro de Braga.

Este é o texto de Baptista-Bastos:

Tenho vivido entre livros e palavras, que são as esperanças concentradas de quem sempre realizou os seus sonhos, sonhando-os. Fui um capitão de mil e uma aventuras, porque encarnei tudo o que era personagem encantatório. O curioso de isto tudo é que, sendo um homem de palavras, e por elas existindo, frequentemente, fascinado e estonteado, os meus heróis foram mais os de o cinema do que os da literatura.
Houve, em mim, na minha longínqua adolescência, uma porção de Bogart, de Jeff Chandler (já ninguém se lembra deste), de Burt Lancaster, de Jean Gabib´n e de Jean-Paul Belmondo. Fui o ardentemente longo namorado e amante de Lana Turner, Ava Gardner, Veronika Lake e Joan Crawford: ah! aqueles olhos, aqueles seios!
Nos buques sou um invejoso sem remédio. Invejo Herman Hesse por ter escrito “Narciso e Goldmundo”: Joseph Conrad por ser o autor de “Lord Jim”; Hemingway, por “O Adeus às Armas”; Vailland por “Les Mauvais Coups”; Nabokov, por “Lolita:; Edmund Wilson, por “Rumo à Estação Finlândia; Lukacs pelos volumes de “Estética”; Marx, por “Crítica do Programa de Gotha”; Freud, pela “Interpretação dos Sonhos”.
Porém, a inveja maior que me assola é a de não ter escrito, pelo menos, quatro dos livros de José Saramago: “Todos os Nomes”, por causa de todos nós: “Memorial do Convento”, porque põe todos nós em causa; “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, porque a causa somos nós e a tristeza do existir no fascismo; “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, pela grandeza do áspero diálogo com o transcendente das causas.





Com mão diurna e mão nocturna viajo, amiúde, por essas páginas iluminadas que nos dizem dos pretextos, dos triunfantes júbilos, da geografia das almas, das batalhas incertas e das certezas das lutas. Mas a minha inveja é mansa; é só comigo; direi mesmo: benigna inveja. É a inveja do leitor que, de repente, através do outro, descobre que o outro abriu as escadas e franqueou as portas de um mundo que é dele, mas distribuído por quem dele se acerca. Os meus encontros com José Saramago sempre me reconduzem a um território de benevolência, de confraternidade, de inumeráveis descobertas.
Não dava a vida por nenhum livro que amo. Mas a minha vida não teria sentido sem aqueles livros e autores amados. Por exemplo: sem a lição exemplar da obra de Saramago, e da vida do autor, que com ela se conjuga e se associa. Se a obra de Saramago, escorada num edifício lexical admirável, no-lo diz que o sentido da vida é o de descobrir que a vida tem sentido, a vida de Saramago no-lo assevera que o homem, quando quer, consegue tudo quanto quer.

A HORA DAS NOVELAS

Cantada por Ed Costa, "My Life" pertence à banda sonora internacional de "O Casarão".

A CADEIRA



Final de “Cadeira” de José Saramago em “Objecto Quase”:

“Já se ouvem passos no corredor, mas temos ainda tempo. A equimose tornou-se mais escura e o cabelo parece arripiado sobre ela. Uma passagem carinhosa de pente poderia compor tudo nesta superfície que vemos. Mas seria inútil. Sobre outra superfície, a do córtice, acumula-se o sangue derramado pelos vasos que a pancada seccionou naquele ponto preciso da queda. É o hematoma. É lá que neste momento se encontra o Anobium, preparado para o segundo turno. Buck Jones limpou o revólver e mete novas balas no tambor. Já aí vêm buscar o velho. Aquele raspar de unhas, aquele choro, é das hienas, não há ninguém que não saiba. Vamos até à janela. Que me diz a este mês de Setembro? Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim.”

AINDA SE LEMBRAM?

No dia 3 de Agosto de 1968, Oliveira Salazar, antes de partir para a quintarola em Santa Comba, gozava uns dias de sol, no Forte de Santo António da Barra.

No dia 7 de Setembro desse mesmo ano, às 09,00 horas da manhã, Pedro Moutinho lia, aos microfones da Emissora Nacional, um comunicado emanado da Presidência do Conselho:

“Em consequência de uma queda na sua residência de Verão, no Estoril, o Sr. Presidente do Conselho apresentou sintomas que levaram o seu médico assistente a recorrer à colaboração de dois colegas neurocirurgiões. Sua Exª foi operado esta noite, de um hematona sob anestesia local, encontrando-se bem.”Ficou então a saber-se, saber-se é como quem diz, que, naquele 3 de Agosto, Sua Excelência, por descuido, por mau estado, ou má qualidade, da madeira de uma cadeira, estatelou-se no chão, batendo com a cabeça na pedra dura.

Apenas uma queda, nada de importante e Sua Excelência não quis que falassem da sucedido ao seu médico assistente, e ficou entregue aos chazinhos e ao mercurocromo de D. Maria de Jesus Caetano, sua zelosa governanta.

Terá prosseguido a sua vida normal, por vezes queixava-se de dores de cabeça, nada que uma aspirina não resolvesse, até ao dia em que é internado, de urgência, no Hospital da Cruz Vermelha.

O “Independente” de 5 de Agosto de 1988, pela pena de Helena Sanches Osório, diz que não foi nada disto que se passou.

Que a queda acontecera na manhã de 5 de Agosto, que Augusto Hilário, calista de profissão, chegara ao Forte, com a mala dos utensílios, “A Bola" e o “Diário de Notícias” debaixo do braço, para tratar dos pés de António Oliveira Salazar.

Após os cumprimentos, Salazar pede que Augusto Hilário lhe empreste os jornais, “que os meus ainda não chegaram”, Augusto Hilário empresta-lhe o “Diário de Notícias”, ainda vê Salazar a abrir o matutino, e vira-se de costas para lavar as mãos.

A investigadora escreve:

“Depois, só ouve um enorme estrondo, realiza que este foi provocado pela aparatosa queda do Presidente do Conselho.
“Tinha a mania de se sentar atirando-se para cima das cadeiras, dizem os seus próximos, opinião corroborada por diversos médicos que explicam que, aos 79 anos, e com uma vida sedentária como era a sua, por falta de musculatura nas pernas, teria tendência de se sentar num movimento de quem se deixa cair.”


Bom, a 3 ou a 5 de Agosto, com ou sem calista, sabe-se que uma cadeira viria a provocar a queda de Salazar e que, por sua vez, o obrigaria a ser operado a 6 de Setembro e de que viria a morrer às 09h 15m do dia 27 de Julho de 1970.

Segundo consta, a cadeira foi lançada ao mar por D. Maria de Jesus Caetano.

O regime ainda sobreviveu quatro anos à morte de António Oliveira Salazar.
Aconteceu num 25 de Abril de 1974.

Ainda se lembram?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

NOTAS DE ESCRITA


Exemplar do nº 44, da revista “Ler”, referente ao Inverno de 1998, e editada pelo “Círculo de Leitores”.

Este número da “Ler” contém as notas de escrita que José Saramago utilizará na escrita de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.


Para escrever “O Ano da Morte de Ricardo Reis", José Saramago, serviu-se de uma agenda de 1983, adaptada para o ano de 1936, e nela apontou os acontecimentos políticos, sociais e todo o “fait-divers” da época. Trata-se de um documento importantíssimo, que mostra o minucioso método de trabalho da sua escrita.


Estes documentos foram doados por José Saramago à Biblioteca Nacional.


“A abertura do livro (primeiro capítulo) decorre entre o momento da entrada da barra e a leitura dos jornais no quarto do Hotel Bragança, enquanto a chuva cai sobre a cidade. Caberá aqui, por ordem cronológica, a partida de RR para o Brasil, os dezasseis anos já passados, a revolução comunista ali, a notícia da morte de FP, a decisão de regressar, o regresso, as imagens do rio e da cidade, o hotel, a chuva, a melancolia.
Importante: os elementos da atmosfera do “Livro do Desassossego”, e também as informações concretas: o empedrado das ruas, as carroças do lixo, a inconfundível cor (cinzenta? Parda?) da Rua dos Douradores, os caixeiros, os restaurantes, ou casas de pasto. O Café Royal ficava ao pé do Hotel Bragança, onde hoje está um banco. Pelo tempo que viver, será o café de RR.
Que tipo de homem é RR? Fisicamente, aceite-se o que FP diz dele. E o resto? É “fino”? “aristocrata”? simples? requintado de gostos e maneiras? dado? discreto? convivente? Reservado?”

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

Verão 1970.
Camisas Triple Marfel, Rosa Negra.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

Uma Thuman para John Travolta em "Pulp Fiction":

- Nãos os odeias?
- Odeio o quê?
- Silêncios desconfortáveis!

Legenda: Imagem de "Pulp Fiction" de Quentin Tarantino, filme de 1994

domingo, 1 de agosto de 2010

ESCREVER: UM ACTO SOLITÁRIO


Exemplar do nº 43, da revista “Ler”, referente ao Verão/Outono de 1998 , e em que o "Círculo de Leitores" saúda José Saramago pelo Prémio Nobel da Literatura.

Francisco José Viegas assina o prefácio, e a abrir escreve:

“Antes de mais: este prémio é para Saramago. Não é um prémio para a literatura portuguesa. Convém reafirmá-lo: é para José Saramago, para o autor de “Memorial do Convento”, “Levantado do Chão”, “Viagem a Portugal”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio sobre a Cegueira”, ou “Todos os Nomes”. O trabalho de um escritor é um acto solitário. Nele se defrontam os demónios pessoais, a fé e a falta de fé, o destino individual e o mundo que passa pelas suas páginas.”

As primeiras páginas da “Ler”, são preenchidas com fotografias de José Saramago e afirmações suas em entrevistas, e publicadas em diversos órgãos de comunicação. Assim:


“Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, como tudo o que hoje fazemos, salvo raras excepções, já foi feito há muito tempo, antes de nós. Tudo é assim na vida, na literatura tambén"– “Ler”, 1989

“Sou favorecido porque tive uma espécie de adolescência prolongada. Entrei pela vida adulta como se tivesse conservado um ar de adolescente. Isso traduz-se, também, numa certa forma de olhar. Olho as coisas como se os meus olhos não estivessem habituados a isso.” – “Ler”, 1989

“Para se ser ateu como eu sou, deve ser preciso um alto grau de religiosidade. Pode pensar-se que, como não crente, não tenho direito nenhum de me apaixonar por uma figura como a de Jesus Cristo. Não estou de acordo. Qualquer escritor, todo o escritor, deveria, um dia confrontar-se com a figura de Jesus Cristo.” – “Ler”, 1991

“Quais são os meus autores preferidos? Montaigne, Cervantes, o Padre António Vieira, Gogol e Kafka”
– “ABC”. 1998


“Quero recordar que se tivesse morrido aos sessenta anos, não tinha escrito nada. Quero que os jovens saibam que nós, velhos, estamos aqui para trabalhar.” – “El País”, 1998

MEMÓRIAS

Era assim.
Let's Twist Again, gira-discos no chão, com a Beatriz.
Linda-a-Pastora, 1965.

BAILES DA VIDA

Os macacos aparecem aqui mas não é para ofender ninguém.
Mas achei piada porque os Bailes da Vida também se faziam com gira-discos portáteis no chão duma sala ou dum terraço.
Lembro-me bem.