domingo, 6 de agosto de 2017

PEQUENOS CADERNOS


Este recorte, tirado dos Pequenos Cadernos, é do Diário de Lisboa de 5 de Dezembro de 1981.
São de seca os tempos que se vivem no País.
Não é de hoje.
Já é de há muitos anos, uns mais do que outros.
No Alentejo, quinze localidades já decretaram a redução de consumo de água na rega dos jardins, no encher piscinas, na lavagem de carros.


DO SORRISO DE FEHÉR


As televisões tornaram-se macabras.
Praticam um jornalismo miserável, de sarjeta.
Aqueles repórteres em directo são o pior que nos pode acontecer enquanto olhamos o pequeno écran.
E há milhares que não despregam os olhos e que exigem o «must» do escabroso.
Os «shares» exigem sangue e que esse sangue dure o maior tempo possível.
Ana Sousa Dias, hoje no Diário de Notícias, dá-nos a ler um brilhante texto de opinião sobre o jornalismo que se pratica hoje em dia:

«Um dos meus heróis chama-se Ricardo Espírito Santo. No dia 25 de janeiro de 2004, ele dirigia a transmissão do jogo Guimarães-Benfica e tirou do ar, num ápice, o rosto de Miklós Fehér no instante em que o coração do jogador húngaro parou. A última imagem que tivemos dele foi um sorriso aberto. Ricardo fez, antes e depois, centenas de transmissões de futebol, um trabalho normal na vida profissional dele, que está recheada de muitos outros, no desporto como noutras áreas. Eu não o conhecia mas para mim aquele momento definiu-o. Mais tarde ficámos amigos e pude confessar-lhe o meu profundo respeito por aquele gesto instantâneo. Para ele, tinha sido uma reação normal, óbvia.
Todos os dias tomamos decisões - o que vou vestir, viro para a esquerda ou para a direita, o que faço para o jantar -, escolhas banais. As grandes decisões são outra coisa: mesmo quando parecem tomadas rapidamente, têm por trás um lastro que é a nossa vida inteira, incluindo as nossas hesitações e indecisões. Ricardo não decidiu por acaso evitar que o mundo visse em direto a morte de Fehér. Ele é assim, deontologicamente irrepreensível.
O mesmo respeito mantenho pelo realizador de um programa de entrevistas que tive na RTP2, Rui Nunes. Se o entrevistado se comovia demasiado, se lhe tremia a voz ou os olhos ficavam em lágrimas, ele retirava-lhe de imediato o grande plano do rosto, numa atitude de profundo respeito. Bem sei que há quem goste de fazer exatamente o contrário e até há quem force essas situações de lágrimas. Até há aquela clássica cena das lágrimas falsas do jornalista interpretado por William Hurt em Edição Especial (Broadcast News, 1987, realizado por James L. Brooks), desmascaradas por Holly Hunter.
Na quarta-feira passada, também eu dei por mim pasmada em frente da televisão a ver imagens do areal de São João da Caparica. Passados estes dias, agradeço à RTP por ter sido o único canal de televisão que não ficou horas especado num lugar onde aconteceu uma tragédia mas onde, passado pouco tempo, já não havia nada para mostrar em direto. Havia reportagem para fazer, para depois editar, mas não era necessário ficar em direto. E muito menos a entrevistar, para ocupar o tempo, crianças que tinham acabado de testemunhar a morte de duas pessoas. Vi pelo menos duas crianças a quem foram pedidos pormenores do acidente.
Tive sorte, não vi o momento em que o pai de Sofia quis falar para o microfone da TVI24. Posso imaginar - e dizem-me que foi evidente - o embaraço e o pudor da repórter. Se estava decidido manter o direto, devia haver alguém na régie a dirigir a emissão com sangue-frio e preocupação ética, alguém que decidisse parar a cena de imediato. Não é apenas bom senso: há regras para isto, nós jornalistas temos um código deontológico que é claro a este respeito.
Nos antípodas do episódio Fehér tenho na memória um dos momentos em que senti maior vergonha alheia. Foi durante as longuíssimas horas em que, no dia 4 de março de 2001, houve os mais absurdos diretos de televisão: o acidente de Entre-os-Rios. Não acontecia absolutamente nada. De vez em quando, mergulhadores faziam buscas no leito lamacento e caudaloso de um Douro que escoava águas de muitas chuvas, mas cada vez se tornava mais óbvio que não iria aparecer nada. Soube-se mais tarde que morreram ali 59 pessoas, dentro de um autocarro e de três carros que atravessavam a Ponte Hintze Ribeiro quando um dos pilares ruiu. Nada mais havia para ver, porque a violência das águas tinha arrastado tudo em direção ao mar.
Tal como no areal da Caparica, também havia jornalistas a entrevistar pessoas que por ali andavam. Na maioria, eram familiares, amigos, vizinhos dos que tinham desaparecido. Sei, porque fiz perguntas depois, que os repórteres no local recebiam da chefia ordens constantes para mostrar "sangue", maneira de dizer que era preciso agarrar os espetadores com algum pormenor escabroso. E foi então que uma repórter anunciou: "Vamos falar com um menino que costumava ir às excursões com os avós mas desta vez foi substituído por um irmão." A pergunta nunca me sairá da cabeça: "Tiveste pena de não ir na excursão?"
Quando dou aulas, refiro sempre este exemplo como o cúmulo do que não deve ser feito. Está lá tudo: a entrevista a uma criança sobre uma tragédia, a insistência num direto sem sentido, a exploração descabelada do voyeurismo básico que todos temos um pouco em nós. E a estupidez da pergunta, claro.
Podermos ver em tempo real algo que está a acontecer é um feito extraordinário que a tecnologia nos dá. Mas um direto de informação não é uma câmara de vigilância à espera de que alguma coisa aconteça.»

OLHAR AS CAPAS


O Velho e o Mar

Ernest Hemingway
Tradução Jorge de Sena
Capa e Ilustrações: Bernardo Marques  
Edição Livros do Brasil, Lisboa Abril 2002

Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam bóias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem el mar, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Mas de cada vez que penso neste filme, eu lembro-me do plano final. Klara (Margaret Sullivan)  finalmente só com Kralik, pede para lhe ver as pernas. Conhecem mais algum filme que acabe com uma mulher a dirigir a um homem semelhante pedido? Conhecem masia lgum filme que acabe com o homem a mostrá-las mesmo, a ela e a nós, com a câmara bem colocada cá em baixo para não perdermos pitada desse arregaçar de calças? E, em aplauso à grandeza (ou à beleza) da visão, um beijo em close-up e a fusão com a palavra fim. Se conhecem, digam-me, porque eu nunca vi.

João Bénard da Costa no 2º volume de OsFilmes da Minha Vida

Legenda: fotograma de A Loja da Esquina

sábado, 5 de agosto de 2017

AINDA HÁ ESTRELAS NO CÉU


Há 55 anos morria, segundo Ruy Belo, «a mulher mais bela do mundo.»
A sua morte permanece como uma história muito mal contada.
John Huston disse que foram os filhos da puta dos médicos que a mataram - «eles viciaram-na em pílulas.»
Há quem conclua que os Kennedys estão metidos no desenlace fatal.
Um dia se saberá!!

Legenda: Marilyn fotografia de Eve Arnold, 1960.

E EU COMEÇAVA A RECEAR O VENTO


Benmont Tench, um dos músicos da banda do Tom Petty, pediu-me incessantemente, quase implorava que fossem incluídas outras canções nos espectáculos. A «Chimes of Freedom» - achas que podemos tentar? Ou por exemplo a «My Back Pages»? Ou «Spanish Harlem Incident»? E eu dava sempre uma desculpa esfarrapada. Na verdade não sei bem quem estava a desculpar-se porque tinha fechado a porta a mim mesmo. O problema era que, depois de ter confiado tanto tempo no instinto e na intuição, estes tinham-se transformado em abutres e estavam a deixar-me seco. Até a espontaneidade se tinha tornado numa cabra cega. Os meus montes de feno não estavam consistentemente e eu começava a recear o vento.

Bob Dylan em Crónicas




OLHAR AS CAPAS


Aquele Que Quer Morrer

Manuel António Pina
Capa e Desenhos de João B.
A Regra do Jogo, Lisboa, Junho de 1978

Transforma-se a Coisa Estrita no Escritor


Isto está cheio de gente
falando ao mesmo tempo
e alguma coisa está fora de isto falando de isto
e tudo é sabido em qualquer lugar.

(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto;)
o escritor é uma sombra de uma sombra
o que fala põe-o fora de si
e de tudo o que não existe.

Aquele que quer saber
tem o coração pronto para o
roubo e para a violência
e a alma pronta para o esquecimento.

MUITO MAIS HOMEM QUE MULHER


Gosto de charutos e de boleros.

Alguém disse que, enquanto houver quem ouça boleros e fume charutos, continuará a ser nula a taxa de suicídio entre essas gentes.

Fiz apontamento.

Devo muitas coisas às bandas sonoras dos filmes de Pedro Almodovar.

Lembro Luz Casal e Chavela Vargas.

Chavela Vargas morreu no dia 5 de Agosto de 2012.

Lembrei-me de um excelente texto publicado por Manuel S. Fonseca:

A voz de Chavela era mais do que flores. Não sei se diga rouca se diga transgressora. Por muito que goste dela, e gosto, Chavela não é a minha cantora de boleros favorita, mas é a que tem a biografia mais excitante. Muito mais homem do que mulher, Chavela vestia calças, poncho vermelho e pistola à cinta. Charuto na boca, saía, num tempo em que as mulheres não conjugavam o verbo, com o alcalde de su ciudad y otros amigos pelas mais nocturnas das ruas, emborrachava-se tanto como ele e os outros e disparava, antes ou depois, sobre o que eles disparassem. Terá dormido com mais mulheres do que eles todos juntos o que, mesmo que não seja verdade, também não é uma rematada mentira. Womanizer sem desculpa, foi o que foi.
Fez um tremendo sucesso com as suas rancheras, mas o que a ela me faz voltar e tantas vezes, é a sensibilidade dos boleros. O êxito fê-la saltar da ciudad para o mundo, Europas e Hollywood. Não deixou, por isso, de ser o homem que era, mulher portanto, roubando dos outros homens belas mulheres que nunca quiseram ser homens – logo ela que em pequena nunca tinha brincado com bonecas. Dizem que beijou a boca fresca de Ava Gardner que a ela (ou ele?) se terá rendido de tiro e queda. Boa pontaria, digo eu. Agora, apareceu uma carta de Frida Kahlo a confessar tremores e olhar nublado: “…es erótica. Acaso es un regalo que el cielo me envia” escreveu a pintora em carta descoberta há pouco e que acusam de apócrifa.
Será, mas apócrifa é tudo o que não é a estarrecedora interpretação da canção que a Frida sempre La Chabela dedicou. La llorona que se pode ver e ouvir abaixo.
Chavela tinha 93 anos. Continuava a gostar de armas e a dizer que quando se faz o que se gosta se deve fazê-lo a noite inteira. 




É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


O Glorioso na carreira 28.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

RELACIONADOS


Numa carta datada de 6 de Junho de 1972 Jorge de Sena escreve a Eugénio de Andrade:

«E um caso para que solicito a tua intervenção. O Pinheiro Torres tem um livro para ser ou não ser editado pela Inova, cujo prefácio me solicitou. Escreverei tal prefácio com muito gosto, porque acho que se trata de um grande livro de poesia. Será isto recomendação para que lho editem? Creio que sim. Suponho que as relações pessoais dele com a nossa gente da Inova não serão ou terão sido das melhores. Mas suponho que um livro notável deve ser considerado aacima e fora disso.»

O livro seria publicado, nesse mesmo ano de 72, pela Plátano Editora.

O prefácio é de Jorge de Sena onde reafirma:

«A Terra do Meu Pai é sem dúvida um dos mais belos e comoventes livros da poesia portuguesa, nos últimos anos.»

Legenda: Alexandre Pinheiro Torres

OLHAR AS CAPAS



A Terra de Meu Pai

Alexandre Pinheiro Torres
Prefácio: Jorge de Sena
Capa: Raul da Vaza
Colecção Sagitário nº 1
Plátano Editora, Lisboa, 1972

Casa-Carta-Casa

Ó Terra de meu Pai   tão casa de ler
por dentro   mas de mim só por fora o
avesso dela   a trapezista letra   uma
parede soletrada   hierogramas na porta

Etrusco   cascas de silêncio   Teu filho
a leiga epigrafia na unha preparada
Reticente mão   Endereço de luto   linha
a pedra   Oculta áfona letra cursivada

Pior do que lhe morreres de uma morte
tão assim caligrafada   fecho é não seres a
abrir que ele te saiba tábua a sílaba
sílaba a tábua decorada   Mas não leres

tu também esse Filho da letra sempre
mal lida ou interpretada é ele morrer-te
da morte do post-scriptum que chega
à carta à noite e a porta fechada

SINTO-ME CANSADO E DESINTERESSADO DE TUDO...


Carta de Jorge de Sena, datada de 12 de Outubro de 1973, para Eugénio de Andrade:

Não sei quando voltarei à Europa, nem tenho planos imediatos (afinal cheguei de lá, ainda que só Portugal e Espanha, há pouco mais de um mês…) Sinto-me cansado e desinteressado de tudo: nem mesmo o que publico me excita um pouco (ainda que não possa queixar-me da recepção crítica dos Trinta Anos de Poesia). E estou cansado ainda mais dos Estados Unidos, embora sabendo que não tenho possibilidades de viver noutra parte, o que não ajuda nada. Estes dias, com o frenesi da propaganda judaica e o envolvimento descarado do governo americano ao lado de Israel, até fazem a gente sentir-se anti-semita.

À LUZ DE CANDEEIROS


Bairro da Graça, Lisboa.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A VAIDADE DO DIA-A-DIA


29 de Agosto de 1969

Vivemos em plena imitação grotesca das sociedades de consumo. Mas só lhes podemos copiar as cerimónias decorativas e pedantes.
Por exemplo, os editores tentam agora impelir (ou impelem mesmo) os escritores para os cocktails literários de apresentação de livros, para os colóquios, sessões de autógrafos, etc., etc. – mas o consumo que justifique esses ritos neocapitalistas permanece o mesmo, insignificante ou mesmo nulo.
Eu, por mim, recuso colaborar nessas comédias de promoção na Rádio, na Televisão, etc.
Aliás a minha verdadeira promoção comercial não consiste em aparecer a comer salgadinhos ou a responder a perguntas estúpidas na televisão, mas pelo contrário em recusar!
Que diriam os meus filhos se eu me sujeitasse a essas palhaçadas tontas, para alimentar a vaidade do dia-a-dia?

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

TRUMPALHADAS


Desta vez não foram os jornalistas que inventaram as notícias.

O próprio Donald Trump, disse a membros do seu clube de golfe em Nova Jérsia que passa tanto tempo fora de Washington porque a Casa Branca era uma «autêntica lixeira».

Paulo Tavares, no Diário de Notícias, faz um resumo do que foram os últimos dez dias de caos na Casa Branca:

«Spicer saiu porque entrou Scaramucci, que correu com Priebus, que foi substituído por Kelly, que correu com Scaramucci. É esta a história dos últimos dez dias na Casa Branca. Agora com cargos: o porta-voz saiu porque entrou um novo diretor de comunicação, que correu com o chefe de gabinete (equivalente ao chefe da Casa Civil da nossa Presidência), que foi substituído por outro chefe de gabinete (um general!), que correu com o diretor de comunicação... que tinha começado toda esta história.»

Entretanto:

- O Senado dos Estados Unidos chumbou na sexta-feira, com o voto decisivo de três republicanos, incluindo John McCain, uma proposta de lei para retirar parcialmente a reforma de saúde promulgada em 2010 pelo então Presidente democrata, Barack Obama

- Donald Trump, acusou no sábado a China de inacção face à Coreia do Norte, após o lançamento de um novo míssil balístico intercontinental.

- O presidente russo, Vladimir Putin, vai expulsar 755 diplomatas norte-americanos da Rússia, em retaliação das sanções económicas anunciadas sábado pelo Congresso norte-americano.

 - Num discurso paranóico, Trump disse à polícia que não precisa de ser «demasiado boazinha» com suspeitos.

«Quando vocês põem alguém dentro do carro e lhe protegem a cabeça… ele acabou de matar alguém. Podem tirar a mão, ok?», enquanto imitava o procedimento de segurança que envolve colocar a mão na cabeça de uma pessoa, ao entrar dentro de um carro da polícia.

De imediato, o comando do condado de Suffolk, onde Trump discursou, emitiu um comunicado onde se distanciava da sugestão do presidente:

 «Não toleramos nem iremos tolerar maus-tratos a prisioneiros».

Não é possível que este louco continue a presidir aos destinos dos Estados Unidos, por arrastamento, aos destinos do Mundo.  

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Partido Comunista Português entregou na Assembleia da República um projecto de resolução que recomenda ao governo que inicie o processo de recuperação do controlo e gestão do serviço postal universal por parte do Estado, através da reversão da privatização dos CTT.

Segundo o projecto dos comunistas, mais do que uma empresa que garanta lucros e dividendos, «os Correios devem ser o garante de um serviço público efectivamente ao serviço do País e das populações, ao serviço da economia nacional e do desenvolvimento, com uma gestão que vise o equilíbrio económico-financeiro e o investimento na melhoria da qualidade».

Para o PCP, existiram na última década políticas que colocam em causa o serviço público postal, como a «redução de balcões», a «degradação do serviço», o «agravamento dos preços», praticadas por «sucessivas administrações, impostas pela política de direita» e que se associam à privatização e liberalização dos serviços postais, preconizada pela União Europeia, «com a cumplicidade activa dos sucessivos governos nacionais».

Os CTT foram totalmente privatizados pelo governo de direita do PSD e CDS em 2014.

Nicolau Santos escrevia no Expresso de 17 de Junho de 2017:

«O Governo PSD/CDS decidiu privatizar os CTT não porque dessem prejuízos (davam bons lucros) ou por causa do quadro europeu (em 2013, 80% dos correios na UE a 28 eram públicos) ou porque os privados fossem mais competentes (se a missão dos correios for entregar cartas e encomendas, não há nenhum privado que disponha de uma rede melhor). Ou seja, as razões para a venda dos CTT foram sobretudo ideológicas. Mais nada justifica um negócio tão estúpido para o Estado e para os utilizadores dos CTT. Com efeito, os primeiros prejudicados pela privatização têm sido os clientes tradicionais dos CTT, sobretudo as pessoas idosas que se deslocam aos seus balcões para receber pensões ou enviar/levantar encomendas. Desde 2015, quando a empresa foi privatizada, fecharam 133 estações de correios e 90 postos de correios, foi reduzido em 1018 o número de trabalhadores e deixou de haver distribuição diária de correio.
(…)
A ideia que dá é que os CTT estão a deixar de saber fazer o que sabiam e a meter-se por caminhos que não dominam. Por Outras palavras, tem tudo para correr mal. A não ser para o presidente dos CTT, que ao passar de gestor público em 2014 para gestor privado, passou a ganhar mais 110% (943.700 euros), aumentando exponencialmente a disparidade salarial entre o CEO e os trabalhadores de 21,8 vezes para 45,3, o segundo maior agravamento entre todas as cotadas naquele período. Ou seja, os utentes dos correios estão pior mas o presidente está melhor. Já é um sinal de sucesso desta excelente estratégia.»

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A NÃO SE LEMBRAREM QUE LÁ FORA É MELHOR


- Tens muito que fazer?
- Não. Tenho muito que amar.
Não entendo ser professor de outra maneira. E não me venham dizer que isso assim cansa e mata; morrer-se, sempre se morre: e à minha maneira tem-se a consolação de não ser em vão que se morre de cansaço. 
(…)
Aulas más são as aulas que os rapazes não querem ouvir. Mas então – poderia eu defender-me – que culpa temos nós de os rapazes serem barulhentos, desinquietos e desatentos? É verdade que às vezes a culpa não é nossa: é toda deles, a quem mais apetecia estar na rua que na escola. Mas para isso justamente é que serve o bom professor – e o meu drama resulta de que a mim só me interessa ser bom professor. Se bom professor consiste em adivinhar a maneira de levar todos os alunos a estarem interessados; a não se lembrarem de que lá fora é melhor. E foi o que eu ontem não consegui.

Sebastião da Gama em Diário

ACREDITAR QUE ASSIM SEJA


Excepto as crónicas na Visão, que depois são publicadas em livro, deixei de ler António Lobo Antunes.
O primeiro volume das Crónicas foi publicado em Novembro de 1998, o segundo em Outubro de 2002, o terceiro em Janeiro de 2006, o quarto em Abril de 2011 e o quinto em Outubro de 2013.
Juntar as crónicas, limpar um qualquer excesso ou imprecisão, acrescentar qualquer coisinha não deverá ser tarefa que demore muito tempo, mas são largos os intervalos entre as publicações das crónicas em livro.
Estou em crer que o sexto volume deverá aparecer lá para Outubro.
Não tenho informação privilegiada mas gosto de acreditar que assim seja.

SOU TODO MEU


Eu não tenho computador, não tenho telemóvel, não tenho cartão de crédito, não tenho carro, resumindo: sou todo meu. Estou aqui sentado nesta cadeira a escrever esta crónica, cheio de vontade de voltar para o livro que ainda não parou de me trazer problemas. Do ponto de vista técnico é muito difícil, o material não cessa de crescer, estou mais ou menos a meio da primeira versão o que significa que, trabalhando as minhas doze horas diárias habituais, talvez a acabe lá para o fim do ano se nada especial acontecer na minha vida que me impeça de rabiscar. Não sei porque me meti neste livro, quer dizer sei mais ou menos: foi ele que se meteu em mim. Tinha acabado o livro anterior, estava à espera, vazio, e apareceu este primeiro depressa, depois devagar, depois depressa outra vez quando os vários elementos principiaram a juntar-se, depois devagar de novo à medida que ia crescendo. Tem vinte e cinco capítulos, acabei a primeira versão do décimo segundo hoje, queria começar a ocupar-me do décimo terceiro mas tenho de fazer estes textinhos para a revista. 

António Lobo Antunes de uma crónica na Visão, 20 de Julho

Legenda: imagem da Sábado.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

SAM SHEPARD (1943-2017)


Morreu Sam Shepard.
Tinha 73 anos.
Conheceu Patti Smith no Chelsea Hotel:
 «Estávamos apenas a tentar falar de dois sonhadores que se encontraram mas que estavam destinados a ter um fim triste. Era a verdadeira história de Sam e eu. Sabíamos que não poderíamos ficar juntos. Ele iria voltar para a sua mulher e eu continuaria a minha vida»., contou Patti Smith.
Escreveu Sam Shepard em O Grande Sonho doParaíso:

«Não faço ideia de qual a cidade onde me encontro. Não importa. Não faço ideia de qual a cidade para onde vou. Não tenho planos.»

JEANNE MOREAU (1928-2017)


Aos 89 anos, morreu Jeanne Moreau.
Foi muito mais além, mas bastava o extraordinário desempenho em Jules e Jim realizado por François Truffaut, um daqueles casos em que o filme suplanta o livro , para que fique na história do Cinema.
Um filme que arrepiou a minha geração, e não só!


NÃO PERTENCER A QUALQUER ASSOCIAÇÃO SECRETA


Assim concorri à vaga de efectivo do Liceu da Horta e assim fui colocado, em comissão de serviço, no Liceu Normal de Coimbra, D. João III, onde iniciei as minhas aulas em Outubro de 1950. Não foi preciso inscrever-me na União Nacional, nem isso nunca o faria mesmo ao preço de ter ir para a Horta. O que tive de fazer foi a declaração habitual a que, por norma legislativa, eram obrigados todos os funcionários públicos nomeados para qualquer lugar, desde o porteiro, cá em baixo, até ao limpa-chaminés, lé em cima. Era a declaração, devidamente datada e assinada, com penhor da sua honra, de que não pertencia nem nunca pertenceria a qualquer associação secreta. No meu caso não pertencia nem tencionava pertencer, pelo que assinei o impresso sem qualquer relutância. Aqui vos deixo, em fotocópia, um exemplar desse impresso.
Houve também, nesse tempo de ditadura, uma outra exigência, para os mesmos fins da anterior, em que se afirmava, também com a honra pessoal a servir de penhor, que o signatário exerceria o seu cargo “com activo repúdio do comunismo”. Divertidas brincadeiras políticas, emanadas de inteligências superiores, que assim dormem mais descansados deixando ficar tudo na mesma.

Rómulo de Carvalho em Memórias

QUOTIDIANOS


Olhei para o meu relógio. Eram nove e cinquenta e quatro, horas de ir para casa, calçar as chinelas e jogar uma partida de xadrez, horas de uma bebida fresca, num copo alto, e de um cachimbo longo e pacato. Eram horas de estar sentado com os pés ao nível do corpo, sem s pensar em nada. Horas de se começar a bocejar, por cima da folha do jornal dos costume, horas de nos sentirmos um ser humano, um dono de casa, um homem sem ter mais nada que fazer senão descansar, respirar o ar da noite e refazer o cérebro para o dia de amanhã.

Raymond Chandler em ADama do Lago

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

MEU QUERIDO MÊS DE AGOSTO


Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno, diziam os velhos.
E o «Meu Querido Mês de Agosto» não podia faltar.
Boas férias!