sábado, 19 de março de 2022

EM NOME DOS ADJECTIVOS


Um capítulo do seu interessantíssimo Século Passado, um livro tão ignorado por críticos – há crítica de livros? – também por leitores, chama-se Mesmo Agora Que Anoitece e por lá existe uma crónica que Jorge Silva Melo publicou mo saudoso Mil Folhas do Público de 20 de Janeiro de 2001. Começa assim:

«Têm má fama os adjectivos. Incitados a não os usar à toa, os jornalistas abrem um leque restrito que muda como os stocks da Zara.»

Mais a meio há este delicioso pedacinho:

«Teria eu lido o Gatsby, se Fitzgerald não lhe tivesse aposto o Great? A Enseada, se não me perguntasse por que é que Abelaira lhe chama Amena? O Anjo, não fosse ele Ancorado? As Palavras, não as anunciasse Maria Judite como Poupadas? O Dia, não o pintasse Mário Dionísio de Cinzento? Como veria eu o mundo da colonização se Shakespeare não o entrevisse "admirável" (brave) e "novo" (new)? Teria eu sido tingido pela soturnidade e pela melancolia de Lisboa/Cesário se o desejo de sofrer não fosse subitamente absurdo? Teria ultrapassado o primeiro parágrafo de Moby Dick sem o damp, drizzly November in my soul ("desperta na minha alma um Novembro brumoso e húmido" na tradução de Alfredo Margarido)? Andaria eu de Gomes Leal no bolso sem o Bela, dizia eu, fria como o luar / sobre o dorso luzente e excepcional dum peixe?

O que fazem estes adjectivos raros, justapostos, cruzados, intrigantes? Atrasam a narrativa, demoram o pensar, fazem cair sobre as coisas ou a acção a poeira da incerteza. Não serão, assim benvindos ao mundo da notícia, que se publicita mundo de contagem de caracteres, impessoal, sem voz. Sem o desequilíbrio destas pobres palavras, o que seria da literatura.

Ai, não fosse Furioso o Orlando!

sexta-feira, 18 de março de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Os nossos filhos têm de se preparar para combaterem pela União Europeia».

 Francisco Proença Garcia, professor de estratégia e estudos de geopolítica na Universidade Católica, tenente-coronel na reforma e conselheiro de defesa do PSD.

quarta-feira, 16 de março de 2022

QUOTIDIANOS


 Segundo dia do céu de Lisboa coberto por poeiras provenientes do Norte de África.

A FAZER-SE TARDE...


«E está a fazer-se tarde, que estamos todos muito velhos.»

Jorge Silva Melo em Século Passado

Legenda: pintura de Wilfrid de Glehn

terça-feira, 15 de março de 2022

QUOTIDIANOS


Vindas do Norte de África, nuvens de poeira instalaram-se nos céus de Lisboa, criaram um denso nevoeiro e um ar nada respirável. Teremos que as suportar até quinta-feira.

Como se já não nos bastasse a pandemia chinesa, a invasão à Ucrânia realizada por Putin, essa hiena asquerosa.

JORGE SILVA MELO (1948-2022)


Morreu Jorge Silva Melo.

«E, andei por aí. Com gente, procurando gente, pontes e vales, tem sido assim esta vida.»

Palavras quase no findar do seu «Século Passado».

Tiago Rodrigues ao saber da morte de Jorge Silva Melo:

«É como se tivesse ardido a nossa mais esplêndida biblioteca, como se tivesse ruído o nosso mais fulgurante teatro.»

Legenda: fotografia de Augusto Brásio tirada de «Século Passado».

segunda-feira, 14 de março de 2022

CHAPLIN'S WORLD II



 










Paraos amantes de fotografias alusivas aos filmes, o Museu tem outros lugares curiosos: para cada um dos principais filmes, desde as curtas iniciais até àslongas metragens finais, há um espaço alusivo onde passam os filmes e existe um cenário que pretende evocar a memória de uma determinada cena do filme: é possível sentarmo-nos à mesa da casa oscilante de “A Quimera do Ouro”, onde Charlot comeu um opíparo sapato e chupou os atacadores como se de esparguete se tratasse, pormos o nosso corpo na diabólica engrenagem industrial de “Os TemposModernos”, sentarmo-nos ao lado da ceguinha de “As Luzes da Cidade”, irmos aparar o cabelo ao barbeiro judeu de “O Grande Ditador” e por aí fora… A pequenada adora tirar fotografias, e alguns adultos também. Eu que o diga…

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

CHAPLIN'S WORLD


Para concluir este pequeno ciclo de textos alusivos a Charles Chaplin, apenas umas curtas palavrinhas acerca do “Chaplin’s World” que, como já vos disse, foi aberto ao público na Primavera de 2016

É composto por três zonas distintas: a casa onde Chaplin viveu e os enormes jardins adjacentes, um Museu construído de raiz e um espaço destinado a venda de “memorabilia” e a restauração.

A casa tem abertos ao público dois andares e é suposto manter todo o mobiliário, quadros, “bibelots” e loiças originais, o que, já se sabe, é sempre de muito duvidosa verdade porque os herdeiros dificilmente iriam abrir mão de conservar alguns objetos de recordação pessoal em seu poder. Em muitas destas salas foram colocados manequins em tamanho natural, designadamente de Chaplin e da sua mulher, Oona. Mas também Albert Einstein por lá aparece, vá lá perceber-se bem porquê. Talvez pela sua grande amizade para com Chaplin.


Podendo ser o espaço mais interessante, por tudo aquilo que nos poderia mostrar acerca dos gostos pessoais e da intimidade de Chaplin, acaba por não o ser devido a alguma descaracterização que atrás vos referi, mas também ao facto de todas as salas e quartos serem pequenos e estarem apinhadas de gente, pelo que é difícil vê-los convenientemente e muito mais ainda fazer uma fotografia em condições.


O Museu propriamente dito acaba por ser o mais interessante e tem tudo o que se espera encontrar em espaços desta natureza: cartazes dos principais filmes, um exemplar da inconfundível roupa de “Charlot”, desde o chapéu até aos enormes sapatos, não esquecendo a indispensável e muito útil (para fins diversos…) bengala, os dois Óscares atribuídos a Chaplin, o Honorário em 1972 e o de melhor banda sonora para “Luzes da Ribalta” no ano seguinte, e também uma pedra que era parte integrante do célebre estúdio de Chaplin, situado em La Brea, Hollywood. Mas isto que vos digo é apenas uma pequeníssima parte do que lá se encontra em exibição já que, para além de eu próprio não me lembrar de tudo, enumerá-lo aqui seria fastidioso.


Para os amantes de fotografias alusivas aos filmes, o Museu tem outros lugares curiosos: para cada um dos principais filmes, desde as curtas iniciais até às longas metragens finais, há um espaço alusivo onde passam os filmes e existe um cenário que pretende evocar a memória de uma determinada cena do filme: é possível sentarmo-nos à mesa da casa oscilante de “A Quimera do Ouro”, onde Charlot comeu um opíparo sapato e chupou os atacadores como se de esparguete se tratasse, pormos o nosso corpo na diabólica engrenagem industrial de “Os Tempos Modernos”, sentarmo-nos ao lado da ceguinha de “As Luzes da Cidade”, irmos aparar o cabelo ao barbeiro judeu de “O Grande Ditador” e por aí fora… A pequenada adora tirar fotografias, e alguns adultos também. Eu que o diga…

Em alguns destes espaços, em jeito de homenagem, surgem-nos personagens da comédia americana (e não só…) que nada têm a ver com os filmes de Chaplin: vemos Buster Keaton, Harold Lloyd, Bucha e Estica e até Roberto Benigni e Woody Allen por lá aparecem.

Finalmente, a loja de recordações tem à venda tudo quanto se pode esperar. Filmes, livros, posters, T-shirts, bonecos e bugigangas de toda a natureza alusivas a Chaplin e, sobretudo, a Charlot. Foi lá que comprei o livro de Eugene Chaplin de que já aqui vos falei, alguns postalecos e um boneco do Charlot para oferecer aos meus Queridos Netos. Mas a caminho do aeroporto pus-me a pensar melhor: um só boneco para três netos (os que existiam à época…) vai dar discussão; para além disso, e apesar de todo o meu esforço para lhes mostrar alguns filmes, que amor e que ligação tem esta miudagem ao Charlot…? Nenhuma, é claro…!

Foi uma brilhante autojustificação esta que encontrei para esquecer os netos e fazer sentar o Charlot na minha estante da sala, tendo a pequenada sido generosamente compensada com uma razoável quantidade dos excelentes chocolates suíços, que certamente lhes terão proporcionado muito mais prazer do que o teria feito o pobre Charlot…!

Museus como este são importantes para preservar a memória de Chaplin/Charlot. Mas muito mais importante do que isso seria uma regular passagem dos filmes, coisa que me parece ter deixado de suceder, pelo menos por cá. Não passam na televisão, não têm direito a exibição na Cinemateca, deixaram de existir as saudosas “reposições de Verão… É também verdade que para a miudagem dos nossos dias filmes a preto-e-branco são dificilmente suportáveis, mas, ainda assim, espero que não passe pela cabeça de nenhum esperto a sua colorização, como sucedeu a tantas obras-primas do cinema americano.

E pronto! De Charlot e de Chaplin, já basta… 

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

AMO AS HORAS SOMBRIAS DO MEU SER

Amo as horas sombrias do meu ser
em que os meus sentidos se aprofundam;
nelas encontrei, como em velhas cartas,
o meu dia a dia já vivido,
ultrapassado e vasto como numa lenda.

Elas me ensinam que possuo espaço
p'ra uma intemporal Segunda vida.
E por vezes sou como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
cumpre o sonho que a criança de outrora
(abraçada por suas cálidas raízes)
perdeu em tristezas e canções.

Rainer Maria Rike

Tradução de Ana Hatherly em Rosa do Mundo

domingo, 13 de março de 2022

OU APENAS MUDAR O SENTIDO DA VIDA


Pergunta do poeta Eugénio de Andrade:

«Mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?»

1.

A Rússia pede ajuda militar e económica à China. Os Estados Unidos temem que a China aceda a esse pedido.

Com as sanções económicas decretadas contra Putin, este fica na única dependência da ajuda chinesa.

Uma só palavra da China chegaria para rever toda a sua posição nesta tragédia.

Mas são caríssisimas as palavras chinesas.

2.

O Papa Francisco fez este sábado um novo apelo para acabar com a invasão russa da Ucrânia e a guerra, denunciando as duras repercussões nas crianças :

 «Nunca  a guerra! Pensem acima de tudo nas crianças, cuja esperança de uma vida digna é tirada: crianças mortas, feridas, órfãs, crianças que têm resíduos de guerra como brinquedos. Em nome de Deus, parem!

3.

A Rússia efectuou, hoje, um ataque aéreo a uma base militar ucraniana a cerca de 20 quilómetros da Polónia, que é um país da NATO.

Existe o registo de 35 mortes e 134 feridos.

4.

A China decretou o isolamento das cidades de Changchun e Shenzhen devido a novos surtos de Covid-19.

Entretanto sobem  os casos em vários países europeus. 

Portugal pode registar uma sexta vaga de infecções.

5.

Mais de 200 empresários do sector do transporte de mercadorias decidiram para esta segunda-feira a paralisação de 20% das suas frotas, em protesto contra a subida dos preços dos combustíveis.

QUOTIDIANOS


 Nas plantações de chá em Taiwan, os trabalhadores são pagos consoante o peso das folhas de chá que conseguem apanhar. Mas em tempos de seca as folhas ficam mais pequenas, e isso repercute-se no dinheiro que recebem.

DITOS & REDITOS


Tudo o que não mata engorda.

O que o olho não vê, consciência não julga.

Uma frase manca também não salva uma página em branco.

O que é bom permanece.

À mulher de César não basta ser séria, tem de parecer séria.

Desilusão pode ser o outro nome que a vida pode ter.

Na terra dos lobos, uiva com eles.

A superstição não deve existir.

sábado, 12 de março de 2022

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE ...


Quando não havia sobras de dinheiro para ir ao cinema, alguém comprava a Colecção Cinema, o custo era dividido e a revistinha andava de mão em mão. O filme «via-se» através das imagens publicadas e da novelização, no caso deste O Espadachim de Siena, feita por Mário Costa.

«Thomas Stanwood, não era somente um valentíssimo mercenário, que punha a espada ao serviço de quem melhor lhe pagasse, era também um temível sedutor por quem muitas damas suspiravam.»

Este é o primeiro parágrafo da novelização deste filme interpretado por Stewart Granger e Sylva Koscina.

Exemplar, juntamente com mais três, que encontrei na Livraria da Cinemateca. 

Colaboração de Aida Santos

OLHARES


Terá Marilyn Monroe lido todo o Ulisses de James Joyce?

Eu não, nunca o acabei, e penso que, pelo andar da carruagem, ficará na lista dos livros comprados e não lidos.

Disso, hei-de falar um destes dias, também a juntar a uma boa quantidade de diversas histórias que fiquei de contar por aqui... e ainda não tiveram concretização.

O QUE NUNCA SE PODE CONFUNDIR


De modo algum se pode comparar o desvario histérico e selvagem de Putin com a cultura russa.

Mas gora que os bárbaros começaram a perseguir a cultura russa, peguei no livro Ao Sabor da Música de António Cartaxo.

Num capítulo, o autor transcreve excertos do que disseram algumas das personalidades que visitaram os programas que manteve na Antena 2, e que levavam as músicas de que gostavam, para serem reproduzidas no programa.

Uma dessas personalidades foi o pintor e escritor Carlos Martins Pereira.

António Cartaxo pediu-lhe um trecho musical para início do programa:

«Quadros de uma exposição de Mussorgsky, qualquer das versões. O último quadro – “A Porta de Kiev”.

É interessante ver como obra musical como esta, em que o compositor se inspirou numa exposição numa exposição de desenhos e de pinturas, vai por sua vez suscitar a Kandinsky quadros que ficaram célebres. Um deles é precisamente a Grande Porta de Kiev. Kandinsky fala ainda do perfume das cores e conta como no Conservatório de Sampetersburgo se ensinava um métodod que consistia em copiar a música a partir das cores da Natureza, ver os sons em cor e ouvir a cor dos sons. O que, como se sabe seduziu Scriabin.»


Legenda: A Grande Porta de Kiev, pintura de Wassily Kandinski.

sexta-feira, 11 de março de 2022

POSTAIS SEM SELO


O bom senso exercido em permanência impede a parte de desordem que cria o dinamismo da vida.

Lídia Jorge

PACIÊNCIA DE CHINÊS


Volta e meia ouvia a minha avó: «Para o aturar é preciso ter paciência de chinês.»

Quem ela tinha que aturar era o meu avô que sempre persistiu em fumar, no primeiro acordar da manhã e ainda deitado, os seus Definitivos.

Lá longe, a China avisa que o pacote de sanções à Rússia só agravará a situação que se vive na Ucrânia.

E adianta que a Rússia é um cliente como outro qualquer, donde o País do Sol Nascente necessitar de clientes, pelo que manterão todas as relações económicas com os russos, ao mesmo tempo, tomarão todas as medidas necessárias para salvaguardar energicamente os direitos e interesses legítimos das empresas e cidadãos chineses.

Se há coisa que os chineses têm, é paciência.

Já dizia a minha avó! 

ROSA DO MUNDO

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?

Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,

Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,

Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,

E morreram os filhos de Usna.

 

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:

Entre humanas almas, que se agitam e quebram

Como as pálidas águas em seu fluxo invernal,

Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,

Vive este solitário rosto.

 

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:

Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,

Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;

Ele fez do mundo um caminho de erva

Para os seus errantes pés.

 

W.B.Yeats

 Tradução de José Agostinho Baptista em Rosa do Mundo

OUTRAS GUERRAS


No dia 7 de Fevereiro de 1962, os Estados Unidos decretaram um embargo económico, comercial e financeiro a Cuba.

Horas antes de decretar o embargo, John Kennedy chamou o seu conselheiro, Pierre Salinger.

- Pierre, necessito de ajuda, disse Kennedy.

- Terei todo o prazer em ajudá-lo Presidente. Diga.

- Preciso de muitos puros.

- De quantos, Presidente?

- De uns mil Petit Upmann.

- E quando precisa deles, senhor Presidente.

- Amanhã de manhã.

Pierre Salinger, também ele um gostador de puros cubanos, saiu do gabinete a perguntar-se o que iria Kennedy fazer a tantos charutos.

Conhecedor de todas as lojas onde se vendiam puros cubanos, satisfez o pedido presidencial com relativa facilidade.

Na manhã seguinte, quando Pierre chegou ao gabinete, o telefone já estava a tocar.

- Que tal foi?, quis saber o Presidente norte-americano.

- Muito bem, consegui 1.200 charutos cubanos.

Conta a história que, depois da resposta, Kennedy abriu a gaveta da secretária, pegou num grande papel e assinou-o de imediato.

Era o decreto instaurando a proibição de todos os produtos cubanos nos Estados Unidos.

Calcula-se que os norte-americanos, anualmente, fumam sete milhões de charutos cubanos importados ilegalmente.

quinta-feira, 10 de março de 2022

PORRA!!!

Na Ucrânia assiste-se a um morticínio terrível e queremos que algo, de muito mau mesmo, aconteça ao filho da mãe do Putin, mas nem Deus, no seu infinito silêncio, ajuda quem nele acredita.

Agora temos que levar com toda essa gajada, que chafurda nas redes sociais, a exigir que coloquemos de lado a cultura russa.

Por outro lado, vamos lendo que governos europeus cancelam concertos de compositores russos, a soprano russa Anna Netrebko, que deveria actuar no MET de Nova Iorque em Abril, já não o poderá fazer, a Royal Opera House de Londres cancelou a temporada de Verão do Bolshoi Ballet, o Festival de Música da Primavera, que se realiza todos os anos em Lucerna, cancelou a presença de todos os artistas russos.

Vão-nos proibir de ler Dostoievsky, Maximo Gorki, Tolstoi, de ouvir Rachmaninov, Chostakovich, as Danças Guerreiras do Príncipe Igor, Mussorgsky, olhar os quadros de  Kandinsky, os filmes de Eisenstein?

Terei que dizer aos meus netos que a acompananhar os panados  já não lhes posso dar  Salada Russa?

Porra, mesmo!

Dizia Stravinsky – outro russo – que «a arte postula a comunhão, sendo para o artista imperioso partilhar com outros a alegria que ele próprio experimenta.»

A POESIA VAI ACABAR


Já vos disse que um dos livros cuja leitura, no passado ano,  mais me encantou, foi  De Maneira Que É Claro…      de Mário de Carvalho.

Outro livro de encantamento de que não consigo separar-me é Para Quê Tudo Isto?,  biografia de Manuel António Pina escrita por Álvaro Magalhães.

Comprei-o na época natalícia mas só nos alvores deste ano o comecei a ler.

São 479 páginas, é certo, começadas a ler em 2 de Fevereiro, mas não é pela quantidade de páginas que ainda não o acabei. Nem quero acabar, e quando isso acontecer, sei que irei sentir um enorme baque que me vai deixar fortes sequelas.

Não é pelo livro estar bem escrito que a demora tem acontecido. É, essencialmente, por passar a conhecer pormenores de vida que desconhecia e engrandecem, mais ainda, um poeta, um jornalista, um homem que sempre me fascinou.

Como Seve, viajante deste blogue, escrevia, há dias, na caixa de comentários: «Nunca vi o Manuel António Pina (só o li) mas foi uma pessoa de quem sempre gostei muito, um ser humano que sempre me fascinou, uma boa pessoa, daquelas que tornam o mundo belo e melhor.»

Na página 54 é transcrito um passo de uma entrevista de Pina ao Público:

«Eu sempre tive uma vida mais ou menos pacata, uma vida com sobressaltos normais, e as grandes emoções da minha vida, os grandes momentos, os mais fortes, em termos afectivos, em termos psicológicos, foram através dos livros.»

Na página 202 aparece o poema «A Poesia vai acabar».

Não tenho todos os seus livros de poesia, para compensar algum atraso, tratei de comprar a Poesia Reunida, que não contempla este poema.

É este o poema:

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? 

NOTÍCIAS DO CIRCO

1.

Para determinado tipo de militantes, os partidos deviam arranjar uns colaboradores que tivessem a tarefa de fiscalizar se a rapaziada anda a tomar os comprimidos. Neste caso falamos de Ana Gomes, ex-candidata à presidência da República.

Que não devemos ter qualquer tipo de ilusões pois já estamos em guerra, disse Ana Gomes na catequese que dá na SIC dominical, onde já pontifica Marques Mendes, o que torna tudo aquilo um «canal de excelência».

A guerra está a arder e a personagem entende que se deve mandar gasolina para cima, e colérica grita:

«Para que serve uma aliança defensiva como a NATO, se não serve para travar massacres contra populações na Europa?»

2.

No dia 3 de Março, numa entrevista ao Público, Augusto Santos Silva dizia não saber se há oligarcas russos com contas congeladas em Portugal:

«É uma atribuição, não do governo, mas do Banco Portugal».

Do Banco de Portugal, sobre o assunto, dizem nada.

Entretanto, notícia de hoje, O Reino Unido congelou os activos de sete empresários russos, incluindo Roman Abramovich, dono do Chelsea, o que vai atingir diretamente o clube - congela movimentos, como compra e venda de jogadores, e impede o empresário de o vender, embora tenha sido aberta uma exceção para o clube continuar aberto mas, com o detalhe de existirem regras que, de modo algum, podem existirem.

terça-feira, 8 de março de 2022

O ÚLTIMO GAG DE CHARLES "CHARLOT" CHAPLIN


Tal como vos referi na última crónica, Chaplin faleceu no dia de Natal de 1977, aos 88 anos. Não terá sofrido muito porque teve um derrame cerebral durante o sono.

Dois dias depois, numa pequena cerimónia quase privada, foi sepultado no cemitério de Corsier-sur-Vevey, a muito curta distância da casa onde viveu durante 24 anos.

Mas o pior ainda estaria para vir…

Na madrugada do dia 1 de Março de 1978, o caixão e o corpo foram roubados do cemitério e, poucas horas depois, um pedido de resgate foi apresentado, por via telefónica, à mulher de Chaplin, Oona.

Oona afirmou que nunca teve intenção de pagar o que quer que fosse pelo corpo do marido mas, a conselho da Polícia e para ganhar tempo, prolongou a conversa entrando em negociações quanto ao montante a pagar. Quem assumia os contactos era o mordomo da casa, já que ela se recusara a falar com os ladrões.

Tanto a divisa em que o pagamento deveria ser feito como o montante foram variando no decurso das negociações. Primeiro eram francos franceses, depois libras esterlinas e, finalmente, dólares. E começou com 600.000 e acabou em 100.000 dólares.

Entretanto, na Comunicação Social muitos foram os motivos evocados para este roubo, como verão mais à frente.

Durante os mais de dois meses em que decorreram estas negociações, o processo de contacto era sempre o mesmo: uma chamada feita de uma cabine telefónica da região. Mas este lapso de tempo permitiu à Polícia identificar e monitorizar mais de 200 cabines telefónicas em toda a região de Lausanne e, quando se consideraram preparados, avisaram a Família para que dessem o acordo final para o pagamento do resgate, os tais 100.000 dólares que atrás vos referi.

Foi combinado com os larápios que o mordomo se faria transportar no Rolls Royce da casa e deixaria uma mala com o dinheiro num local previamente acordado.

E assim foi, só que em vez do mordomo quem conduziu o carro foi um polícia disfarçado.

Tudo muito bem organizado, só que ninguém contava que um carteiro local se apercebesse que o carro da Família Chaplin, sempre guiado pelo mordomo, estava a ser conduzido por um perfeito desconhecido e o resolvesse seguir de bicicleta, não fosse estar em curso mais um roubo envolvendo a pobre Família.

Imaginem bem a cena de um carteiro a dar ao pedal atrás de um Rolls Royce, qual François do “Há Festa na Aldeia” a fazer a “distribuição à americana”…!

É claro que esta perseguição  do carteiro levantou suspeitas por parte da Polícia, que julgou tratar-se de um membro do “gang” de ladrões e o prendeu de imediato, abortando a operação da entrega da mala. A Polícia local teria reconhecido de imediato o carteiro mas, por essa altura, o caso já estava entregue à Polícia Nacional, em artriculação com a Interpol, as quais, naturalmente, não conheciam o pobre candidato a herói de lado nenhum…

Apesar de tudo, este facto não levantou qualquer suspeita aos ladrões, que trataram de marcar novo dia e hora para a entrega do dinheiro. Seria o dia 17 de Maio, às 9h30. Desta vez, como não poderia deixar de ser perante tanto amadorismo, a Polícia já havia identificado o local da chamada telefónica e os maus da fita foram apanhados em flagrante.

Dois pobres  emigrantes, um polaco de 24 anos e outro búlgaro de 38, mecânicos de automóvel no desemprego, que viram ali a oportunidade de fazerem algum dinheirinho e orientarem as suas vidas. 

Certeiro como sempre, num dos últimos livros que escreveu José-Augusto França conta a história de seguinte forma: 

“… a imaginação chapliniana post mortem reassume toda a crueldade lógica de Monsieur Verdoux e realiza ainda um derradeiro e portentoso gag.

Não três dias (enfim…) mas três meses após a sua sepultura, o corpo de Charles Chaplin foi roubado, no que é uma forma simbólica de ressureição.

Duraram dezassete dias as buscas da polícia suíça e da Interpol, chamadas aflitamente em reforço, para encontrar os desaparecidos despojos. Hipóteses (que poderiam dar rushes de Monsieur Verdoux) foram avançadas pela imprensa, rádios e televisões ávidas de sensacional. Os raptores teriam sido um grupo neonazi a querer vingar a memória de Hitler-Hynkel. Ou de antissemitas que protestavam contra a sepultura de um judeu num cemitério cristão, ou de terroristas de qualquer outra referêncxia ideológica , para obterem uma forte indemnização contra a entrega do corpo; ou mesmo algum admirador fanático que desejasse conservar secretamente os restos do ídolo… Mas telefonemas insistentes dos raptores que desleixaram precauções profissionais permitiram a sua localização – tudo se resolvendo com a recuperação do cadáver e apreensão dos bandidos. Que bandidos afinal não eram , mas dois emigrantes balcânicos que planearam um golpe que lhes permitiria montar uma garagem, como confessaram à polícia… Pobres diabos, de desastrosa incompetência, perdidos num sonho de êxito social, pobres charlots da sociedade de consumo que lhe dera ideias de sucesso e fortuna…” (1).  

Mas a charada não foi de tão fácil resolução como José-Augusto França dá a entender …. É que os pobres  ladrões nem conseguiram fixar bem o local onde enterraram o caixão. Disseram que era um campo de trigo mas quando chegaram à zona a passagem do tempo tinha provocado o crescimento de plantas diversas, pelo que tudo estava, para eles, irreconhecível… Tiveram de escavar de fio a pavio os terrenos de um pobre agricultor local que, para tirar algum proveito da coisa, lá espetou um grande letreiro a dizer “CHAPLIN REPOUSOU AQUI. BREVEMENTE…”! Não receberia dinheiro pela visita, mas impingiria produtos da terra a quem se aproximasse para bater uma fotografia, o que não deixa de ser um esquema manifestamente chaplinesco…!

Apesar de Oona Chaplin lhes ter perdoado e ter apelado para que não sofressem pena pesada, foram ambos condenados a trabalho comunitário, o polaco, por ser o cabecilha, durante quatro anos, e o búlgaro, que sofria de perturbações mentais, a dezoito meses.

Tudo isto é uma história em tons de comédia negra, e foi nesse preciso registo que o francês Xavier Beauvois lhe dedicou um filme em 2014, “Le Rançon de la Gloire”, que teve direito a estreia em Portugal com o título de “O Preço da Fama”. 

O caixão com o corpo de Chaplin voltou à sua morada inicial, desta vez devidamente selado e tapado com uma camada de cimento que tornaria impossível qualquer nova tentativa de roubo.

Oona morreria treze anos depois, em 27 de Setembro de 1991, e o seu corpo seria colocado mesmo ao lado do marido, como fora seu desejo.

E foi lá, naquele pequeno e simpático cemitério com vista para o lago, que os fui visitar numa solarenga manhã de finais de Dezembro. Tinha pensado levar comigo umas flores para lhes deixar, mas nada encontrei à venda nas imediações e já não ia a tempo de ir procurar mais longe.

Ter-me-ia dado jeito ter ali à mão a ceguinha das “Luzes da Cidade” que vendia flores e que ofereceu uma flor ao vagabundo que espreitava pela janela, pouco antes de se aperceber, por um simples toque na mão, que teria sido ele o responsável pelo pagamento da sua cura, e não um homem rico , como até então pensara, naquele que é, garanto-vos a pés juntos, um dos mais belos finais da história do Cinema…

  1. José-Augusto França, “O Essencial Sobre Charles Chaplin”, Imprensa Nacional – Casa da Moeda (2015), págs. 102/103

 PS:

O título deste texto não é de minha autoria, antes foi surripiado a José Augusto França (vd 1, pág. 101)

Para além do filme de Xavier Beauvois, não disponho de muito mais fontes de informação detalhadas acerca dos fatos aqui relatados, pelo que parte deles foram retiradas da Net.


Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

NÃO FUMAR MATA!


Deixei de fumar há uma semana. Embora contemple ocasionalmente o suicídio e tenha espancado três tipos no metropolitano (estavam a passar à frente), julgo que enfrento o desconforto com equanimidade. O que me choca é a mentira. Apesar das garantias, já contraí uma gripe e pedras no rim. Quando fumava tinha uma saúde de ferro, agora estou às portas da morte. Isto deve fazer parte de um plano para me fazer deixar o álcool.

Luis M. Jorge

Carlos Quevedo escreveu um dia, na extinta revista K:

«Eu deixei de fumar e arrependi-me.»

Torcato Sepúlveda em crónica assinada num velho Público:

«Uma amiga deixou de fumar. Pede-me que vos comunique as angustiantes saudades do tabaco.»

SEM VÍCIOS A VIDA É UMA CHATICE!


 Manuel António Pina e as suas inseparáveis cigarrilhas.

Continuo com a leitura, lenta e saborosa, da biografia de Manuel António Pina, «Para Quê Tudo Isto?», escrita por Álvaro Magalhães.

«Uma vez, com o carro também cheio de amigos, queixou-se do nevoeiro, que não o deixava ver a estrada. «Não está nevoeiro, é o fumo aqui dentro», explicou Germano Silva, que ia ao lado dele. O Honda verde cheirava tanto a tabaco que ele o mandava lavar na véspera dos encontros com o poeta Eugénio de Andrade, que detestava esse cheiro.»

Quando apagaram os cigarros icónicos de livros e filmes, numa crónica, o Pina denunciou que tinham tirado o cachimbo a Tati, o charuto a Groucho Marx, o cigarro a Humphrey Bogart, a boquilha a Marlene Dietrich.

Também lhe tocou a ele o estalinismo antitabagista. 

Na crónica que, quinzenalmente, publicava na revista Notícias Magazine, da fotografia que ilustrava a crónica, tiraram-lhe a cigarrilha que exibia entre os dedos.

Seis anos após a sua morte, numas jornadas dedicadas à sua obra, «Desimaginar o Mundo», o irmão de Manuel António Pina também queria que retirassem a cigarrilha da fotografia do cartaz que publicitava o evento.

«Ana, a filha mais nova de Pina, insistiu para que a mantivessem e fez bem. Não estivesse ali a cigarrilha e como poderíamos nós ter a certeza de que ele era ele.»

Legenda: cartaz de «Desimaginar o Mundo», Porto de 16 a 21 de Novembro de 2018.