sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

MÚSICA PELA MANHÃ

JOÃO CÉSAR MONTEIRO

pref. Vitor Silva Tavares

capa do pintor João Vieira

ilust. João Rodrigues

Lisboa, Novembro de 1974

& etc (co-ed. Editora Arcádia, S.A.R.L.

1.ª edição

17,5 cm x 15,5 cm

224 págs. + 1 folha em extra-texto

capa impressa a negro no verso de cartolina de dupla face, com sobrecapa em papel kraft impresso a duas cores directas

corte fumado a negro

exemplar muito estimado; miolo irrepreensível

PEÇA DE COLECÇÃO

180,00 euros (IVA e portes incluídos)

 

Ao ler este anúncio de venda, na Loja Frenesi, deste livro do João César Monteiro, sorri.

Era um tempo em que visitava as livrarias, que existiam no Chiado: a Bertrand, a Portugal, a Lello, a Sá da Costa, uma, duas vezes por semana. Mais ou menos sabia, atempadamente, os livros que iam saindo.

Tempos felizes. Foi assim que cacei este livro do César Monteiro.

«Amanhã, sai entrevista no «Phnom-Penh Post» a dizer bem de todos os cineastas portugueses inclusive dos que não sabem ligar dois planos. Não que aqui dêem qualquer importância a isso, como é óbvio, mas apenas para que o meu eventual, e já saudoso regresso à Pátria seja festejado como eventual. Se alguém, por acaso,  souber de um empregozinho modesto e que não dê muito trabalho (melhor seria não dar nenhum), é favor avisar a redacção  deste jornal. Estou encantado com o Phnom-Penh Post». Em primeiro lugar porque me pagaram logo a entrevista e, a seguir, não tive, como no nosso país, de fazer à borla o trabalho do jornalista. De qualquer forma, vou ter de cavar rapidamente daqui, se não o conseguir, paz à minha alma.!

Prevendo o funesto desfecho, peço ao V.S.T. que mande rezar algumas missas pela boa encomendação da minha alma. Não muitas, para que não pareça ostentação: só quero a Missa de Notre Dame do Machaut, a Missa de Beata Virgine do Josquin, a Missa em Si bemol do J.S. Bach e a Missa em Dó menor K.427 (com o incarnatus est» cantado pela Stich-Randall) ou o Requiem K. 626, na gravação do Bruno Wlter, ambas do Wolfgang Amadeus.

O meu mal cheirosos espólio dever ser doado à Fundação Gulbenkian. Para o Centro Português de cinema, raspas. Nem um chavo!. O mapa do tesouro vai inteirinho para os amores. Santas criaturas!»

João César Monteiro em Os Que Vão Morrer Saúdam-te, págs.70,71

 

Nota do Editor – Claro que a minha 1ª edição deste livro do César Monteiro não valerá os tais 180 euros. Porque o exemplar, tantas e tantas e tantas vezes, lido e relid), não está muito estimado, tão pouco, tão  pouco  possui  o miolo  irrepreensível tantas e tantas e tantas são as anotações, os sublinhados a lápis.




O trecho aqui reproduzido é o Kyrie de La Nesse de Notre Dame de Guillaume de Machaut.

OLHAR AS CAPAS


 As Baleias Não Choram

D.H. Lawrence

Desenho de Diogo Alcoforado

Capa: Armando Alves

Colecção: O Aprendiz de Feiticeiro nº 9

Editorial O Oiro do Dia, Porto, Outubro de 1983

Diz-se que o mar é frio, mas o mar contém
o sangue mais vivo, quente e impetuoso.

Nos grandes abismos são quentes todas as baleias,
quando se agitam
sem descanso e mergulham sob os icebergues.
As verdadeiras baleias, cheias de sémen, com as cabeças
em forma de martelo, prontas a matar,
ei-las lançando do mar os seus jactos violentos, quentes
e brancos.

E balançando-se, balançando-se ao longo das idades sem
tempo da sensualidade,
nas profundidades dos sete mares,
vacilam através das águas salgadas com um prazer
embriagador,
estremecem de amor sob os trópicos
e caminham pesadamente com um desejo maciço e
poderoso, como deuses.
Então o grande touro estende-se sobre a sua noiva
através do abismo azul do mar,
montanha sobre montanha na voluptuosidade da vida:
para além do íntimo rumor do oceano vermelho e oculto
do seu sangue
estende-se a longa ponta do desejo, forte e imensa como
um redemoinho, até repousar
na união, o suave e selvagem encontro do corpo
insondável da baleia fêmea.

E sobre a ponte fálica poderosa, unindo o prodígio das
baleias,
arcanjos em fogo submersos no mar demoram-se
a passar,
de um para o outro lado, arcanjos da felicidade
que vão dele para ela e dela para ele, grandes Querubins
que os acompanham no seio do oceano, suspensos nas
ondas do mar,
grande céu das baleias entre as águas, antigas
hierarquias.

E as enormes baleias mães sonham estendidas, ao
aleitarem as suas crias,
sonham com os seus estranhos e grandes olhos abertos
nas águas do princípio e do fim.

As baleias-touros reúnem as fêmeas e os filhos-bezerros
num círculo
quando o perigo os ameaça, à superficie das marés
incessantes,
e alinham-se como grandes Serafins ferozes, ao
defrontarem o perigo,
rodeando o rebanho dos seus montros de amor.
E toda esta felicidade no mar, entre a água salgada
onde Deus é também amor, mas sem palavras,
e é Afrodite a esposa das baleias,
feliz, plenamente feliz;
Vénus salta entre os peixes e torna-se a fêmea do delfim,
ela, a graciosa e alegre marsuína brincando com o maor
e o mar,
a fêmea do atum redonda e feliz entre os machos,
pesada com o seu sangue cheio de delícia, obscura
felicidade de um arco-íris no mar.

DIRECÇÃO

Nada nos deterá ou nos impedirá

a marcha

 

o caminho

 

a curva aguda dos punhos

que empunhamos calados

 

ainda mudos

calados

 

mas não com medo

ou sozinhos


Maria Teresa Horta do livro Amor Habitado (1963) encontrado em Elas Estiveram Nas Prisões do Fascismo.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Uma palavra a mais mata qualquer história.

Ernest Hemingway

Legenda: não foi possível identificatro autor/origem da fotografia.

VIAGENS POR ABRIL


                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

As Viagens por Abril, hoje, rodam em volta de Maria Lamas, das mulheres.

Maria Lamas,  jornalista e escritora, pedagoga e investigadora, tradutora e fotógrafa, lutadora pelos direitos humanos e cívicos em tempos de ditadura, foi porventura a mais notável mulher portuguesa no século XX. Enquanto perdura uma certa memória da sua afirmação e ação políticas durante o Estado Novo (anos 1930–1960, que a levou à prisão em 1949, 1951 e 1953) e do seu exílio em Paris (1962–1969), a sua obra literária e jornalística está praticamente esquecida. Muito poucos dos seus livros – mais de uma vintena de obras entre poesia, ficção, literatura infantil, antropologia social, tradução – se encontram disponíveis no mercado.

Na Fundação Calouste Gulbenkian, até  28  de Maio está patente uma exposição, com  curadoria de Jorge Calado,  que mostra pela primeira vez a obra fotográfica de Maria Lamas.

No topo do texto uma fotografia de Maria Lama.

Durante a ditadura, sabemos que elas também estiveram nas prisões e mesmo não indo à guerra colonial, esperaram pelos pais, irmãos, maridos, namorados.

Salazar desprezou completamente as mulheres.

Em 1936 discursivamente bolsou:

«O trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado. Uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer».

Maria Velho da Costa sempre lutou para que as mulheres sempre lutassem para alterar a sua vida quase brutal:

«Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café».

Isabel do Carmo:

«Se metade da humanidade são mulheres por que é que o Poder há-de ser exercitado pela outra metade?»

Sófocles:

«Quando uma mulher está em condições de igualdade cm um homem, torna-se superior».

Fátima Rolo Duarte:

OLHAR AS CAPAS


Para Uma Ciência da Libertação da Mulher

Isabel Larguia e John Domoulin

Tradução: Maria Angela Morais

Capa: Manuel Augusto

Colecção Cadernos Prelo nº 1

O sentido original da palavra «economia» é a «arte de dirigir os assuntos da casa», que o chefe de família exercia,

Implicava a herança por linha paterna, a propriedade da mulher, assim como o domínio e confiscação da força de trabalho feminina. Mas nem sempre assim foi. Na comunidade primitiva, o trabalho e as demais actividades sociais realizavam-se em comum e tanto a propriedades como as relações de parentesco reforçavam estes laços colectivos.

REVISÃO DE NOTÍCIAS LIDAS


 Hoje, vamos reler uma notícia assinada por Teresa Serafim, publicada no Público de 7 de Dezembro do passado ano.

Guardei o recorte, mas há dias por aqui se falou de um livro publicado pela Ulmeiro,  ressuscito a notícia.

Com o apoio da Junta de Freguesia de Benfica, a livraria Ulmeiro voltará a ter um espaço físico no bairro que a viu nascer em 1969 e após 50 anos na Avenida do Uruguai foi obrigada, em 2019, pela especulação do senhorio que exigiu um estúpido e impossível aumento de renda, a mudar-se para um espaço na Fábrica de Braço de Prata.

Fundada por José Ribeiro, regressará à Avenida do Uruguai, no mesmo lado da antiga livraria, continuando como livraria-alfarrabista, terá uma galeria de arte também actividades culturais, com sessões de leitura. Na reabertura, deverá ter uma exposição sobre os 50 anos da Ulmeiro, que incluirá material de uma antiga exposição e uma série de fotografias novas.

O novo espaço chegará com a Primavera e José Ribeiro gostaria que fosse a 21 de Março para coincidir com o Dia Mundial da Poesia.

«Recomeçamos num espaço mais pequeno e queremos continuar a contribuir para alguma actividade no bairro. A Ulmeiro é um espaço que fazia falta», disse José Ribeiro

Fazia falta não só a Benfica e arredores, aos seus muito dedicados clientes e frequentadores para uma converseta a propósito de tudo e mais alguma coisa, mas especialmente a José Ribeiro.

Estive tentado a titular esta futura vida da Ulmeiro colocando-a num Itinerário do Eduardo. Pela simples razão que, entre tantos livros publicados pela Ulmeiro, tenho especialíssima dedicação ao livrinho de capa vermelha do Eduardo Guerra Carneiro: Isto Anda Tudo Ligado.

No tempo de crise da Ulmeiro, ainda sem saber qual o futuro, recordo uma frase do José Ribeiro:

«No bairro há pessoas que descobriram que a livraria existe e estamos cá há 47 anos, é engraçado.»

O ROSÁRIO

Quando à noite contemplo taciturno
Estas contas antigas, o rosário
Das minhas orações,
Vejo em minh'alma o poema legendário
Dos velhos tempos das lonjínquas eras
De santas devoções.

A cruz ebúrnea, onde agoniza o Cristo,
É de um lavor subtil, que nos revela
Um génio magistral,
Obra de monge em merencória cela,
Piedoso artista há muito adormecido
Em velha catedral.

Tem séculos; talvez que nestas contas
Passásse outrora suas mãos esguias
A castelã senil,
Pensando triste nos ditosos dias
Em que a seus pés um menestrel vibrava
O mimoso arrabil.

Talvez que este rosário minorásse
As saudades da noiva lacrimante,
Que debalde esperou
Em cada nau, que vinha do Levante,
O seu donzel amado que partira
E nunca mais voltou.

Sobre a cota de um jovem cavaleiro,
Que o beijava por noites estreladas
Pensando em sua mãe,
Ele assistiu às guerras das cruzadas,
Atravessou talvez a Terra Santa
E viu Jerusalém.

Talvez alguma freira, em triste claustro,
De seus anos na doce primavera,
Só dele confiou
Seus loucos sonhos de falaz quimera,
E, apertando o rosário ao peito ansioso,
Consolada expirou.

Isto, o que leio no rosário antigo;
E, quando melancólico lhe beijo
As contas de marfim,
No ar escuto indefinido harpejo,
E então a crença, a mística toada,
Murmura dentro em mim.

Gonçalves Crespo


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Paga-me um café e conto-te a minha vida.

José Tolentino Mendonça

Legenda: fotograma do filme Bananas

OLHAR AS CAPAS


Hemingway Por Ele Próprio

G. A. Astre

Tradução: João Gaspar Simões

Colecção Escritores de Sempre nº 6

Portugália Editora, Lisboa, Outubro de 1968

Tudo o que Hemingway procurara exprimir de uma forma didáctica na Morte Depois do Meio-Dia constitui aqui o tema de uma perfeita transposição: Há um ano que combato, pensa Jordan, por aquilo em que creio. Se vencermos aqui, venceremos em toda a parte. O mundo é belo e vale a pena que nos batamos por ele, e tenho horror a deixá-lo. E tens tido muita sorte, diz de si para consigo, com a vida que tens levado… Não vais queixar-te, que tens tido tanta sorte, hem? Mas muito gostaria que houvesse um processo de transmitir aos outros o que eu tenho aprendido.

É assim que ao homem do Michigan voltam a deparar-se as lições de Epicteto. Éramos pessoas sem cultura, mas sempre a tempo de a adquirir, dissera outrora Hemingway, aos quarenta e um anos, sem dúvida nenhuma, é que ele a adquirira. 

NOTÍCIAS DO CIRCO

«O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, imitando o que outros ministros europeus fizeram na sequência da morte, tremendamente suspeita, de Alexei Navalny, opositor do presidente russo Vladimir Putin, chamou o embaixador da Rússia ao seu ministério para que fossem prestados esclarecimentos... Muito bem!

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, que se saiba, ainda não chamou ao seu ministério o embaixador de Israel no nosso país para pedir esclarecimentos sobre a morte de 10 mil a 30 mil civis (conforme as fontes) e o valor de quase dois milhões de deslocados, imensas vítimas inocentes provocadas pela retaliação de Israel ao ataque do Hamas de 7 de outubro que, por seu lado e perante indignação geral, matou 1200 pessoas... Muito mal!»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias de hoje.

CONVERSANDO


Este livro de Marguerite Duras comprei-o num alfarrabista,talvez em Junho de 2019, está afixado (30.06.2019)em Olhar as Capas.

Mas alguém, a  assinatura de posse  consegue ler-se,, comprou-o na Feira do Livro em 1992.

O livro é um pedido feito a Duras para escrever crónicas regulares para o Libération.

Dentro do livro um pedacinho escrito num guardanapo de café:

«Pergunta de uma criança a quem tinham dito que o calor é aquilo que a gente sente que uma coisa está quente. A criança pergunta: e o que é o calor quando não há ninguém.»

Algures, penso que não é neste livro, Marguerite Duras pergunta:

«E o que é o amor quando não há ninguém?»

VIAGENS POR ABRIL


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Mais tarde ou mais cedo, estas Viagens chegariam a  Adriano Correia de Oliveira.

Todos os países esquecem gente.

Uns mais do que outros.

Certamente o nosso é dos que mais esquece.

Adriano Correia de Oliveira morreu no dia 16 de Outubro 1982.

Nas efemérides redondas aparecem sempre os elogios e as carpideiras.

O resto dos tempos é um enorme e angustiante silêncio.

A saudade é um luto, a memória um tempo que passa e sempre alguém que diz não.

Adriano foi o mais autêntico intérprete de um país que esteve em guerra, um país votado ao abandono, à miséria, à frustração, mas um país onde as suas gentes, num canto qualquer do seu ser, cuidaram de guardar um naco de esperança.

Abril concretizou essa esperança.

Durou pouco, mesmo muito pouco.

Ao longo dos anos têm-nos sonegado essa esperança.

Hoje, claramente, sabemo-lo.

Há homens que morrem e continuam a viver. 

Adriano Correia de Oliveira é um desses homens.

Claro que, possivelmente pouco ou nada dirá às novas gerações, mas diz muito àqueles que  o ouviram cantar em tempos dificílimos, em tempos em que ele conseguiu ser um farol de esperança para o futuro com que sonhávamos.

O Adriano, ao longo do seu curto tempo de vida, sempre foi desrespeitado e explorado por uma série de gente. Lembro-me quando quis fazer um single e a editora torceu o nariz, lembro-me de na Festa do Avante, após s sua morte, colocarem um auditório com o seu nome, mas percorro os programas das diversas Festas do Avante e verifico que lhe deram sempre os horários menos nobres, os palcos mais escondidos. Sabiam que o Adriano nada recusava, nunca se negava a ir onde ele entendesse que devia estar presente. Lembro-me daquele espectáculo, no Coliseu, de solidariedade para com os trabalhadores da ANOP, em que não o deixaram actuar porque disseram que «estava com os copos». 

Mesmo o Partido a que sempre pertenceu,  rodeou-o de silêncios infames, ele que, segundo Fausto, «foi o melhor de todos nós».

A ilustração musical que escolhemos para esta evocação de Adriano Correi de Oliveira é Pensamento.

Canção com poema de Manuel Alegre e música de Adriano Correi de Oliveira e António Portugal.

Está incluído no EP Trova do Vento Que Passa editado pela Orfeu em 1963

Adriano Correia de Oliveira é acompanhado à guitarra por António Portugal e à viola por Rui Pato.

 

POEMA DE DOMINGO

Aos domingos as ruas estão desertas

e parecem mais largas.

Ausentaram-se os homens à procura

de outros novos cansaços que os descansem.

Seu livre arbítrio alegremente os força

a fazerem o mesmo que fizeram

os outros que foram fazer o que eles fazem.

E assim as ruas ficaram mais largas,

o ar mais limpo, o sol mais descoberto.

Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas

e espetarem o ventre e alargarem os braços

no amplexo de amor que só eles conhecem.

 

O olhar aberto às largas perspetivas

difunde-se e trespassa

os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos

fareja o contentor tombado no passeio.

 

É domingo.

E aos domingos as árvores crescem na cidade,

e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se

a cantar empoleirados neles.

Tudo volta ao princípio.

 

E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas

e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras

levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,

enquanto o transeunte,

no deslumbramento do encontro inesperado,

eleva a mão e acena

para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.

 

António Gedeão de Novos Poemas Póstumos em Obra Completa

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO

Gosto de abrir as portas que há no tempo.

Hélia Correia

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

VIAGENS POR ABRIL


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 Campanhas de Dinamização Cultural e Ação Cívica do MFA.

Uns nunca ouviram falar, outros já esqueceram.

Existe um livro, publicado pela Ulmeiro, da autoria de Ramiro Correia, Pedro Soldado e João Marujo : MFA: Dinamização Cultural, Acção Cívica, onde tudo, ou quase tudo, está explicado.

Um projecto de boas ideias que encontrou dificuldades enormes, desde o primeiro minuto boicotado, sabotagens diversas, umas silenciosas, outras bem gritadas.

Em MFA Dinamização Cultural Acção Cívica, Ramiro Correia reconhece que um problema que surgiu desde o início, foi o da dificuldade dos militares responderem a questões políticas delicadas. Era evidente a incapacidade na criação de quadros e também se tornava cada vez mais claro que as lutas pela conquista do poder, iriam afectar a qualidade e quantidades de militares dispostos a empenharem-se em acções desta natureza.

Neste país, a cultura sempre foi um enorme busílis.

Decididamente não devemos, não podemos, espantar-nos com as atitudes (não) culturais dos políticos, dos autarcas, dos deputados, dos governos. Têm todos sem excepção,  um soberano desprezo pela cultuar. Talvez não puxem da pistola mas não conseguem distinguir um livro de uma abóbora.

Deixou escrito Mário Dionísio:

«Que a cultura é uma arma poderosa na luta pela emancipação dos homens, nunca o fascismo português o ignorou ou esqueceu. O seu reino de opressão durou quase meio século – o tempo bastante para que outros fascismos nascessem, crescessem, desencadeassem a maior Guerra mundial de todos os tempos, nema fossem vencidos, fossem esquecidos, embora com outras máscaras regressassem ou  sem grandes alterações continuassem a existir. Nesse quase meio século, o fascismo português teorizou e praticou, do princípio ao fim, uma doutrinação obscurantista tão zelosa e permanentemente observada que ele próprio nunca mais conseguiu libertar-se dela, mesmo quando julgou que isso poderia ser-lhe de alguma utilidade: quando por necessidades de funcionamento  do Regime e, não menores de propaganda ante um mundo mais e mais hostil (sobretudo a partir da Guerra colonial), em vão tentou, nos últimos anos corrigir à pressa, ainda que superficialmente, a base fundamental da sua filosofia.»

Com as Campanhas de Dinamização Cultural não se pretendia levar cultura, mas motivar a população para que recuperasse as suas realidades através de uma cultura que possuíam mas não desenvolviam, não frequentavam.

Foi quando apareceram uns habilidosos que entenderam que o importante não era dinamizar a cultura mas estupidificar o povo.

Montanhas e montanhas de tele-novelas que obrigassem as gentes a ficar agarradas aos televisores e… nada de cultura.

Ao ponto de, durante os debates televisivos para as eleições de 10 de Março se tenha abordado tudo (?) excepto CULTURA.

As televisões transmitem diariamente horas e horas e horas, e horas de programas sobre futebol e não gastam 3 minutos a falar de um livro, de um f ilme, de uma exposição.

Sobre as dificuldades dos dinamizadores culturais, recorda-se  aquele oficial miliciano que, numa aldeia  transmontana, perguntou à assistência presente da sala:

«Vocês sabem o que é o socialismo?

Uma velhota devolveu-lhe:

E vossemecê sabe o que é um engaço?

O recorte, no topo do texto, recorda o episódio.

Habilidosamente, o jornalista que mais tarde recorda a cena, não deixa de comentar:

«…suspeito que o doutor já se tenha esquecido do socialismo mas ainda hoje a velhota, se for viva, há-de saber o que é o engaço.»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Este livro trata da História a que os hstoriadores, os manuais fogem como o diabo foge da cruz.

Não podemos encherea boca com palavras como «o meu país» e não saber, também não querer saber, o que, ao longo dos tempos no País foi acontecendo.

Na página 5 há um poema de  Bertolt Brecht e esse poema diz, em poucas palavras, o que o livro encerra.

 

«General, o teu tanque é um carro forte

Arrasa um bosque e esmaga centos de homens

Mas tem um defeito:

Precisa de um condutor.

 

General, o teu bombardeiro é forte.

Voa mais rápido que uma tempestade e carrega mais que um elefante.

Mas tem um defeito:

Precisa de um mecânico.

 

General, o homem é muito hábil.

Sabe voar e sabe matar.

Mas tem um defeito:

Sabe pensar.»

 

A páginas 211, iniciando um capítulo de «Conclusões» pode ler-se:

 

O difícil é continuara lutar

Quando o desistir é fácil.»

OLHAR AS CAPAS


MFA: Dinamização Cultural, Acção Cívica

Ramiro Correia, Pedro Soldado, João Marujo

Biblioteca Ulmeiro nº 3

Editora Ulmeiro. Lisboa s/d

A todos os camaradas que, por todo o país, por vezes nas condições mais adversas, não se pouparam a sacrifícios, incompreensões e discriminações, para cumprirem a tarefa exaltante de lutarem ombro a ombro com o povo português por um futuro melhor, onde não tenha lugar a exploração e a injustiça e o homem alcance os espaços da liberdade.

DESENHO


Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as
trepadeiras, e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam.


Isso era num lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas. . .
O eco, burlão, de pedra em pedra ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.


Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.


Com a chuva caia das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.


Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurantes e eternos.


E minha avó cantava e coisa. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.


Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas,
Levai-me aonde quiserdes! – aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

 

Cecília Meireles de Mar Absoluto em Antologia Poética

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL



                  Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Esta é uma Viagem de Abril que mete abóboras, nabos, um chefe de estado, picareta escrevente das mais atrozes banalidades que alguém com responsabilidades (?) de um dito político pode arrotar.

No dia 11 de Junho de 2014, em Olhar as Capas, publicámos a capa de Tomás, Por Ele  Mesmo, uma antologia, organizada por Orlando Neves, de alguns dos milhares de disparates que Tomás bolsou, em discursos patéticos, enquanto presidente da ditadura.

Começámos depois a publicar as fotografias, as partes discursais, os comentários do Orlando Neves.

Hoje, regressamos no tempo ao domingo dia 17 de Fevereiro de 1974.

O que o Notícias de Portugal de 23 de Fevereiro desse ano nos diz, é que naquele domingo «o Chefe do Estado sr.Almirante Américo Thomaz, acompanhado de sua esposa deslocou-se a Torres Vedras para presidir a alguns melhoramentos, assistir ao cortejo de oferendas a favor da Santa Casa da Misericórdia e receber a medalha de ouro do Município que o Conselho Municipal, por proposta do seu presidente, deliberou conceder-lhe».

Palavras de Thomaz no salão nobre do Município:

«Vim a Torres Novas neste belo dia, a convite de V. Exª, Senhor Presidente da Câmara da Misericórdia de Torres Novas. Pediram-me que viesse aqui, e, para vir neste dia, um domingo, aquele em que a população mais facilmente poderia estar presente e saudar o Chefe de Estado.

Leiam bem: «vir neste dia, um domingo, aquele em que a população mais facilmente poderia estar presente e saudar o Chefe de Estado.»

Foi este idiota palrador de vazio, de coisa nenhuma que o botas de Santa Comba colocou a representar o país.

A sorte é que ninguém em nós reparava!...

OS DIAS VISTOS NO CAFÉ DO MONTE

A crónica de Ana Cristina Leonardo está publicada no Público de 19 de Janeiro e tem por título:

Camões, zero, Ventura, um

«É  incompreensível que os 500 anos do nascimento do nosso maior poeta tenham passado em branco.

Imagine-se que Espanha esquecia Cervantes. Imagine-se que a França esquecia Balzac. Inglaterra, Shakespeare. A Suécia, Strindberg. A Alemanha, Goethe. A Irlanda, Joyce. Itália esquecia Dante. A Noruega, Ibsen. A Rússia (e os zulus), Tolstoi. A Argentina esquecia Borges. Cuba, José Martí. O Brasil, Machado de Assis. Os Estados Unidos esqueciam Mark Twain. A Índia esquecia Tagore. A China esquecia Li Bai. E por aí adiante até se esgotarem a geografia e as bibliotecas. 

É difícil imaginar. Mas mais difícil ainda – porque nos toca a todos nós – é imaginar que tenham esquecido Camões.

Se nos lembrarmos que do cante alentejano à festa dos tabuleiros de Tomar, da dieta mediterrânea ao fado, passando pela falcoaria, das festas do povo de Campo Maior ao Carnaval de Podence, em Trás-os-Montes, passando pelo artesanato em barro de Estremoz – todas essas inscrições no Património Cultural Imaterial da Humanidade (categoria criada pela UNESCO em Outubro de 2003, activada em 2006 e que visa “a salvaguarda, respeito, sensibilização a nível local, nacional e internacional, do património cultural imaterial das comunidades, grupos e indivíduos, bem como a cooperação e o auxílio internacionais, no quadro de um mundo cada vez mais globalizado que ameaça uniformizar as culturas e aumentar as desigualdades sociais”) motivaram uma onda de patriotismo talvez só ultrapassada pela vitória de Portugal no Festival Eurovisão da Canção de 2017, momento inesquecível que Marcelo Rebelo de Sousa inscreveria nos anais da nossa história com a célebre frase: “Os portugueses ficaram com mais vinte centímetros”…

Indo directly to the point: face ao entusiasmo que toma de assalto todo e qualquer português quando ouve falar em pastéis de nata vendidos em Singapura ou em Manhattan, torna-se ainda mais incompreensível que os 500 anos do nascimento do nosso maior poeta tenham passado em branco e não serve de desculpa o passado surfista do ministro da Cultura, pois que entre a prática milenar de caminhar sobre as águas e a literatura não existe qualquer contradição, sabendo-se, aliás, que seria o afamado escritor (e aventureiro) norte-americano Jack London o grande divulgador na Califórnia do “desporto dos reis” (tal como era apelidado no Havai) – e da Califórnia haveria de chegar à Nazaré –, nomeadamente com a publicação em 1907 de A Royal Sport: Surfing in Waikiki, praia onde o próprio havia aprendido a cavalgar as ondas. Mas de tudo isto estará o ministro ciente…
2024: dois aniversários de monta. O do 25 de Abril e o de Luís de Camões. Ambos números redondos. O primeiro faz 50 anos; o segundo faz 500.

Do 25 de Abril, pertenço à última geração a quem foi sonegada a leitura de A Ilha dos Amores e que teria idade para não só se lembrar conscientemente da data, mas também ter participado na festa (porque de uma festa se tratou! – não tenhamos dúvidas). Quando nos formos – os da minha geração – o 25 de Abril acabará inevitavelmente transformado numa espécie de 5 de Outubro, na pompa e na circunstância, que é o que está sempre reservado aos acontecimentos históricos (não tenhamos dúvidas).

Ao contrário dos cravos, que sempre fenecem – os de plástico não contam –, Camões é eterno! Nunca, jamais, em tempo algum e enquanto for vivente um representante da espécie humana deixaremos de nos comover com isto:

Um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974”, diria aquele que descrevendo Portugal versejou: “terra de escravos cu pró ar ouvindo/ ranger no nevoeiro a nau do Encoberto” no seu excelente discurso proferido na Guarda a 10 de Junho de 1977, sem se esquecer sequer de adicionar ao retrato do poeta certeira ferroada: “Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros”.

Em síntese: feita a ressalva (sublinho de novo a Alemanha nazi…), não me parece de espantar que um país que esquece os 500 anos do seu poeta maior seja o mesmo onde tanto se fala e analisa as teses de Ventura, o evangélico. Sem esquecer que é o mesmo onde tanto se discute o que fazer ao desossado Eça. Ou ainda – e que não sejam perdoados porque sabiam o que faziam – o país que vendeu a língua por um prato de lentilhas!

Temos, claro, o sol e o mar e a gastronomia. No meu caso, nem me posso queixar. Tenho vizinhos adoráveis que, embora pouco dados à poesia, me obsequiam com azeite, tangerinas, abóboras e couves, variáveis que se vão adequando à época. Tenho espaço largo e silêncio.

Faltará a água. Mais velhos morrerão sozinhos. Os jovens continuarão a partir e as crianças a não nascer. As carrinhas de legumes e de pão deixarão de se fazer ouvir. Os parques fotovoltaicos tomarão conta do que resta da paisagem, cenários lunares despidos de pessoas (um parque de 42 hectares dá trabalho a três funcionários).

E quem não vê relação entre o estado da cultura e o “estado a que isto chegou”, remeto para outro poeta, no caso Eduardo Guerra Carneiro, que há anos deu como título a um livrinho de versos, Isto Anda Tudo Ligado, frase que, pelo menos desde os gregos antigos, se sabe ser verdadeira.»

OLHAR AS CAPAS


Memórias da Guerra Colonial

Cadernos Andrómeda nº 1

Corpo redactorial: Alice Nicolau, Carlos Fabião, José Carvalheira. Marcos Vidigal, Carlos Cruz Oliveira, António Modesto, Manuel Sobral Bastos, Fernando Vaza Pinheiro, José Pinheiro

Capa: José Cândido

Andrómeda Publicações, Lisboa, Abril de 1984

A recuperação do vivido é um dos fins da escrita. Para que conste, lá onde a memória colectiva for falhando. Força é que as experiências individyias dos que tiveram que mastigar o miolo da guerra se não dissipem, confinadas às quatro paredes de uma sala de cada um. As narrativas que aí ficam são um contributo para o que tem sido contado sobre a algazarra paranóica desses dias. Por elas não desfilam heróis nem réus; uns não existiram os outros são revés.

A maturação da fraude colonial é o cordão que as liga, sendo cada qual janela de seu espaço e de seu tempo. Para que conste, lá onde a fraca memória dos homens abertas for esquecendo as portas dos bichos ruins. 

RETRATO


A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurava proteção.

Luís Miguel Nava  em Poesia

domingo, 18 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

A Pátria não se discute: defende-se ,diziam os inqualificáveis, por tudo e mais alguma coisa, deputados da assembleia nacional  e todos os defensores da ratazana de Santa Comba.

Uma guerra colonial  sem sentido, cruel, inútil.

- 820 mil jovens terão sido mobilizados para Angola, Guiné e Moçambique.

- 14 mil mortos.

- 40 mil estropiados e deficientes.

- 140 mil antigos combatentes sofrem de “stress” de guerra.

Sabemos destes números.

Estarão estes números correctos?

No seu livro Memórias das Guerras Coloniais, João Paulo Guerra escreveu: não há estatísticas para a solidão, a ansiedade, o medo, o sofrimento, a dor.

As dolorosas despedidas dos barcos na Rocha de Conde d’Óbidos.

«Ponho-me a pensar. Ou por outra, não penso peva: vou; e é chato.

Ir assim de charola é a cabronada mais miserável que se pode fazer»

Fernando Assis Pacheco em  Walt

Há feridas que custam a cicatrizar, mas não podemos admitir o silêncio.

«Adeus até ao meu regresso


Se se lembram, não nos obriguem a esquecer.

A imagem no topo mostra um anúncio que o ultra-salazarista  Francisco Casal-Ribeiro fez publicar no dia 5 de Agosto de 1967 no Jornal do Oeste:

«Tenho três filhos, qualquer deles a atingir o momento de servir a Pátria.

Um deles é alferes piloto aviador, em vésperas de partir para África. São os meus três filhos o meu único tesouro, e se é certo que sentirei, como qualquer outro pai, a sua ausência, orgulhar-me-ei de os ver no cumprimento da missão que lhes couber. Para eles, apenas pedirei a Deus que os proteja, os traga em boa hora e com a consciência do dever cumprido».

Este mesmo deputado, um verdadeiro escroque, ou ainda muito pior, da clique salazarista/caetanista, na assembleia nacional perguntava a Mota Amaral, integrante da ala liberal, que teria dito que Portugal estava numa guerra que pode perder e que a questão era política:

 «Eu bem sei que V. Exa. é muito novo. Ó Sr. Deputado, desculpe, que idade tem?
O Orador [Mota Amaral]: – Tenho trinta anos.
O Sr. Casal-Ribeiro: – O Sr. Deputado fez serviço militar?
O Orador: – Cumpri todas as minhas obrigações militares, Sr. Deputado.
O Sr. Casal-Ribeiro: – E o Sr. Deputado foi à África?
O Orador: – Não estive na África.
O Sr. Casal-Ribeiro: – Ai que pena! Ai que pena!»

Repito: Ai que pena! Ai que pena!»

Dramaticamente miserável!

Por hoje, nada mais se adianta.

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O Pé na Paisagem

Filipe Leandro Martins

Capa: José Teófilo Duarte

Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1992

O comboio deixou-nos na cidade com mais ou menos vinte anos. Saímos aos trambolhões, entre malas e saquinhos, berrando uns pelos outros com a solidariedade de bairro, de vila ou de escola. Eu vinha só com a mala pesadíssima que trazia de casa para a caserna que nos esperava, velhaca. Arrastávamo-nos com pressa, desancados pela viagem, pelas bagagens, pelo sol provinciano à uma da tarde no largo amarelo da estação e ouvi alguém gritar o meu nome uma porrada de vezes antes de me voltar Não me apetecia partilhar o que ia ser a vida dali em diante.