domingo, 13 de fevereiro de 2022

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 O Diário de Notícias, em reportagem sobre os resultados das eleições de 30 de Janeiro, foi até Baleizão, terra de Catarina, tentar saber o que pensam alguns habitantes sobre os tempos que por ali se vivem.

Uma das perguntas girava à volta do que havia a dizer sobre os votos, antes comunistas, e agora espalhados por aqui e por ali.

A resposta foi simples, que os velhos vão morrendo e os jovens que agora votam nunca passaram fome.

Albert Camus:

«Eu não aprendi a liberdade em Marx. É verdade:  aprendia-a na miséria.»

1.

Vamos esperando pelo novo governo, mas tempo ainda de saber de coisas não muito antigas.

Apesar do voto contra do Parlamento, no final de 2020, o Ministro das Finanças encontrou um subterfúgio para injectar 317 milhões de euros no Novo Banco ao longo deste ano que está a findar.

2.

Uma frase de Gonçalo M. Tavares no final de uma sua crónica no Expresso:

 «A justiça é amor, o amor é justiça. Nada mais há a aprender.»

3.

Ontem foi tempo de colocar por aqui a capa de um livro de António Osório, uma antologia de poemas feita por Eduardo Lourenço, há muito cá pela casa, e que já devia ter sido revelada.

Sobre este poeta, um tanto ou quanto pouco divulgado, escreveu Joaquim Manuel Magalhães:

Ainda não sei bem como falar de bom-gosto, depois de esse conceito ter sido a base de todo o discurso reaccionário tentando opor-se aos impulsos da arte ligada às efectivas vanguardas de entre as duas guerras. Há, por um lado, todo o peso dessa tradição do desmando, da escrita em abismo, cuja fulguração atravessa o nosso século literário. Ela tornou a palavra bom-gosto uma espécie de visco na boca dos académicos e das delicodoces almas dadas aos encontros devaneantes. Mas também ela, por outro lado, mesmo nas suas propostas de mais catastrófica vocação, vive de uma tensão, de uma escolha de um tecido de relações, de uma busca do menos gasto pelo tempo que são algo a que a expressão bom-gosto, num desígnio renovado, se poderia aplicar. O bom-gosto não como um padrão, mas como uma chegada. Não como um código, mas como uma disponibilidade. Não um enregelamento, mas o modo mais fulgurante por onde a superação se efectiva e sobrepõe ao dessoramento dos estilos, assumindo esta palavra em vez daquela, esta construção em vez da outra: enfim, uma obstinação em não chafurdar no lugar-comum dos outros. Mesmo que defendendo a ironia de expressar o lugar-comum do tempo, que pelo menos essa ironia o torne um lugar-comum apenas seu. É isto que subentendo ao tentar usar “bom-gosto” para definir a contenção da escrita de António Osório.
Bom-gosto que é, neste caso, rasura verbal, rejeição, visível trabalho da escolha, acertamento dos ritmos, ausência de monotonia vocabular. Esta ausência de repetições excessivas de palavras, que não deixam de se tornar obsessivamente inúteis em muitos dos nossos mais aceites poetas contemporâneos, revela uma imaginação verbal notável, sobretudo se tivermos em conta a extensão do volume que estamos a referir.»

4.

Quase mil médicos de família vão atingir este ano a idade da reforma.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO



«Há coisas conhecidas e coisas desconhecidas; entre elas, ficam as portas.»

William Blake

Legenda: fotografia de Luís Eme 

OLHAR AS CAPAS


Antologia

António Osório

Prefácio, Organização, notas: Eduardo Lourenço

Capa: Rui Ligeiro

Editorial Presença, Lisboa, 1984

 

Querida Tia Egeria

 

Querida Tia Egeria, com sapatos

de há tantos anos, um gato,

fotografias, lençóis da tetravó,

residente na bondade de dar tudo,

casada com vasos de gerânios.

 

Neto teu, debaixo do travesseiro

de minha Mãe escondias

todas as noites amêndoas.

Com quatro anos vi contigo

um comboio infindável,

formigueiro de carruagens, vagons,

barulho rolando

e eu dizia adeus, beijava a gente

que o bafo dentro embaciava.

E foste tu quem me levou

Pela mão à porta do Paraíso. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO

«Acabaram com a agricultura, com o tintol a martelo, com as morcelas caseiras, com o tabaco nos restaurantes, com o escudo, com a frota pesqueira, com o Aquilino nas escolas, com a tropa obrigatória. Agora espantam-se porque o povo só se sente patriota com a selecção? Pensassem nisso antes.»

Filipe Vicente

NOTÍCIAS DO CIRCO

Hoje, na cidade do Porto, deveria ter acontecido um jogo de futebol, entre o F.C.Porto e o Sporting, aquilo que os especialistas chamam um «clássico».

Mas aconteceu tudo menos futebol.

Assistiu-se a algo completamente deplorável.

Nestas alturas, quando há quem diga as coisas melhor do que ele poderia dizer, não hesita, e pediu ajuda ao escritor Mário de Carvalho, quando numa entrevista num velho «Mil Folhas, suplemento literário dum velho Público, disse que somos um povo de javardos, sem vergonha, sem dignidade e que «a maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do jogo da bola.»

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

CONVERSANDO

 Agora que já entrámos por Fevereiro dentro, ele ainda anda às voltas com a história do avô e asua raiva aos meses de Janeiro e Fevereiro que, este ano, provocaram o disparate de zarpar do blogue sem avisar que isso iria acontecer, e o seu porquê.

Agora que anda a ler a excelente biografia de Manuel António Pina, escrita por ÁlvaroMagalhães, confirmou que o poeta foi um homem marcado pela sua atribulada infância.

Já encontrou uma frase de Clarice Lispector «Nunca é tarde para se viver uma infância», também o título da 1ª parte do livro «A infância não se vê da infância», e num pedacinho que aproveitou para o lançamento do Olhar asCapas de há dias, leu palavras de Ruy Belo é apenas por termos perdido a infância que a amamos tanto e, inevitavelmente, Eugénio de Andrade  a lembrar que a infância aquece à medida que se distancia.

Altura de ter vontade de perguntar:

Será que andamos, toda uma vida, de mão dada com a criança que fomos?

Talvez por isto, e algo mais, voltou a publicar o poema de Álvaro Campos de que muito gosta:

« Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.»

OLHAR AS CAPAS


As Armas Estão Acesas Nas Nossas Mãos

Antologia Breve da Poesia Revolucionária de Moçambique

Prefácio: Papiniano Carlos

Capa: A.C. Ferreira

Edições Apesar de Tudo, Porto, Maio de 1976

 

Grito Negro

 

Eu sou carvão!

E tu arrancas-me brutalmente do chão

e fazes-me tua mina, patrão.

Eu sou carvão!

E tu acendes-me, patrão,

para te servir eternamente como força motriz

mas eternamente não, patrão.

Eu sou carvão

e tenho que arder sim;

queimar tudo com a força da minha combustão.

Eu sou carvão;

tenho que arder na exploração

arder até às cinzas da maldição

arder vivo como alcatrão, meu irmão,

até não ser mais a tua mina, patrão.

Eu sou carvão.

Tenho que arder

queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim!

Eu sou o teu carvão, patrão.

 

José Craveirinha

POEMA EM LINHA RECTA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

 

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

 

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

 

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 

Álvaro de Campos em Poesias

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO

«Lançamos o barco.
Sonhamos a viagem;
quem viaja é sempre o mar.»

Mia Couto

OLHAR AS CAPAS


 Censura e Cinema

Autores vários

Coordenação: Carlos Araújo

Colecção Cadernos de Cinema nº 7

Capa: Fernando Felgueiras

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1969

 Dei ordens para que, de momento, os franceses produzam apenas filmes ligeiros e vazios e – se possível – estúpidos. Penso que os franceses hão-de contentar-se com isso; não é necessário desenvolver o seu nacionalismo.

 Goebbels, fragmento do seu Diário, 15.05.1942

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


«Vou de uma palavra a outra que entretanto mudou

e já não sei como voltar à primeira.»

Manuel Gusmão 

OLHAR AS CAPAS


Para Quê Tudo Isto?

Biografia de Manuel António Pina

Álvaro Magalhães

Capa: Rui Rodrigues

Contrponto Editores, Lisboa, Setembro de 2021

A infância é uma estação poética por excelência, mesmo porque recria esse melancólico original que é a infância do mundo: o início do espaço e do tempo. Na infância, não estamos ainda separados do mundo, somos parte dele. Porém, estamos então demasiados próximos dessa infância, demasiado imbuídos dela para a reconhecer como tal. Sim, a infância não se vê da infância. Eugénio de Andrade dizia que ela «nos aquece à medida que se distancia», que é um modo elegante de dizer que só a temos quando a perdemos. «E apenas por a termos perdido a amamos tanto», (Ruy Belo). Sim, só depois de se perder esse estado de graça, essa simples felicidade, se toma consciência disso, e se reconhece o «pecado da infelicidade». Portanto, só possuímos a infância quando ela já é apenas distância, ou seja, uma construção da memória. E a memória partilha da mesma condição ilusória da literatura e do ser. Ela mente, frequentemente («nós é que construímos o nosso próprio passado», dizia Pina, mas é tudo o que temos para nos aguentarmos à tona nas águas turbulentas da existência.)

AGRURAS DE EX-BANQUEIROS

1.

João Rendeiro encontra-se detido na prisão de Westville, em Durban, desde 13 de Dezembro do ano passado.

O processo de extradição do ex-banqueiro arrastar-se-á por longos tempos.

Recentemente deu instruções à sua advogada sul-africana para avançar com uma denúncia às Nações Unidas sobre as condições de higiene e segurança da prisão em que se encontra:

«As condições prisionais são terríveis. As janelas não têm vidros. Não há água quente. Não há assistência médica. Não há roupa de cama ou toalhas adequadas. As prisões sul-africanas são desumanas.»

2.

O ex-presidente do BES, Ricardo Salgado, disse hoje em tribunal que lhe foi diagnosticada doença de Alzheimer e, por isso, alegou não estar em condições de prestar declarações no julgamento do processo separado da Operação Marquês.

«Meritíssimo, não estou em condições de prestar declarações», murmurou aos juízes.

O antigo líder do BES nunca marcou presença nas anteriores oito sessões do julgamento, face à permissão da lei em relação ao contexto da pandemia de covid-19. Ricardo Salgado viu ainda os seus advogados apresentarem em outubro um atestado médico de diagnóstico de doença de Alzheimer, visando assim a suspensão do julgamento, mas essa pretensão foi recusada pelo tribunal.

Ricardo Salgado responde neste julgamento por três crimes de abuso de confiança, devido a transferências de mais de 10 milhões de euros no âmbito da Operação Marquês, do qual este processo foi separado.

O Ministério Público pede uma pena de prisão não inferior a 10 anos.

O colectivo de juízes agendou para 7 de Março a leitura do acórdão.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO



 

A vida é apenas um curto período de tempo em que estamos vivos.

Philip Roth em Pastoral Americana

DISSO SOU TAMBÉM FEITO


 «As várias casas onde fomos vivendo, desde a Ajuda ao Bairro dos Actores, passando pelos Anjos, Campolide, Campo de Ourique, Picheleira, deixaram, cada qual, a sua marca: um troço de rua, uma prateleira da despensa, uma certa janela em aberto, o rendilhado dum tecto, a curva dum corredor, umas sonoras escadas de serviço, um recanto de marquise, um pátio com claraboias… Disso sou também feito, e com isso escrevo, mesmo sem que os lugares o saibam. Eu também os contenho.»

Mário de Carvalho em DeManeira Que É Claro…

NOTÍCIAS DO CIRCO

«O Futsal pode ser inspirador para todo o país», afirmou, entre sorrisos e «selfies», o professor Marcelo.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


Viver é um verbo enorme.

José Luís Peixoto

MONICA VITTI (1931-2022)


 Morreu Monica Vitti.

Tinha 90 anos, mas há longos anos que se debatia com Alzheimer.

Lembrar-me-á sempre as enormes dificuldades que mantenho com os filmes de Antonioni.

O resto são outras histórias.

MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles em Antologia Poética

sábado, 5 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Por aqueles tempos, nascia-se em casa.

Na rua onde nasci, não havia qualquer sala de cinema mas, em redor, havia uma enormidade de cinemas.

Mentalmente percorro essas ruas, sigo em direcção à Graça e encontro o Cine-Oriente, o Royal, junto à Morais Soares o Max, o Imperial, na Almirante Reis o Cinema Império, o Lys, o Rex, mais abaixo o Salão Lisboa, e se subir até à Duque de Ávila encontro o Avis.

Desapareceram quase todos, outros mantêm o espaço, mas viraram diversos, quiçá estranhos,locais de consumo.

O cinema é um mundo de afectos que provoca uma grande e inolvidável memória e a cada um o seu Cinema Paraíso, a sua última sessão.

É assim que também a morte nos visita.

Legenda: Cinema Royal na Rua da Graça, hoje um supermercado.

LAURO ANTÓNIO (1942-2022)


 Na quinta-feira, aos 79 anos, morreu Lauro António.

Uma vida dedicada à cultura, mas principalmente ao cinema.

Não tinha grande apetência por holofotes.

«Como crítico, como organizador de festivais, como professor, como dinimizador cultural, nunca foi minha intenção impor opiniões.».

Entendia a crítica de cinema com paixão e, por isso mesmo, era parcial.

Manteve, nos primeiros tempos da TVI, o programa «Lauro António Apresenta», cujos textos de apresentação dos filmes foram publicados em Junho de 1994 pelas Edições ASA.

 Quem gosta da vida vai ao cinema.

É lá que tudo se passa.

«Nos nossos cinemas, ou no que resta dos nossos cinemas, se me quiser fazer entender.» é o começo de uma crónica de João Bénard da Costa.

Lauro António, entre Setembro de 1974 e Março de 1975, realizou um filme-documentário a que chamou «Vamos ao Nimas».

Nos seus 18 minutos de duração, o filme pretende ser uma evocação dos cinemas de bairro, os chamados «piolhos», que já não existem, das salas de cinema que pelo país, um pouco por toda a parte, foram encerrando as portas, e em muitos casos, com os edifícios destruídos.

Escreveu  Lauro António: «por maquinações do capitalismo, os velhos “clássicos”da aventura, do humor, do “suspense” ou do amor cederam progressivamente o seu lugar a este estendal de violência gratuita, de especulação, de barbárie que por todo o lado cresce. Enquanto desaparecem as salas que viram nascer e morrer uma época de ouro.»

Ainda Lauro António:

«Aqui existiu uma sala de cinema. Uma sala popular. Um bilhete para uma sessão dava direito a ver duas fitas em reprise.
Aqui existiu uma sala de ilusões. Aqui Gene Kelly dançava à chuva.
Marilyn amava.
James Bond tinha ordem para matar.
Chatrlot dava pontapés nos polícias
Os Marx faziam coisas impossíveis
Tarzan lutava com crocodilos-"Me Tarzan. You Jane."
Zorro e Fantomas na mesma sessão.
Bogart em "Casablanca"
A malta sorria - ria - sonhava - vibrava.»

De Lauro António retenho ainda o ter sido programador da sala de cinema do Centro Comercial Apolo 70, uma sala confortável com a excelência de uma projecção e de um som que dela fizeram um autêntico «must»

«Ao abrir as portas, todo o cinema que se preza orgulha-se de se apresentar ao público referindo normalmente a excelência da sua projecção, a comodidade dos seus lugares, o bom gosto do seu ambiente, o interesse espectacular da sua programação, etc. Apolo 70 poderia começar também por isso (e cremos que o faria com inteira justiça), mas as responsabilidades que irá contrair são sobretudo de um outro tipo. Com o que a sua declaração de princípio pretenderá atingir um alcance muito mais vasto».

E não se podem esquecer as sessões da meia-noite que por lá aconteceram.

Foi no Apolo 70 que, com o meu pai, vi dois filmes do Francis Ford Coppola: «Appocalipse Now» e «Do Fundo do Coração».

Outra referência minha de Lauro António data de finais de 1967 quando, juntamente com o Eduardo Prado Coelho, mais tarde com o João César Monteiro e o Vitor Silva Tavares, se tornaram críticos de cinema de Diário de Lisboa, crítica de cinema a sério, o que levou as distribuidoras de filmes a dizer a Ruella Ramos, proprietário do jornal, que ou punha aqueles senhores a andar dali para fora ou nunca mais via um tostão de publicidade.

Os senhores das exibidoras não estavam a ver bem com que quem estavam a lidar, não só os críticos não saíram como se gerou uma enorme onda de solidariedade entre os jornalistas e escritores, bem como dos leitores do jornal, e tiveram que arrepiar caminho.

O jornal não cedeu a qualquer tipo de chantagem.

Lauro António criou, no ano passado, a Casa das Imagens, em Setúbal, para onde levou uma boa parte do seu acervo, entre livros, filmes, cartazes, fotografias e onde organizava ciclos de programação.

No jornal digital Mensagem de Lisboa, podem encontrar as crónicas que Lauro António escreveu para esta publicação.

«Um velho sábio, elegante, a tentar agarrar a memória da sua paixão, o cinema, e a generosidade da militância pelo cinema», tal como de Lauro António escreveu Ferreira Fernandes.

Legenda: fotografia de Maria Eduarda Colares

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Diário Inédito

1944-1949

Vergílio Ferreira

Apresentação: Hélder Godinho

Edição: Fernanda Irene Fonseca

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Março de 2010

 

Basta de literatices. A arte é, no fim de contas, uma coisa bem estúpida. Que lucrou o mundo com os génios das letras? Uma razão para erguer estátuas ou rotular ruas.

Porque escrevo eu livros? Ora! Pela mesma razão que um albardeiro faz albardas, quando as faz por gosto. Em todod o caso sempre é uma madureza mais desculpável do que fazer bricabraque ou investigar das raízes de palavras gregas. Três quartas partes do que o homem faz são madurezas. E são essas madurezas as suas necessidades. Não: as faculdades do espírito não deviam ser desperdiçadas. Um cavalo, com a décima parte da inteligência de um homem medíocre, seria um animal muito equilibrado, seria, decerto, o rei da criação. Não faço blague. 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO


 Manuel Pinho, ex-ministro de José Sócrates, está em prisão domiciliária desde 15 de Dezembro de 2021.

Segundo o Ministério Público  terá beneficiado a EDP em 1,2 mil milhões de euros e é ainda suspeito de ter recebido uma avença mensal de 15 mil euros através do chamado saco azul do Grupo Espírito Santo,

O Juiz Carlos Alexandre, a pedido do Ministério Público mandou arrestar três imóveis a Manuel Pinho e outros 10 à sua mulher. A pensão de 15 mil euros foi congelada. Ex-ministro, passa a receber 2.115 euros por mês.

Legenda: recorte de uma 1ª página do Expresso.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Decorrendo os dias pós eleições legislativas, faço uma paragem pelas Folhas Políticas, onde José Saramago deixou alguns textos sobre a unidade da esquerda.

Hoje e amanhã são estes os Sublinhados Saramaguainos

«Do alto da sua tribuna, o presidente da Assembleia da República não vê a Nação: vê (quando estão todos) 263 deputados que, pela graça da aritmética, a representam. Está a Direita, está o Centro, está a Esquerda: Ninguém precisa de (se) interrogar sobre o que seja a Direita, ninguém acha oportuno averiguar se o Centro o é de facto, mas todos nos inquietamos com a Esquerda, com o passado, o presente e o futuro da Esquerda. Falta saber (o tempo virá a dizer, por força) se essa inquietação é sinal de saúde ou de doença, da Esquerda e de quem para ela se volta interrogativo, com uma preocupação porventura autêntica, mas não destituída de algum comprazimento. Outra vez em Portugal se tornou mais fácil falar das coisas adio que fazê-las, outra vez (passe a banalidade da alusão) cuidamos mais de discutir o sexo angélico do que de investigar os modos de levar os anjos a fazer filhos, sejam os ditos anjos machos ou fêmeas.

(…)

Por aqui se concluirá que, segundo entendo, a questão da Esquerda, logo a questão do Socialismo, tem de passar por uma definição do partido Socialista no que toca ao lugar que ocupará (ou não) na futura luta, ou, se a linguagem parecer demasiado bélica, no futuro empenhamento das forças de Esquerda. A grande responsabilidade do partido Socialista tem sido a de paralisar, pela sua contradição interna, a irrecusável definição: é possível, por isso, afirmar que, no sentido mais rigoroso do termo, o Partido Socialista adiou o Socialismo. Porque o adiou dentro de si próprio.

(…)

Encontremo-nos, pois, e confrontemos. Sabendo cada um o lugar que ocupa, agora, no sector da esquerda que for o seu, sem subvalorização do que, efectivamente, esse sector representar como expressão colectiva. E tenhamos em vista que o objectivo é o Socialismo. A esquerda não é um fim em si, um modo vitimizante ou triunfalizante de estar no mundo: é uma estrutura, um instrumento, uma organização. Que, como todas as coisas, serão julgados pelos resultados. E nós de caminho.»

 

De um texto publicado na revista Abril, Fevereiro de 1976 e que pode ser encontrado na página 13.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

O RISCO DE SE FICAR MAL NO RETRATO

Num comício em Outubro de 2015, Jerónimo de Sousa afirmou que o «PS só não forma governo se não quiser.»

Passos Coelho e Paulo Portas tinham ganho as eleições, mas existia uma maioria de esquerda na Assembleia.

No dia 15 de Fevereiro de 2016 por aqui se escrevia:

«Há um governo do Partido Socialista, apoiado pelas esquerdas.

O passe de mágica que destronou a direita, que se preparava para nos infernizar a vida por mais quatro anos, aconteceu.

Lembrar o quanto José Saramago ficaria feliz com a possibilidade das esquerdas -finalmente! – terem iniciado os caminhos da unidade.

Uma unidade que já vem dos tempos da Assembleia Constituinte, mas que certos actores, com fins então inconfessáveis, desprezaram.

 Em artigos de opinião, em conferências, em entrevistas, José Saramago nunca deixou de vincar o mote da unidade com vista ao nosso futuro de povo.

Nos dias que correm, estão muito difíceis os tempos deste governo do Partido Socialista apoiado pelas esquerdas.

Bruxelas, os mercados, o raio que os parta, tudo junto, a tentarem que o sonho, mesmo sendo débil, se desfaça.

Um trabalho que, tanto o Partido Socialista, o Partido Comunista, o Bloco de Esquerda, têm de preservar.

Sob pena de não existir uma outra oportunidade e de todos ficarem mal no retrato.»

A água continuou a correr por debaixo das pontes.

Corria o findar de Outubro de 2021.

Cada um com a devida quota parte de responsabilidades, Partido Socialista, Partido Comunista, Bloco de Esquerda, acabaram por provocar o desfecho de obrigarem o Presidente da República a marcar eleições legislativas para o dia 30 de Janeiro de 2022.

Cada um tem a sua explicação.

Ressalta a quem lê a história por fora, que António Costa apenas aguardava a oportunidade de afastar aquela esquerda do seu caminho.

Quando Paulo Portas chamou «geringonça» aos acordos do PS, do PCP, do BE, António Costa, num debate quinzenal na Assembleia da República, ainda disse:

«É geringonça, mas funciona.»

Mas era difícil o palmilhar naquele caminho de pedras.

António Costa ainda lembrou que os portugueses não gostam de maiorias, mas começou a recente campanha por exigi-la.

Os palradores televisivos logo disserem que uma maioria absoluta era quase uma impossibilidade.

As sondagens das diversas empresas foram dando empates técnicos, ligeira percentagem a António Costa, uma sondagem ainda conseguiu dar a vitória a Rui Rio, mas os resultados são aqueles que os votantes entenderam dar no domingo.

Não sei como funciona o negócio das sondagens mas terá que existir uma qualquer explicação para tanto disparate.

Há clubes de futebol que arranjam bruxos para influenciar resultados, há partidos que arranjem gurus para mexer cordelinhos.

Outras histórias.

Segundo o Diário de Notícias, António Costa pretende indicar Edite Estrela como futura Presidente da Assembleia da República.

Se assim acontecer, opinião minha, os novos caminhos não começam nada bem…