Carnaval. Nunca o
festejei, nem o apreciei festejado pelos outros.
Miguel Torga
Saint-Saens compôs a
peça com o objectico de fazer uma crítica ao cenário musical de Paris, no findar do século XIX.
A peça é formada
pelas seguintes actos:
«À medida que nos aproximamos do aniversário da brutal invasão da Ucrânia pela Rússia, estou hoje em Kiev para me encontrar com o presidente Zelensky e reafirmar o nosso compromisso inabalável com a democracia, a soberania e a integridade territorial da Ucrânia", declarou Joe Biden numa mensagem publicada no Twitter.»
1.
Paulo Baldaia, hoje,
no Diário de Notícias intitula a sua crónica: Falcões e pombas nos céus da Ucrânia:
«Visto do lugar de cada um dos que estão em guerra, a paz é impossível.
A Ucrânia não admite ceder território e a Rússia não aceita ficar apenas com o
que já tinha antes da invasão de 24 de fevereiro. Para cada um dos campos
aliados, aceitar a derrota é também impensável. É evidente que se joga, na
guerra da Ucrânia, muito mais que os desejos imperialistas de Moscovo. Os
impérios que se confrontam usam os eslavos como carne para canhão, mas é no
Pacífico que querem medir forças. Por agora, estão apenas a testar o resto do
mundo. Já vimos acontecer.
A China anunciou que, assinalando um ano de guerra, avançará com uma
iniciativa de paz na Ucrânia, mas aproveitou para apontar o dedo aos que
"atiraram achas para a fogueira". Obviamente, procurando culpar
Washington. Obviamente, pouco interessada em criar um clima em que a paz possa
ser verdadeiramente discutida. A China poderia fazer a diferença, mas não vê o
que pode ganhar com isso.
A China anunciou que, assinalando um ano de guerra, avançará com uma
iniciativa de paz na Ucrânia, mas aproveitou para apontar o dedo aos que
"atiraram achas para a fogueira". Obviamente, procurando culpar
Washington. Obviamente, pouco interessada em criar um clima em que a paz possa
ser verdadeiramente discutida. A China poderia fazer a diferença, mas não vê o
que pode ganhar com isso.
A Europa que acabará sempre a perder, seja qual for o resultado da guerra, trabalha para adiar o seu declínio. Não está capaz de se defender militarmente a si própria e está em segundo plano na guerra económico-financeira em curso entre a China e os Estados Unidos. Quanto menos conta mais a Europa amedronta as suas opiniões públicas, influenciadas pelo populismo nacionalista e religioso, interessadas em ver o fim da guerra, disponíveis para serem convencidas da vantagem de uma derrota ucraniana.»
2.
«As novas entregas de
armas prometidas por Biden nesta altura são um sinal inequívoco de que as
tentativas russas de ganhar não terão qualquer hipótese.
O secretário-geral do PCP considerou esta segunda-feira que a visita do Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, à Ucrânia poderá "acrescentar guerra à guerra", apelando a que sejam dados sinais com vista a negociações de paz.
4.
Tal como aconteceu
com a aquisição das vacinas contra a covid-19, a União Europeia poderá vir a
estabelecer mecanismos para a compra conjunta de armas e munições de modo a
garantir um fornecimento, em quantidade e rapidez, à Ucrânia. A presidente da
Comissão Europeia mencionou a ideia este sábado na Conferência de Segurança de
Munique.
«Podemos pensar, por
exemplo, em programas antecipados de aquisição, que permitirão à indústria de
defesa a possibilidade de investir em linhas de produção», disse Ursula von der
Leyen.
Josep Borrell, chefe
da diplomacia europeia defendeu esta segunda-feira que a União Europeia deve
decidir rapidamente como acelerar o fornecimento de armamento, sobretudo
munições, à Ucrânia, advertindo que se este apoio falhar, "o resultado da
guerra está em risco".
A infância.
Dizem que é onde está
tudo… o que somos…
Onde acaba a infância?
A infância é coisa que acabe?
Dá agora para lembrar
a sensação de recordar livros que lera na infância – os livros, sempre os
livros!... – os ingleses dizem aquele back to childhood, e aparece O
Pequeno Lord de Frances Burnett, Colecção Azul, tradução de Maria Lamas,
foi à prateleira onde deveria estar, e não encontrou, emprestado a algum dos
netos?
Mas lembra que há muitos anos, num alfarrabista, comprou esse livro que tivera na infância.
Nunca fez um Olhar as Capas, mas aparece num Postal Sem Selo por causa de uma citação da Ana Teresa Pereira, capa toda sarapintada por uma esferográfica vermelha.
Também lá está o preço por que o alfarrabista lhe vendeu o livro: um escudo!
E nesse livro, tal como ele e o saco de batatas à porta da loja da
avó, o Lord, na mercearia, empoleirado numa caixa de bolachas, vê as caixas
desabarem para o chão.
Será assim?
Mas nessita de ter o
livro entre mãos…
Podermos ler de diferentes
maneiras, e ainda mais porque há quem pense aprender-se mais com a experiência
do que com os livros, mas sempre achou os livros indispensáveis.
Acho que estou
perdido.
A converseta vem a propósisto
de quê?
Ah sim!, porque
voltou a reler que José Saramago quis ser maquinista de caminho de ferro, ele
não diz donde lhe veio o sonho, e há aquela moça que quis ser carteiro porque viu filme O Carteiro de Pablo Neruda e ele não recorda, mesmo verdade!, se na
infância quis ser alguma coisa.
Estranho.
Tem uma frase a martelar
na memória, que diz tão pouco, «ser aprendiz de tudo, oficial de nada»
Melhor ficar por aqui.
Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
ã sua extraordinária desordem preside um pensamento
melhor diria “um esforço” não coordenador (de modo algum)
mas de “moldagem” perguntavam “estão a criar moldes?”
não senhores para isso teria de preexistir um “modelo”
u ma ideia organizada um cânone
queremos sugerir coisas como “imagem de respiração”
“imagem de digestão”
“imagem de dilatação”
"imagem de movimentação”
"com as palavras?” perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor das palavras
no centro
não tentamos criar abóboras com a palavra “abóboras”
não é um sentido propiciatório da linguagem
introduzimos furtivamente planos que ocasionais
ocupações (“des-sintonizar” aberto o caminho
para antigas explicações “discursos de discursos de discursos” etc.)
fixemos essa ideia de “planos”
podemos admiti-los como “uma espécie de casas”
ou “uma espécie de campos”
e então evidente para serem habitados percorridos gastos
Será que se pretende ainda identificar “linguagem” e “vida”?
uma vez se designou mão para que a mão fosse
uma vez o discurso sugeriu a mão para que a mão fosse
uma vez o discurso foi a mão
partia-se sempre de um entusiasmo arbitrário
era esse o “espírito” o “destino” da linguagem
agora estamos a veras palavras como possibilidades
de respiração digestão dilatação movimentação
experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexão quente
“elas estão andando por si próprias!” exclama alguém
estão a falar a andar umas com as outras
a falar umas com as outras
estão lançadas por aí fora a piscar o olho a ter inteligência
para todos os lados
sugerindo obliquamente que se reportam
a um novo universo ao qual é possível assistir
ver
como se vê o que comporta uma certa inflexão
de voz
é uma espécie de cinema das palavras
ou uma forma de vida assustadoramente juvenil
se calhar vão destruir-nos sob o título
“os autómatos invadem” mas invadem o quê?
Herberto Helder de Antropofagias em Poesia Toda, 2º volume
Domingo de Carnaval.
Vergílio Ferreira:
Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.
Há uma cena genial em A Família Addams quando perguntam à Wednsday se não vai mascarada ao baile e ela responde que já está mascarada:
Estou mascarada de psicopata. Os psicopatas parecem pessoas normais.
Por ele, que nunca foi de carnavais, gostava um dia de ir ao Carnaval de Nova Orleães.
Os taipais são os do Kioske.
Correm, ao findar do dia, depois de lida, apenas o que entendeu ler, a imensa tralha que se aloja no vazio da internet.
1.
Francisco Louçã em entrevista: «Para o Partido Socialista, o Chega é o Euromilhões».
2.
Advogado acusado de cobrar
60 mil euros por processo fictício.
O Marque Mendes disse hoje na SIC, que os maiores beneficiários com o projecto habitacional de António Costa, serão os advogados!
3.
Duas casas devolutas, em espaços contíguos, arderam durante a madrugada deste domingo, na freguesia de São Victor, em Braga.
4.
Um grupo de católicos
portugueses está a organizar uma vigília de oração contra abusos sexuais na
Igreja Católica.
De acordo com a divulgação feita nas redes sociais, o evento vai decorrer em todo o país na próxima quarta-feira, dia 22 de Fevereiro, entre as 21 e as 22 horas.
5.
«Fui segunda-feira à Gulbenkian ouvir o relatório da Comissão
Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica
Portuguesa.
Tirei quatro conclusões básicas: há cem sacerdotes no activo que têm de ser imediatamente expulsos das sacristias e altares e colégios e seminários e grupos de escuteiros; há 25 acusações ainda não prescritas, agora enviadas ao Ministério Público, que deverão ser investigadas e, caso se provem, severamente punidas com prisão; a Igreja terá, como noutros países, de pagar despesas médicas de acompanhamento psicológico e indemnizações às vítimas; por último, é essencial que haja um pedido de desculpas formal, ecuménico, irreversível e genuíno, dos bispos portugueses e do Papa, durante as cerimónias da Jornada Mundial da Juventude, no Trancão.»
Rui Cardoso Martins, da crónica no Jornal de Notícias
6.
O preço que os trabalhadores terão de pagar por uma refeição nas cantinas dos organismos e serviços públicos vai aumentar 80 cêntimos, passando dos actuais 4,10 euros para 4,90 euros.
7.
Ainda é possível, passados que são 13 dias sobre a tragédia encontrar pessoas com vida entre os escombros que, segundo números recentes, provocaram mais de 40.000 mortos.
8.
O primeiro-ministro português mostrou-se este domingo confiante na reeleição de António Vitorino, em alguns tempos o partido solicitou-lhe auxílio, «não há festa nem festança onde não apareça a Dono Constança» e ele assobiou para o lado, para a Organização Internacional para as Migrações, salientando que todos os líderes africanos com quem falou em Adis Abeba apoiam a manutenção de António Vitorino.
9.
A biografia de Natália Correia que será publicada em Março pela Contraponto tem 700 páginas e levou seis anos a ser escrita, notícia revelada ao final da tarde desta sexta-feira no Correntes d’Escritas, o festival literário da Póvoa de Varzim.
10.
Marcelo Rebelo de Sousa, considerou esta sexta-feira que a posição do PCP sobre a condecoração do Presidente ucraniano com a Ordem da Liberdade “é coerente” com aquilo que o partido defende desde o inicio da guerra.
11.
Dados oficiais demonstram que cerca de 57 milhões de toneladas de comida são desperdiçados na União Europeia todos os anos, o equivalente a 127 quilogramas por habitante. São cerca de 130 milhões de euros que vão, literalmente, para o lixo, quando milhares de europeus não têm acesso a uma refeição completa.
Neste cenário, números de 2020 mostram que Portugal está acima da média. No quarto país da União Europeia onde mais se deita comida fora, cada português desperdiça em média quase 184 quilogramas de alimentos por ano.
12.
«Os sacrificados funcionários judiciais são peças essenciais para o bom funcionamento da Justiça e a sua greve está a criar um caos. É do mais estrito bom senso que o Ministério da Justiça, rapidamente, chegue a um acordo com os funcionários judiciais.»
Francisco Teixeira da Mota no Público
Há coisas que
não sabe como explicar. Fala delas, apenas, ou o gosto por ter causas, afectos.
Saber que há pessoas mais generosas do que outras.. Sim, é isso, o olhar para o
lado quando alguém, na rua, estende a mão para uma esmola.
Lembra-se das campanhas para defender o lince da Serra da Malcata de extinção,
ainda hoje são tema por aí, ainda o esperam…
Em Janeiro de
2002, um elevado número de surfistas organizou-se em manifestações e abaixo
assinados numa «Luta pela Onda Perfeita», com origem nuns esporões que a Câmara
Municipal estava a construir na Praia de Santo Amaro de Oeiras, e que iriam
destruir “a melhor onda da costa portuguesa, uma das melhores da Europa”.
Porque muito lhe
diz respeito, lembra no Verão de 1999 a luta dos agricultores de Palmela para
evitar o desaparecimento da maçã riscadinha. Acompanhou a luta e soube do
desânimo dos agricultores. Volta e meia davam-lhe informe de que, algures,
tinham visto maçãs riscadinhas, corria lá mas já não as encontrava. E não sabiam
se chegariam mais,,, esperavam mais…
Mas este ano encontrou-as no merceeiro aqui da rua. Onde haveria de ser? Os
tais merceeiros de que o Orson Welles falava e de que, num mundo selvagem de
hiper e super mercados, ainda haveremos de ter muitas saudades. E em tempos de
crise, como estes que atravessamos, mais ainda. Sim, porque só eles permitem
essa palavra mágica e perversa que se chama rol. Não dizemos à menina da caixa
do Continente: “ponha aí na
conta”!
A maça riscadinha é exclusiva de algumas zonas do concelho de Palmela, a
produção não é elevada e por esse facto não chegam às grandes superfícies. Esta
rapaziada apenas está interessada em grandes quantidades para poderem entrar na
especulação que determina preços baixíssimos aos produtores. Na Lourinhã a
batata sai do produtor a 15 cêntimos., ele que prepara a terra, lança as
sementes, rega, apanha-as. É possível? A batata fica na terra, a batata que
consumimos vem de Espanha e França. E quem fala em batata fala em outros
produtos.
O quilo das maçãs riscadinhas está no Sr. Ferreira a 1,95 euros o quilo.
A luta dos agricultores de Palmela teve êxito ou o seu aparecimento deve-se ao
facto de a partir de 1 de Julho a CEE ter revogado uma das suas muitas
estúpidas determinações?
Sim, essa determinação, com que a fúria normalizadora de Bruxelas nos brinda, e
que estabelecia que, de Portugal à Lituânia, as melancias, os pepinos, qualquer
fruta, qualquer vegetal, teriam que obedecer ao mesmo diâmetro, ao mesmo
feitio.
Mas agora não está preocupado com os porquês e apenas lhe apetece o tempo de
olhar, saborear, as belas maçãs riscadinhas de vermelho, amarelo, verde,
gostosura da sua infância.
Sabor e perfumes únicos, memórias doces.
(22 de Junho de
2009)
Legenda: fotografia tirada daqui.
O livro tem um Aviso, escrito por José Saramago, sem
indicação de data. Com toda a certeza, quando Saramago o escreveu, não o teria
escrito em acordês.
Provavelmente, nunca saberei das razões que levaram a
editora, ou os herdeiros de Saramago, a publicar os livros do Nobel Português,
fora da ortografia utilizada pelo autor.
É o Sublinhado Saramaguiano de hoje:
«O autor é um rapaz de vinte e quatro anos, calado, metido consigo, que
ganha a vida como praticante de escrita nos serviços administrativos dos
Hospitais Civis de Lisboa, depois de ter estado a trabalhar durante mais de um
ano como aprendiz de serralharia mecânica nas oficinas dos ditos hospitais. Tem
poucos livros em casa porque o ordenado é pequeno, mas leu na Biblioteca
Municipal das Galveias, tempos atrás, tudo quanto a sua compreensão logrou
alcançar. Ainda estava solteiro quando um caridoso colega da repartição,
segundo-oficial, de apelido Figueiredo, lhe emprestou trezentos escudos para
comprar os livrinhos da coleção «Cadernos» da Editorial Inquérito. A sua
primeira estante foi uma prateleira interior do guarda-louça familiar. Neste
ano de 1947 em que estamos nascer-lhe-á uma filha, a quem medievalmente dará o
nome de Violante, e publicará o romance que tem andado a escrever, esse a que
chamou A Viúva mas
que vai aparecer à luz do dia com um título a que nunca se há de acostumar.
Como no tempo em que viveu na aldeia já havia plantado umas quantas árvores,
pouco mais lhe resta para fazer na vida. Supõe-se que escreveu este livro
porque numa antiga conversa entre amigos, daquelas que têm os adolescentes,
falando uns com os outros do que gostariam de ser quando fossem grandes, disse
que queria ser escritor. Em mais novo o seu sonho era ser maquinista de caminho
de ferro, e se não fosse por causa da miopia e da diminuta fortaleza física,
imaginando que não perderia a coragem entretanto, teria ido para aviador
militar. Acabou em manga de alpaca do último grau da escala hierárquica, e tão
cumpridor e pontual que à hora de começar o serviço já está sentado à pequena
mesa em que trabalha, ao lado da prensa das cópias. Não sabe dizer como lhe
veio depois a ideia de escrever a história de uma viúva ribatejana, ele que de
Ribatejo saberia alguma coisa, mas de viúvas nada, e menos ainda, se existe o
menos que nada, de viúvas novas e proprietárias de bens ao luar. Também não
sabe explicar por que foi que escolheu a Parceria António Maria Pereira quando,
com notável atrevimento, sem padrinhos, sem empenhos, sem recomendações, se
decidiu a procurar um editor para o seu livro. E ficará para sempre como um dos
mistérios impenetráveis da sua vida haver-lhe escrito Manuel Rodrigues, da
Editorial Minerva, dizendo ter recebido A Viúva na sua casa por intermédio da Livraria Pax, de
Braga, e que passasse ele pela Rua Luz Soriano, que era onde estava a editora.
Em momento nenhum ousou o autor perguntar a Manuel Rodrigues por que aparecia a
tal Pax metida no caso, quando a verdade é que só tinha enviado o livro à
António Maria Pereira. Achou que não era prudente pedir explicações à sorte e
dispôs-se a ouvir as condições que o editor da Minerva tivesse para lhe propor.
Em primeiro lugar, não haveria pagamento de direitos. Em segundo lugar, o
título do livro, sem atrativo comercial, deveria ser substituído. Tão pouco
habituado estava o nosso autor a andar com tostões de sobra no bolso e tão
agradecido a Manuel Rodrigues pela aventura arriscada em que se ia meter, que
não discutiu os aspetos materiais de um contrato que nunca veio a passar de
simples acordo verbal. Quanto ao rejeitado título, ainda conseguiu murmurar que
iria tentar outro, mas o editor adiantou-se, que já o tinha, que não pensasse
mais. O romance chamar-se-ia Terra
do Pecado. Aturdido pela vitória de ir ser publicado e pela derrota de
ver trocado o nome a esse outro filho, o autor baixou a cabeça e foi dali
anunciar à família e aos amigos que as portas da literatura portuguesa se
tinham aberto para ele. Não podia adivinhar que o livro terminaria a pouco
lustrosa vida nas padiolas. Realmente, a julgar pela amostra, o futuro não terá
muito para oferecer ao autor de A
Viúva.
Dos anos que levo de
andar por aqui – completam-se 78 em Março - sempre ouvi falar de crise da
habitação. A minha infância de olhares está cheia de ver escritos nas janelas,
que sinalizavam que a casa, ou parte da casa, ou um quarto, estavam para
alugar.
Havia muito pouco
dinheiro.
O meu pai chegou a
ter uma partilha da casa com um tio da parte da minha mãe, para a ajuda do
pagamento da renda, mas, ao fim de alguns meses, esse tio não conseguiu pagar a
metade da renda.
Anos 50, a renda
cifrava-se em 600 escudos.
Muitas vezes havia a
imperiosa necessidade de alguns objectos terem de ir até à Casa de Penhores do
Sr. Martins na Rua da Penha de França, em frente da sede do Sporting Club da
Penha.
Esta semana o governo
de António Costa apresentou um pacote legislativo para enfrentar o problema da habitação. Recebeu, de todos os lados, um coro de impropérios e críticas. O pacote
ainda não é definitivo, vai entrar em diversas discussões, públicas e privadas
e só depois de tudo isso, seja aprovado.
Do que li na imprensa, por ignorância própria, não
entendi quase nada.
Não sei se a propósito do pacote, Marcelo Rebelo de Sousa
chamou a António Costa «um optimista irritante».
Por conta de todas as madurezas, dos detalhes ainda
desconhecidos do que o governo pretende, leva-me a deixar o primeiro poema de O Problema da Habitação do Ruy Belo:
A morte é a verdade e a verdade é a morte
Tão contente de vento, ó folha que nomeio
como quem à passagem te colhesse,
palavra de que tu, ó árvore, dispões para vir até mim
do alto da tua inatingível condição
De muito longe vinda, inviável lembrança
indecisa nas mãos ou consentida
por alguma impossível infância
E a alegria é uma casa recém-construída
Face melhor de todos nós, ó folha
dos álamos nocturnos e antigos visitados pelo vento,
no calmo outono, o dos primeiros frios, sais
do ângulo dos olhos, acolhes-te ao poema
como no alto mês de maio a flor imóvel do jacarandá
Não há outro lugar para habitar
além dessa, talvez nem essa, época do ano
e uma casa é a coisa mais séria da vida
Marcelo Rebelo de Sousa condecorou, com Ordem do Mérito, um empresário do
sector da restauração que deve cerca de dois milhões de euros ao fisco.
1.
2.
Em 2022 o poder de
compra dos portugueses caíu para os níveis de 2018 e segundo o Instituto
Nacional de Estatística o ordenado bruto médio caiu 4%.
No relatório sobre os
abusos sexuais cometidos por membros da Igreja católica estão referenciadas
pelo menos 4815 crianças que foram vítimas e a idade média que tinham no
primeiro abuso que sofreram é de 11/12 anos.
Hipocraticamente, o
sr. Bispo do Porto, Manuel Linda, disse:
«Sofro e choro pelas
vítimas».
4.
5.
«Acham a Educação cara? Experimentem a ignorância!»
Lia-se num cartaz na manifestação de professores.
6.
As senhoras da caridadezinha!
São quatro as
acusações do Ministério Público que visam a bastonária dos Enfermeiros: duas de
peculato e outras duas de falsificação de documentos.. Ana Rita Cvaco é dada
como autora de um esquema para falsificar deslocações e receber, indevidamente,
mais de 10 mil auros ao abrigo de subsídios de função,
7.
O mesmo estudo indica
que os portugueses estão a mudar alguns hábitos de consumo para fazer face à
subida dos preços.
A maior parte dos
consumidores indica que é importante que a comida seja barata e 47% dos
inquiridos afirmam que combatem os preços altos com a compra de alimentos, cuja
data de validade esteja prestes a expirar, por um preço mais reduzido.
«Comecemos então, como convém, pelo básico. Um actor é um fingidor. Métodos de aquecimento à parte, ficará para sempre gravado nos anais da arte o comentário que Sir Laurence Olivier terá dirigido a Dustin Hoffman quando ambos contracenavam no filme de 1976 do inglês John Schlesinger, O Homem da Maratona.
Hoffman
acabara de filmar uma cena em que tivera de simular não ter dormido nas
anteriores 72 horas. Olivier pergunta-lhe educadamente como correu e o
co-protagonista de O Cowboy da Meia-Noite (também realizado por Schlesinger e
no qual Hoffman interpretara Ratso, maltrapilho e vigarista aleijado que
conseguia convencer-nos de que cheirava mal, apesar do cinema não ter cheiro…)
responde-lhe que na realidade não dormira durante três dias, de modo a
transmitir verosimilhança à personagem. Do alto da sua experiência
(shakespeariana), Olivier sugere-lhe com delicadeza: “My dear boy, porque é que não tenta apenas
representar?”.
Indo
agora um pouco mais longe e parafraseando o poema antigo de Mário Cesariny — Raio de Luz — que começa com a rima: “Burgueses somos nós
todos / ou ainda menos. / Burgueses somos nós todos / desde pequenos”,
acrescentaria eu agora que actores somos nós todos e sem dúvida desde pequenos.
Fingimos
e mentimos. Voltando a Sir Laurence Olivier só para poder assinar por baixo: “O
que é representar senão mentir e o que é mentir bem senão mentir de modo
convincente?”».
Ana Cristina Leonardo no Público de 27 de Janeiro
Arthur Miller
Tradução de José
Cardoso Pires e Victor Palla
Capa: Victor Palla
Colecção Os Livros
das Três Abelhas nº 8
Publicações
Europa-Améica, Lisboa s/d
Hoje não vos trago algo que tivesse encontrado num blogue, antes no Diário de Notícias do dia 11 de Fevereiro de 2023.
Porque fala de um
velho país que foi ponto de passagem da Rota da Seda, de uma centena e meia de
variedades de melancia que, não sendo um grande apreciador, sei das maravilhosas
melancias portuguesas que existem na
Cova da Beira.
O que acima se lê, consta da página 18 de Laurentinas de João Pedro Grabato Dias, cujo exacto título é: «uma meditação 21 LAURENTINAS e dois fabulários falhados».
A introdução do
livrinho, custou-me 30 escudos, em 1972, numa barraca-alfarrabista que existia
na quase entrada do Parque Mayer em Lisboa, pertence a Maria de Lourdes Cortez
que é ensaísta e poeta, estudou em Lisboa, onde se licenciou em Filologia
Românica na Faculdade de Letras (1956), leccionou no Liceu Pedro Nunes, de
Lisboa, e, de volta a Moçambique, no Liceu António Enes e nos Estudos Gerais e
Universidade de Lourenço Marques (hoje Maputo) e na Universidade Eduardo
Mondlane, do Maputo. Regressou a Lisboa em 1977, ingressando na Universidade de
Lisboa. Leccionou também no Centro de Apoio de Faro e em seminários de
pós-graduação do King's College. Os seus ensaios, de uma diversidade
assinalável – semiologia do barroco literário, em especial o discurso de D. Francisco
Manuel de Melo e dos poetas surrealistas; sobre escritores de Moçambique,
destacando-se os seus trabalhos sobre o erotismo da escrita de José
Craveirinha, João Pedro Grabato Dias e Carneiro Gonçalves; sobre Racine,
Robbe-Grillet ou Roland Barthes; a propósito do ensino das línguas-vivas e do
português a estrangeiros; prefaciando ou escolhendo o posfácio e a recensão
para compreender textos de Jorge de Sena, Martins Garcia, Gastão Cruz, Eugénio
Lisboa, Wanda Ramos, Nadine Gordimer, Carlos Poças Falcão ou Laureano Silveira.
O início da
introdução de Maria Cortez, é este:
«Nascido em Inhaminga em 1933. Mestiço de Hindustano, celta, judeu e
com prováveis avós nos Concheiros de Muge. Parte da infância e adolescência em
Santiago da Galapitões, por onde leu muito Hugo, Camilo, Poison do Terrail e S.
Cipriano. Herbanário e colector de pedrinhas. Gago mas muito dotado para o fado
e para a ociosidade. Funcionou em várias profissões, tais como a pública e a
privada, e é actualmente conselheiro para a África Leste do Comptoir d’ Hygiène
et Beuaté, no sector de Shampooos. Volta nos anos sessenta à África, muito
documentado em Edgar Burro – (ughs!). Acha que a realidade é aqui a sopeira da
fissão. Sem vícios, com hábitos simples mas não mesquinhos. Também já esteve em
Paris.»
Esta é a «biografia» que João Pedro Grabato Dias fez chegar a nossas
mãos. Não que lha tivéssemos pedido, nós que defendemos o primado absoluto da
obra e olhamos o texto como a única totalidade significativa.
No entanto,, a «biografia» aí está no tom exacto exigido pelo autor; e
também vincadamente significativa, porque em perfeita harmonia com o estilo que
as Laurentinas nos entregam.»
Deixo-vos ainda uma laurentina de Grabato Dias:
Necrologia laurentina
Só netos eram quarenta
sonetos pr’aí uns vinte
bolotos plantou algum
o patriarca aos oitenta
sabe que bateu no vinte
e é homem como nenhum
Tem o pelinho na venta
(digo-o sem nenhum acinte…)
E é filiado na un.
Tempo ainda para dizer que
João Pedro Grabato Dias também é conhecido por António Quadros (pintor).
É com esse nome que
aparece uma letra de canção do álbum Eu
Vou Ser como a Toupeira, de José Afonso que o «Musicalíssimo», na sua
edição de 1 de Dezembro de 1972 referia "Eu Vou ser como a Toupeira" um álbum "simples mas quase
genial com canções de simplicidade e muito bom gosto».
É neste álbum que José Afonso deixou «A Morte Saiu à Rua», que evoca o assassínio pela PIDE, do pintor
José Dias Coelho, na Rua da Creche em 19 de Dezembro de 1961.
Mas a canção de
António Quadros (pintor) é «Sete Fadas Me
Fadaram»:
«Sete fadas me fadaram
Sete irmãos m´arrenegaram
Sete vacas me morreram
Outras sete me mataram
Sete setes desvendei
Sete laranjinhas de oiro
Sete piados de agoiro
Sete coisas que eu cá sei
Sete cabras mancas
Sete bruxas velhas
Seter salamandras
Sete cega-regas
Sete foles
Sete feridas
Sete espadas
Sete dores»
Meus pés moídos na calçada,
minhas tardes envenenadas de álcoois nos cafés,
e o vazio por dentro
a encher o tédio das horas sem nome.
Tudo isto
- moeda triste
que nem chega a pagar o sol da tardinha
e a poeira de feno que pontilhou de oiro
teu corpo entre trigais.
João José Cochofel
Manuel Alberto Valente, na crónica que publica no Expresso, dedicou uma das últimas (27 de Janeiro) a recordar autores esquecidos.
A crónica começa
assim: «O tempo, esse grande escultor,
como lhe chamou Yourcenar, é muitas vezes ingrato com certos autores: depois de
um período de fama e reconhecimento, aira-os para o caixote do lixo da
História.»
E passa a citar
Altino do Tojal com os seus «Putos», Américo Guerreiro de Sousa, ManuelFerreira.
Lembra também
alguns autores esquecidos que estão a ser republicados como Maria Ondina Braga
(Imprensa Nacional), Maria Judite de Carvalho (Minotauro) e lembra ainda A Cidade das Flores de Augusto Abelaira,
que há muito se encontrava esgotado.
Mas o interessante da
crónica é que Manuel Alberto Valente lembra que o fenómeno
do esquecimento de escritores não é apenas português, mania muito nossa, e conta:
«Há alguns anos, conversando na Feira de Frankfurt com uma jovem
editora francesa, contei-lhe quão importante havia sido para a minha geração um
autor como Roger Vailland. Olhou-me espantada, e confessou que não só não havia
lido, como nem sequer conhecia o nome. E era editora… O tempo pode ser um
grande escultor, mas também muitas vezes, o barro com que esculpe desfaz-se e é
arrastado pelo vento.»
Por Roger Vailland
sei bem do que fala o Manuel Alberto Valente.
Reconto a história já
aqui deixada em Junho de 2013:
Se alguma vez o teu peito parar,
se algo deixar de
arder nas tuas veias,
se na tua boca a voz
morrer sem ser palavra,
se as tuas mãos se
esquecerem de voar e adormecerem.
Matilde, amor, deixa
teus lábios entreabertos
porque esse último
beijo deve continuar comigo,
deve ficar imóvel na
tua boca para sempre
para que assim na
minha morte me acompanhe também.
Morrerei beijando a
tua boca fria,
abraçando o cacho
perdido do teu corpo,
e procurando a luz
dos teus olhos fechados.
E assim, quando a
terra receber nosso abraço
iremos confundidos
numa única morte
viver para sempre a
eternidade de um beijo.
Pablo Neruda em Cem Sonetos de Amor
- Dê-me um exemplo.
- Olha este poema: “Aqui na ilha, o mar, e quanto mar.
Sai de si mesmo, a cada instante. Diz que sim, que não, que não. Diz que sim,
em azul, em espuma, em galope. Diz que não, que não. Não pode estar quieto.
Chamo-me mar, repete pegando numa pedra sem conseguir convencê-la. Então com
sete línguas verdes, de sete tigres verdes, de sete cães verdes, de sete mares
verdes, percorre-a, beijando-a , humedece-a, e bate no peito repetindo o seu
nome” – Fez uma pausa satisfeito - O que achas?
- Estranho.
- “Estranho” Que crítico severo és tu!
- Não, Don Pablo. Estranho não é o poema. Estranho é
como me sinto quando recitou o poema.
- Querido Mário, vamos a ver se te despachas um pouco,
porque não posso passar a manhã toda a desfrutar da tua conversa.
- Como se pode explicar? Enquanto dizia o poema as
palavras iam de cá para lá…
- Como o mar, claro!
- Isso é o ritmo.
- E eu senti-me estranho, porque com tanto movimento
enjoei.
- Enjoaste?
- Claro! Eu ia como um barco balançando nas suas
palavras.
As pálpebras do poeta despegaram-se lentamente.
- “Como um barco balançando nas minhas palavras.”
- Claro!
Sabes o que fizeste Mário?
- O que foi?
- Uma metáfora.
Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda
Comprar uma camisola para o aniversário de um
familiar.
Descer a Avenida Guerra Junqueiro, entrar na loja,
acto de pagamento.
Conversa vinda sabe-se lá donde, porquê, que antes de ser
empregada de balcão fôra carteiro, que deixou com muita pena, os porquês
importam pouco, o importante residia no pormenor do que ser carteiro lhe nasceu
depois de ter visto O Carteiro de Pablo
Neruda. Depois leu o livro, de que também gostou muito. Há que ler os
poemas de Pablo Neruda, acrescentou-se quase em final de conversa.
Lá chegarei!
Cá fora, a tarde continuava lindíssima.
Se tivesse que morrer esta noite regressava
regressava de novo à tua espera à mesma rua
Talvez a mais deixasse aqui apenas
a folha de um recado meio esquecido
Regressava às horas desta tarde relendo devagar
de minuto a minuto o número da tua porta
onde chegaria como há pouco outra vez adiantado
Regressava ao salgueiro onde agora moras
Regressava enquanto a noite que me leve se afastasse
e não te dizia adeus – olhava a terra
as árvores de água profunda onde os rios nascem
ouvindo os pássaros e a brisa do crepúsculo
quando o crepúsculo os confunde num só ramo
Se tivesse que morrer esta noite regressava
navegando a coberto da morte por estas esquinas
que se aceram entre os meus passos e os teus dedos
no olhar amargo que rasguei para te ver
onde a carne do rosto quebra os últimos espelhos
Se tivesse que morrer esta noite regressava
junto de ti até ao fim por um momento
para te dizer que amanhã é outro dia
e que é sempre amanhã ainda onde te encontro
Miguel Serras Pereira
Anda sempre fora dos
restantes livros daquele seu lugar na estante da Biblioteca da Casa.
Manuel António Pina gostava de palavras, de poesia, de livros, de contar histórias, da família, dos amigos, de chegar atrasado, de cigarrilhas, de gatos, uns em pensão completa outros em meia pensão, de não viajar, de não ter partido, do Sporting.
Manuel António Pina Viveu intensamente o 25 de Abril porque sempre se confessou um homem fundamentalmente de esquerda mas, nunce se mostrou entusiasmado por partidos, lembrando uma frase de José Saramago «o heróico num ser humano é não pertencer a um rebanho», para, acima de tudo declarar ser um militante de coisa nenhuma.
Álvaro Magalhães, lembra, antes do 25 de Abril, a preferência do Pina em correr à frente da polícia de choque em vez de ficar numa mesa de poetas a falar de versos, manifestava tendências trotskistas, mas, depois de Abril, («Valeu a pena viver só para viver aquele dia», disse um dia, Pina, a uma plateia de jovens leitores), ainda o vemos candidato a deputado pelo MES para a Assembleia Consituinte em 1975 e pela UEDS às eleições para a primeira Assembleia da República, em 1976.
Dessas circunstâncias
dirá mais tarde:
«Fiz sempre questão de não ser militante de coisa nenhuma; como se
costuma dizer em linguagem popular, eu mijo fora do penico» (pág. 210).
Hoje, ficamos pela
política, na próxima ficamo-nos nas futeboladas.
Não é um partido, mas poderemos falar de «O Clube dos Amigos à Espera do Pina».
Considerava a amizade
como a mais alta forma de amor.
Amiúde Pina chegava
atrasado a quase tudo.
Sirvo-me da narração,
página 243, de Álvaro Magalhães:
«Ele fazia do atraso um modo de vida. Para ele a pontualidade,
considerando todo o esforço que o cumprimento dessa pontualidade implicava, era
uma perda de tempo. O amigo João Botelho contou que, já nos anos 70, havia um
grupo que estava sempre no café Piolho «à espera do Pina». E os amigos com quem
privava mais nos últimos anos de vida, esses esperaram tanto que depois da
morte dele, fundaram uma associação cultural com a única função de o recordar e
à sua obra. Foram mesmo ao notário fazer a escritura e elegeram corpos sociais.
Uma coisa a sério. E deram-lhe o único nome possível: «O Clube dos Amigos à
Espera do Pina». Continuaram a encontrar-se e a fazer o que faziam antes, ou
seja, a conviver enquanto esperavam por ele. Faziam de conta que ele não tinha morrido,
estava apenas atrasado, como sempre. Nesses encontros havia – ainda há – sempre
alguém que é apanhado a olhar para a porta, à espera de que ele apareça, com
aquele ara de culpado, a dizer. «Vocês não imaginam o que me aconteceu!»
Chegar atrasado, porém era um mal menor. Como também marcava, por vezes, mais do que um encontro para o mesmo dia e a mesma hora, e se esquecia de que os tinha marcado, faltava a muitos deles. E fazia isso a todos, fosse quem fosse. Quando lhe telefonavam a perguntar o que se passava, muito tempo depois da hora marcada, ele perguntava, muito espantado: «Era hoje?» Faltava a encontros, diligências para que era convocado, reuniões, faltava a julgamentos, quando exerceu advocacia. Faltava até às homenagens que lhe prestavam. Germano Silva conta que estava com ele no café Orfeuzinho, a conversar, quando entrou alguém e disse: «Ó Pina (toda a gente que tinha alguma intimidade o tratava assim), parece impossível! Está ali o teatro cheio de gente à tua espera…» «Era hoje?», perguntou ele, com ar de surpresa total.»
Legenda: Café Piolho no Porto.
a Irene Lisboa e Mário Beirão
Procuro teu rosto
nos confins da memória.
Palavras que um dia
ouvi, ou sonhei,
súbito iluminam
minha solidão.
Com elas componho
o segredo oculto
do nosso destino.
Com elas invento
e reconstituo
teu perfil de névoa,
tua voz ausente
e sempre guardada
no meu coração.
Fluis, permaneces
à flor dos dias
que correm sem nome:
O tempo desgasta
o sonho submerso
na noite, minha alma
sem luz... e a viver.
Por ínvios caminhos
me perco, à procura
de ti, que passaste
um dia, cruzando
o céu sem estrelas
nem amanhecer.
Passaste e perduras
nesse breve instante
longínquo e tão perto.
Não sei onde paira
teu perfil de névoa,
tua voz ausente,
velada, indecisa...
Mas da luz que doira
as coisas em volta
ressurges, e inundas
a vida de esperança,
ó rosto impalpável,
ó voz pressentida
lá no mais secreto
da alma, do ser.
Luís
Amaro de Artes e Letras, Diário de Notícias
9 de Abril de 1970 em Poesia 70
Foram pelo menos 4815 as crianças abusadas no seio da Igreja em Portugal, segundo o estudo retrospectivo sobre os abusos sexuais cometidos no seio da Igreja em Portugal desde 1950 até à actualidade. Segundo o coordenador da comissão, Pedro Strecht, esse é o número "absolutamente mínimo", a que foi possível chegar após terem sido validados 512 testemunhos.
Notícia do Público
Nunca se conheceram e não tenho ideia de
conversarmos, ao ponto de saber, literatura à parte, dos porquês dessa
admiração.
Dos livros de Orlando
Costa que então estavam lá em casa, só um chegou até aqui: O Signo da Ira. Muitos livros da Bibliotecas tiveram descaminhos
diversos, muitos emprestados por meu pai a amigos presos, em Caxias, pela PIDE.
Alguns livros regressaram, outros não.
Quando li Podem Chamar-me Eurídice, não foi a 1ª
edição da Arcádia que fôra comprada pelo meu pai..
Já contei essa história por aqui e volto a contar:
«Em Olhar as Capas surge a edição da casa de Podem
Chamar-me Eurídice, chancela da Seara Nova, adquirida já depois
do 25 de Abril
Mas a primeira leitura tinha ocorrido antes, livro
emprestado pelo Carlos Alberto que era o campeão da rua no que tocava a livros
«Fora do Mercado».
Nunca revelou como os obtinha mas ninguém se preocupava
com o pormenor.
Um livro de que gostei muito e que me marcou.»
No âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, o jornal
Público, uma vez por mês, na Colecção
Biblioteca da Censura, publica um livro dos muitos proibidos pela censura
salazarista/caetanista.
Um dos livros da colecção, publicado em Dezembro de 2022,
foi Sete Odes do Canto Comum de
Orlando da Costa.
Nunca li o livro que, segundo ficha elaborada pelo meu
pai, pertencia à Biblioteca da Casa, mas, quando, após a sua morte, fechei a casa, não o encontrei.
Maria Antónia Palla, escritora e ex-jornalista, foi
casada com Orlando Costa, escreveu, sobre Sete Odes do Canto Comum o artigo que aqui se reproduz.
Desse texto, retiro este bonito e ternurento parágrafo:
«Era um homem tolerante, amável, bom conversador. Fugia-lhe o pé para a boémia. Fumava cachimbo. Era um esteta. Vestia com elegância, o fato bem passado, o lenço de seda no bolso do casaco a combinar com a gravata. Em todas as circunstâncias, com mais ou menos dinheiro, mostrava requinte, disposição para divagar, humor.»
A terminar o artigo, Maria Antónia Palla escreve:
«Um grande romancista. Um bom poeta. Um impoluto cidadão.»
Irei ler, pela primeira vez, Sete Odes do Canto Comum de Orlando da Costa.
Neste findar de conversa, permitam-me, que do artigo, repita esta frase:
«Fumava cachimbo».