terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


Carnaval. Nunca o festejei, nem o apreciei festejado pelos outros.

Miguel Torga

O CARNAVAL DOS ANIMAIS


 O Carnaval dos Animais  é uma peça para dois pianos e orquestra do compositor francês Camille Saint-Saëns composta em Fevereiro de 1886.

Saint-Saens compôs a peça com o objectico de fazer uma crítica ao cenário  musical de Paris, no findar do século XIX.

A peça é formada pelas seguintes actos:

  1. Introdução e Marcha Real do Leão
  2. Galinhas e Galos
  3. Mulas 
  4. Tartarugas
  5. O Elefante 
  6. Cangurus 
  7. Aquário
  8. Personagens de orelhas compridas 
  9. O cuco nas profundezas dos bosques
  10. Pássaros 
  11. Pianistas 
  12. Fósseis 
  13. O Cisne
  14. Final : uma recapitulação dos principais temas da obra.
O Cisne é, provavelmente a peça mais conhecida deste Carnaval de Saint-Saens.
É assim que ficamos a ouvir, imaginando o ballet que, a propósito, foi concebidod.
Arrasta-se a terça-feira carnavalesca, não tarda muito aparecerão as  cinzas de quarta-feira mas, como dizia Vinicius: «E no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar.»


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 Essencialmente, o dia fica marcado pela visita-surpresa do Presidente Joe Biden a Kiev, precisamente na semana em que se assinala um ano sobre a invasão da Rússia à Ucrânia.

«À medida que nos aproximamos do aniversário da brutal invasão da Ucrânia pela Rússia, estou hoje em Kiev para me encontrar com o presidente Zelensky e reafirmar o nosso compromisso inabalável com a democracia, a soberania e a integridade territorial da Ucrânia", declarou Joe Biden numa mensagem publicada no Twitter.»

1.

Paulo Baldaia, hoje, no Diário de Notícias intitula a sua crónica:  Falcões e pombas nos céus da Ucrânia:

«Visto do lugar de cada um dos que estão em guerra, a paz é impossível. A Ucrânia não admite ceder território e a Rússia não aceita ficar apenas com o que já tinha antes da invasão de 24 de fevereiro. Para cada um dos campos aliados, aceitar a derrota é também impensável. É evidente que se joga, na guerra da Ucrânia, muito mais que os desejos imperialistas de Moscovo. Os impérios que se confrontam usam os eslavos como carne para canhão, mas é no Pacífico que querem medir forças. Por agora, estão apenas a testar o resto do mundo. Já vimos acontecer.

A China anunciou que, assinalando um ano de guerra, avançará com uma iniciativa de paz na Ucrânia, mas aproveitou para apontar o dedo aos que "atiraram achas para a fogueira". Obviamente, procurando culpar Washington. Obviamente, pouco interessada em criar um clima em que a paz possa ser verdadeiramente discutida. A China poderia fazer a diferença, mas não vê o que pode ganhar com isso.

A China anunciou que, assinalando um ano de guerra, avançará com uma iniciativa de paz na Ucrânia, mas aproveitou para apontar o dedo aos que "atiraram achas para a fogueira". Obviamente, procurando culpar Washington. Obviamente, pouco interessada em criar um clima em que a paz possa ser verdadeiramente discutida. A China poderia fazer a diferença, mas não vê o que pode ganhar com isso.

A Europa que acabará sempre a perder, seja qual for o resultado da guerra, trabalha para adiar o seu declínio. Não está capaz de se defender militarmente a si própria e está em segundo plano na guerra económico-financeira em curso entre a China e os Estados Unidos. Quanto menos conta mais a Europa amedronta as suas opiniões públicas, influenciadas pelo populismo nacionalista e religioso, interessadas em ver o fim da guerra, disponíveis para serem convencidas da vantagem de uma derrota ucraniana.»

2.

«As novas entregas de armas prometidas por Biden nesta altura são um sinal inequívoco de que as tentativas russas de ganhar não terão qualquer hipótese.

 Zelensky, presidente da Ucrânia

 3.

O secretário-geral do PCP considerou esta segunda-feira que a visita do Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, à Ucrânia poderá "acrescentar guerra à guerra", apelando a que sejam dados sinais com vista a negociações de paz.

4.

Tal como aconteceu com a aquisição das vacinas contra a covid-19, a União Europeia poderá vir a estabelecer mecanismos para a compra conjunta de armas e munições de modo a garantir um fornecimento, em quantidade e rapidez, à Ucrânia. A presidente da Comissão Europeia mencionou a ideia este sábado na Conferência de Segurança de Munique.

«Podemos pensar, por exemplo, em programas antecipados de aquisição, que permitirão à indústria de defesa a possibilidade de investir em linhas de produção», disse Ursula von der Leyen.

 5.

Josep Borrell, chefe da diplomacia europeia defendeu esta segunda-feira que a União Europeia deve decidir rapidamente como acelerar o fornecimento de armamento, sobretudo munições, à Ucrânia, advertindo que se este apoio falhar, "o resultado da guerra está em risco".

CONVERSANDO


 Prosseguindo a saga preferida dos netos de que é um avô maluco, por vezes, complicado, também diferente, porque não lembra se alguma vez em miúdo, profissionalmente querer ser qualquer coisa. Para complicar as coisas, a avó materna, Brigida de seu nome, tinha um lugar de frutas e legumes na Rua Castelo Branco Saraiva, mesmo em frente à Vila Gadanho e, lembra que está empoleirado num saco de batatas, à entrada da loja, o saco tomba e as batatas começam a rolar rua abaixo 

A infância.

Dizem que é onde está tudo… o que somos…

Onde acaba a infância? A infância é coisa que acabe?

Dá agora para lembrar a sensação de recordar livros que lera na infância – os livros, sempre os livros!... – os ingleses dizem aquele back to childhood,  e aparece O Pequeno Lord de Frances Burnett, Colecção Azul, tradução de Maria Lamas, foi à prateleira onde deveria estar, e não encontrou, emprestado a algum dos netos?

Mas lembra que há muitos anos, num alfarrabista, comprou esse livro que tivera na infância.

Nunca fez um Olhar as Capas, mas aparece num Postal Sem Selo por causa de uma citação da Ana Teresa Pereira, capa toda sarapintada por uma esferográfica vermelha. 

Também lá está o preço por que o alfarrabista lhe vendeu o livro: um escudo!

 E nesse livro, tal como ele e o saco de batatas à porta da loja da avó, o Lord, na mercearia, empoleirado numa caixa de bolachas, vê as caixas desabarem para o chão.

Será assim?

Mas nessita de ter o livro entre mãos…

Podermos ler de diferentes maneiras, e ainda mais porque há quem pense aprender-se mais com a experiência do que com os livros, mas sempre achou os livros indispensáveis.

Acho que estou perdido.

A converseta vem a propósisto de quê?

Ah sim!, porque voltou a reler que José Saramago quis ser maquinista de caminho de ferro, ele não diz donde lhe veio o sonho, e há aquela moça que quis ser carteiro porque viu filme O Carteiro de Pablo Neruda e ele não recorda, mesmo verdade!, se na infância quis ser alguma coisa.

Estranho.

Tem uma frase a martelar na memória, que diz tão pouco, «ser aprendiz de tudo, oficial de nada»

Melhor ficar por aqui.

TEXTO 1

Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
ã sua extraordinária desordem preside um pensamento
melhor diria “um esforço” não coordenador (de modo algum)
mas de “moldagem” perguntavam “estão a criar moldes?”
não senhores para isso teria de preexistir um “modelo”
u ma ideia organizada um cânone
queremos sugerir coisas como “imagem de respiração”
“imagem de digestão”
“imagem de dilatação”
"imagem de movimentação”
"com as palavras?” perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor das palavras
no centro
não tentamos criar abóboras com a palavra “abóboras”
não é um sentido propiciatório da linguagem
introduzimos furtivamente planos que ocasionais
ocupações (“des-sintonizar” aberto o caminho
para antigas explicações “discursos de discursos de discursos” etc.)
fixemos essa ideia de “planos”
podemos admiti-los como “uma espécie de casas”
ou “uma espécie de campos”
e então evidente para serem habitados percorridos gastos
Será que se pretende ainda identificar “linguagem” e “vida”?
uma vez se designou mão para que a mão fosse
uma vez o discurso sugeriu a mão para que a mão fosse
uma vez o discurso foi a mão
partia-se sempre de um entusiasmo arbitrário
era esse o “espírito” o “destino” da linguagem
agora estamos a veras palavras como possibilidades
de respiração digestão dilatação movimentação
experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexão quente
“elas estão andando por si próprias!” exclama alguém
estão a falar a andar umas com as outras
a falar umas com as outras
estão lançadas por aí fora a piscar o olho a ter inteligência
para todos os lados
sugerindo obliquamente que se reportam
a um novo universo ao qual é possível assistir
ver
como se vê o que comporta uma certa inflexão
de voz
é uma espécie de cinema das palavras
ou uma forma de vida assustadoramente juvenil
se calhar vão destruir-nos sob o título
“os autómatos invadem” mas invadem o quê?

Herberto Helder de  Antropofagias em Poesia Toda, 2º volume

domingo, 19 de fevereiro de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


Domingo de Carnaval.

 Vergílio Ferreira:

 Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.

 Há uma cena genial em A Família Addams quando perguntam à Wednsday se não vai mascarada ao baile e ela responde que já está mascarada:

 Estou mascarada de psicopata. Os psicopatas parecem pessoas normais.

 Por ele,  que nunca foi de carnavais, gostava um dia de ir ao Carnaval de Nova Orleães.

 Os taipais são os do Kioske.

 Correm, ao findar do dia, depois de lida, apenas o que entendeu ler, a imensa tralha que se aloja no vazio da internet.

1. 

Francisco Louçã em entrevista: «Para o Partido Socialista, o Chega é o Euromilhões».

2.

Advogado acusado de cobrar 60 mil euros por processo fictício.

O Marque Mendes disse hoje na SIC, que os maiores beneficiários com o projecto habitacional de António Costa, serão os advogados!

3.

Duas casas devolutas, em espaços contíguos, arderam durante a madrugada deste domingo, na freguesia de São Victor, em Braga.

4.

Um grupo de católicos portugueses está a organizar uma vigília de oração contra abusos sexuais na Igreja Católica.

De acordo com a divulgação feita nas redes sociais, o evento vai decorrer em todo o país na próxima quarta-feira, dia 22 de Fevereiro, entre as 21 e as 22 horas.

5.

«Fui segunda-feira à Gulbenkian ouvir o relatório da Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

Tirei quatro conclusões básicas: há cem sacerdotes no activo que têm de ser imediatamente expulsos das sacristias e altares e colégios e seminários e grupos de escuteiros; há 25 acusações ainda não prescritas, agora enviadas ao Ministério Público, que deverão ser investigadas e, caso se provem, severamente punidas com prisão; a Igreja terá, como noutros países, de pagar despesas médicas de acompanhamento psicológico e indemnizações às vítimas; por último, é essencial que haja um pedido de desculpas formal, ecuménico, irreversível e genuíno, dos bispos portugueses e do Papa, durante as cerimónias da Jornada Mundial da Juventude, no Trancão.»

Rui Cardoso Martins, da crónica no Jornal de Notícias

6.

O preço que os trabalhadores terão de pagar por uma refeição nas cantinas dos organismos e serviços públicos vai aumentar 80 cêntimos, passando dos actuais 4,10 euros para 4,90 euros.

7.

Ainda é possível, passados que são 13 dias sobre a tragédia encontrar pessoas com vida entre os escombros que, segundo números recentes, provocaram mais de 40.000 mortos.

8.

O primeiro-ministro português mostrou-se este domingo confiante na reeleição de António Vitorino, em alguns tempos o partido solicitou-lhe auxílio, «não há festa nem festança onde não apareça a Dono Constança» e ele assobiou para o lado, para a Organização Internacional para as Migrações, salientando que todos os líderes africanos com quem falou em Adis Abeba apoiam a manutenção de António Vitorino.

9. 

A biografia de Natália Correia que será publicada em Março pela Contraponto tem 700 páginas e levou seis anos a ser escrita, notícia revelada ao final da tarde desta sexta-feira no Correntes d’Escritas, o festival literário da Póvoa de Varzim.

10.

Marcelo Rebelo de Sousa, considerou esta sexta-feira que a posição do PCP sobre a condecoração do Presidente ucraniano com a Ordem da Liberdade “é coerente” com aquilo que o partido defende desde o inicio da guerra.

11.

Dados oficiais demonstram que cerca de 57 milhões de toneladas de comida são desperdiçados na União Europeia  todos os anos, o equivalente a 127 quilogramas por habitante. São cerca de 130 milhões de euros que vão, literalmente, para o lixo, quando milhares de europeus não têm acesso a uma refeição completa.

Neste cenário, números de 2020 mostram que Portugal está acima da média. No quarto país da União Europeia onde mais se deita comida fora, cada português desperdiça em média quase 184 quilogramas de alimentos por ano.

12.

«Os sacrificados funcionários judiciais são peças essenciais para o bom funcionamento da Justiça e a sua greve está a criar um caos. É do mais estrito bom senso que o Ministério da Justiça, rapidamente, chegue a um acordo com os funcionários judiciais.» 

Francisco Teixeira da Mota no Público 

PAPÉIS DATADOS


Por vezes precisamos de ter algo para salvar: um gato, um cão, abandonados na rua, algo importante, ou nem tanto, mas o gosto, a importância de salvar.

Há coisas que não sabe como explicar. Fala delas, apenas, ou o gosto por ter causas, afectos. Saber que há pessoas mais generosas do que outras.. Sim, é isso, o olhar para o lado quando alguém, na rua, estende a mão para uma esmola.
Lembra-se das campanhas para defender o lince da Serra da Malcata de extinção, ainda hoje são tema por aí, ainda o esperam…

Em Janeiro de 2002, um elevado número de surfistas organizou-se em manifestações e abaixo assinados numa «Luta pela Onda Perfeita», com origem nuns esporões que a Câmara Municipal estava a construir na Praia de Santo Amaro de Oeiras, e que iriam destruir “a melhor onda da costa portuguesa, uma das melhores da Europa”.

Porque muito lhe diz respeito, lembra no Verão de 1999 a luta dos agricultores de Palmela para evitar o desaparecimento da maçã riscadinha. Acompanhou a luta e soube do desânimo dos agricultores. Volta e meia davam-lhe informe de que, algures, tinham visto maçãs riscadinhas, corria lá mas já não as encontrava. E não sabiam se chegariam mais,,, esperavam mais…
Mas este ano encontrou-as no merceeiro aqui da rua. Onde haveria de ser? Os tais merceeiros de que o Orson Welles falava e de que, num mundo selvagem de hiper e super mercados, ainda haveremos de ter muitas saudades. E em tempos de crise, como estes que atravessamos, mais ainda. Sim, porque só eles permitem essa palavra mágica e perversa que se chama rol. Não dizemos à menina da caixa do Continente
: “ponha aí na conta”!

A maça riscadinha é exclusiva de algumas zonas do concelho de Palmela, a produção não é elevada e por esse facto não chegam às grandes superfícies. Esta rapaziada apenas está interessada em grandes quantidades para poderem entrar na especulação que determina preços baixíssimos aos produtores. Na Lourinhã a batata sai do produtor a 15 cêntimos., ele que prepara a terra, lança as sementes, rega, apanha-as. É possível? A batata fica na terra, a batata que consumimos vem de Espanha e França. E quem fala em batata fala em outros produtos.
O quilo das maçãs riscadinhas está no Sr. Ferreira a 1,95 euros o quilo.
A luta dos agricultores de Palmela teve êxito ou o seu aparecimento deve-se ao facto de a partir de 1 de Julho a CEE ter revogado uma das suas muitas estúpidas determinações?
Sim, essa determinação, com que a fúria normalizadora de Bruxelas nos brinda, e que estabelecia que, de Portugal à Lituânia, as melancias, os pepinos, qualquer fruta, qualquer vegetal, teriam que obedecer ao mesmo diâmetro, ao mesmo feitio.
Mas agora não está preocupado com os porquês e apenas lhe apetece o tempo de olhar, saborear, as belas maçãs riscadinhas de vermelho, amarelo, verde, gostosura da sua infância.
Sabor e perfumes únicos, memórias doces.

 

(22 de Junho de 2009)

Legenda: fotografia tirada daqui.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 A Aida quis reler A Terra do Pecado mas o livro, comprado há muitos e muitos anos num alfarrabista, oferece poucas garantias para ser lido sem se desfazer. Houve que comprar um novo exemplar, edição da Porto Editora, Fevereiro de 2020, caligrafia do título na capa da autoria de José Luís Peixoto.

O livro tem um Aviso, escrito por José Saramago, sem indicação de data. Com toda a certeza, quando Saramago o escreveu, não o teria escrito em acordês.

Provavelmente, nunca saberei das razões que levaram a editora, ou os herdeiros de Saramago, a publicar os livros do Nobel Português, fora da ortografia utilizada pelo autor.

É o Sublinhado Saramaguiano de hoje:

«O autor é um rapaz de vinte e quatro anos, calado, metido consigo, que ganha a vida como praticante de escrita nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, depois de ter estado a trabalhar durante mais de um ano como aprendiz de serralharia mecânica nas oficinas dos ditos hospitais. Tem poucos livros em casa porque o ordenado é pequeno, mas leu na Biblioteca Municipal das Galveias, tempos atrás, tudo quanto a sua compreensão logrou alcançar. Ainda estava solteiro quando um caridoso colega da repartição, segundo-oficial, de apelido Figueiredo, lhe emprestou trezentos escudos para comprar os livrinhos da coleção «Cadernos» da Editorial Inquérito. A sua primeira estante foi uma prateleira interior do guarda-louça familiar. Neste ano de 1947 em que estamos nascer-lhe-á uma filha, a quem medievalmente dará o nome de Violante, e publicará o romance que tem andado a escrever, esse a que chamou A Viúva mas que vai aparecer à luz do dia com um título a que nunca se há de acostumar. Como no tempo em que viveu na aldeia já havia plantado umas quantas árvores, pouco mais lhe resta para fazer na vida. Supõe-se que escreveu este livro porque numa antiga conversa entre amigos, daquelas que têm os adolescentes, falando uns com os outros do que gostariam de ser quando fossem grandes, disse que queria ser escritor. Em mais novo o seu sonho era ser maquinista de caminho de ferro, e se não fosse por causa da miopia e da diminuta fortaleza física, imaginando que não perderia a coragem entretanto, teria ido para aviador militar. Acabou em manga de alpaca do último grau da escala hierárquica, e tão cumpridor e pontual que à hora de começar o serviço já está sentado à pequena mesa em que trabalha, ao lado da prensa das cópias. Não sabe dizer como lhe veio depois a ideia de escrever a história de uma viúva ribatejana, ele que de Ribatejo saberia alguma coisa, mas de viúvas nada, e menos ainda, se existe o menos que nada, de viúvas novas e proprietárias de bens ao luar. Também não sabe explicar por que foi que escolheu a Parceria António Maria Pereira quando, com notável atrevimento, sem padrinhos, sem empenhos, sem recomendações, se decidiu a procurar um editor para o seu livro. E ficará para sempre como um dos mistérios impenetráveis da sua vida haver-lhe escrito Manuel Rodrigues, da Editorial Minerva, dizendo ter recebido A Viúva na sua casa por intermédio da Livraria Pax, de Braga, e que passasse ele pela Rua Luz Soriano, que era onde estava a editora. Em momento nenhum ousou o autor perguntar a Manuel Rodrigues por que aparecia a tal Pax metida no caso, quando a verdade é que só tinha enviado o livro à António Maria Pereira. Achou que não era prudente pedir explicações à sorte e dispôs-se a ouvir as condições que o editor da Minerva tivesse para lhe propor. Em primeiro lugar, não haveria pagamento de direitos. Em segundo lugar, o título do livro, sem atrativo comercial, deveria ser substituído. Tão pouco habituado estava o nosso autor a andar com tostões de sobra no bolso e tão agradecido a Manuel Rodrigues pela aventura arriscada em que se ia meter, que não discutiu os aspetos materiais de um contrato que nunca veio a passar de simples acordo verbal. Quanto ao rejeitado título, ainda conseguiu murmurar que iria tentar outro, mas o editor adiantou-se, que já o tinha, que não pensasse mais. O romance chamar-se-ia Terra do Pecado. Aturdido pela vitória de ir ser publicado e pela derrota de ver trocado o nome a esse outro filho, o autor baixou a cabeça e foi dali anunciar à família e aos amigos que as portas da literatura portuguesa se tinham aberto para ele. Não podia adivinhar que o livro terminaria a pouco lustrosa vida nas padiolas. Realmente, a julgar pela amostra, o futuro não terá muito para oferecer ao autor de A Viúva.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Mais tarde, ou mãos cedo, o que é diferente, assusta.

 Sabedoria Popular

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 O Ruy Belo tem um livro de poemas  a que deu o nome de O Problema da Habitação.

Dos anos que levo de andar por aqui – completam-se 78 em Março - sempre ouvi falar de crise da habitação. A minha infância de olhares está cheia de ver escritos nas janelas, que sinalizavam que a casa, ou parte da casa, ou um quarto, estavam para alugar.

Havia muito pouco dinheiro.

O meu pai chegou a ter uma partilha da casa com um tio da parte da minha mãe, para a ajuda do pagamento da renda, mas, ao fim de alguns meses, esse tio não conseguiu pagar a metade da renda.

Anos 50, a renda cifrava-se em 600 escudos.

Muitas vezes havia a imperiosa necessidade de alguns objectos terem de ir até à Casa de Penhores do Sr. Martins na Rua da Penha de França, em frente da sede do Sporting Club da Penha.

Esta semana o governo de António Costa apresentou um pacote legislativo para enfrentar o problema da habitação. Recebeu, de todos os lados,  um coro de impropérios e críticas. O pacote ainda não é definitivo, vai entrar em diversas discussões, públicas e privadas e só depois de tudo isso, seja aprovado.

Do que li na imprensa, por ignorância própria, não entendi quase nada.

Não sei se a propósito do pacote, Marcelo Rebelo de Sousa chamou a António Costa «um optimista irritante».

Por conta de todas as madurezas, dos detalhes ainda desconhecidos do que o governo pretende, leva-me a deixar o primeiro poema de O Problema da Habitação do Ruy Belo:

A morte é a verdade e a verdade é a morte

Tão contente de vento, ó folha que nomeio
como quem à passagem te colhesse,
palavra de que tu, ó árvore, dispões para vir até mim
do alto da tua inatingível condição

De muito longe vinda, inviável lembrança
indecisa nas mãos ou consentida
por alguma impossível infância
E a alegria é uma casa recém-construída

Face melhor de todos nós, ó folha
dos álamos nocturnos e antigos visitados pelo vento,
no calmo outono, o dos primeiros frios, sais
do ângulo dos olhos, acolhes-te ao poema
como no alto mês de maio a flor imóvel do jacarandá

Não há outro lugar para habitar
além dessa, talvez nem essa, época do ano
e uma casa é a coisa mais séria da vida
Marcelo Rebelo de Sousa condecorou, com Ordem do Mérito, um empresário do sector da restauração que deve cerca de dois milhões de euros ao fisco.

1.

 Um quarto das lojas da Baixa lisboeta, fechadas no início da pandemia, não voltou a abrir.

2.

Em 2022 o poder de compra dos portugueses caíu para os níveis de 2018 e segundo o Instituto Nacional de Estatística o ordenado bruto médio caiu 4%.

 3.

No relatório sobre os abusos sexuais cometidos por membros da Igreja católica estão referenciadas pelo menos 4815 crianças que foram vítimas e a idade média que  tinham no primeiro abuso que sofreram é de 11/12 anos.

Hipocraticamente, o sr. Bispo do Porto, Manuel Linda, disse:

«Sofro e choro pelas vítimas». 

4.

 O Santuário de Fátima recebeu quase cinco milhões de visitantes em 2022 e teve receitas de 18,6 milhões de euros e despesas de 17,7 milhões de euros, atingindo um lucro de quase um milhão de euros, anunciou esta quinta-feira o reitor do templo mariano.

5.

«Acham a Educação cara? Experimentem a ignorância!»

Lia-se num cartaz na manifestação de professores.


6.

As senhoras da caridadezinha!

 A presidente da Associação Raríssimas, Paula Brito da Cunha, segundo o Ministério Público, usava vestidos de marca no valor de centenas de euros que eram pagos pela instituição, assim como contas de supermercados, do talho e até os serviços de depilação. 8.

São quatro as acusações do Ministério Público que visam a bastonária dos Enfermeiros: duas de peculato e outras duas de falsificação de documentos.. Ana Rita Cvaco é dada como autora de um esquema para falsificar deslocações e receber, indevidamente, mais de 10 mil auros ao abrigo de subsídios de função,

7.

 Cerca de metade dos portugueses (47%) compra alimentos próximos do fim do prazo de validade para poupar. 

O mesmo estudo indica que os portugueses estão a mudar alguns hábitos de consumo para fazer face à subida dos preços.

A maior parte dos consumidores indica que é importante que a comida seja barata e 47% dos inquiridos afirmam que combatem os preços altos com a compra de alimentos, cuja data de validade esteja prestes a expirar, por um preço mais reduzido.  

O ACTOR COMO UM FINGIDOR

«Comecemos então, como convém, pelo básico. Um actor é um fingidor. Métodos de aquecimento à parte, ficará para sempre gravado nos anais da arte o comentário que Sir Laurence Olivier terá dirigido a Dustin Hoffman quando ambos contracenavam no filme de 1976 do inglês John Schlesinger, O Homem da Maratona.

Hoffman acabara de filmar uma cena em que tivera de simular não ter dormido nas anteriores 72 horas. Olivier pergunta-lhe educadamente como correu e o co-protagonista de O Cowboy da Meia-Noite (também realizado por Schlesinger e no qual Hoffman interpretara Ratso, maltrapilho e vigarista aleijado que conseguia convencer-nos de que cheirava mal, apesar do cinema não ter cheiro…) responde-lhe que na realidade não dormira durante três dias, de modo a transmitir verosimilhança à personagem. Do alto da sua experiência (shakespeariana), Olivier sugere-lhe com delicadeza: “My dear boy, porque é que não tenta apenas representar?”.

Indo agora um pouco mais longe e parafraseando o poema antigo de Mário Cesariny — Raio de Luz — que começa com a rima: “Burgueses somos nós todos / ou ainda menos. / Burgueses somos nós todos / desde pequenos”, acrescentaria eu agora que actores somos nós todos e sem dúvida desde pequenos.

Fingimos e mentimos. Voltando a Sir Laurence Olivier só para poder assinar por baixo: “O que é representar senão mentir e o que é mentir bem senão mentir de modo convincente?”».

Ana Cristina Leonardo no Público de 27 de Janeiro

OLHAR AS CAPAS


 Morte de Um Caixeiro Viajante

Arthur Miller

Tradução de José Cardoso Pires e Victor Palla

Capa: Victor Palla

Colecção Os Livros das Três Abelhas nº 8

Publicações Europa-Améica, Lisboa s/d

 WILLY: Tudo se há-de arranjar, tudo se há-de arranjar. Hei-de ver se não me esqueço de trazer logo umas sementes para o jardim.

 LINDA, com uma gargalhada: Tens cada uma! O sol quase que nem cá entra, Willy. Escusas de teimar, que não há plantas que se dêem aqui.

BLOGUEANDO POR AÍ

Hoje não vos trago algo que tivesse encontrado num blogue, antes no Diário de Notícias do dia 11 de Fevereiro de 2023.

Porque fala de um velho país que foi ponto de passagem da Rota da Seda, de uma centena e meia de variedades de melancia que, não sendo um grande apreciador, sei das maravilhosas melancias portuguesas  que existem na Cova da Beira.

 «Quando me falaram de que no Uzbequistão havia cerca de uma centena e meia de tipos de melancia, eu não queria acreditar. Só depois soube que, oblongo ou redondo, este fruto é realmente variado em diferentes partes do mundo. Só que neste antigo Estado soviético o culto pela melancia é verdadeiramente forte e um atrativo gastronómico e turístico, para além de representar um nível elevado de exportação. O Uzbequistão foi uma das zonas mais pobres da antiga União Soviética, com mais de 60% da sua população a viver em comunidades rurais densamente povoadas, mas teve antigamente uma grande importância como ponto de passagem da Rota da Seda, onde ainda se oferece uma experiência muito interessante sobre esse trajeto comercial histórico, ao qual os portugueses, guiados por Vasco da Gama, puseram termo no final do século XV. Presentemente, produz ouro, gás natural, produtos químicos e maquinaria e exporta algodão e frutos, com especial destaque para a grande variedade de melancia. Em Tasquente, a capital, fui ao mercado, onde nessa manhã havia uma mostra de diferentes tipos de melancia, com prova. Para além dos formatos, as diferenças estão sobretudo no doce e nas nuances de cor por dentro, penso eu. Olhando à volta, vi as pessoas locais, vestidas de forma tradicional e muito colorida, a falarem diferentes línguas entre si, talvez dependendo se a sua origem é uzbeque, tajique ou russa. Todas elas degustando pedaços de melancia.»

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

CONVERSANDO

O que acima se lê, consta da página 18 de Laurentinas de João Pedro Grabato Dias, cujo exacto título é: «uma meditação 21 LAURENTINAS e dois fabulários falhados».

A introdução do livrinho, custou-me 30 escudos, em 1972, numa barraca-alfarrabista que existia na quase entrada do Parque Mayer em Lisboa, pertence a Maria de Lourdes Cortez que é ensaísta e poeta, estudou em Lisboa, onde se licenciou em Filologia Românica na Faculdade de Letras (1956), leccionou no Liceu Pedro Nunes, de Lisboa, e, de volta a Moçambique, no Liceu António Enes e nos Estudos Gerais e Universidade de Lourenço Marques (hoje Maputo) e na Universidade Eduardo Mondlane, do Maputo. Regressou a Lisboa em 1977, ingressando na Universidade de Lisboa. Leccionou também no Centro de Apoio de Faro e em seminários de pós-graduação do King's College. Os seus ensaios, de uma diversidade assinalável – semiologia do barroco literário, em especial o discurso de D. Francisco Manuel de Melo e dos poetas surrealistas; sobre escritores de Moçambique, destacando-se os seus trabalhos sobre o erotismo da escrita de José Craveirinha, João Pedro Grabato Dias e Carneiro Gonçalves; sobre Racine, Robbe-Grillet ou Roland Barthes; a propósito do ensino das línguas-vivas e do português a estrangeiros; prefaciando ou escolhendo o posfácio e a recensão para compreender textos de Jorge de Sena, Martins Garcia, Gastão Cruz, Eugénio Lisboa, Wanda Ramos, Nadine Gordimer, Carlos Poças Falcão ou Laureano Silveira.

O início da introdução de Maria Cortez, é este:

«Nascido em Inhaminga em 1933. Mestiço de Hindustano, celta, judeu e com prováveis avós nos Concheiros de Muge. Parte da infância e adolescência em Santiago da Galapitões, por onde leu muito Hugo, Camilo, Poison do Terrail e S. Cipriano. Herbanário e colector de pedrinhas. Gago mas muito dotado para o fado e para a ociosidade. Funcionou em várias profissões, tais como a pública e a privada, e é actualmente conselheiro para a África Leste do Comptoir d’ Hygiène et Beuaté, no sector de Shampooos. Volta nos anos sessenta à África, muito documentado em Edgar Burro – (ughs!). Acha que a realidade é aqui a sopeira da fissão. Sem vícios, com hábitos simples mas não mesquinhos. Também já esteve em Paris.»

Esta é a «biografia» que João Pedro Grabato Dias fez chegar a nossas mãos. Não que lha tivéssemos pedido, nós que defendemos o primado absoluto da obra e olhamos o texto como a única totalidade significativa.

No entanto,, a «biografia» aí está no tom exacto exigido pelo autor; e também vincadamente significativa, porque em perfeita harmonia com o estilo que as Laurentinas nos entregam.»

 Deixo-vos ainda uma laurentina de Grabato Dias:

 

Necrologia laurentina

 

Só netos eram quarenta

sonetos pr’aí uns vinte

bolotos plantou algum

o patriarca aos oitenta

sabe que bateu no vinte

e é homem como nenhum

 

Tem o pelinho na venta

(digo-o sem nenhum acinte…)

E é filiado na un. 


Tempo ainda para dizer que João Pedro Grabato Dias também é conhecido por António Quadros (pintor).

É com esse nome que aparece uma letra de canção do álbum Eu Vou Ser como a Toupeira, de José Afonso que o «Musicalíssimo», na sua edição de 1 de Dezembro de 1972 referia "Eu Vou ser como a Toupeira" um álbum "simples mas quase genial com canções de simplicidade e muito bom gosto».

É neste álbum que José Afonso deixou «A Morte Saiu à Rua», que evoca o assassínio pela PIDE, do pintor José Dias Coelho, na Rua da Creche em 19 de Dezembro de 1961.

Mas a  canção de António Quadros (pintor) é «Sete Fadas Me Fadaram»:

«Sete fadas me fadaram
Sete irmãos m´arrenegaram
Sete vacas me morreram
Outras sete me mataram

Sete setes desvendei
Sete laranjinhas de oiro
Sete piados de agoiro
Sete coisas que eu cá sei

Sete cabras mancas
Sete bruxas velhas
Seter salamandras
Sete cega-regas

Sete foles
Sete feridas
Sete espadas
Sete dores»

RESGATE

Meus pés moídos na calçada,
minhas tardes envenenadas de álcoois nos cafés,
e o vazio por dentro
a encher o tédio das horas sem nome.

Tudo isto
- moeda triste
que nem chega a pagar o sol da tardinha
e a poeira de feno que pontilhou de oiro
teu corpo entre trigais.

João José Cochofel

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

CONVERSANDO

Manuel Alberto Valente, na crónica que publica no Expresso, dedicou uma das últimas (27 de Janeiro) a recordar autores esquecidos.

A crónica começa assim: «O tempo, esse grande escultor, como lhe chamou Yourcenar, é muitas vezes ingrato com certos autores: depois de um período de fama e reconhecimento, aira-os para o caixote do lixo da História.»

E passa a citar Altino do Tojal com os seus «Putos», Américo Guerreiro de Sousa, ManuelFerreira.

Lembra também alguns autores esquecidos que estão a ser republicados como Maria Ondina Braga (Imprensa Nacional), Maria Judite de Carvalho (Minotauro) e lembra ainda A Cidade das Flores de Augusto Abelaira, que há muito se encontrava esgotado.

Mas o interessante da crónica é que Manuel Alberto Valente lembra que o fenómeno do esquecimento de escritores não é apenas português, mania muito nossa, e conta:

«Há alguns anos, conversando na Feira de Frankfurt com uma jovem editora francesa, contei-lhe quão importante havia sido para a minha geração um autor como Roger Vailland. Olhou-me espantada, e confessou que não só não havia lido, como nem sequer conhecia o nome. E era editora… O tempo pode ser um grande escultor, mas também muitas vezes, o barro com que esculpe desfaz-se e é arrastado pelo vento.»

Por Roger Vailland sei bem do que fala o Manuel Alberto Valente.

Reconto a história já aqui deixada em Junho de 2013:

 «Por um antigo Verão, quando ainda havia Verão, em Almoçageme, quando Almoçageme ainda era uma pacata aldeia, numa festa de bombeiros, quando ainda havia festas de bombeiros, o Miguel apareceu com uma rapaziada francesa, altos, médios quadros de uma importante empresa.

 Sandes de isca para um lado, bifanas para outro, caldo verde, pelo meio jarros de vinho tinto.

 Eis senão quando, num assomo de infantilidade a roçar a mais parva das idiotices, lembrei-me de questionar os franceses sobre se conheciam Roger Vailland, Camus, Roger Martin du Gard, Georges Brassens, Jean Ferrat, enfim, uma cachoeira de escritores e cantores franceses, a que os rapazes, rigorosamente, disseram nada.

 Boca-comentário mandada para o lado: ainda dizem que os portugueses é que são ignorantes!...

 Corria o ano de 2007, Baptista-Bastos numa entrevista ao Público, dizia:

 Há tempos estive em França e perguntei: “Como é que vamos de Roger Vailland. E ninguém sabia quem era. Vai fazer agora 100 anos!”».

XCIII

Se alguma vez o teu peito parar,

se algo deixar de arder nas tuas veias,

se na tua boca a voz morrer sem ser palavra,

se as tuas mãos se esquecerem de voar e adormecerem.

 

Matilde, amor, deixa teus lábios entreabertos

porque esse último beijo deve continuar comigo,

deve ficar imóvel na tua boca para sempre

para que assim na minha morte me acompanhe também.

 

Morrerei beijando a tua boca fria,

abraçando o cacho perdido do teu corpo,

e procurando a luz dos teus olhos fechados.

 

E assim, quando a terra receber nosso abraço

iremos confundidos numa única morte

viver para sempre a eternidade de um beijo.

 

Pablo Neruda em Cem Sonetos de Amor

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 A poesia não é de quem a escreve, mas sim de quem a usa.

 Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda

 Legenda: fotograma de O Carteiro de Pablo Neruda, filme de Michael Radford.

COMO UM BARCO BALOUÇANDO NAS SUAS PALAVRAS


 - E para pensar ficas sentado? Se queres ser poeta começa por pensar caminhando. Ou és como o John Wayne, que não conseguia andar a mascar chicletes ao mesmo tempo? Agora vais até à Calheta pela praia, e enquanto observas o movimento do mar, podes ir inventando metáforas.

- Dê-me um exemplo.

- Olha este poema: “Aqui na ilha, o mar, e quanto mar. Sai de si mesmo, a cada instante. Diz que sim, que não, que não. Diz que sim, em azul, em espuma, em galope. Diz que não, que não. Não pode estar quieto. Chamo-me mar, repete pegando numa pedra sem conseguir convencê-la. Então com sete línguas verdes, de sete tigres verdes, de sete cães verdes, de sete mares verdes, percorre-a, beijando-a , humedece-a, e bate no peito repetindo o seu nome” – Fez uma pausa satisfeito - O que achas?

- Estranho.

- “Estranho” Que crítico severo és tu!

- Não, Don Pablo. Estranho não é o poema. Estranho é como me sinto quando recitou o poema.

- Querido Mário, vamos a ver se te despachas um pouco, porque não posso passar a manhã toda a desfrutar da tua conversa.

- Como se pode explicar? Enquanto dizia o poema as palavras iam de cá para lá…

- Como o mar, claro!

- Isso é o ritmo.

- E eu senti-me estranho, porque com tanto movimento enjoei.

- Enjoaste?

- Claro! Eu ia como um barco balançando nas suas palavras.

As pálpebras do poeta despegaram-se lentamente.

- “Como um barco balançando nas minhas palavras.”

- Claro!

Sabes o que fizeste Mário?

- O que foi?

- Uma metáfora.

 

Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda

QUOTIDIANOS


Tarde bonita de Sol, neste frio Fevereiro como há muito não se sentia.

Comprar uma camisola para o aniversário de um familiar.

Descer a Avenida Guerra Junqueiro, entrar na loja, acto de pagamento.

Conversa vinda sabe-se lá donde, porquê, que antes de ser empregada de balcão fôra carteiro, que deixou com muita pena, os porquês importam pouco, o importante residia no pormenor do que ser carteiro lhe nasceu depois de ter visto O Carteiro de Pablo Neruda. Depois leu o livro, de que também gostou muito. Há que ler os poemas de Pablo Neruda, acrescentou-se quase em final de conversa.

Lá chegarei!

Cá fora, a tarde continuava lindíssima.

SE TIVESSE QUE MORRER ESTA NOITE

Se tivesse que morrer esta noite regressava
regressava de novo à tua espera à mesma rua
Talvez a mais deixasse aqui apenas
a folha de um recado meio esquecido
Regressava às horas desta tarde relendo devagar
de minuto a minuto o número da tua porta
onde chegaria como há pouco outra vez adiantado

Regressava ao salgueiro onde agora moras
Regressava enquanto a noite que me leve se afastasse
e não te dizia adeus – olhava a terra
as árvores de água profunda onde os rios nascem
ouvindo os pássaros e a brisa do crepúsculo
quando o crepúsculo os confunde num só ramo

Se tivesse que morrer esta noite regressava
navegando a coberto da morte por estas esquinas
que se aceram entre os meus passos e os teus dedos
no olhar amargo que rasguei para te ver
onde a carne do rosto quebra os últimos espelhos

Se tivesse que morrer esta noite regressava
junto de ti até ao fim por um momento
para te dizer que amanhã é outro dia
e que é sempre amanhã ainda onde te encontro

Miguel Serras Pereira

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

VOCÊS NÃO IMAGINAM O QUE ME ACONTECEU!...


 Não consigo arrumar o livro do Álvaro Magalhães sobre o Manuel António Pina.

Anda sempre fora dos restantes livros daquele seu lugar na estante da Biblioteca da Casa.

Manuel António Pina gostava de palavras, de poesia, de livros, de contar histórias, da família, dos amigos, de chegar atrasado, de cigarrilhas, de gatos, uns em pensão completa outros em meia pensão, de não viajar, de não ter partido, do Sporting.

Manuel António Pina Viveu intensamente o 25 de Abril porque sempre se confessou um homem fundamentalmente de esquerda mas, nunce se mostrou entusiasmado por partidos, lembrando uma frase de José Saramago «o heróico num ser humano é não pertencer a um rebanho», para, acima de tudo declarar ser um militante de coisa nenhuma.

Álvaro Magalhães, lembra, antes do 25 de Abril, a preferência do Pina  em correr à frente da polícia de choque em vez de ficar numa mesa de poetas a falar de versos, manifestava tendências trotskistas, mas, depois de Abril, («Valeu a pena viver só para viver aquele dia», disse um dia, Pina, a uma plateia de jovens leitores),  ainda o vemos candidato a deputado pelo MES para a Assembleia Consituinte em 1975 e pela UEDS às eleições para a primeira Assembleia da República, em 1976.

Dessas circunstâncias dirá mais tarde:

«Fiz sempre questão de não ser militante de coisa nenhuma; como se costuma dizer em linguagem popular, eu mijo fora do penico» (pág. 210).

Hoje, ficamos pela política, na próxima ficamo-nos nas futeboladas.

 Não é um partido, mas poderemos falar de «O Clube dos Amigos à Espera do Pina».

Considerava a amizade como a mais alta forma de amor.

Amiúde Pina chegava atrasado a quase tudo.

Sirvo-me da narração, página 243, de Álvaro Magalhães:

«Ele fazia do atraso um modo de vida. Para ele a pontualidade, considerando todo o esforço que o cumprimento dessa pontualidade implicava, era uma perda de tempo. O amigo João Botelho contou que, já nos anos 70, havia um grupo que estava sempre no café Piolho «à espera do Pina». E os amigos com quem privava mais nos últimos anos de vida, esses esperaram tanto que depois da morte dele, fundaram uma associação cultural com a única função de o recordar e à sua obra. Foram mesmo ao notário fazer a escritura e elegeram corpos sociais. Uma coisa a sério. E deram-lhe o único nome possível: «O Clube dos Amigos à Espera do Pina». Continuaram a encontrar-se e a fazer o que faziam antes, ou seja, a conviver enquanto esperavam por ele. Faziam de conta que ele não tinha morrido, estava apenas atrasado, como sempre. Nesses encontros havia – ainda há – sempre alguém que é apanhado a olhar para a porta, à espera de que ele apareça, com aquele ara de culpado, a dizer. «Vocês não imaginam o que me aconteceu!»

Chegar atrasado, porém era um mal menor. Como também marcava, por vezes, mais do que um encontro para o mesmo dia e a mesma hora, e se esquecia de que os tinha marcado, faltava a muitos deles. E fazia isso a todos, fosse quem fosse. Quando lhe telefonavam a perguntar o que se passava, muito tempo depois da hora marcada, ele perguntava, muito espantado: «Era hoje?» Faltava a encontros, diligências para que era convocado, reuniões, faltava a julgamentos, quando exerceu advocacia. Faltava até às homenagens que lhe prestavam.  Germano Silva conta que estava com ele no café Orfeuzinho, a conversar, quando entrou alguém e disse: «Ó Pina (toda a gente que tinha alguma intimidade o tratava assim), parece impossível! Está ali o teatro cheio de gente à tua espera…» «Era hoje?», perguntou ele, com ar de surpresa total.»

Legenda: Café Piolho no Porto.

LÁPIDE

                                                    a Irene Lisboa e Mário Beirão

Procuro teu rosto
nos confins da memória.

Palavras que um dia
ouvi, ou sonhei,
súbito iluminam
minha solidão.
Com elas componho
o segredo oculto
do nosso destino.
Com elas invento
e reconstituo
teu perfil de névoa,
tua voz ausente
e sempre guardada
no meu coração.
Fluis, permaneces
à flor dos dias
que correm sem nome:
O tempo desgasta
o sonho submerso
na noite, minha alma
sem luz... e a viver.
Por ínvios caminhos
me perco, à procura
de ti, que passaste
um dia, cruzando
o céu sem estrelas
nem amanhecer.

Passaste e perduras
nesse breve instante
longínquo e tão perto.
Não sei onde paira
teu perfil de névoa,
tua voz ausente,
velada, indecisa...
Mas da luz que doira
as coisas em volta
ressurges, e inundas
a vida de esperança,
ó rosto impalpável,
ó voz pressentida
lá no mais secreto
da alma, do ser.

 

Luís Amaro de Artes e Letras, Diário de Notícias 9 de Abril de 1970 em Poesia 70

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

SEM PERDÃO!

Foram pelo menos 4815 as crianças abusadas no seio da Igreja em Portugal, segundo o estudo retrospectivo sobre os abusos sexuais cometidos no seio da Igreja em Portugal desde 1950 até à actualidade. Segundo o coordenador da comissão, Pedro Strecht, esse é o número "absolutamente mínimo", a que foi possível chegar após terem sido validados 512 testemunhos.

Notícia do Público

CONVERSANDO


O meu pai tinha uma grande admiração por Orlando da Costa.

Nunca se conheceram e não tenho ideia de conversarmos, ao ponto de saber, literatura à parte, dos porquês dessa admiração.

Dos livros de Orlando Costa que então estavam lá em casa, só um chegou até aqui: O Signo da Ira. Muitos livros da Bibliotecas tiveram descaminhos diversos, muitos emprestados por meu pai a amigos presos, em Caxias, pela PIDE. Alguns livros regressaram, outros não.

Quando li Podem Chamar-me Eurídice, não foi a 1ª edição da Arcádia que fôra comprada pelo meu pai..

Já contei essa história por aqui e volto a contar:

«Em Olhar as Capas surge a edição da casa de Podem Chamar-me Eurídice, chancela da Seara Nova, adquirida já depois do 25 de Abril

Mas a primeira leitura tinha ocorrido antes, livro emprestado pelo Carlos Alberto que era o campeão da rua no que tocava a livros «Fora do Mercado». 

Nunca revelou como os obtinha mas ninguém se preocupava com o pormenor.

Um livro de que gostei muito e que me marcou.» 

No âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, o jornal Público, uma vez por mês, na Colecção Biblioteca da Censura, publica um livro dos muitos proibidos pela censura salazarista/caetanista.

Um dos livros da colecção, publicado em Dezembro de 2022, foi Sete Odes do Canto Comum de Orlando da Costa.

Nunca li o livro que, segundo ficha elaborada pelo meu pai, pertencia à Biblioteca da Casa, mas, quando, após a sua morte, fechei a casa, não o encontrei.

Maria Antónia Palla, escritora e ex-jornalista, foi casada com Orlando Costa, escreveu, sobre Sete Odes do Canto Comum o artigo que aqui se reproduz.

Desse texto, retiro este bonito e ternurento parágrafo:

«Era um homem tolerante, amável, bom conversador. Fugia-lhe o pé para a boémia. Fumava cachimbo. Era um esteta. Vestia com elegância, o fato bem passado, o lenço de seda no bolso do casaco a combinar com a gravata. Em todas as circunstâncias, com mais ou menos dinheiro, mostrava requinte, disposição para divagar, humor.»

A terminar o artigo, Maria Antónia Palla escreve:

«Um grande romancista. Um bom poeta. Um impoluto cidadão.»

Irei ler, pela primeira vez, Sete Odes do Canto Comum de Orlando da Costa.

Neste findar de conversa, permitam-me, que do artigo, repita esta frase:

«Fumava cachimbo».