domingo, 10 de abril de 2022

OLHAR AS CAPAS

O Infinito Num Junco

Irene Vallejo

Tradução: Rita Custódio e Àlex Tarradellas

Capa: Ana Monteiro

Bertrand Editora, Lisboa, Dezembro de 2021

A paixão do colecionador de livros é parecida com a do viajante. Toda a biblioteca é uma viagem; todo o livro é um passaporte sem data de caducidade. Alexandre percorreu as rotas de África e da Ásia sem se separar do seu exemplar da Ilíada, ao qual recorria, segundo dizem os historiadores, em busca de conselhos e para alimentar o seu afã de transcendência. A leitura, como uma bússola, abria-lhe os caminhos do desconhecido.

sábado, 9 de abril de 2022

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...

Misseis, aviões, foguetes, torpedos, bombas constituem o armamento que a Rússia continuou a comprar à União Europeia desde o embargo de 2021, no valor de 346 milhões de euros.

Os principais fornecedores foram a França, Alemanha, Itália, Áustria, Bulgária, República Checa, Croácia, Finlândia, Eslováquia e Espanha foram os principais fornecedores.

1.

Desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, o aumento do preço dos alimentos no nosso país,  é superior a 5%. Este ano os bens essenciais subiram três vezes mais que os aumentos salariais registados.

OLHAR AS CAPAS


Poesia, Saudade da Prosa

Uma Antologia Pessoal

Manuel António Pina

Capa: pormenor de uma pintura de Joachin Patinir, Século XVI

Assírio & Alvim, Lisboa, Novembro de 2012

Eu sei, é preciso esquecer,
desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los,
os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.

Tanta memória! O frenesim
escuro das suas palavras comendo-me a boca,
a minha voz numerosa e rouca
de todos eles desprendendo-se de mim.

Porém como esquecer? Com que palavras e sem que palavras?
Tudo isto (eu sei) é antigo e repetido; fez-se tarde
no que pode ser dito. Onde estavas
quando chamei por ti, literalidade?

E todavia em certos dias materiais
quase posso tocar os meus sentidos,
tão perto estou, e morrer nos meus sentidos,
os meus sentidos sentindo-me com mãos primeiras, terminais.

TROVA DO VENTO QUE PASSA


Por estes dias iremos lembrar os «EPs» e os «LPs» do Adriano Correiade Oliveira que existem aqui pela Biblioteca da Casa.

Comecemos pelos EPs e, inevitavelmente, com aquele que contém a Trova do Vento Que Passa.

Disco publicado em 1963e  que contém:

Trova do Vento Que Passa

Poema de Manuel Alegre, Música de Adriano Correia de Oliveira

Pensamento

Poema de Manuel Alegre, Música de Adriano Correia de Oliveira

Capa Negra, Rosa Negra

Poema de Manuel Alegre, Música de Adriano Correia de Oliveira

Trova do Amor Lusíada

Poema de Manuel Alegre, Música de Adriano Correia de Oliveira

Nas músicas, Adriano Correai de Oliveira contou com a ajuda de António Portugal, cunhado de Manuel Alegre.

Os acompanhamentos são de António Portugal (guitarra) e Rui Pato (viola).

Diga-se desde já, que as capas dos discos do Adriano são muito felizes.

Por desleixo, ou outro motivo qualquer, as editoras raramente colocavam os autores dessas capas, bem como os autores das fotografias, bem como as datas em que os discos foram gravados.

Este EP contém a Trova do Vento que Passa, a mais conhecida canção de Adriano, cantada em coro nas quase clandestinas sessões de canto livre, principalmente, na Margem Sul, antes de serem interrompidas pela PIDE e pela GNR.

Fui a muitas dessas sessões, os que queríamos que o vento que passava, nos desse notícias dum país amordaçado, mas o vento calava a desgraça, o vento nada dizia, mas a voz única de Adriano, levantava-se e gritava que há sempre alguém que resiste, alguém que diz não.

Recordamos hoje uma outra lindíssima canção de Adriano. Pensamento. pensamento que partiu no vento, podem prendê-lo matá-lo não, o pensamento dos homens que foram vagabundos, contrabandistas, marinheiros, prisioneiros, mas servos não.

O MAIS CORAJOSO DOS CANTORES DO SEU TEMPO


 Adriano Correia de Oliveira nasceu no Porto a 9 de Abril de 1942.

Faria hoje 80 anos, mas deixou-nos a 16 de Outubro de 1982.

Há homens que morrem e continuam a viver. 

Adriano Correia de Oliveira é um desses homens.

Claro que, possivelmente pouco ou nada dirá às novas gerações, mas diz muito àqueles que  o ouviram cantar em tempos dificílimos, em tempos em que ele conseguiu ser um farol de esperança para o futuro com que sonhávamos.

O Adriano, ao longo do seu curto tempo de vida, sempre foi desrespeitado e explorado por uma série de gente. Lembro-me quando quis fazer um single e a editora torceu o nariz, lembro-me de na Festa do Avante, após s sua morte, colocarem um auditório com o seu nome, mas percorro os programas das diversas Festas do Avante e verifico que lhe deram sempre os horários menos nobres, os palcos mais escondidos. Sabiam que o Adriano nada recusava, nunca se negava a ir onde ele entendesse que devia estar presente. Lembro-me daquele espectáculo, no Coliseu, de solidariedade para com os trabalhadores da ANOP, em que não o deixaram actuar porque disseram que «estava com os copos». 

Mesmo o Partido a que sempre pertenceu, tratou-o sem ponta de respeito e consideração, rodeou-o de silêncios infames, ele que, segundo Fausto, «foi o melhor de todos nós».

sexta-feira, 8 de abril de 2022

POSTAIS SEM SELO

 

Sou místico, não acredito em nada.

Gustav Flaubert

A IDEIA DE PROGRESSO DE MIA FARROW

Estou cansado, ou como diria o Mário-Henrique Leiria: «realmente estou muito chateado».

Voltei a pegar na biografia do Woody Allen.

Ao acaso.

Páginas em que ele anda às voltas com Mia Farrow, o amor de uma vida, também o seu pesadelo, o seu inferno.

Nunca entendi – estas coisas também não são para entender, porque não há explicações possíveis, – aquela pancada pela Mia Farrow, muito mais quando ele adorou andar com a Diane Keaton, teve «um breve romance» com a irmã Robin, «teve um curto caso» com a outra irmã, Dory, para concluir que «as três irmãs Keaton eram mulheres belas e maravilhosas, bons genes naquela família, protoplasma digno de um prémio».

A página onde desaguei é a 253:

 «Num restaurante chinês, sugeriu subitamente que nos casássemos. A sugestão apanhou-me a meio de um crepe e pensei que ela talvez não tivesse posto as lentes de contacto e me tivesse confundido com outra pessoa. Quando me apercebi de que estava a falar a sério, disse-lhe que, além de estarmos a sair há pouco tempo, via o casamento como um ritual desnecessário. Já tinha sido casado duas vezes, tal como ela, e tinha aprendido com o passar dos anos que, se a relação funciona, funciona, mas que um pedaço de papel vinculativo não ajuda nada a reforçar o amor nem a rectificar uma situação que tenha azedado. Tinha todo o gosto em estar numa relação com ela, mas não sendo pessoal, simplesmente não me entusiasmava a ideia de a registar. Depois acho que caí no discurso das damas de Nixon e cantei «Old Man River» de o Barco das Ilusões. Como é óbvio, ficou visivelmente irritada por ouvir a minha recusa. Retirou a oferta em tom petulante e fez alguns comentários sobre eu estragar as coisas, pelo que imaginei que ela queria dizer que nos tínhamos conhecido, namorado, gostado um do outro, e que de repente eu não estava disponível para avançar. A sua ideia de progresso era ir a correr casar. Mas a rapidez do seu pedido, tal como fora feito, e a sua reacção irritada quando eu não concordei imediatamente deviam ter-me dado uma pista de que estava a lidar com uma pessoa mais complicada do que uma supermãe frágil e bela.»

quinta-feira, 7 de abril de 2022

OLHAR AS CAPAS


Deixem Passar o Homem Invisível

Rui Cardoso Martins

Capa: V. Tavares

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Janeiro de 2020


António, também conhecido nas suas costas por aquele advogado que é cego, ou aquele advogado invisual, ou aquele ceguinho que tirou advocacia, depende de quem o via e a que distância, visitava a Igreja de São Sebastião da Pedreira pela segunda vez na vida.

António tinha hábitos bizarros como gostar de arte e ir a exposições, e juntara durante anos argumentos para dizer como era isso possível no seu caso, até que os abandonou porque, concluiu, quem precisa da explicação não merece ouvi-la. Passou a dizer que era bom porque muitas vezes davam croquetes e taças de espumante na inauguração.

Não se zangou com ninguém, porque António também bebia cerveja à pressão e comia caracóis como qualquer pessoa que gosta disso. Chupava o molho da espiral, depois de fisgar o bicho com um alfinete, dos corninhos doces à tripa amarga, numa esplanada ao fim da tarde, principalmente em Maio e Junho, a altura deles. Duas imperais por petisco era a sua média, e a segunda pousava-a com um suspiro, um som honesto que deixava os clientes alegres. Lambia o bigode de espuma. Às vezes, limpando o molho dos dedos aos guardanapos de papel, perguntava se algum caracol escapara de ser comido, saltando do pires cheio para o pires das cascas sem lhe passar pela boca, acabando por morrer sem utilidade.

Chocalhava as cascas. Ficaste, molusco, no teu esconderijo..., respondia António. Mas no fim deixava-o em paz: a pessoa que come vê ou não vê, mas sobra sempre um esquecido no caldo de orégãos, no fundo dos panelões que perfumam Lisboa. E bebia outra imperial em honra do caracol desconhecido.

UIVOS CENSURADOS


Uivo de Allen Ginsberg, foi originalmente publicado no Outono de 1956 pela editora City Lights Books. Apreendido pelos serviços alfandegários dos Estados Unidos e pela polícia de São Francisco, foi sujeito a um longo julgamento, em que poetas e professores tentaram convencer o tribunal de que não se tratava de um livro obsceno.

Mais tarde, Uivo acabou por se tornar o livro de poesia mais lido na história dos EUA, com cerca de um milhão de exemplares vendidos em relativamente pouco tempo.

Carl Solomon, a quem Uivo é dedicado, foi um dadaísta do Bronx que escreveu poesia em prosa. 

Esta é a capa do meu exemplar de Uivo publicado, em Junho de 1973, pelas Publicações Dom Quixote com selecção e tradução de José Palla e Carmo.

 No mercado existe uma edição de Uivo publicada pela Relógio d’Água com tradução de Margarida Vale Gato.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO


 «Nos anos 70 do século passado, quando a inflação disparou na sequência da crise do petróleo, havia duas hipóteses: controlar preços e margens de lucro ou impor austeridade, com desemprego e cortes salariais para esmagar a procura de bens, mesmo provocando uma recessão. O Governo e o banco central norte-americanos, inspirados pelas mesmas teorias que hoje animam os liberais, optaram pela austeridade.

 Em breve estaremos confrontados com a mesma escolha: atualizar salários e pensões enquanto se controla os preços e as margens de lucro de setores estratégicos ou, pelo contrário, esmagar salários e pensões para proteger os lucros. Os liberais já tomaram posição e, até agora, o governo não dá sinais de querer fazer diferente.»

 Joana Mortágua no Jornal de Notícias 

 Legenda: Pormenor da 1ª página do Diário de Lisboa de 13 de Fevereiro de 1973

CONVERSANDO

Oscar Wilde disse um dia que a má poesia quase sempre é sincera.

João Bénard da Costa aconselhava a que também víssemos maus filmes, porque eles são capazes de terem uma centelha que vale mesmo a pena ver.

Ellery Queen tem um livro que intitulou: «O Diabo Que Resolva»

Mas o Diabo existe?

Perdido nas páginas dos «Irmãos Karamazov» de Dostoievsky:

 - Pela última vez, Deus também não existe.

- Então, quem anda a gozar assim com as pessoas, Ivan?

- O Diabo, pelos vistos — esboçou um sorriso Ivan Fiódorovitch.

- E o Diabo existe?

- Não, também não existe.

OLHAR AS CAPAS


Tudo Começou no México

Peter Cheney

Tradução: Almeida Campos

Capa: Lima de Freitas

Colecção Vampiro nº 116

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Não me compreendam mal!

Podeis ficar com o México. Podeis ficar com todo ele à vontadinha e fazer dele o que vos der na gana, que eu ainda vos darei com ele os meus melhores cumprimentos. Quanto a mim não quero em a mínima parcela desta maldita terra, nem mesmo grãos de areia que se meteram nos sapatos ou a poeira fina que agora mesmo procura penetrar-me no nariz.

terça-feira, 5 de abril de 2022

LEITARIA GARRETT


Esta é capa do disco do Vitorino, gravado nos Estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, no mês de Outubro de 1984, pelo engenheiro de som Hugo Ribeiro, com a referência EMI – 1775401.

A capa é de Carlos Ramalho, a fotografia do Sr. João é da autoria de João Assunção.

O Folheto no interior do disco é da autoria de Hipólito Clemente.

 Estas são as canções:

Abertura e Saias da Vila do Redondo – Menina Estás à Janela – Postal Para D. João III – Cantiga Partindo-se – Poema – Ai Os Modos de Ser Lágrima – Confissões (Nunca Fui Além) – Leitaria Garrett – Andando Pela Vida – Tragédia da Rua da Gáveas – Tinta Verde – Carbonárias (Final).

Este é um pormenor da contracapa, foto de José Melo, um Vitorino preocupado com o sítio onde assentaria praça com os artistas, com os amigos, com os camaradas.

No Chiado à tardinha, às vezes,
Sorridentes vão de mão na mão,
Bons rapazes, são bons portugueses
Ai Madame a sua indigestão

Ideal das empregaditas
A finória vai um figurino
Tão caraça, veste muitas chitas
Diz olé! prò Montefiorino

Leitaria Garrett dá cá o pé
Ai tira a mão, João,
Da coxa doce,
Já está, antes não fosse...
O Saricoté, foi parar à Marques
Lá pràs Belas-Artes...

Assim mesmo á que è!
(Diz o progresso)
Chá com torradas, João,
Prà onde é que eu vou,
Já fui, mas já não sou
Linda mocidade, foi-se o Sol embora,
Fica-me a Saudade...


DE LEITARIA A LOJA DE TRAPOS


 Até Julho de 1981 aqui foi a Leitaria Garrett, um dos últimos lugares de convívio da cidade. Mas o lucro infernal e vertiginoso das imobiliárias não se compadece com poesia, melancolias, companheirismos.

Encerrada a porta da leitaria, passou a ser lugar de outros comércios.

No tempo em que tirou a fotografia, já não lembra quando, era uma loja de trapos ou, como Paula Bobonne quer que se diga, uma boutique.

A Leitaria Garrett, número 46 da rua com o mesmo nome, era um quase corredor transformado em pequeno e acolhedor café, largamente frequentado por artistas das belas-artes e outras artes, um ar de leitaria à antiga, nada de cromados, formica, plásticos.

Personagem assíduo era o Vitorino, alentejano do Redondo, a sua boina, imensas gargalhadas, um murmurar-cante-alentejano-menina-que-estás-à-janela-com-o-teu-cabelo-à-lua.

Em 1984 fez um disco, Leitaria Garrett, mas dentro, um panfleto, da autoria do Hipólito Clemente, refere que são Doze Lindas Canções à Leitaria Garrett.

Tinha um bom café de saco, quatro ou cinco mesas permanentemente ocupadas pelos artistas.

Em tantos e tantos anos de frequentar a Leitaria Garrett, nunca conseguiu sentar-se a uma daquelas poucas mesas. Tomava a bica ao balcão, e olhava os que sentados estavam, esperando a chegada de outros artistas para lhes ceder o lugar, assim como lugares cativos das artes porque, aparentemente, os artistas não queriam outros cús por ali sentados.

Talvez por isso, o Sr. João tenha concluído que pouco lucro escorria daqueles escassos metros quadrados, permanentemente, ocupados pelos artistas e vendeu a leitaria. E nem o passar da mão pelas doces coxas das artistas das artes-belas, segundo a letra do Vitorino, lhe deu para manter a porta aberta.

Diz talvez, porque nunca soube a razão de a “Leitaria Garrett” ter encerrado a porta e também porque adora teorias da conspiração.

Fosse pelo que fosse, fechou a porta e aí acaba a história, o tempo em que aLeitaria Garrett passou a ser apenas a memória de gente a falar sós sem serem loucos…

Mais tarde o Sr. João acabou por mover um processo ao Vitorino por utilização abusiva da sua imagem. Não sabe qual foi o desfecho do processo movido pelo Sr. João, se é que chegou a existir processo.

 


Através de um anúncio, publicado no Diário de Lisboa 6 de Agosto de 1981, os artistas-donos-das-mesas-da-Leitaria-Garrett, (marginais, empregadinhas, cantadores, professores, intelectos e aristocratas) fizeram publicar um anúncio, dando conta da romagem de eterna saudade.


Não sabe do processo do Sr. João, mas sabe dizer das possíveis mágoas da solidão que aqueles artistas enfrentaram, até terem encontrado um poiso pela grande cidade, cada vez mais desfeada e descaracterizada, para se olharem nos olhos, conversarem.

Poderia, aproveitando a boleia, falar das peregrinações que escritores, poetas e pintores, (olá! José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira, Fernando Lopes Graça, Nikias Skapinakis tantos e tantos grande nomes deste país de esquecer gente)) tiveram que fazer, ainda nos tempos negros e amargos da ditadura salazarenta, quando começaram a fechar cafés e a abrir sucursais de bancos.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Estaremos condenados a que a paz seja apenas um breve intervalo entre guerras?

Frei Bento Domingues, Público 20 de Março

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constituim os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Esse abominável crime de Putin, a hiena asquerosa, levou a que os Sublinhado Saramaguianos, não tenham marcado presença por aqui.

Regressam com uma passagem pelos Poemas Possíveis, o meu primeiro livro de Saramago:

«Foi na Livraria Portugal, naqueles escaparates que ainda hoje estão ao meio da sala do rés-do-chão, que topei, pela primeira vez, com o nome de José Saramago.

Estávamos em 1966, tinha então 21 anos, e não fazia a mínima ideia quem era José Saramago, tão pouco dele ouvira falar. Mas o livro que olhei fazia parte de uma colecção de prestígio: “Colecção Poetas de Hoje” da "Portugália Editora”.
Folheei o livro e do que fui vendo nascia um sentimento de gosto e prazer.
Houve tempo para passar os olhos pela “Fala do Velho do Restelo ao Astronauta”, mais dois, três poemas, mas a decisão foi apenas uma: estava com a minha gente.»

O sublinhado de hoje é o poema «Não Me Peçam Razões», pág. 118 da 1º Edição:

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, nascem todas
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou sombra delas,
Deste gosto de amar e destruir:
Nos excessos do ser é que amanhece

A cor da Primavera que há-de vir.

OLHAR AS CAPAS


Miniaturas

Norberto de Araújo
Capa: Leitão de Barros
Desenhos e aguarelas de Columbano, J. Vaz, Carlos Reis, Sousa Pinto, Roque Gameiro, Alberto de Sousa, D. Helena Gameiro, Alfredo de Morais, Martinho da Fonseca
Livraria Aillaud e Bertrand, Porto, 1920

Navios parados...Mastros esguios, como lanças, despidos da roupagem das velas, pontos de admiração fantásticos, abrindo a sua surpresa ante miséria, ante a ambição, ante a luta vigente por essa terra fumegante, que crepita incêndios e dor...Navios parados, na tranquilidade calma da baía: o espelho das águas retrata-vos na trémula miragem, toda a ânsia de fuga, toda a sede indomável da solidão, a saudade do oceano, o amor das águas infinitas, en cuja superfície santíssimo Deus, se balouçam os vossos arcabouços, navios que eu estou a ver parados e tristes, e os arcabouços dos tripulantes, felizes na incerteza, amantes das ilusões no horizonte, apaixonados da dúvida cinzenta das tempestades. Navios, mastros nus, destinos ao abandono. Vós tereis amanhã - oh quem vos seguira! - o firmamento enorme para realizardes o vosso sonho, lendo nas estrelas, ou o seio do Oceano inteiro para vos aquietardes, abençoando a morte...

THE NIGHT YOU SLEPT

Também a noite se parece contigo,
a noite longínqua que chora,
muda, no fundo do coração,
e as estrelas passam cansadas.
Uma face aflora uma face –
é um tremor frio, alguém
se agita e te suplica, só,
perdido em ti, na tua febre.
 
A noite sofre e anseia pelo amanhecer,
pobre coração que estremeces.
Ó rosto fechado, negra angústia,
febre que afliges as estrelas,
os que esperam como tu o amanhecer
sondam o teu rosto em silêncio.
Estendes-te sob a capa da noite
como um horizonte morto e fechado.
Pobre coração que estremeces,
num dia distante foste o amanhecer.

Cesare Pavese em Virá a Morte e Terá os Teus Olhos

domingo, 3 de abril de 2022

POSTAIS SEM SELO

Ele não sabia que era impossível. Foi lá e fez.

Jean Cocteau

Legenda: gravura do Capitão Salgueiro Maia tirada do Catálogo 25 de Abril, Cinemateca Portuguesa, Lisboa, Abril de 1984. 

PAPÉIS DATADOS


Na sua edição de 5 de Junho de 2009, o Expresso lembrava que Cavaco Silva, enquanto primeiro-ministro concedera uma pensão por serviços excepcionais ou relevantes prestados ao país, a dois inspectores da PIDE/DGS.

Anos antes, recusara dar a Salgueiro Maia essa mesma pensão:

Nas comemorações do 10 de Junho de 2009, a realizarem-se em Santarém, Cavaco Silva, como Presidente da República, iria colocar um ramo de flores junto à estátua de Salgueiro Maia.

José Pedro Castanheira vincava que Cavaco tentava corrigir um erro com 20 anos.

Não foi um erro: foi uma enorme pulhice.

A eleição de Aníbal Cavaco Silva, quer como primeiro-ministro, quer como presidente da república, duas-vezes-duas, foi uma das piores desgraças que se abateram sobre os portugueses.

Por aí se arrasta, trôpego, numa apagada e vil tristeza, embrulhado na negociata que amigos seus, cometeram no BPN, negociata que ele nunca conseguiu explicar.

No final do seu livro Capitão de Abril (1), Salgueiro Maia escrevia:

Passados dez anos, será interessante analisar a evolução do comportamento de muitos dos intervenientes, em especial os políticos e os militares que conseguiram passar de um regime a outro, sempre na crista da onda, e que, com lutas pelo Poder, ajudaram a dificultar e evolução desejada. Por outro lado não acreditando em democracias musculadas nem no sebastianismo, resta-nos, na orgulhosa situação de implicados do dia 25 de Abril de 1974, criticar os muitos que pagam o idealismo e a generosidade com o mesmo comportamento que caracterizou o regime nascido a 28 de Maio:

- a corrupção

- a incompetência

- o compadrio

- o circo do Poder.

 

Até quando?

 

Sim até quando?


(Para uma leitura mais fácil, clicar sobre a imagem)

 

(1)   Salgueiro Maia Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, Notícias Editorial, Lisboa Novembro 1997

OLHAR AS CAPAS


Salgueiro Maia – Um Homem da Liberdade

António de Sousa Duarte

Prefácio. Mário Soares

Capa: A. Rochinha Diogo

Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1995

A vida nunca lhe foi fácil. A doença caiu sobre ele quando estava em plena maturidade e ainda tanto havia a esperar do seu talento.

Sei que morreu amargurado, considerando-se injustiçado, apesar da devoção extraordinária da sua Mulher e Filhos. A coragem e a dignidade que revelou face a uma doença impiedosa, devastadora e terrível deu bem a medida da sua excepcional coragem e física.

Esta biografia representa uma homenagem à sua memória e um acto de justiça. Mas dar a conhecer a pessoa e a vida de Salgueiro Maia é também um valiosos acto de pedagogia e solidariedade, sem discriminações nem injustiças, que ele sonhou para todos os portugueses.

Porque, como disse Sophia de Mello Breyner, no belo poema que lhe dedicou, ele foi

«Aquele que na hora da vitória

Respeitou o vencido


Aquele que deu tudo e não pediu a paga

 

Aquele que na hora da ganância

Perdeu o apetite

 

Aquele que amou os outros e por isso

Não colaborou com a sua ignorância ou vício

 

Aquele que foi “fiel à palavra dada à ideia tida”

Como antes dele mas também por ele

Pessoa disse»

 

(Do Prefácio)

ALGUÉM SE IMPORTOU?

Até agora, são muito poucas as vozes das gentes do futebol, que se têm levantado contra esse outro crime que é o Campeonato do Mundo de Futebol a disputar, lá para Novembro/Dezembro, no Catar.

O treinador do Liverpool, Jurgen Klopp, tem sido uma dessas poucas vozes.

E, recentemente, face aos oligarcas russos que durante décadas viveram, à grande e à francesa, em Inglaterra, lembrou o senhor Abramovich, ainda proprietário do Chelsea:

«Vocês importaram-se quando Abramovich comprou o Chelsea? Alguém se importou realmente quando o Newcastle foi comprado pelo fundo soberano saudita? Os adeptos importaram-se realmente? Penso que era bastante óbvio de onde o dinheiro vinha, toda a gente o sabia, mas aceitámos. Isso é culpa nossa. Falámos enquanto sociedade.»

SIGAMOS O SOPRO E OS VENTOS


 

O Magazine Cultural do El Corte Inglês reapareceu.

A interrupção deu-se por motivos vários, a pandemia covideana à cabeça, e no findar do passado ano a morte de um seus grandes colaboradores, João Paulo Cotrim, levou a que este número de regresso seja uma homenagem à sua pessoa e à sua arte.

«O mais limpo dos céus contém a promessa de nivens. Mas a névoa não tem que significar mau tempo. Sigamos o sopro e os ventos.»

João Paulo Cotrim

O professor de Física Carlos Fiolhais escreveu um Bilhete:

«Que ideia é essa, pá, de te teres ido embora? Tu não percebes que nos fazes cá falta? Fazem-nos falta os teus livros, as tuas revistas, as tuas exposições, as tuas iniciativas. As tuas ideias… Tu sabias como poucos que ciência e arte só podem como devem estar juntas. Agora só nos resta a inspiração que nos deixaste. Ela é que nos pode valer para fazermos que as plantas que deixaste semeadas cresçam e todos nos possamos regalar com boa sombra e belos frutos.»


André Carrilho desenhou a capa e a redacção foi buscar um dos poemas de Natal do Vinicius de Moraes:

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
 

sábado, 2 de abril de 2022

MOTHER CHURCH OF COUNTRY MUSIC

Como há memórias e nostalgias para todos os gostos, é possível alguém argumentar que o grande local de culto para a “Folk Music” dos anos 60, em Greenwich Village, não é o “Café Wha?”, onde se iniciou Bob Dylan, mas o vizinho “Gaslight”, onde Tom Paxton deu os primeiros passos; ou algum amante de Jazz, no mesmo “bairro boémio”, esgrimir que a verdadeira e incontornável referência para essa música era o “Village Gate”, velhinho de 65 anos (se ainda fosse vivo…), e não o muito mais recente “Blue Note”, e depois alguém levantar bem alto o braço e gritar: “vocês são mas é malucos, local mítico do Jazz em Nova Iorque é o “Birdland”, onde reinava Charlie Parker, ou o muito mais antigo Minton’s, no Harlem”. E um terceiro interrogar, inocentemente: “então e o Cotton Club”…?


Mudando de cidade e de estilo musical, também se poderá discutir qual destes míticos espaços foi mais importante para o Pop/Rock na Los Angeles dos anos 70:  o “Whiskey A-Go-Go”, da Sunset Boulevard, ou o “Troubadour”, em West Hollyood? 

Também os amantes da Ópera poderão entrar na liça, discutindo qual destas salas é a mais relevante para a História da sua Música favorita: o Cornegie Hall, de Nova Iorque, o Scala de Milão, ou a Ópera de Viena…?

Discussões desta natureza poderemos ter para todos os tipos de música, da Clássica ao Rock, e até aqueles que, como eu, passaram a sua meninice a ouvir a música francesa, muito mais do que a de expressão inglesa, poderão questionar-se se o local de culto para essa música nos saudosos anos 60 é o “Olympia”, do Boulevard des Capucines, ou o pequeno Bobino, em Montparnasse.


A verdade é que todos têm razão e ninguém a tem... Não há uma Verdade Universal nesse domínio. Tudo depende, bem no fundo, das memórias e das vivências de cada um em relação a cada uma dessas Salas… 

Há, porém, um género musical que, deem-lhe as voltas que quiserem, não admite a mínima discussão no que respeita à identificação da sua verdadeira e única Catedral: a “Country Music” e o lugar é o Ryman Audithorium, em Nashville, podendo afirmar-se que foi a partir daí que a “Country” se lançou por toda a América e por todo o Mundo.

Charmar ao Ryman “Mother Church” ou “Catedral” até é apropriado, porque aquela sala começou mesmo por ser uma igreja. Foi inaugurada em 1892 com o nome de “Union Gospel Tabernacle” e mandada construir por um rico comerciante de Nashville, Thomas Ryman, recentemente convertido ao Cristianismo por força do poder de persuasão dos sermões de um tal Reverendo Samuel Porter Jones. Ryman pretendia dar à população de Nashville a mesma oportunidade de conversão que ele próprio teve, idealizando, para isso, a construção de um grande espaço de culto onde o Reverendo Jones pudesse exercer a sua ação.


Thomas Ryman viria a falecer em 1904 e foi por essa altura, por proposta do próprio Reverendo Porter Jones, que o nome do edifício foi alterado para Ryman Auditorium, em homenagem ao seu fundador. A estátua de bronze de Thomas Ryam é uma das três que hoje se encontram nas imediações do Ryman, como vos contarei mais à frente.

O problema é que o Reverendo Jones também não iria viver muito mais tempo, vindo a falecer dois anos depois, colocando o Ryman em grandes dificuldades de gestão face à morte não só do seu fundador e principal mentor, mas também daquele a cuja atividade religiosa se destinava.

Para assegurar a sua sobrevivência e permitir a liquidação das dividas resultantes da sua construção, que em muito havia excedido o orçamento inicial, o Ryman teve de se abrir a outras atividades que de religiosas pouco tinham, tais como concertos, peças teatrais, recitais de poesia e outros, combates de boxe, convenções privadas ou partidárias e outras reuniões de idêntica natureza. Sob a direção de Lula C. Naff, uma dinâmica e progressista senhora, o Ryman iria receber nos anos que se seguiram nomes célebres como o compositor e maestro John Philip Sousa, o cantor de ópera Enrico Caruso, o mágico Houdini, entre muitos outros, o que fez aumentar a sua credibilidade enquanto sala de espetáculos de grande qualidade, ficando até a ser conhecida como o “Cornegie Hall do Sul”.


Mas para o que aqui mais nos interessa, a grande viragem surgiria em 1943, quando o programa de rádio ao vivo “Grand Ole Opry” (G.O.O.), emitido na antena WSM, se transferiu para o Ryman e começou a ser transmitido em direto aos sábados à noite, para todo o país e com uma audiência ao vivo que esgotava os cerca de 2400 lugares da sala.

Penso que já noutra ocasião vos falei aqui da importância do G.O.O., que ainda existe nos dias de hoje e é considerado o programa de rádio mais antigo dos Estados Unidos.

As suas emissões iniciaram-se em 1925 e a música que divulgava era a que esteve na origem da “Country” e que então se chamava “Hillbilly Music”, intervalada por “sketches” cómicos de diversa natureza.


Patrocinado por uma Companhia de Seguros (a “National Life & Accident Insurance Company”), esse programa radiofónico começou por ser emitido num estúdio construído no próprio edifício da Empresa, mas mais tarde, devido a problemas logísticos resultantes do aumento do número de intervenientes (que frequentemente executavam números de “barn dance”) e do número de espectadores “ao vivo”, passou por outras salas de espetáculo de Nashville entre os anos de 1934 e 1943, vindo a instalar-se no Ryman neste último ano e aí permanecendo até 1974.

Para abreviar dir-vos-ei que os tempos em que o G.O.O. permaneceu no Ryman corresponderam à chamada idade de ouro da “Country Music”. Toda a gente de relevo nesse género musical por lá passou inúmeras vezes e alguns tornaram-se até “artistas residentes”, isto é, participantes em quase todas as emissões. E digo quase porque também começou a ser prática corrente uma “troupe” de artistas do G.O.O. percorrer o país de lés a lés e atuar em muitos outros locais, para além de Nashville.


Não é possível evocar o nome de Uncle Dave Macon, Carter Family, Bob Willis, Roy Acuff, Hank Williams,  Patsy Montana, Ernest Tubb, Bill Monroe, Patsy Cline, Ray Price, George Jones Tammy Wynette, Loretta Lynn, Charley Pride, Johnny Cash, Dolly Parton e tantos, tantos outros, sem evocar, igualmente, a importância  da sua passagem pelo G.O.O. Numa palavra, se não apareceu no G.O.O. era porque não era considerado “gente” nesse género musical. 

Uma situação curiosa ocorreu com Elvis Presley. Convencido de que lhe bastaria uma versão “arrocalhada” de “Blue Moon of Kentucky”, clássico de Bill Monroe, para que a audiência do Ryman o recebesse em êxtase, o então ainda candidato a “King” foi recebido com extrema frieza e essa noite de 2 de Outubro de 1954 foi a primeira e a última vez que pôs os pés no programa. Música não adequada, disseram-lhe então…   

Para contribuir ainda mais para uma difusão generalizada do programa e, por consequência, da própria “Country Music”, alguns episódios tiveram direito a transmissão em direto na televisão e muitos outros seriam gravados para difusão futura. Eu próprio me lembro de, na minha adolescência, ter visto algumas dessas gravações antigas na RTP 2, quando apenas existiam dois canais.  

Mas se é verdade que para fazer grandes espetáculos não há como os americanos, infelizmente não é menos verdade que para os estragarem também…  Sobretudo quando começa a imperar essa busca desenfreada e gananciosa de maiores lucros e de maiores fontes de rendimento.  

Todas as semanas o Ryman esgotava os seus lugares e são célebres as fotografias de pessoas à porta para comprarem bilhete, em bichas que davam a volta ao quarteirão. Há relatos de pessoas que se deslocavam propositadamente alguns milhares de quilómetros só para poderem assistir “ao vivo” ao programa. 


Mas a lotação do Ryman já não era considerada adequada para albergar as “paletes” de turistas que afluíam a Nashville com esse objetivo. Era preciso construir um recinto muito maior, mais moderno e com maior comodidade do que as pobres cadeiras de madeira da velha casa. E, é claro, com enormes hotéis lá ao lado para acolher todos os visitantes…. E um “parque temático” e um gigantesco Centro Comercial, que também não podem faltar nestas ocasiões… E porquê fazer só um espetáculo semanal, quando se podiam fazer muitos mais…?  

E se bem o pensaram, melhor o fizeram. No dia 15 de Março de 1974  o G.O.O. fez a sua última emissão no Ryman e mudou-se com armas e bagagens para a nova “Grand Ole Opry House”, localizada num dos extremos da cidade, a uma vintena de quilómetros de distância.  E logo no dia imediato, a 16 de Março, fez aí o seu primeiro espetáculo, na presença de Richard Nixon, que se sentou ao piano e tocou umas músiquinhas. Faz sentido…  


Para cúmulo alguém teve a ousadia de propor a demolição do edifício original e, com os seus tijolos característicos, construir uma capela ao lado do novo. Muitos músicos e muita outra boa gente se insurgiram contra este disparate e o Ryman sobreviveu. Mas iria atravessar tempos de agonia e de degradação, vivendo da organização de visitas turísticas guiadas para assegurar um mínimo de subsistência que lograsse manter o edifício de pé.

Mas tudo iria mudar no início dos anos 90, quando Emmylou Harris e a sua banda de então, os Nash Ramblers, deram uma série de concertos num Ryman degradado e com lotação limitada por questões de segurança. Esses concertos tiveram grande sucesso e deram origem a um CD (este que aqui vos mostro) e a um DVD que passou nas televisões, o que fez renascer o interesse público pelo edifício, o qual foi alvo de uma profunda remodelação, sem alterar em muito a sua traça original.

Curiosamente, quem inaugurou este novo Ryman, em 4 de Junho de 1994, não foi o G.O.O. mas sim um outro programa radiofónico seu concorrente, o “Prairie Home Companion”, ao qual Robert Altman dedicou um dos seus últimos filmes.

Hoje o Ryman está vivo e recomenda-se, com uma boa programação que está longe de se limitar à “Country”. Ainda na semana passada por lá andou Bob Dylan… Em 2001 foi classificado como “National Historic Landmark”, pelo que sua sobrevivência deverá estar assegurada   

Por ironia do destino e pelo facto dos seus cerca de 4.400 lugares serem dificilmente ocupáveis nos meses de Inverno, de menor afluência turística, o G.O.O. haveria de voltar aos velho Ryman durante três meses em cada ano, a partir de 1999.  A Covid fez suspender essa prática, mas é provável que ela já tenha sido retomada.

Quem eu teria gostado de ver no Ryman era Emmylou Harris, que tantas outras vezes por lá passou depois desses gloriosos concertos dos anos 90. Mas não calhou e Gordon Lightfoot foi uma excelente alternativa. Já uma vez havia falhado, por pouco mais de uma semana, um concerto dele no Massey Hall de Toronto, mas desta vez bastou um pequeno ajustamento no meu programa para o poder ver.

Mas, com toda a sinceridade e não obstante a minha grande admiração pelo autor de “In the Early Morning Rain, quem eu queria mesmo ver, acima de tudo, era o Ryman. Sentir o Ryman em dia de um grande e inolvidável concerto…  

Quando se chega às imediações do Ryman, o corpo começa a ficar em “pele de galinha”. Olha-se em volta para tudo, quer guardar-se tudo na memória porque a hipótese de se lá voltar é muito remota. 

Repara-se que em redor do Ryman existem três estátuas de bronze: uma do fundador, Thomas Ryman; outra de Little Jimmy Dickens, cantor cómico muito querido da comunidade “Country” e o mais antigo membro do “Grand Ole OIpry” à data da sua morte, em 2015; uma terceira de Bill Monroe, com uma placa ao lado a dizer “Birthplace of Bluegrass”, o que é mentira, como um destes dias vos contarei.

Percebe-se que ainda haverá tempo para uma cerveja e que uma cerveja no bar do Ryman será uma excelente recordação.

Depois atravessa-se o “hall” de entrada, com o diligente porteiro a lamentar que máquinas fotográficas tenham de ficar à porta. Dá-se uma espreitadela na loja das lembranças, porque qualquer coisa se há de querer levar para recordação, quanto mais não seja dois copitos para licor. A seguir sobem-se as escadas de acesso ao balcão e o coração começa a bater com mais força. Deambula-se pelos corredores, devoram-se os cartazes pendurados na parede evocativos de outros tempos e de outros espetáculos e entra-se, finalmente, na sala. Como ainda está pouca gente lá dentro, vai-se até à balaustrada e perde-se o olhar na direção do palco, a imaginar tudo aquilo que por lá se passou ao longo de tantos anos. Quer-se como que agarrar o tempo, para que ele nos permita prolongar aquele momento de prazer… E é claro que decidimos que seremos os últimos a sair, quando o espetáculo terminar…

Quanto ao concerto em si, superou em muito as expectativas que me poderia suscitar um Gordon Lightfoot com 80 anos.  Primeira parte morna, centrada em discos mais recentes, mas uma segunda em cheio, com o velho Gord a atirar-se, um após outro, a muitos dos seus êxitos mais antigos e a audiência extasiada a pedir mais e sempre mais… Lightfoot foi quase ao esgotamento, quem sabe se a pensar para com os seus botões se não seria essa a derradeira oportunidade que teria de pisar aquele palco…

E para que jamais possa esquecer essa maravilhosa noite de 6 de Agosto de 2018, até tive direito a um bilhete personalizado e tudo, coisa que nunca antes tinha visto.

NOTAS:

Quando por lá passei, todo o gigantesco quarteirão que fica defronte da fachada principal do Ryman estava entaipado por motivo de obras, sendo literalmente impossível fazer uma fotografia com um enquadramento adequado. E mesmo fazê-la de lado sem apanhar as enormes bichas de carros que lá passam defronte em permanência foi um verdadeiro milagre.

A vintena de fotografias que fiz, com o meu telemóvel, no interior do Ryman, levou sumiço quanto o telemóvel me foi roubado no ano seguinte, em Barcelona.

Subsistiram, apenas, algumas fotografias feitas com o telemóvel da Cristina, o que vos permitirá perceber que eu, tão avesso a deixar-me fotografar em viagem, não resisti a uma “foto saloia” no interior do Ryman…!

As informações mais detalhadas acerca da história do Ryman e do “Grand Ole Opry” foram obtidas na “net” e na monumental (16 horas na versão televisa e 9 horas na versão DVD) série documental “Country Music”, da autoria de Ken Burns, na respetiva banda sonora (5 CD’s) e na documentação de apoio  que acompanha estas duas caixas.    

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

sexta-feira, 1 de abril de 2022

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO


Pier Paolo Pasolini nasceu a 5 de Março de 1922.

Para celebrar o centenário do seu nascimento, vão ser exibidos 5 longas-metragens e 1 documentário, devidamente restaurados.

O ciclo começa, em Lisboa,  a 7 de Abril com exibições dos filmes no Cinema Ideal e na UCI Cinemas El Corte Inglês.

Os filmes e as datas podem ler-se no cartaz acima reproduzido.

Entre mais alguns, não será exibido A Terra Vista da Lua que era um dos filmes de Pasolini de que Manuel António Pina muito gostava, ao ponto de nas crónicas que escreveu para a Notícias Magazine lhes chamar A Terra Vista da Lua.

 Recorda-se aqui o poema que Eugénio de Andrade escreveu na morte de Pasolini:

 

REQUIEM PARA PIER PAOLO PASOLINI

 

 Eu pouco sei de ti mas este crime

torna a morte ainda mais insuportável.

Era novembro, devia fazer frio, mas tu

já nem o ar sentias, o próprio sexo

que sempre fora fonte agora apunhalado.

Um poeta, mesmo solar como tu, na terra

é pouca coisa: uma navalha, o rumor

de abril podem matá-lo – amanhece,

os primeiros autocarros já passaram,

as fábricas abrem os portões, os jornais

anunciam greves, repressão, dois mortos na primeira

página, o sangue apodrece o brilhará

ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.

O assassino, esse seguirá dia após dia

a insultar o amargo coração da vida;

no tribunal insinuará que respondera apenas

a uma agressão (moral) com outra agressão,

como se alguém ignorasse, excepto claro

os meretíssimos juízes, que as putas desta espécie

confundem moral com o próprio cu.

O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores

como móbil de um crime que os fascistas,

e não só os de Salò, não se importariam de assinar.

Seja qual for a razão, e muitas há,

que o Capital a Igreja e a Polícia

de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,

Pier Paolo Pasolini está morto.

A farsa, a nojenta farsa, essa continua.

 

Eugénio de Andrade em Escrita da Terra e Outros Epitáfios