segunda-feira, 12 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO



«Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais difícil operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar emanharados, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos, e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.»

José Saramago em O Caderno

Disseram-lhe que tinha um trabalho a fazer: palavras para um blogue.

Respondeu que contassem com ele.

Na contracapa lê-se: «o blog vai iluminando o caminho do seu autor, é essa  a sua virtude.»

Os textos escritos, e que fazem parte deste 1º volume, vão de Setembro de 2008 a Março de 2009.

Legenda: capa de O Caderno publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de João de Melo.

RELACIONADOS


As crónicas do Luís Miguel Mira, para além das suas múltiplas qualidades, são um bom pretexto para uma competente Banda Sonora.



 

BILOXI


“Down around Biloxi
Pretty girls are swimmin’ in the sea
Oh they all look like sisters in the ocean
The boy will feel his pail with salted water
And the storms will blow from off towards New Orleans”
(Jesse Winchester -Biloxi)


Jesse Winchester é um “singer-songwriter” dos anos 70 que, tal como tantos outros (Paul Siebel, Steve Goodman, Steve Young, …) é mais conhecido pelas versões que outros fizeram das suas músicas do que propriamente pelos seus originais.

Winchester nasceu no Louisiana e passou a adolescência entre o Mississippi e o Tennessee,   tendo fugido para o Canadá em 1967 por se recusar a combater no Vietname. E foi no Canadá, com a ajuda de alguns dos membros  dos The Band, que lançou os seus primeiros álbuns.

Foram dois grandes amigos meus  “muito lá de casa” quem me apresentou a Jesse Winchester. Tom Rush, que incluiu “Biloxi” no seu álbum “Long End of the Rainbow”, de 1970, e Ian Mathews que, com os Mathews’s Southern Confort, foi buscar “The Brand New Tennessee Waltz” para o álbum “Later That Same Year”, também de 1970.


 “Biloxi” faz parte do primeiro álbum de Jesse Winchester e deixa transparecer  a nostalgia dos tempos de menino em que ele brincava na areia da praia de Biloxi,  como se, lá longe no frio do Canadá,  o autor se interrogasse a si próprio, melancolicamente,  se alguma vez teria a possibilidade de a voltar a ver.
Sempre gostei muito dessa música, sobretudo na versão do Tom Rush, talvez, quem sabe,  por ser também  muito nostálgico das praias onde passei a minha infância.


Deixei New Orleans debaixo de chuva torrencial e meti-me a caminho de Biloxi pela 90, para seguir o mais possível junto ao mar. Quando lá cheguei tinha acabado de chover há pouco e havia no ar aquele cheiro agradável a praia depois da chuva, tornando muito apetecível um pequeno passeio pelo areal. Mas tinha prometido à minha Mulher uma tarde inteirinha de praia em Golf Shores, no Alabama, onde o tempo parecia estar bem melhor, e ainda tinha umas boas duas de estrada pela frente…


Antes de partir olhei para trás uma última vez.  Tal como na canção, os sinais da tempestade ainda se faziam sentir lá para as bandas de New Orleans.  Não havia raparigas bonitas na praia, mas garanto-vos que as vi entrar no mar…  


Texto e fotografias de Luís Miguel Mira.

domingo, 11 de novembro de 2018

DITOS & REDITOS


Pataca a mim, pataca a ti, e a mim pataca.

Só deuses mortos são deuses sempre.

É preciso andar muito para alcançar o que está perto.

A porta do cinema a porta do paraíso.

Antes que o galo cante.

Isto não tarda passa.

Morto o bicho, acabou-se a peçonha.

Odiamos os outros porque nos odiamos a nós próprios.

sábado, 10 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a Adão e Eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden, a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outro animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo.»

José Saramago em Caim

José Saramago nunca escondeu, e sempre foi dizendo, «que a Bíblia tem umas quantas histórias mal contadas.»

E ainda:

«O que merece crítica pode contar com a minha pessoa.»

Rui Zink escreveu um dia que a «religião é uma coisa demasiado séria para ficar só entregue a especialistas.»

Outra vez Saramago:

«O teólogo Hans Kung disse uma frase que considero definitiva, que as religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros.»

Legenda: capa de Caim publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Clara Ferreira Alves.

ARROZ DE PICA NO CHÃO


Regresso à caminheta e venho a saber depois que o lugar de Assento é estrada abaixo, para ao pé da igreja. Voltamos todos para Braga. Apontei o nome da miúda e o resto. Almoçarada em Gualtar com o Forte e o King- Kong, o motorista, que paga tudo e está simpatiquíssimo comigo e com o Mundo. Frango com arroz, à minhota, uma delícia. Vinho verde, à minhota, uma delícia. Como bundaradas porque adoro arroz de cabidela e vinho verde e minhotas: "Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no lugar de Assento, cá me ficas, mas este arroz marcha à frente!". Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO

«Como já deveríamos saber, a representação mais exacta, mais precisa, da alma humana é o labirinto. Com ela tudo é possível.»

José Saramago em A Viagem do Elefante

Segundo António Mega Ferreira, A Viagem do Elefante é, pura e simplesmente, literatura. E é excelente.»

O livro narra uma viagem de um elefante que estava em Lisboa, e que tinha vindo da Índia, um elefante asiático que foi oferecido pelo nosso rei D. João III ao arquiduque da Áustria Maximiliano II (seu primo). Isto passa-se tudo no século XVI. O elefante tem de fazer essa caminhada, desde Lisboa até Viena, e o que o livro conta é essa viagem. Percorreu milhares de quilómetros e morreu um ou dois anos depois da chegada.

A epígrafe do livro é: «sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.»

E quem nos espera?

«A causa da morte não chegou a ser conhecida, ainda não era tempo de análises de sangue, radiografias do tórax, endoscopias, ressonâncias magnéticas e outras observações que hoje são o pão nosso de cada dia para os humanos, não tanto para os animais, que simplesmente morrem sem uma enfermeira que lhes ponha a mão na testa. Além de o terem esfolado, a salomão cortaram-lhe as partes dianteiras para que, após as necessárias operações de limpeza e curtimento, servissem de recipientes, à entrada do palácio, para depositar as bengalas, os bastões, os guarda-chuvas e as sombrinhas de verão.»

Uma maneira humilhante de morrer.

 Aquelas grossas patas que andaram quilómetros e quilómetros são transformadas em objectos para colocar guarda-chuvas, outras coisas.

Muitas páginas antes, José Saramago descrevera:

«Ensinado, o que se chama ensinado, no sentido de saber mais umas quantas habilitações de circo, não o é, mas costuma comportar-se com a dignidade de um elefante que se respeita.»

Legenda: capa de A Viagem do Elefante publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria do escritor Mário de Carvalho.

PERDIDA ENTRE NOITES E NOITES


E outra vez, ainda no decorrer dessa mesma viagem, durante a travessia desse mesmo oceano, a noite já começara também, aconteceu no grande salão do convés principal o estalar duma valsa de Chopin que ela conhecia de modo secreto e íntimo porque tentara aprendê-la durante meses e nunca tinha conseguido tocá-la correctamente, nunca, o que fizera com que depois a mãe consentisse em deixá-la abandonar o piano. Essa noite, perdida entre noites e noites, disso ela tinha a certeza, a rapariguinha passara-a justamente naquele barco e estava lá quando aquilo aconteceu, esse estalar da música de Chopin debaixo do céu iluminado de brilhantes. Não havia uma aragem e a música espalhara-se por todo o navio negro, como uma imposição do céu de que não se sabia a que propósito vinha, como uma ordem de Deus de que se ignorava o teor. E a rapariga endireitava-se como que para ir por sua vez matar-se, atirar-se ao mar e depois chorara porque pensara naquele homem de Cholen e de súbito não tivera a certeza de não o ter amado com um amor que ela não vira porque se perdera na história como a água na areia e só agora o reencontrava nesse instante da música lançada através do mar.

Marguerite Duras em O Amante

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


 Lembra-me o sujeito que seguia um circo de cidade em cidade. Um dia, perguntaram-lhe: "Porque é que anda atrás deste circo?" "Porque quero ver quando é que o trapezista cai e morre."

José Saramago

SARAMAGUEANDO


«Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.» Assim mesmo. Eu estava lá.»

José Saramago em As Pequenas Memórias.

Era para se ter chamado O Livro das Tentações mas acabou por ficar As Pequenas Memórias.

Saramago «queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou.»

Simplesmente: um livro notável.

«Penso que devo tudo o que sou àquela criança. Foi ela o meu arquitecto.»

Não memórias, mas uma certa memória.

«A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam.»

Legenda: capa de As Pequenas Memórias publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Gonçalo M. Tavares

OLHAR AS CAPAS


O Caso da Noiva Curiosa

Erle Stanley Gardner
Tradução: Marcello de Andrade
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 29
Livros do Brasil, Lisboa s/d

A mulher estava nervosa. Durante alguns momentos, os seus olhos sustentaram o olhar do advogado; depois desviaram-se desdenhosamente para as estantes de livros enfileirados contra a parede, como os olhos de um animal que contemplasse os barrotes de uma jaula.
- Sente-se – disse Perry Mason.
Ele estudou-a com a liberdade de exame que desenvolvera durante anos de exploração dos mais escusos recessos da mente humana – não somente da das testemunhas como também da dos seus clientes.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto. despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto. debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.»


Maria Alzira Seixo tem, sobre o livro, uma interessante abordagem: «é um romance divertido, pois que nos pode dar maior satisfação do que rir à custa da morte, a única coisa no mundo que não faz rir ninguém, a não ser em esgar ou exorcismo?»

José Saramago também não anda longe:

«Foi um livro escrito com alegrai. Falar da morte e dizer que o fiz com alegria,,, É uma alegria que vem não só pelo tom irónico, sarcástico às vezes, divertido, mas também porque é como se me sentisse superior à morte dizendo-lhe: «Estou a brincar contigo.»

E em outro passo refere:

O livro empurra uma porta aberta. Diz aquilo que todos já sabemos: que temos de morrer. Mas talvez mostre, com mais clareza, que temos que morrer para viver. Se não, a vida seria insuportável.

A um químico do futuro, exigiu Maiakowski:

«A primeira coisa que farás é ressuscitar-me, a mim que tanto amava a vida.»

Luis Filipe Cristóvão:

«No fundo, acabamos sempre por chorar a nossa dor, nunca a dos outros, mesmo que a nossa dor seja causada pela dor dos outros, é a nossa dor, é a nossa dor que choramos.»


Legenda: capa de As Intermitências da Morte publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Valter Hugo Mãe. 

E SE EU FOSSE MÚSICA, MÃE?


Não, nunca escolheria uma canção de amor, nem uma canção que se pudesse cantar. Se ela fosse música, gostaria de ser A Chang is Gonna Comne, de Sam Cooke.
«I was born by the river in little tent…»
Não tanto pelas conotações da luta Americana anti-racista, essas só as aprendeu mais tarde, mas porque falava em rio e também ela tinha nascido junto a um rio.
«And just like that river, I’ve been runnin’ ever since.
Só que ela nasceu junto a um rio de ocaso, onde as águas já perderam a pureza alcalina das origens e vêm corrompidas de sais, sódios, resíduos e outras metástases de poluição.

Ana Margarida de Carvalho em Que Importa a Fúria do Mar

terça-feira, 6 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO



«Posso fazer-lhe também uma pergunta. Ora essa, senhor presidente, à vontade. Votou em branco, Anda a fazer um inquérito, Não, é só uma curiosidade, mas se não quiser não responda. O homem hesitou um segundo, depois, sério, espondeu, Sim, senhor votei em branco, que eu saiba não é proibido. Proibido não é, mas veja o resultado. O homem parecia ter-se esquecido do amigo imaginário, Senhor presidente, eu, pessoalmente, não tenho nada contra si, sou até capz de reconhecer que tem feito bom trabalho na câmara municipal, mas a culpa disso a que está a chamar resultado não é minha, votei como me apeteceu, dentro da lei, agora vocês que se amanhem, se acham que a batata escalda, soprem-lhe.»

José Saramago em Ensaio Sobre a Lucidez.

A apresentação de “Ensaio Sobre a Lucidez”. em Março de 2004, no Centro de Congressos de Lisboa decorreu, perante milhares de pessoas, com um debate moderado por José Manuel Mendes, e que contou com a presença de José Saramago, José Barata Moura, Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa.

Algures, numa não nomeada cidade, há eleições autárquicas. É grande a afluência às urnas mas, após a contagem dos votos, verifica-se que a esmagadora maioria dos votos estão em branco. Nem governo, nem políticos, nem comentadores políticos, nem jornalistas compreendem a situação e interrogam-se: como pode um povo ser tão irresponsável?

José Saramago nunca perdeu uma oportunidade de se constituir num gerador de polémicas, de modo algum fúteis e nunca estéreis, e com este livro, de um mero exercício com o seu quê de curioso, quiçá ineditismo, os habituais detractores de Saramago levaram o caso para a provocação.

Título do Público de 31 de Março de 2004:

«Saramago recusa democracia e a apela ao voto em branco.»

Ao tempo, Augusto Santos Silva, hoje ministro dos Negócios Estrangeiros, dos escrevia, também no Público, que o nobel menorizava a literatura.

«O voto em branco é uma arma democrática que possuímos para impedir os políticos de continuarem a brincar connosco.», disse Saramago.

«Digamos que pôs a estopa e eu contribuí com o prego, e que a estopa e o prego juntos me autorizam a afirmar que o voto em branco é uma manifestação de cegueira tão destrutiva como a outra. Ou de lucidez, disse o ministro da justiça, Quê, perguntou o ministro do interior, que julgou ser ouvido mal, Disse que o voto em branco poderia ser apreciado como uma manifestação de lucidez por parte de quem o usou, Como se atreve, em pleno conselho do governo, a pronunciar semelhante barbaridade antidemocrática, deveria ter vergonha, nem parece um ministro da justiça, explodiu o da defesa. Pergunto-me se alguma vez terei sido ministro da justiça ou de justiça, como neste momento, Com um pouco mais ainda me vai fazer acreditar que votou em branco, observou o ministro do interior ironicamente, Não, não votei em branco, mas pensá-lo-ei na próxima ocasião.»


Legenda: capa de Ensaio Sobre a Lucidez publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Dulce Maria Cardoso.

CONTIGO NÃO HÁ DISTÂNCIA


«Não consigo lembrar-me como é que era antes de te conhecer. Eu era sempre assim? Lembro-me de mim perdido. Quanto a isso nenhuma dúvida. Deambulando. De nada em nada. De alucinada em alucinada. Permanecendo, por vezes, apenas o tempo suficiente para compreender que o desnorte delas era mais pronunciado do que o meu. Pelo menos é assim que elas me aparecem. Mas não me lembro de estar assim nervoso como estou agora; assim em frangalhos. Observava-as muito de longe, muito à distância: pedradas, ensaiando banhos de esponja nos seus lavatórios; aparando bolas pretas de haxixe com lâminas de barbear; movendo-se como rainhas em câmara lenta. Depois, transformavam-se em raparigas em quintais de já lá vai muito tempo, desfazendo-se em risinhos e aninhando as longas pernas debaixo do aconchego dos seus corpos: a maneira como se afundavam sobre os seus macios calcanhares e depois meneavam muito o cabelo como cavalos sacudindo as caudas.
Mas contigo não há distância. Todos os movimentos que fazes, sinto-os como se viajasse na tua pele; as tuas espreitadelas da janela, como se tu estivesses completamente sozinha e sonhando num outro tempo qualquer. De nada me serve dar aos braços a dizer adeus. Agora, está tudo ao contrário.»

Sam Shepard em  Atravessando o Paraíso.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«O que por aí mais se vê, a ponto de já não causar surpresa, é pessoas a sofrerem com paciência o miudinho escrutínio da solidão, como foram no passado recente exemplos públicos, ainda que não especialmente notórios, e até, em dois casos, de afortunado desenlace, aquele pintor de retratos de quem nunca chegamos a conhecer mais do que a inicial do nome, aquele médico da clínica geral que voltou do exílio para morrer nos braços da pátria amada, aquele revisor de imprensa que expulsou uma verdade para plantar no seu lugar uma mentira, aquele funcionário subalterno do registo civil que fazia desaparecer certidões de óbito, todos eles, por casualidade ou coincidência, formando parte do sexo masculino, mas nenhum que tivesse a desgraça de chamar-se Tertuliano.»

José Saramago em O Homem Duplicado

Ainda hoje, e depois de uma segunda leitura, continuo à volta com este livro e ainda não encontrei o fio à meada.

Haverá fio? Haverá meada?

Saramago;

«Digo às vezes que o mais importante nas minhas obras são as epígrafes. O leitor não fique por aí; leia e pense.»

Na contracapa lê-se:

«O caos é uma ordem por decifrar.»

Legenda: capa de O Homem Duplicado publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Lídia Jorge.

domingo, 4 de novembro de 2018

GENTE NOVA PRESA


1 de Março de 1970

Ontem, o habitual serão dos sábados em casa do Fafe. Mastigações sonâmbulas de velhas coisas tristes desta pátria sonolenta.
                                                
                                                          *

Como me sinto magoado quando reparo que certas pessoas me tratam com um respeito que, em geral, os velhos não merecem.

                                                          *

Estão presas masi de sessenta pessoas que entraram na última manifestação contra a Guerra Colonial. Gente nova. Rapazes e raparigas.


José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

sábado, 3 de novembro de 2018

SÚPLICA FINAL


Senhor: não peço mais que silêncio,
o silêncio das noites de planície como enevoadas águas,
o silêncio dos montes quando a tarde acabou e as pedras
se afiam na friagem que é azul-celeste,
o silêncio do sol encarquilhando as folhas,
e o vento na areia depois de ter passado,
o silêncio das ondas ao longe espumejando tranquilas,
o silêncio das mãos e o dos olhos,
e o das aves negras que pairam nas alturas
de um céu silencioso e límpido. Não peço
mais que silêncio. O silêncio das ideias que deslizam
no tecto escorregadio da memória silente.
E o silêncio dos sonhos coloridos, e o dos outros
a preto e branco imagens desejadas
que não pensei que desejava e esqueço
ao querer lembrá-las. E o silêncio
dos sexos que se possuem sem uma palavra.
E o do amor também, tão silencioso esse,
que não sei quem amo.

Não peço mais. Afasta
de mim o estrondo: não o das cidades,
ou dos homens, das águas, do que estala
na memória ou penumbra das salas desertas.
Afasta de mim o estrondo com que a vida
se acabará contigo, num rasgar de súbito
em que ficarei inerte e silencioso. O estrondo
em que não ouvirei mais nada. O estrondo
em que não mexerei um dedo. O estrondo
em que serei desfeito. O estrondo
em que de olhos abertos
alguém mos abrirá.

Senhor: não peço mais do que o silêncio do mundo,
o silêncio dos astros, o silêncio das coisas
que outros homens fizeram, e o das coisas
que eu próprio fiz. E o teu silêncio
de senhor que foi. Não peço mais.
Não é nada o que peço. Dá-me
o silêncio. Dá-me o que não fui:
silêncio (porque calei tanto):
o que não sou (pois que calo tanto):
o que hei- de ser (já que falar não adianta):
Silêncio.
Senhor: não peço mais.

1961

SARAMAGUEANDO


«Vivi, olhei, senti, Que faz aí o ler, Lendo fica-se a saber quase tudo, Eu também leio, Algo portanto saberás, Agora já não estou tão certa, Terás então de ler de outra maneira, Como, Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida a ler sem nunca ter conseguido ir mais alem da leitura, fica pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a correntes de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, A não ser, A não ser quê, A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua, e a pena sua a margem a que terá de chegar.»

José Saramago em A Caverna


A Caverna é um livro anti-capitalismo que, ao mesmo tempo lembra, louva, um mundo de trabalho que está à beira de completa extinção.

Uma família de oleiros vê a profissão tradicional ser destruída pelas novas tecnologias, pelos novos gostos.

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»


(José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Volume III).

Duas passagens de entrevistas em que José Saramago tenta explicar A Caverna:

Uma:

«Eu não acredito na bondade da natureza humana. Para que um pobre bom se converta num rico mau, só é preciso muito dinheiro. Não santifico o pobre. Mas na Caverna não pergunto nem me interessa quem são os donos do centro comercial. Do ponto de vista literário, não me interessa. A mim, o que me interessa é que o centro comercial simboliza um sistema cruel. Fabrica excluídos sem piedade alguma.»

Outra:

«É uma história de perdedores cuja única vitória é que não se entregam ao triunfador. É a revolta possível, mas sem, ela não poderá haver outra. A derrota definitiva seria a submissão, e mesmo assim não devemos esquecer que as gerações se sucedem, mas não se repetem. Assim como de insubmissos podem nascer submissos, também dos que se submeteram poderão nascer os que haverão de se revoltar. Não diria exactamente sobre a globalização, mas sobre essa fatalidade económica que faz com que venha um momento em que já não somos necessários.»

Sou suspeito na matéria: volto com agrado a todos os livros de Saramago. E em cada vez que lhes pego encontro novas coisas e isso é tão gratificante.

«A véspera é o que trazemos a cada dia que vamos vivendo, a vida é acarretar vésperas como quem acarreta pedras, quando já não podemos com a carga acabou-se a transportação. O último dia é o único a que não se pode chamar véspera.»

Ou:

«Felizmente, existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro que ensinava a cozer os barros, e o livro finalmente convocado, aparece, está aqui nas mãos de marta enquanto o pai e o livro, finalmente convocado, aparece, está aqui nas mãos de Marta.»

Legenda: capa de A Caverna publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Eduardo Lourenço.

O RESTO É O MEU TRABALHINHO


Abrimos as páginas de mais uma entrevista de Luiz Pacheco. A de hoje foi publicada no JL em Setembro de 1997, feita pelo Rodrigues da Silva e o Ricardo de Araújo Pereira com o título A Velhice do Guerrilheiro da Escrita:

Foi preciso chegares a um lar de terceira idade para finalmente, estares bem da vida?

E como nunca estive.

Quanto é que pagas por isto?

Pago 185 contos, que dá mais de 200 por causa dos remédios que são à parte.

Donde é que vem essa massa?

120 contos do Ministério da Cultura – é do Fundo de Fomento Cultural. Já me aumentaram aqui (tinha só 90). Mas a minha reforma de funcionário público (foram só 14 anos) – são 31.700$00 E tenho ainda mais oito contos da SPA. Isto tudo dá 160 contos.

Falta algum. Donde é que vem?

O resto é o meu trabalhinho. Quando vim para aqui tinha 500/600 contos. Sabes que o Mário Soares deu-me 650 contos, não sei se do bolso dele, se donde. Nem me interessa, para mim até pode ser lavagem de dinheiro. Bom: com 500/600 contos dava para três meses aqui. E vim. E há ainda os 55 contos por crónica para o Público.

OLHAR AS CAPAS


O Amante

Marguerite Duras
Tradução: Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira
Capa: Rogério Petinga
Difel. Lisboa, Setembro 2000

Quando se aproximava a hora da partida, o barco lançava três apitos de sirene, muito compridos, de uma força terrível, ouvia-se na cidade toda e para os lados do porto o céu ficava negro. Então os rebocadores aproximavam-se do barco e puxavam-no para o meio do rio. Depois, os rebocadores soltavam as amarras e voltavam para o porto. Então o barco dizia adeus ainda mais uma vez, lançava de novo os seus mugidos terríveis e tão misteriosamente tristes que faziam as pessoas chorar, não só as da viagem, as que se separavam, mas também as que tinham vindo ver, e as que estavam ali sem uma razão precisa, que não tinham ninguém em quem pensar. O barco depois, muito lentamente, com as suas próprias forças, embrenhava-se no rio. Via-se durante muito tempo a sua forma alta avançar para o mar. Muita gente ficava ali a olhá-lo, a acenar cada vez mais lentamente, cada vez mais desencorajadamente, com os seus xailes, os seus lenços. E depois, por fim, a terra levava a forma do barco na sua curvatura. Em tempo claro, víamo-lo afundar-se lentamente.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


A morte tem muitas portas por onde a vida escapa.

SARAMAGUEANDO


«Foi muito simples. Encontrávamo-nos na cozinha. Pilar e eu, sós, quando a rádio informou que o Prémio Nobel tinha sido atribuído a Dario Fo. Olhámo-nos tranquilamente (sim, tranquilamente, jurá-lo-ia se fosse necessário) e eu disse: «Pronto. Podemos voltar ao nosso sossego.» Amanhã partiremos para Colónia.»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, Volume V

Quinto volume dos Cadernos de Lanzarote.

Estava dado como último volume mas sabe-se, desde Fevereiro, que foi encontrado um outro, já publicado com o título de Último Caderno de Lanzarote.

A pasta Cadernos de Lanzarote estava no computador de José Saramago, e sempre que Pilar del Río lá entrava pensava que continha apenas os cadernos que já estavam publicados. Mas, no final de Fevereiro — quando estava à procura de uma referência a uma determinada conferência, a viúva do escritor fez o que nunca tinha feito. Clicou na pasta e deparou-se com: Caderno 1, Caderno 2, Caderno 3, Caderno 4, Caderno 5 e Caderno 6…

José Saramago, depois da publicação do quinto volume dos Cadernos, já dissera ao amigo e editor Zeferino Coelho que não contasse com mais qualquer volume dos Cadernos.

Afinal, havia outro…

Apesar das naturais insuficiências, é um livro de José Saramago.


O 5º volume dos Cadernos de Lanzarote saiu para as livrarias em Outubro uma tiragem de 6.000 exemplares e com uma cinta desdobrável na capa em que se podia ler: José Saramago Prémio Nobel da Literatura 1998.

Cobre todo o ano de 1997 e abre assim:

«É corrente ouvir dizer que são tantas as leituras de um livro quantos tiverem sido os seus leitores (em três simples palavras, e ainda por cima repetindo uma delas, a sabedoria popular portuguesa já tinha encontrado a expressão exacta: cada cabeça, cada sentença…), o que quererá dizer, se não interpreto mal, que o autor mais afortunado será aquele que, graças a uns quantos leitores atentos que lhe vão comunicando as suas impressões de leitura, está continuamente em processo de aprendizagem sobre a sua própria obra.»

A 25 de Abril refere uma declaração de Vasco Lourenço:

«Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…»

E comenta:

«Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…»

Legenda: capa de Cadernos de Lanzarote, Volume V publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Leonor Xavier.

NUM QUARTO ÀS ESCURAS


Quando já se tem muita experiência do mundo, começamos a interrogar-nos se a experiência de todo esse tempo nos serviu realmente para alguma coisa e se aprendemos algo que possa ser útil para os nossos filhos, discípulos, amigos. Como não tenho filhos nem discípulos, concentro-me nos amigos. Reúno-os mentalmente num quarto às escuras, como se estivéssemos numa sessão de espiritismo. Cria-se uma certa expectativa face ao que agora lhes possa dizer. Esgoto todas as possibilidades de não ter de falar, porque na realidade, ter de transmitir o que quer que seja para a posteridade é um problema, um grandessíssimo problema e uma chatice. Mas finalmente obrigam-me e digo:
- Os que melhor falaram da morte morreram.

Enrique Vila-Matas em Diário Volúvel

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO



«Ora, por motivos que todos sabem, mas que muitos fingem esquecer, ocultando-os sob os outros que são ludíbrio e conto-do-vigário, a esquerda não se uniu: um esquerdismo de adolescência e um anticomunismo serôdio, ambos eficazes, somados aos manejos da conspiração contra-revolucionária internacional, impediram e impedem que a Constituição (socializante) seja cumprida: desgraçadamente, não vivemos com a Constituição que temos. Desunida, a esquerda política resiste graças ao prestígio histórico que lhe resta e. sobretudo, graças ao apoio de sectores vitais para a sua sobrevivência: a classe operária, o campesinato organizado, a pequena burguesia esclarecida, a intelectualidade progressista. Resiste a esquerda, mas a direita avança. Avança pelas brechas, pelas fendas, pelas debilidades, manipula e joga com as fomes de poder. E avança sob a protecção de liberdades que sempre detestou e que só a esquerda, enquanto e quando no poder lhe poderia dar tudo. Se amanhã a esquerda vier a pôr o pescoço no cepo, poderá dizer, consoladamente, para a História: «Em liberdade, aquele machado vai cortar-me a cabeça.»

José Saramago em Folhas Políticas

Por Julho de 1977, José Saramago, passa a colaborar no semanário Extra, com uma coluna de opinião a que chamou Novos Apontamentos.

A  Editorial Caminho convence-o a reunir em livro esses textos, juntamente com outros, que Saramago foi publicando em diversos jornais e revistas.

Como habitualmente não se mostrou muito receptivo à ideia, pois não via qualquer interesse em «revolver uma poeira que ninguém, qualquer que seja o espaço partidário, em que se situa ou em que se veio situando desde então, parece interessado em levantar do mofo da nossa história política recente.»

Depois de ligeiras rectificações, em alguns textos, outros foram omitidos, deu à estampa o que chamou de Folhas Políticas.

Mas advertiu:

Não vai faltar quem me acuse de que alguns destes textos são desapiedados e injustos, que, tendo sido já politicamente inoportunos e impertinentes na própria época em que foram escritos, muito mais o vêm a ser agora, e que, argumento final, não é atitude das mais prudentes e sensatas da minha parte, considerando que todos temos os nossos «telhados de vidro», reabrir as chagas que o tempo, melhor ou pior, teve a caridade de cicatrizar. Disso, como do resto, pensará cada um o que quiser, e por isso responderá.
Em todo o caso, creio que estas Folhas Políticas, de cuja honradez cívica não reconheço a ninguém o direito de duvidar, levam dentro verdades suficientes para que sejam capazes de defender-se sozinhas, sem ajuda. Nem sequer a minha.»

Vai entrar no quarto ano um governo do Partido Socialista, apoiado pelas esquerdas.

Voltamos a lembrar o quanto José Saramago ficaria feliz com a possibilidade das esquerdas -finalmente! – terem iniciado os caminhos da unidade.

Em artigos de opinião, em conferências, em entrevistas, José Saramago nunca deixou de vincar aparece o mote da unidade com vista ao nosso futuro de povo.

Em 15 de Fevereiro de 2016, e durante alguns dias,  revisitámos algumas das opiniões de Saramago, em relação à unidade da esquerda, expressas nas Folhas Políticas.

Legenda: capa de Folhas Políticas publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria da cineasta Teresa Villaverde.