quinta-feira, 15 de novembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Não me sacudam que estou cheio de lágrimas.

Louis Calaferte, citado, numa entrevista, por António Lobo Antunes

SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES


A pedido de um leitor deste blogue, reproduz-se o Abaixo-Assinado que, no dia 28 de Maio de 1965, um grupo de personalidades entregou no Ministério da Educação Nacional, de protesto contra o assalto e extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores

SOMOS TÃO HIPER-SENSÍVEIS!


Aquando do lançamento das Leituras com a Correspondência entre António Ramos Rosa, referia a comovedora humildade de António Ramos Rosa, um homem tão amável como a sua poesia, e encontro em Eduardo Lourenço a afirmação que remete para a ética do pudor de António Ramos Rosa.

Na resposta ao envio dos livros feito por Ramos Rosa, Jorge de Sena, em carta datada de 26 de Dezembro, atalha:

«Simplesmente, perdoe-me V. que lhe chame a atenção, não chegou tudo. Creio que V. ainda tem os Mythes et Porttaits do Groethuysen e alguns números da Critique, o nº 51-52 e o nº 54 (embora eu suponha, mas não esteja certo, de que um destes dois, um só, não lhe emprestei a si. Pelo menos isto, porque não encontro uma das listas, que é a segunda. Mas io que for o poderá V. saber tão bem, ou melhor do que eu, como é o caso.. Não leve a mal o que lhe estou escrevendo, mas há-de concordar comigo que tenho. Com a demora e o com o silêncio, sobretudo com este último, uma certa razão de queixa. E razãp tanto maior quanto poucas pessoas terá V. encontrado que tão liberalmente se disponham a emprestar livros, em qualidade e em quantidade, às outras pessoa que lhes mereçam consideração e estima, Não será assim?  E precisamente porque tenho a consciência limpa neste ponto é que lhe falo francamente. Espero que – e tenho o direito de esperar – qualquer que possa ser momentaneamente a sua reacção (somos sempre tão híper-sensíveis todos, sobretudo quando sabemos que não temos inteira razão) não reatará o silêncio anterior.

Em Correspondência

Legenda: Jorge de Sena

SARAMAGUEANDO



«COMENDADOR
Convidaste-me a jantar e aqui me tens. Eu prometi que viria, agora é a tua vez. Cumpre a tua palavra, recebe-me à tua mesa e abre-me a tua consciência.
DON GIOVANNI
Leporello foi fazer compras à vila e ainda não regressou. Se quiseres esperar que ele volte e nos prepare o jantar, senta-te por aí, mas tem cuidado com a cadeira, pesas demasiado. Ou então passa por cá outro dia.
COMENDADOR
O dia é hoje.
DON GIOVANNI
Como queiras. Mas senta-te, por favor, não gosto de ver ao meu lado pessoas mais altas do que eu.
COMENDADOR
Não posso sentar-me.
DON GIOVANNI
Porquê?
COMENDADOR
Uma estátua tem de ficar para sempre como a fizeram. A mim fizeram-me em pé, por isso não me posso sentar. É uma questão de articulações.
DON GIOVANNI
Vais estar em pé por toda a eternidade? Isso cansará muito, suponho.
COMENDADOR
Não sei. A eternidade, para mim, só agora é que começou.
DON GIOVANNI
E como foi que vieste até aqui? Não deve ter sido fácil, com essas pernas rígidas, tesas. Quero dizer, sem articulações.
COMENDADOR
Trouxe-me pelos ares o meu espírito. Não havia outra maneira.
DON GIOVANNI
E onde está ele agora?
COMENDADOR
Ficou lá fora, à espera.
DON GIOVANNI
Se queres, manda-o entrar, não faças cerimónia, onde cabemos dois, cabemos três. E mesmo quatro, se contarmos com Leporello.
COMENDADOR
Não te incomodes, o espírito esperará o que for preciso, cedo e tarde são expressões sem sentido para ele.
DON GIOVANNI
Curioso. E vai ficar lá fora até que acabemos de comer?
COMENDADOR
Os mortos não comem, os mortos são comidos.
DON GIOVANNI
Não é preciso estar morto para saber isso. Em todo o caso, tu encontras-te a salvo, os vermes são bichos delicados, respeitam o bronze. Mas, agora reparo, se por te faltarem as articulações não te podes sentar, comer também não poderás. Para comer é preciso dar ao queixo.»

José Saramago em Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido

Partindo da ópera de Mozart Don Giovanni ou O Dissoluto Punido em que Don Giovanni é condenado aos infernos por ter seduzido 2065 mulheres, José Saramago reanalisa o mito: será Don Giovanni culpado? E o Comendador, e Dona Ana, e Dona Elvira, e Don Octávio? Serão um modelo de virtudes? Onde está a culpa? Onde está a virtude? Onde está a hipocrisia?

José Saramago:

«Se há uma ópera no mundo capaz de pôr-me de Joelhos, rendido, submetido, é esta».


«Como te dizia há um momento, agora estou a pensar assim, mas amanhã, no momento da minha morte, tudo poderia acontecer, inclusive que negue tudo o que acabo de afirmar. Mas isso não significa, nem significará nunca que tenha razão então. Estive a ouvir antes Don Giovanni de Mozart e tem oito minutos de música que, para mim, nunca será superada. Refiro-me ao último acto, quando aparece a Don Giovani a estátua do comendador. O comendador exige-lhe que se arrependa, senão leva-o para o inferno. Para mim Don Giovanni é uma ópera melhor do que Parsifal, com toda a sua mística, é a grande ópera e a grande música. Don Giovanni, que é um canalha, um enganador, um tipo desprezível, diz que não, que não se arrepende, e isto é uma lição de dignidade: eu errei, mas o que significa dizer que me arrependo? Não posso apagar todos os males que causei durante a minha vida, as vítimas estão aí, dizer que me arrependo é demasiado fácil.»

Legenda: capa de Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Alexandre Delgado.

OLHARES


O Café Império, faz parte do edifício onde em tempos existiu o Cinema com o mesmo nome, há uns anos, esteve para desaparecer.

A seita religiosa que comprou o Cinema tentou encerrar o café, de que são proprietários porque compraram todo o edifício, mas movimentações dos trabalhadores e clientes, com o forte apoio da Câmara Municipal, impediram o crime-de-lesa-pátria.

As memórias que se iriam perder.

Em Lisboa, já não há cafés como o Império.

Os bifes continuam a ser um símbolo de qualidade, a cheirar a velhos tempos.

Sabores com história.

Nos tempos que correm, em dias de futelobadas, tem casa cheia a ferver de paixão e emoções.

É sempre bom ir lá ao Café Império, porque nunca se sabe quanto tempo vai durar mais.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança. Aprendi que a vida de cada um de nós deve ser orientada por essa esperança e por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é porque morreu antes de nascer.»

José Saramago em Claraboia

José Saramago acabou de escrever Claraboia no dia 5 de Janeiro de 1953.

Era o seu segundo romance, o primeiro foi Terra do Pecado, e entregou-o a um amigo que o levou à Notícias Editora que não lhe dedicou qualquer tipo de atenção.

Encafuado nas prateleiras de um qualquer armazém, foi descoberto já o Saramago atingira a relevância que se reconhece.

Mostraram interesse em publicá-lo. Saramago recusou e recuperou o manuscrito mas, enquanto fosse vivo, não quis que o livro  fosse publicado.

A sua publicação ocorreu em Setembro de 2011.

Clarabóias  existiam em muitos prédios que têm uma escada interior de acesso aos andares, está no cimo da escada, no telhado, para iluminar essa escada.

José Saramago imagina um prédio que tem rés-do-chão, outros andares, cada andar está ocupado por uma família, as famílias são todas completamente diferentes e conta-nos a história de cada uma delas.

Saramago achou que «o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser.»

Alguns pedaços vadios encontrados na recente releitura do livro:

«Aquela aguda sensação que faz temer a loucura e desejá-la.»

«Um silêncio pesado, como se a morte tivesse vindo sentar- se entre os dois homens.»

«No meu entender, as mulheres bonitas não querem amar, querem ser amadas.»

«Talvez agora o seu amor fosse maior, porque já não se alimentava de perfeições reais ou imaginárias.»

«Ter não é possuir. Pode ter-se aquilo que se não deseja. A posse é o ter e o desfrutar o que se tem.»

«O cigarro fazia parte de uma complicada rede de atitudes, palavras e gestos, todos com o mesmo objetivo: impressionar.»

«Os três estavam contentes, tinham aquele sorriso de olhos que vale por todos os sorrisos de dentes e lábios.«

«Ouviu-se um suspiro: Rosália atingira o êxtase, o intermédio lírico terminara. Das altas regiões da adoração, desceu ao prosaísmo terrestre.»

«Quando Maria Cláudia entrou... as sombras da cozinha saíram.»

«O que eu queria é que a sua preocupação de fugir a prisões não o levasse a ficar prisioneiro de si mesmo, do seu cepticismo.»

Legenda: capa de Claraboia publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Guilherme d’Oliveira Martins.

OLHAR AS CAPAS



O Apartamento Fatídico

A.A.Fair
Tradução: L. de Almeida Campos
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 119
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Fui acordado às três da manhã pelo ruído de uma lata a rebolar no empedrado do passeio. Um momento mais tarde, uma voz de mulher, aguda e penetrante, gritou: «Não vou contigo! Estás a compreender?»
Voltei-me para o outro lado e tentei mergulhar, de novo, no esquecimento do sono. A voz da mulher perseguiu-me, ferindo-me os tímpanos. Não consegui ouvir a voz do homem com quem ela discutia.
A atmosfera estava carregada de humidade. A cama era grande, de quatro colunas no estilo antigo, e estava encostada à parede mais afastada de um quarto de tecto alto. Enormes janelas francesas abriam para uma varanda protegida por uma grade de ferro forjado. Esta varanda estendia-se por sobre o passeio, ultrapassando-o. Do outro lado da rua, mesmo em frente, ficava o Bar de Jack O’Leary.
Quando havia experimentado fechar as janelas, o ar, pesado e húmido, tinha tornado a atmosfera do quarto sufocante. Quando abri as grandes janelas, os ruídos do velho Bairro Francês de Nova Orleans chegaram até mim.
O som da voz aguda cessou repentinamente e eu tentei adormecer uma vez mais.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Talvez Deus não seja católico, talvez não seja protestante, talvez não seja senão o nome que tem.»

José Saramago em In Nomine Dei

Peça de teatro em que José Saramago aborda o fanatismo religioso.
A acção decorre em Munster, na Alemanah, entre Maio de Maio de 1532 e Junho de 1535

A abrir In Nomine Dei, escreve José Saramago: 

«Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto quem afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? Se os cães tivessem inventado um deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome e dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d'Alsácia? E, no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado da causa do seu canino deus?
Que não sejam estas palavras tomadas como uma nova falta de respeito às coisas da religião, a juntar à
“Segunda Vida de S. Francisco” de Assis” e ao “Evangelho Segundo Jesus Cristo.” . Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome do mesmo Deus – “In Nomine Dei” - para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo Paraíso. Os acontecimentos descritos nesta peça representam, tão-só, um trágico capítulo da longa e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana. Que leiam assim, e assim o entendam, crentes e não crentes e farão, talvez, um favor a si próprios. Os animais, claro está, não precisam.»

Legenda: capa de  In Nomine Dei publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Jorge Vaz de Carvalho.

AS PALAVRAS MAIS NUAS



As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.

António Ramos Rosa

Legenda: pintura de Gustav Klimt

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO



«Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais difícil operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar emanharados, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos, e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.»

José Saramago em O Caderno

Disseram-lhe que tinha um trabalho a fazer: palavras para um blogue.

Respondeu que contassem com ele.

Na contracapa lê-se: «o blog vai iluminando o caminho do seu autor, é essa  a sua virtude.»

Os textos escritos, e que fazem parte deste 1º volume, vão de Setembro de 2008 a Março de 2009.

Legenda: capa de O Caderno publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de João de Melo.

RELACIONADOS


As crónicas do Luís Miguel Mira, para além das suas múltiplas qualidades, são um bom pretexto para uma competente Banda Sonora.



 

BILOXI


“Down around Biloxi
Pretty girls are swimmin’ in the sea
Oh they all look like sisters in the ocean
The boy will feel his pail with salted water
And the storms will blow from off towards New Orleans”
(Jesse Winchester -Biloxi)


Jesse Winchester é um “singer-songwriter” dos anos 70 que, tal como tantos outros (Paul Siebel, Steve Goodman, Steve Young, …) é mais conhecido pelas versões que outros fizeram das suas músicas do que propriamente pelos seus originais.

Winchester nasceu no Louisiana e passou a adolescência entre o Mississippi e o Tennessee,   tendo fugido para o Canadá em 1967 por se recusar a combater no Vietname. E foi no Canadá, com a ajuda de alguns dos membros  dos The Band, que lançou os seus primeiros álbuns.

Foram dois grandes amigos meus  “muito lá de casa” quem me apresentou a Jesse Winchester. Tom Rush, que incluiu “Biloxi” no seu álbum “Long End of the Rainbow”, de 1970, e Ian Mathews que, com os Mathews’s Southern Confort, foi buscar “The Brand New Tennessee Waltz” para o álbum “Later That Same Year”, também de 1970.


 “Biloxi” faz parte do primeiro álbum de Jesse Winchester e deixa transparecer  a nostalgia dos tempos de menino em que ele brincava na areia da praia de Biloxi,  como se, lá longe no frio do Canadá,  o autor se interrogasse a si próprio, melancolicamente,  se alguma vez teria a possibilidade de a voltar a ver.
Sempre gostei muito dessa música, sobretudo na versão do Tom Rush, talvez, quem sabe,  por ser também  muito nostálgico das praias onde passei a minha infância.


Deixei New Orleans debaixo de chuva torrencial e meti-me a caminho de Biloxi pela 90, para seguir o mais possível junto ao mar. Quando lá cheguei tinha acabado de chover há pouco e havia no ar aquele cheiro agradável a praia depois da chuva, tornando muito apetecível um pequeno passeio pelo areal. Mas tinha prometido à minha Mulher uma tarde inteirinha de praia em Golf Shores, no Alabama, onde o tempo parecia estar bem melhor, e ainda tinha umas boas duas de estrada pela frente…


Antes de partir olhei para trás uma última vez.  Tal como na canção, os sinais da tempestade ainda se faziam sentir lá para as bandas de New Orleans.  Não havia raparigas bonitas na praia, mas garanto-vos que as vi entrar no mar…  


Texto e fotografias de Luís Miguel Mira.

domingo, 11 de novembro de 2018

DITOS & REDITOS


Pataca a mim, pataca a ti, e a mim pataca.

Só deuses mortos são deuses sempre.

É preciso andar muito para alcançar o que está perto.

A porta do cinema a porta do paraíso.

Antes que o galo cante.

Isto não tarda passa.

Morto o bicho, acabou-se a peçonha.

Odiamos os outros porque nos odiamos a nós próprios.

sábado, 10 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a Adão e Eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden, a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outro animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo.»

José Saramago em Caim

José Saramago nunca escondeu, e sempre foi dizendo, «que a Bíblia tem umas quantas histórias mal contadas.»

E ainda:

«O que merece crítica pode contar com a minha pessoa.»

Rui Zink escreveu um dia que a «religião é uma coisa demasiado séria para ficar só entregue a especialistas.»

Outra vez Saramago:

«O teólogo Hans Kung disse uma frase que considero definitiva, que as religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros.»

Legenda: capa de Caim publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Clara Ferreira Alves.

ARROZ DE PICA NO CHÃO


Regresso à caminheta e venho a saber depois que o lugar de Assento é estrada abaixo, para ao pé da igreja. Voltamos todos para Braga. Apontei o nome da miúda e o resto. Almoçarada em Gualtar com o Forte e o King- Kong, o motorista, que paga tudo e está simpatiquíssimo comigo e com o Mundo. Frango com arroz, à minhota, uma delícia. Vinho verde, à minhota, uma delícia. Como bundaradas porque adoro arroz de cabidela e vinho verde e minhotas: "Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no lugar de Assento, cá me ficas, mas este arroz marcha à frente!". Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO

«Como já deveríamos saber, a representação mais exacta, mais precisa, da alma humana é o labirinto. Com ela tudo é possível.»

José Saramago em A Viagem do Elefante

Segundo António Mega Ferreira, A Viagem do Elefante é, pura e simplesmente, literatura. E é excelente.»

O livro narra uma viagem de um elefante que estava em Lisboa, e que tinha vindo da Índia, um elefante asiático que foi oferecido pelo nosso rei D. João III ao arquiduque da Áustria Maximiliano II (seu primo). Isto passa-se tudo no século XVI. O elefante tem de fazer essa caminhada, desde Lisboa até Viena, e o que o livro conta é essa viagem. Percorreu milhares de quilómetros e morreu um ou dois anos depois da chegada.

A epígrafe do livro é: «sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.»

E quem nos espera?

«A causa da morte não chegou a ser conhecida, ainda não era tempo de análises de sangue, radiografias do tórax, endoscopias, ressonâncias magnéticas e outras observações que hoje são o pão nosso de cada dia para os humanos, não tanto para os animais, que simplesmente morrem sem uma enfermeira que lhes ponha a mão na testa. Além de o terem esfolado, a salomão cortaram-lhe as partes dianteiras para que, após as necessárias operações de limpeza e curtimento, servissem de recipientes, à entrada do palácio, para depositar as bengalas, os bastões, os guarda-chuvas e as sombrinhas de verão.»

Uma maneira humilhante de morrer.

 Aquelas grossas patas que andaram quilómetros e quilómetros são transformadas em objectos para colocar guarda-chuvas, outras coisas.

Muitas páginas antes, José Saramago descrevera:

«Ensinado, o que se chama ensinado, no sentido de saber mais umas quantas habilitações de circo, não o é, mas costuma comportar-se com a dignidade de um elefante que se respeita.»

Legenda: capa de A Viagem do Elefante publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria do escritor Mário de Carvalho.

PERDIDA ENTRE NOITES E NOITES


E outra vez, ainda no decorrer dessa mesma viagem, durante a travessia desse mesmo oceano, a noite já começara também, aconteceu no grande salão do convés principal o estalar duma valsa de Chopin que ela conhecia de modo secreto e íntimo porque tentara aprendê-la durante meses e nunca tinha conseguido tocá-la correctamente, nunca, o que fizera com que depois a mãe consentisse em deixá-la abandonar o piano. Essa noite, perdida entre noites e noites, disso ela tinha a certeza, a rapariguinha passara-a justamente naquele barco e estava lá quando aquilo aconteceu, esse estalar da música de Chopin debaixo do céu iluminado de brilhantes. Não havia uma aragem e a música espalhara-se por todo o navio negro, como uma imposição do céu de que não se sabia a que propósito vinha, como uma ordem de Deus de que se ignorava o teor. E a rapariga endireitava-se como que para ir por sua vez matar-se, atirar-se ao mar e depois chorara porque pensara naquele homem de Cholen e de súbito não tivera a certeza de não o ter amado com um amor que ela não vira porque se perdera na história como a água na areia e só agora o reencontrava nesse instante da música lançada através do mar.

Marguerite Duras em O Amante

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


 Lembra-me o sujeito que seguia um circo de cidade em cidade. Um dia, perguntaram-lhe: "Porque é que anda atrás deste circo?" "Porque quero ver quando é que o trapezista cai e morre."

José Saramago

SARAMAGUEANDO


«Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.» Assim mesmo. Eu estava lá.»

José Saramago em As Pequenas Memórias.

Era para se ter chamado O Livro das Tentações mas acabou por ficar As Pequenas Memórias.

Saramago «queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou.»

Simplesmente: um livro notável.

«Penso que devo tudo o que sou àquela criança. Foi ela o meu arquitecto.»

Não memórias, mas uma certa memória.

«A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam.»

Legenda: capa de As Pequenas Memórias publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Gonçalo M. Tavares

OLHAR AS CAPAS


O Caso da Noiva Curiosa

Erle Stanley Gardner
Tradução: Marcello de Andrade
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 29
Livros do Brasil, Lisboa s/d

A mulher estava nervosa. Durante alguns momentos, os seus olhos sustentaram o olhar do advogado; depois desviaram-se desdenhosamente para as estantes de livros enfileirados contra a parede, como os olhos de um animal que contemplasse os barrotes de uma jaula.
- Sente-se – disse Perry Mason.
Ele estudou-a com a liberdade de exame que desenvolvera durante anos de exploração dos mais escusos recessos da mente humana – não somente da das testemunhas como também da dos seus clientes.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto. despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto. debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.»


Maria Alzira Seixo tem, sobre o livro, uma interessante abordagem: «é um romance divertido, pois que nos pode dar maior satisfação do que rir à custa da morte, a única coisa no mundo que não faz rir ninguém, a não ser em esgar ou exorcismo?»

José Saramago também não anda longe:

«Foi um livro escrito com alegrai. Falar da morte e dizer que o fiz com alegria,,, É uma alegria que vem não só pelo tom irónico, sarcástico às vezes, divertido, mas também porque é como se me sentisse superior à morte dizendo-lhe: «Estou a brincar contigo.»

E em outro passo refere:

O livro empurra uma porta aberta. Diz aquilo que todos já sabemos: que temos de morrer. Mas talvez mostre, com mais clareza, que temos que morrer para viver. Se não, a vida seria insuportável.

A um químico do futuro, exigiu Maiakowski:

«A primeira coisa que farás é ressuscitar-me, a mim que tanto amava a vida.»

Luis Filipe Cristóvão:

«No fundo, acabamos sempre por chorar a nossa dor, nunca a dos outros, mesmo que a nossa dor seja causada pela dor dos outros, é a nossa dor, é a nossa dor que choramos.»


Legenda: capa de As Intermitências da Morte publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Valter Hugo Mãe. 

E SE EU FOSSE MÚSICA, MÃE?


Não, nunca escolheria uma canção de amor, nem uma canção que se pudesse cantar. Se ela fosse música, gostaria de ser A Chang is Gonna Comne, de Sam Cooke.
«I was born by the river in little tent…»
Não tanto pelas conotações da luta Americana anti-racista, essas só as aprendeu mais tarde, mas porque falava em rio e também ela tinha nascido junto a um rio.
«And just like that river, I’ve been runnin’ ever since.
Só que ela nasceu junto a um rio de ocaso, onde as águas já perderam a pureza alcalina das origens e vêm corrompidas de sais, sódios, resíduos e outras metástases de poluição.

Ana Margarida de Carvalho em Que Importa a Fúria do Mar

terça-feira, 6 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO



«Posso fazer-lhe também uma pergunta. Ora essa, senhor presidente, à vontade. Votou em branco, Anda a fazer um inquérito, Não, é só uma curiosidade, mas se não quiser não responda. O homem hesitou um segundo, depois, sério, espondeu, Sim, senhor votei em branco, que eu saiba não é proibido. Proibido não é, mas veja o resultado. O homem parecia ter-se esquecido do amigo imaginário, Senhor presidente, eu, pessoalmente, não tenho nada contra si, sou até capz de reconhecer que tem feito bom trabalho na câmara municipal, mas a culpa disso a que está a chamar resultado não é minha, votei como me apeteceu, dentro da lei, agora vocês que se amanhem, se acham que a batata escalda, soprem-lhe.»

José Saramago em Ensaio Sobre a Lucidez.

A apresentação de “Ensaio Sobre a Lucidez”. em Março de 2004, no Centro de Congressos de Lisboa decorreu, perante milhares de pessoas, com um debate moderado por José Manuel Mendes, e que contou com a presença de José Saramago, José Barata Moura, Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa.

Algures, numa não nomeada cidade, há eleições autárquicas. É grande a afluência às urnas mas, após a contagem dos votos, verifica-se que a esmagadora maioria dos votos estão em branco. Nem governo, nem políticos, nem comentadores políticos, nem jornalistas compreendem a situação e interrogam-se: como pode um povo ser tão irresponsável?

José Saramago nunca perdeu uma oportunidade de se constituir num gerador de polémicas, de modo algum fúteis e nunca estéreis, e com este livro, de um mero exercício com o seu quê de curioso, quiçá ineditismo, os habituais detractores de Saramago levaram o caso para a provocação.

Título do Público de 31 de Março de 2004:

«Saramago recusa democracia e a apela ao voto em branco.»

Ao tempo, Augusto Santos Silva, hoje ministro dos Negócios Estrangeiros, dos escrevia, também no Público, que o nobel menorizava a literatura.

«O voto em branco é uma arma democrática que possuímos para impedir os políticos de continuarem a brincar connosco.», disse Saramago.

«Digamos que pôs a estopa e eu contribuí com o prego, e que a estopa e o prego juntos me autorizam a afirmar que o voto em branco é uma manifestação de cegueira tão destrutiva como a outra. Ou de lucidez, disse o ministro da justiça, Quê, perguntou o ministro do interior, que julgou ser ouvido mal, Disse que o voto em branco poderia ser apreciado como uma manifestação de lucidez por parte de quem o usou, Como se atreve, em pleno conselho do governo, a pronunciar semelhante barbaridade antidemocrática, deveria ter vergonha, nem parece um ministro da justiça, explodiu o da defesa. Pergunto-me se alguma vez terei sido ministro da justiça ou de justiça, como neste momento, Com um pouco mais ainda me vai fazer acreditar que votou em branco, observou o ministro do interior ironicamente, Não, não votei em branco, mas pensá-lo-ei na próxima ocasião.»


Legenda: capa de Ensaio Sobre a Lucidez publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Dulce Maria Cardoso.

CONTIGO NÃO HÁ DISTÂNCIA


«Não consigo lembrar-me como é que era antes de te conhecer. Eu era sempre assim? Lembro-me de mim perdido. Quanto a isso nenhuma dúvida. Deambulando. De nada em nada. De alucinada em alucinada. Permanecendo, por vezes, apenas o tempo suficiente para compreender que o desnorte delas era mais pronunciado do que o meu. Pelo menos é assim que elas me aparecem. Mas não me lembro de estar assim nervoso como estou agora; assim em frangalhos. Observava-as muito de longe, muito à distância: pedradas, ensaiando banhos de esponja nos seus lavatórios; aparando bolas pretas de haxixe com lâminas de barbear; movendo-se como rainhas em câmara lenta. Depois, transformavam-se em raparigas em quintais de já lá vai muito tempo, desfazendo-se em risinhos e aninhando as longas pernas debaixo do aconchego dos seus corpos: a maneira como se afundavam sobre os seus macios calcanhares e depois meneavam muito o cabelo como cavalos sacudindo as caudas.
Mas contigo não há distância. Todos os movimentos que fazes, sinto-os como se viajasse na tua pele; as tuas espreitadelas da janela, como se tu estivesses completamente sozinha e sonhando num outro tempo qualquer. De nada me serve dar aos braços a dizer adeus. Agora, está tudo ao contrário.»

Sam Shepard em  Atravessando o Paraíso.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«O que por aí mais se vê, a ponto de já não causar surpresa, é pessoas a sofrerem com paciência o miudinho escrutínio da solidão, como foram no passado recente exemplos públicos, ainda que não especialmente notórios, e até, em dois casos, de afortunado desenlace, aquele pintor de retratos de quem nunca chegamos a conhecer mais do que a inicial do nome, aquele médico da clínica geral que voltou do exílio para morrer nos braços da pátria amada, aquele revisor de imprensa que expulsou uma verdade para plantar no seu lugar uma mentira, aquele funcionário subalterno do registo civil que fazia desaparecer certidões de óbito, todos eles, por casualidade ou coincidência, formando parte do sexo masculino, mas nenhum que tivesse a desgraça de chamar-se Tertuliano.»

José Saramago em O Homem Duplicado

Ainda hoje, e depois de uma segunda leitura, continuo à volta com este livro e ainda não encontrei o fio à meada.

Haverá fio? Haverá meada?

Saramago;

«Digo às vezes que o mais importante nas minhas obras são as epígrafes. O leitor não fique por aí; leia e pense.»

Na contracapa lê-se:

«O caos é uma ordem por decifrar.»

Legenda: capa de O Homem Duplicado publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de Lídia Jorge.