O
futebol, obviamente, jamais será como aquele futebol que comecei a ver aos 5
anos quando, pela mão do meu avô, entrei na velha estância de madeira, no Campo
Grande, para assistir ao primeiro jogo
da minha vida.
Tudo
é hoje muito diferente. Até os meus olhos.
Depois
de ter sido dispensado, Jorge Jesus está em via de regressar como treinador do
Benfica.
Os
números divulgados são pornográficos.
O
Benfica colocou de início em cima da mesa a possibilidade de efectuar um contracto
de longa duração, de quatro anos, com um salário da ordem dos 2 milhões de euros líquidos por ano.
Jesus
fez saber que pretendia, pelo menos, 3,5 milhões de euros anuais líquidos.
Verba
que a SAD aceita pagar mas baixando o número de anos de contracto, podendo
ficar pelos três anos.
Ao
renovar com o Flamengo, o emblema brasileiro antecipou a Jorge Jesus o
pagamento de 1 milhão de euros em salários, verba essa que o Benfica já aceitou
pagar para que o treinador reembolse o Flamengo.
Além
disso o Benfica terá ainda de pagar o valor da cláusula de rescisão junto do
Flamengo, sendo que o seu valor ascenderá também a cerca de 1 milhão de euros, verba
inscrita a título indemnizatório aquando da renovação do treinador caso
surgisse oferta de trabalho de determinados clubes da Europa.
A
isto tudo, que não é pouco, ainda existem as habituais exigências de Jorge
Jesus para a contratação de jogadores, que ele entende serem verdadeiros craques
da bola.
Se
a denúncia que motivou a rusga não falava de haxixe, aludia abertamente a
cocaína. A Guàrdia Civil chega depois do pôr-do-sol e desembesta casa dentro com
animosidade semelhante àquela com que os primeiros maiorquinos lançavam
saraivadas de pedras sobre os botes estrangeiros que ousavam aproximar-se da
costa. A festa foi interrompida (decorria, claro, uma festa). Na pista
improvisada do jardim, os pares dançam ao som de If I Had You. Al Bowlly contagia a noite, irradiando swing e frases de amor
espirituosas, sobrepondo-se ao retinir dos cálices e às gargalhadas que
concorrem com o rodopiar dos corpos. Quando a voz do crooner é amordaçada sem
aviso, ninguém entende a razão da afasia ou dá sequer pela presença da Guàrdia,
excepto a anfitriã que, tentando fazer valer os seus privilégios de viúva
americana e milionária, desfere em espanhol o seu último argumento:«Usted no
sabe quén soy yo?»
De
um lado a Colecção Vampiro com O Caso da
Vela Torcida da autoria de Erle Stanley Gardner, no outro lado um volume da
Colecção Argonauta, que reunia os Grandes Romances de Ficção Científica, com Estação de Trânsito de Clifford D.
Simak.
Esta capa também é da autoria de Infante do Carmo.
Perry
Mason abriu a porta do seu escritório e sorriu para Della Street que limpava os
recantos da sua secretária com a solicitude dos bons empregados.
-
Bom dia, chefe – disse ela.
Mason
pendurou gravemente o chapéu, dirigiu-se para a sua secretária, e olhou para o
correio disposto em três pilhas diferentes, na primeira das quais se encontrava
um lembrete onde estava escrito: «Deve ser lido, mas pode ser respondido sem
que me dite a resposta». Na terceira pilha, de apenas meia dúzia de cartas,
lia-se: «Para ler e responder pessoalmente».
Della
Street entrou para o gabinete pegado ao de Mason. Deixou cair o pano da limpeza
numa gaveta da sua secretária e regressou ao gabinete de Mason, para aguardar,
de lápis em riste e boloco-notas sobre a perna cruzada, que pricipiasse o
ditado e estenografar.
Mason
começo a pilha de cartas que lhe requeriam atenção pessoal. Leu a primeira e,
fazendo uma pausa para olhar pela janela o céu limpo da Califórnia, disse
subitamente:
-
É sexta-feira, Della.
Della
aprovou com a cabeça, mas mantendo o lápis pronto a escrever.
-
Por que será – perguntou Mason de repente – que é sempre à sextas-feiras que
executam os assassinos?
-
Provavelmente porque acham que começar um dia à sexta-feira dá azar – respondeu
Della.
Aquele que amei tive de deixar no sítio
mesmo onde nunca soube perdoar:
aí persiste observando o rancor
que lhe impede a respiração da pele
até ao dia em que se desfará —
pedaços de lepra contra a consciência.
Pratico com ele a indiferença, exigente
solução de diluir o que não irá mudar.
Aquele que instintivamente toquei
não deu mais satisfações;
imagino-o absorto numa oficina
com um escopro ou um compasso
descrevendo a solidão, satisfeito consigo.
ou no convívio de terceiras pessoas.
Por ele, sem que que tenha esquecido,
disciplinei o corpo a emudecer.
Aquele a quem um instante quis chegar
não fica, antecipa partidas, vai
e volta, vai mais vezes do que volta;
retira as esperanças, logo não desilude:
quando vem traz o coração aberto
e os braços um tanto ocupados.
Admito com ele ter suspendido
a fraqueza em virtude do acanho.
Aquele a quem não pedi nada
e que invoco às manhãs,
aparece todavia pelas tarde com notícias
e tempo, que estende em desafogo aparente,
às vezes na cama demora quanto quer
e deixa os lábios no meu ombro.
Trato com ele a justiça que suscita
o que reconhecemos e não nos interroga.
No
New York Times de 1 de Junho de 1940,
poderia ler-se:
«Enquanto
a língua inglesa existir, a palavra Dunkerque tem de ser pronunciada com
reverência…»
A
retirada de Dunquerque tem o nome de código «Operação Dínamo».
Com
as tropas aliadas cercadas pelos alemães em terras de França, a que se junta a
perspectiva de uma clara derrota, o governo britânico determina a evacuação de
cerca de 45 mil homens, depois alterada para 120 mil homens, acabando por serem
evacuados 338.226 homens.
O que impressiona nas fotografias que registam a retirada, são os milhares de homens ao longo da costa que, com coragem e disciplina, esperam a chegada dos pequenos barcos, que são iates, barcos de recreio, rebocadores do RioTamisa, que os iriam transportar para os contratopedeiros que tiveram de ficar ao largo, ao mesmo tempo que eram bombardeados pela aviação alemã.
Há
algum desconforto numa certa alegria então sentida, quando Winston Churchill
afirma:
«As
guerras não se vencem com evacuações.»
Segundo
as pesquisas de Richard Collier, os ingleses perderam 68 111 homens – mortos,
feridos ou prisioneiros de guerra. Ainda segundo Collier em termos grosseiros,
40 000 homens, alguns dos quais franceses, goram feitos prisioneiros. Dos
feridos em campanha, 8 061 britânicos e 1 230 aliados forma evacuados para
Inglaterra e apenas 1,7 por cento dos feridos acabariam por morrer.
RichardCollier, a abrir, diz-nos que o livro não é a narrativa completa de Dunkerque: «apenas a história de um grupo de pessoas
cujas vidas estiveram ligadas àquela semana fatal. Não abrange todos os factos
nem sequer aproximadamente; ninguém poderia descrever com exactidão o gigantesco
êxodo que durou nove dias e envolveu bastantes milhões de homens e mulheres. E
visto que as próprias pessoas se encontraram muitas vezes em estado de choque,
ocupadas ou desnorteadas de mais para anotarem os seus gestos hora a hora, até
as estatísticas fundamentais têm se der encaradas com reservas.»
O
que se passou em Dunkerque, continua a ser um mistério para os historiadores da
Segunda Guerra Mundial. Uma das teses é que Hermann Göring teria garantido a
Hitler que a Luftwaffe sozinha faria os britânicos se renderem, o que não
aconteceu. Outra tese seria de que Hitler queria mais uma vez tentar um acordo
de paz com os ingleses, e por isso ordenou o cessar fogo.
«No
dia 1 de Junho, Hitler, visitando de passagem o quartel-general Von Bock em
Bruxelas, encontrara o comandante do Grupo B so exército melancólico e reservado.
Sentindo-se talvez constrangido, o Fuhrer deu-se ao cuidado de explicar: «Você
provavelmente está surpreendido por eu ter mandado parara as divisões de
tanques mas receava um ataque francês no Sul e não era possível sofremos aí um
desaire.»
Quando
o general Von Kleist, dos Panzers, se lhe queixou do mesmo mais tarde, Hitler
foi petulante: «É provável! Mas eu não quis enviar os Panzers para os pântados
da Flandres e não quero ouvir falar mais dos ingleses nesta guerra!»
Teria
o Fuher, até ao fim, desejado poupar os ingleses , como pensava Von Rundstedt?
Ou calculara mal o poder de luta dos franceses e o pavor dos pântanos da
Flandres obrigara-o a meter travões no momento vital? A evidência sugere que
estes motivos, assim como a amior parte dos homens, foram inextricavelmente
confudos mas uma coisa é certa: o grosso da hierarquis do exército esperava uma
paz negociada daí a algumas semanas.»
Perante
o que se sabe, e sobre a retirada de Dunquerque, é escusado falarmos de
milagres.
Porque não existem, simplesmente!
Apenas
o silêncio do medo.
Do
que se passara até então, do que estava para acontecer.
O
sapador Thomas Marley teve o maior choque da sua vida. Desde o momento em que o
seu comandante, o major Adams, lhe disse: «Dirija-se para Dunquerque», ele
ficou convencido de que a sua companhia de sapadores tinha por qualquer motivo
caído em desgraça e estava a ser reenviada para Inglaterra.
Agora,
estremecendo sob a chuva torrencial na praia de Dunquerque, com a ´gua pela
cintura enquanto ajudava a meter as padiolas em pequenos barcos, Marley era um
dos milhares que já pensavam diferentemente. Não era apenas a sua companhia que
regressava. Era todo o exército.
Aqueles
pontos luminosos perfurando a escuridão quando ele chegou à parai não eram
pirilampos mas soldados – incontáveis milhares deles – acendendo silenciosamente
cigarros. O tinir estrondeante, arrasador dos nervos, como um malho batendo
numa bigorna, eram os canhões de 4 polegadas dos destroyers matraqueando os
Heinkels e os Messerschmitts. O leve e sobrenatural zumbido, como o vento
soprando nos fios do telégrafo, era o lamento dos feridos que Marley ajudava a
socorrer.
«Leva-me
o mais levemente que possas», disse um homem a Marley com realismo. «Sei que
estou a morrer.» Para marley, como para milhares de outros, este era o momento
da verdade.
Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluguer e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
mudando-me a mim?
Na crónica anterior disse-vos que para
uma mais ampla divulgação da “Folk Music” foi determinante a ação de muitos
etnomusicólogos que andaram no terreno a recolher essas canções e que depois as
publicaram em livro, contendo a letra e a música, acompanhadas de informações
acerca da sua origem.
Já vos mostrei a capa e já vos falei
aqui de “Slave Songs of the United States”, que Francis Allen, Charles Ware e
Lucy Garrison publicaram em 1867 e que é considerada a primeira obra dedicada
à música negra a ser publicada nos Estados Unidos.
Disse-vos, igualmente, que Francis Child
havia sido o primeiro a divulgar a música de origem anglo-saxónica, através da
sua obra “The English and Scottish Popular Ballads”, publicada em 5 volumes
entre 1882 e 1898. Ainda hoje essas canções são conhecidas como “Child Ballads”
e em muitos discos de “Folk Music” contemporâneos é usual serem
identificadas não só pelo seu próprio nome, como também pelo número de ordem
que Child lhes atribuiu na sua antologia.
Já no séc. XX, entre 1916 e 1918, foi o
inglês Cecil Sharp, acompanhado pela sua ajudante, Maud Karpelles, quem andou
pelo Sul dos Apalaches, na Virginia, na Carolina do Norte, no Kentucky e no
Tennessee a recolher essas músicas de origem anglo-saxónica e a compará-las com
os originais britânicos. Sharp escreveu diversos ensaios sobre o tema,
nomeadamente “English Folk Songs From the Southern Appalachians”, contendo 274
canções e publicado em 1932, já depois da sua morte.
Entretanto, em 1910, já John Lomax tinha
publicado, nos Estados-Unidos, “Cowboy Songs and Other Frontier Ballads”, com
um prefácio do Presidente Theodore Roosevelt. Nas décadas seguintes John Lomax
faria, com o apoio do seu filho Allan, não só diversas outras obras do género,
como este “Folk Song USA” que vos mostro, publicado em 1947, como também
gravações no terreno que viriam a integrar o “Archive of American Folk Music”
da Biblioteca do Congresso, da qual era Curador e Consultor.
Mas a mais célebre de todas estas
antologias publicadas nos Estados Unidos acabou por se tornar “The American
Songbag”, que o poeta e musicólogo Carl Sandburg publicou em 1927, e da qual
vos mostro o exemplar da minha coleção, numa edição de 1990.
Como vos referi, todas estas publicações
teciam alguns comentários acerca da origem e da evolução das canções. Das que
conheço, a mais detalhada, nesse aspeto, é a dos Lomax.
Todos esses homens foram, de facto,
verdadeiros “caçadores de canções”, e “Songcatcher” é, precisamente, o nome de
um filme realizado pela americana Maggie Greenwald em 2000, que é a única obra
de ficção que conheço que retrata esses tempos e esses lugares.
O filme conta-nos a história de Lily
Penleric, uma etnomusicóloga professora numa universidade americana que,
sentindo-se prejudicada na evolução da sua carreira por ser mulher, decide
mandar tudo às urtigas e ir passar uma temporada a Clover, nos Apalaches, onde
a sua irmã mais nova é voluntária numa escola local.
Aí chegada começa a estabelecer
contactos com diversas pessoas da vizinhança e a ficar entusiasmada com as
canções que elas cantam e com a forma como o fazem, que nada tem a ver com a
tradição académica a que estava habituada das músiquinhas tocadas ao piano.
De imediato lhe surge o desejo de fazer
uma recolha cientifica dessas canções (a expressão é dela…), não só registando
a sua letra e música, mas também gravando o que conseguisse gravar.
Com a apoio de um amigo da sua antiga
universidade, consegue que lhe seja emprestado um aparelho de gravação, tipo
fonógrafo de Thomas Edison, com os respetivos cilindros.
Agora tinha todas as condições para
entrar na História, demonstrando aos seus colegas “académicos” as sua
capacidades para fazer aquilo que eles nunca haviam feito, isto é, uma recolha
direta das canções no campo, o seu “registo cientifico” e a sua interpretação.
E andou, literalmente, de fonógrafo às
costas pelos Apalaches acima...
O filme passa-se na região de Asheville,
na Carolina do Norte, que visitei, e vemos a jovem professora chegar de comboio
e depois ter de ir de carroça até ao seu destino, por um autêntico caminho de
cabras.
Ao chegar vai deparar-se com o estado de
miséria e de atraso em que vive toda essa população, e vai ter de conquistar a
sua confiança até que eles aceitem submeter-se às suas gravações.
Mas o filme não é maniqueísta e tanto
retrata os habitantes locais como seres ética e moralmente irrepreensíveis,
como nos mostra comportamentos irracionais, incompreensíveis e até de pura
violência, muitos deles guiados por uma cega fé religiosa.
O “casting” foi bem feito, as
interpretações são boas, a fotografia é bonita, as belas paisagens dos
Apalaches são valorizadas, mas sem excessos de “bonitinho”e todo o ambiente das
montanhas dos Apalaches é muito bem retratado, com aqueles
casinhotos de madeira de que vos falei,
as carências de vária ordem com que se debate a população, o oportunismo de
quem vem do exterior e quer fazer bons negócios imobiliários à custa da
ignorância dessa gente e das suas necessidades de sobrevivência, etc.
A música é bastante bem valorizada, com
interpretações que seguem o padrão da época e a forma como as canções, os
instrumentais e as “barn dances” são introduzidas é muito subtil e bem
adequada.
Mas a determinada altura o filme
descamba numa série de historietas de amor paralelas sem pés nem cabeça e
absolutamente dispensáveis…
É como se a realizadora tivesse sentido
que apenas com o tema da recolha das canções o filme não tinha “pernas” para se
aguentar e precisasse de uma muleta romântica…
O certo é que o filme acaba aí e nunca
mais se levanta, o que é pena porque, como vos disse, é o único filme de ficção
que conheço que aborda este tema absolutamente central na história da
“folk-music” norte-americana.
Salvou-se, porém, a banda sonora, em que
clássicos dessa época são cantados por intérpretes contemporâneos, como Emmylou
Harris, Iris Dement, Rosanne Cash, Gillian Welch, Maria McKee Patty Loveless e
Dolly Parton, embora, que me lembre, apenas duas apareçam no próprio filme.
E, como sempre sucede nos
Estados-Unidos, coisas destas são sempre pretextos para novos lançamentos de
músicas mais antigas, pelo que poderemos fazer, com este CD “Songcatcher II”
que vos mostro, um perfeito contraponto entre as versões contemporâneas destas
músicas dos Apalaches constantes do outro CD e estas mais antigas,
interpretadas por veneráveis personalidades de que vos falei no último texto,
como Doc Watson, Almeda Riddle, Hobart Smith, Doc Boggs, Roscoe Holcomb,
Clarence Ashley e Maybelle Carter.
Embora a memória desses incansáveis
“caçadores de canções” justificasse coisa mais digna, o filme merece ser visto
e colará que nem uma luva a que tenha tido a paciência de ler o meu último
texto até ao fim.
Tanto mais que o filme acaba com a nossa
professora numa carroça, com o novo namorado que encontrou nas montanhas. Ele
tem boa figura, canta e toca bem diversos instrumentos, e vão a caminho da
cidade com o intuito de gravarem essas músicas que ninguém conhece, porque lhes
palpita que não tarda muito elas vão começar a suscitar um grande
interesse...
PS:
“Songcatcher” ganhou um prémio no
Festival de Sundance, nos Estados Unidos, e teve uma carreira honrosa nesse
país.
Não teve estreia em Portugal e, segundo
penso, nunca por cá foi visto, na televisão, na Cinemateca ou em sessões
especiais.
Um hoje que nunca é hoje,
um amanhã que é já ontem
entre ontens que se perdem
no anteontem dos anos
no tresantontem dos lustros...
Que é notícia?
Amanhã acontecido,
notícia é sempre um depois,
é um a viver vivido...
Que é notícia?
Notícia é devoração!
Aí vai ela pela goela
que há-de engolir tudo e todos!
Aí vai ela, lá foi ela!
Nem trabalho de moela
retém notícia...
Notícia sem coração!
Que é notícia?
Cão perdeu-se! Por que não?
Cão achou-se! Ainda bem!
Ainda melhor, por sinal,
se o cão perdido e o achado
forem um só e o mesmo
«lidos» no mesmo jornal!
Que é notícia?
Damos notícia um ao outro
do nosso interesse comum.
Fui Cavalheiro amanhã.
Ontem Senhora serás.
Como eu não há nenhum!...
Que é notícia?
Quando o primeiro tortulho
se abre no céu (silhueta
que em símbolo se tornará)
onde estou, estouvava eu?
Estava com a tia Henriqueta...
Que é notícia?
Fechada para balanço,
tia Queta dormitava.
Com a folhinha nos joelhos,
do tortulho, que treslera,
já em feto se engelhava...
Que é notícia?
Das convulsões deste mundo
dava meu pai a versão:
- Ailitla por toda a Europa...
O guarda-roupa, meu filho,
varia, a tragédia não...
Que é notícia?
O bom do velhote ia
na terceira dentição...
Que é notícia?
Alcatruz que se abalança
a tornar à sua água?
Já o de Éfeso sabia:
não se molha duas vezes
o lenço na mesma mágoa...
Que é notícia?
Notícia em primeira mão
na minha mão infantil:
o papagaio empinado
no claro céu da manhã,
meu jornal publicado
por cima de tanto afã...
A pandemia alastra pelo mundo, ainda há
quem efusivamente se divirta, mas a esmagadora maioria tem o seu viver feito em
estilhaços, outros enfrentam o frágil jogo de equilíbrio entre não se sabe bem o
quê, mas não está longe de se encaminhar para trágicos desfechos.
Em França, um motorista de autocarro
morreu na sexta-feira, depois de ter ficado em morte cerebral na sequência de
um violento ataque por parte de passageiros, isto depois de lhes ter
pedido que utilizassem máscara como medida de prevenção contra o novo
coronavírus.
1.
Neste domingo, Lisboa derreteu-se de
calor.
Há dias, um tipo, que cheguei a pensar
estar a fazer qualquer coisa por aí, chafurdar em dinheiro, por exemplo, menos
ter que o ouvir dizer barbaridades, Durão Barroso de seu nome, um tempão
decorrido, 100 mil mortos e tudo o resto que é muito, assumiu que a realização
da Cimeira das Lages, e o apoio à invasão do Iraque pelos Estados Unidos, foi
um erro, e ainda deu para nos dizer que não foi esse apoio que o levou a ser
presidente da Europa.
O Expresso,
numa das suas primeiras páginas, informava que a sociedade de advogados SRS,
liderada por Pedro Rebelo de Sousa, vai juntar-se à AAA Sociedade, de que Dulce
Franco, antiga secretária do governo de Durão Barroso, é socia fundadora.
Juntos serão mais fortes, pois então.
O orçamento retificativo, o último
documento preparado por Mário Centeno, indica uma previsão de recessão de 6,9%
do PIB este ano, com retoma para um crescimento de 4,3% em 2021. Das 263
propostas que a Oposição apresentou só passaram 35.
2.
Continua o calor infernal.
António Costa olha os tempos difíceis:
Tap, Efacec, Novo Banco, parte do Partido Socialista, grande parte mesmo, a não
compreender porque não apresenta um candidato do partido às presidenciais, o
que levou o ministro Pedro Nuno Santos a dizer que se isso não acontecer terá que
votar no candidato do BE ou do PCP, enquano os incêndios que começam a rebentar com meio
mundo a dizer que nada foi feito para os prevenir e combater.
3.
Sobre o que se passa no Brasil muito
pouco se sabe, mas é certo que o
COVID-19 assaltou Bolsonaro e, à data, entrou nos 1.643.539 brasileiros atacado pela tal «gripezinha».
O governo investiga agora o jornalista que desejou que Bolsonaro morresse.
4.
José António Saraiva foi condenado por
devassa da vida privada.
A jornalista Fernanda Câncio é uma das
indemnizadas. Autor do livro "Eu e os políticos", que foi retirado do
mercado por ordem judicial, foi condenado a 180 dias de multa à taxa diária de
30 euros: 5400 euros e a pagar indemnizações aos autores da queixa e
assistentes no processo, a jornalista Fernanda Câncio e um seu ex-namorado no
valor de 15 mil euros cada.
O livro "Eu eos Políticos - O que não pude (ou não quis) escrever até hoje", foi publicado
pela Gradiva em Setembro de 2016.
José António Saraiva, que não se cansa
de dizer que será um dos próximos Prémio Nobel da Literatura, ainda não disse se
recorrerá da sentença.
5.
Portugal comprou pelo menos 627 mil
máscaras FFP (modelos mais avançados, para uso dos profissionais de saúde em
contacto com as pessoas infetadas) sem certificado de qualidade ou com um
certificado de qualidade duvidoso, revelou o jornal Público. O fenómeno
repetiu-se por toda a Europa, uma vez que durante a pandemia da Covid-19 a
União Europeia aliviou os critérios de certificação para permitir a rápida
aquisição do material necessário: nesta altura, não é obrigatório que o
equipamento tenha a indicação CE (que garante o cumprimento das normas
europeias), embora vendedores e compradores tenham de assegurar a qualidade das
máscaras, sujeita a fiscalização.
6.
Títulos ao acaso.
Primeira página do Público de 6 de Julho.
7.
Com 92 anos, morreu Enio Morricone, autor
de inúmeras bandas sonoras, tendo trabalhado com grandes realizadores e vendido
mais de 70 milões de discos.
Lisboa, Maio de 2019, fez
parte das cidades que assistiram à digressão mundial da sua
despedida dos palcos.
8.
No dia 5 de Julho morreu o realizador Alfredo Tropa. Um dos seus notáveis trabalhos para a televisão chama-se
Povo Que Canta.
Para o cinema realizou, em 1970,Pedro Só, uma adaptação sua da obra de Manuel Mendes Pedro – Romance Dum Vagabundo, em que contou com a colaboração de
Fernando Assis Pacheco e Afonso Praça. As canções do filme têm poemas
de Ferando Assis Pacheco, música de Manuel Jorge Velosos e são cantadas por
Manuel Freire,
Para assinalar os 10
anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar
alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
MARCHAS,DANÇAS E CANÇÕES
Em Setembro de 1945, a casa de João José
Cochofel, no Senhor da Serra, em Semide,
juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João
José Cochofel.
Na conta capa do disco, explica ao que vinham essas canções:
«O que são as “Canções Heróicas” que, pela primeira vez, se oferecem ao
público editadas em disco? Resumidamente, podemos dizer que são obrinhas de
circunstância ou, se quisermos ser mais explícitos e sem temer o uso rigoroso
das palavras, defini-las-emos como canções politicamente empenhadas.
Politicamente empenhadas no sentido, ou na medida, em que pretenderam
contribuir – e cremos que de facto contribuíram – para a luta do povo
português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime despótico,
anti-democrático e violentador de corpos e almas que durante cerca de cinquenta
anos lhe foi imposto.»
Um ministro de Salazar disse:
«É mais perigoso um mi bemol de Lopes
Graça do que mil panfletos subversivos.»
«Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo
para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:
-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide… - Há por lá alguma pensão?
- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber
hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da
Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou
instalar-me.
Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José
Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.»
Novamente José Gomes Ferreira:
«Por esses dias, com tantos poetas às ordens, ensejou-se a Fernando Lopes
Graça realizar um velho sonho que expôs em meia dúzia de frases sóbrias aos
circunstantes. Queria letras para canções. Marchas, danças, rondas infantis,
hinos… O que nos apetecesse. Contanto que não nos demorássemos muito, pois a
inspiração já ardia.»
Esgotada a inspiração dos poetas
circundantes, Fernando Lopes Graça implorou o auxílio a Coimbra (Joaquim
Namorado, Arquimedes, Ferreira Monte) e a Lisboa, donde acudiram ao chamamento
Mário Dionísio, Armindo Rodrigues e Edmundo Bettencourt.
Texto publicado em 29 de Março de 2017
Legenda:
Na primeira fotografia vêem-se João José Cochofel, Fernando Lopes Graça e José
Gomes Ferreira.
Na segunda fotografia João José
Cochofel e Carlos de Oliveira.
Para assinalar os 10
anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar
alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES
No dia 28 de Maio, às 11 horas, um grupo de escritores
entregou no Ministério da Educação Nacional o seguinte documento: Exmo Senhor Ministro da Educação Nacional
Contra a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores e contra a campanha de
descrédito que pretende desvirtuar a independência e a isenção dessa Sociedade,
os escritores abaixo assinados vêm solenemente protestar perante V. Exa. E
declarar que são inteiramente solidários com o comportamento digníssimo
assumido pela Direcção da Sociedade e com o júri escolhido pela unanimidade dos
corpos gerentes eleitos em 1965, que de acordo com os estatutos e a tendendo a
um critério meramente estético, concedeu o Grande Prémio de Novelística de 1964
ao livro “Luuanda”. Tal critério meramente estético foi, de resto, o que
informou outros júris na atribuição de prémios a diversas obras do mesmo autor,
e até ao livro “Luuanda”, agora galardoado pela Sociedade Portuguesa de
Escritores.
Com efeito, já em 1961, 1962, 1963 e em 1964, textos de Luandino Vieira foram
respectivamente premiados pela Sociedade Cultural de Angola (1º Prémio do
Conto), pela Casa dos Estudantes do Império (1º Prémio João Dias) pela
Associação dos Naturais de Angola – que neste momento tanto se insurge contra a
atribuição do prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, (1º
e 2º Prémios de Conto) e, ainda há poucos meses, o 1º Prémio Mota Veiga. O
facto destas instituições terem considerado exclusivamente o valor estético da
Obra de Luandino Vieira e a circunstância muito significativa de o livro agora
laureado pela Sociedade Portuguesa de Escritores ser exactamente o mesmo que em
1964 obteve, em Angola, o referido Prémio Mota Veiga, estando já condenado e
preso o seu autor, reforçam sem dúvida a idêntica posição do júri do Grande
Prémio de Novelística. Sendo assim, e dado que nunca foi levantado acerca
daqueles prémios qualquer protesto relacionado com a conduta cívica de Luandino
Vieira, nem extinta nenhuma das entidades que lhos concedeu, é licito presumir
que a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores manifesta estar ela a ser
vítima de medidas especiais de discriminação cultural.
Os signatários exprimem a sua veemente repulsa pelo atentado à liberdade do
espírito patente na campanha tendenciosa empreendida contra a Sociedade
Portuguesa de Escritores. Solicitam portanto a V. Exª a reabertura da mesma
sociedade e a garantia de que os membros do júri não serão sujeitos a pressões
de qualquer natureza. Parece-lhes também inteiramente justo e necessário que V.
Exª mande proceder a um inquérito rigoroso sobre os desacatos praticados na
sede da Sociedade Portuguesa de Escritores por um grupo de indivíduos que
deverão ser responsabilizados pelos prejuízos materiais e morais resultantes da
sua repugnante acção."
O documento está assinado por 161 escritores portugueses.
Dias antes, já os escritores-capachos-do-regime se tinham apressado a
apresentar as suas demissões de associados da Sociedade Portuguesa de
Escritores.
Gente menor, obviamente,
Alguém conhece Maria do Carvalhal?
Mas em “A Voz” de 23 de Maio de 1965 lia-se esta notícia: “A escritora D. Maria do Carvalhal (D. Maria dos Prazeres Carvalhal), ao
tomar conhecimento dos motivos por que foi mandada encerrar a sede da Sociedade
Portuguesa de Escritores, pediu telegraficamente a sua demissão de sócio
daquela colectividade.”
Do documento-protesto não consta o nome da escritora Agustina Bessa Luís.
José Gomes Ferreira no III volume dos “Dias Comuns” dá-nos uma
pista: «Quando da dissolução da Sociedade Portuguesa de Escritores, a Sophia de
Mello Breyner pediu-lhe a assinatura para o natural protesto dos escritores.
Como já se calculava, a Agustina Bessa Luís recusou. Com uma carta modelar de
quem queria fingir que não recusava.
A Sophia leu-ma. E não resisti a dizer-lhe (ou a pensar que lhe dizia):
-Mande-a encaixilhar e pôr na parede. É um auto-retrato triste de quem não quer
ter perfil.»
Carson Clay, o Director da Cadeia Central de Massachussets, sentou-se
na cama, sobressaltado. O seu rosto de traços enérgicos estava banhado de
suores frios. Tinha o pijama colado ao corpo baixo e entroncado.
O pesadelo que o acordara era medonho e tentou recordá-lo, coçando a
cabeça grisalha. Lembrou-se de um modo vago de parte do sonho, que se
dissipava rapidamente na sua memória. A casa fora cercada por presos, de
uniformes de ganga, armados com automáticas de calibre 45.