sábado, 27 de março de 2021

OLHAR AS CAPAS


 O Testamento

Fiama Hasse pais Brandão

Capa: José da Câmara Leme

Colecção Novos Dramaturgos nº 2

Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1962

A moral desta história é, para o público, um pau de dois bicos. É a moral da injustiça e a moral da justiça, a moral da razão e a da prepotência. Cada qual tirará a moral a seu modo, conforme o conteúdo do porta-moedas. Num teatro, a moral é directamente proporcional ao preço do assento.

Hoje apenas tenho uma notícia para todos: Só o medo subsiste. Agora só o medo resiste ainda. Em todos os bancos só os cheques do medo têm cobertura. É medo que abre trincheiras contra o futuro, o medo da paz que comanda as batalhas. A pólvora do medo alastra pela nossa cidade. O medo devora o medo.

Só pelas mãos a vitória é possível. Só as mãos, o suor, os corpos, hão-de arrombar os cofres do luxo e do excesso do medo.

CONVERSANDO


Nunca teve certezas de nada, também sabe que não serve de exemplo para ninguém.

Ainda no outro século, o médico que lhe prestava assistência no posto da Junta de Freguesia, perguntou-lhe por vacinas, fossem elas quais fossem. Tirando as que teve que tomar durante a tropa, nunca mais as frequentou. É conveniente, por Outubro, tomar a vacina contra a gripe, disse-lhe o médico. Nunca está engripado, acabou por responder. Mas pode vir a estar, ripostou. Se tiver que ser, vamos a isso e, a partir daquele ano, por Outubro vacina-se.

Os tempos agora são de pandemia. Aguarda que o chamem para ser vacinado contra o Corvid-19.

Não consegue entender como há gente-anti-vacinas. Tanta gente, mesmo.

Não lhes chama qualquer nome mas, pensa, que não estão a agir correctamente. Contudo, se não querem ser vacinados, pelo menos não incitem os outros a seguir o mesmo caminho.

Omar Khayyam, um poeta e astrónomo persa que morreu com 83 anos, escreveu esta frase:

«Se os que amam o vinho e o amor vão para o inferno, então o paraíso deve estar vazio.»

Está um bonito dia de sol, a temperatura está bem amena.

Que bem sabe ouvir I Love you, Porgy neste velho EP.

Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.

DESDE HÁ MUITO QUE SOMOS PRISIONEIROS


Desde há muito que somos prisioneiros,

mortos muito antes de nascermos,

heróis predestinados ao silêncio das cadeias e à pobreza.

As notícias de beleza que nos chegam são erradas,

e baionetas crescem a cercar-nos.

Sitiados é que somos, embora

nenhuma baioneta evite o voo e o gesto de ir além.

Junto às portas, janelas e canteiros,

o arame farpado da propriedade alheia.

Pouco mais,

além da madrugada oferecida em prenúncio de esperança.

Prisioneiros das cidades e das vozes,

Somos ainda mais cercados de os amigos o serem também, e até as flores.

Nunca entretanto sobre nós pode a força

Dos arames cortantes e das grades,

Que sob os pés pisados o abismo

Nunca é bastante para s nossas asas.

 

Eduardo Valente da Fonseca em 71 Poemas

sexta-feira, 26 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


«Debati-me diante da tua face como a fêmea do açor no seu primeiro cobrimento. Mas a tua saliva vestiu-me de branco o dentro do corpo.

Maria Velho da Costa em Corpo Verde 

NÃO SEI QUANTOS SÃO MUITOS


-Há coisas preciosas que me foram tiradas e criaram uma situação que nem com muito trabalho posso ultrapassar, et cetera. Está a perceber o que eu quero dizer?

- Não estou a perceber muito bem. Refere-se só ao envelhecer, ou há mais qualquer coisa em particular?

- Acho que só me referia ao envelhecer.

- Agora percebo.

- Isto está a dar cabo de mim, portanto o melhor é ir-me embora. Não vou obedecer ao meu impulso de tentar beijá-la.

- É melhor não.

- Não nos levaria a lado nenhum.

- Tem razão. Mas foi bom que tivesse cá vindo esta tarde. Foi muito bom.

- Você é uma sedutora?

- Não, não, de maneira nenhuma.

- Tem um marido, tem um amante, e agora quer ter-me a mim como amigo. Colecciona homens? Ou são os homens que a coleccionam a si?

- Acho que já colecionei homens e eles já me coleccionaram a mim.

- Você só tem trinta anos. Já colecionou muitos homens?

- Não sei quantos são muitos.

- Quero eu dizer, desde que deixou a faculdade, entre a festa de fim de curso e esta tarde, que terminou consigo a colecionar-me com o seu poder de sedução… Mas agora está a comportar-se como uma criança, como ase não tivesse esse poder. Nunca ninguém lhe disse que tinha esse poder?

- Já me disseram. Mas agora estava-me a rir porque se você se considera um homem coleccionado, não sei como hei-de contar os homens que já colecionei.

 

Philip Roth em OFantasma Sai de Cena

OLHAR AS CAPAS


Os Funerais da Mamã Grande

Gabriel Garcia Márquez

Tradução: E.B.

Publicações Europa-América, Lisboa s/d

A inquietação começou em Julho, quando a Sr.ª Rebeca, uma viúva amargurada que vivia numa imensa casa de dois corredores e nove quartos, descobriu que as persianas das janelas estavam rasgadas como se tivessem sido apedrejadas da rua. A primeira descoberta foi feita no seu quarto, e pensou que deveria falar sobre aquilo com Argénida, sua criada e confidente desde que o seu marido morrera. Depois, revirando os seus trastes (pois havia muito tempo que a Sr.ª Rebeca não fazia outra coisa senão revirar os seus trastes), descobriu que não só as persianas do seu quarto, mas todas da casa estavam estragadas.

ORAÇÃO PELO MESSIAS


O seu sangue no meu braço é quente como um pássaro

o sei coração na minha mão pesado como chumbo

Os seus olhos através dos meus brilham mais que o amor

Oh manda-nos o corvo antes da pomba Senhor

 

A sua vida na minha boca é menos que um homem

a sua morte no meu peito é mais pesada que pedra

Os seus olhos através dos meus brilham mais que o amor

Oh manda-nos o corvo antes da pomba senhor

 

Oh manda-nos o corvo antes da pomba Senhor

Oh canta apesar das algemas do fundo dessa prisão

os teus olhos através dos meus brilham mais que o amor

o teu sangue detém a morte desta canção

 

Oh canta apesar das algemas do fundo dessa prisão

Os teus olhos através dos meus brilham mais do que o amor

O teu coração na minha mão é pesado como chumbo

o teu sangue no meu braço é quente como um pássaro

 

Oh que rompa entre os teus ramos o ramo verde do amor

depois do corvo ter morrido em vez da pomba do Senhor  


Leonard Cohen em  Filhos da Neve

quinta-feira, 25 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


Um erro precisa de ser chamado de erro e precisa de ser corrigido.

Angela Merkel

OLHAR AS CAPAS


O Duelo

Anton Tcheckoff

Tradução: Cordeiro de Brito

Prefácio; Adolfo Casais Monteiro

Capa: Augusto Gomes

Vasco Rodrigues, Editor, Porto 1938

- Minha querida, estou comovida e consternada. O nosso bondoso e querido doutor disse ontem ao meu Nikodine Alexandreitch que o seu marido morreu. Diga-me, minha querida! Mas há males que vem por bem. O seu marido era sem dúvida nenhuma um homem nobre, excepcional; um santo. E os homens como êle são mais precisos no céu do que na terra.

PORQUE ESCREVEMOS?


Porque escrevemos?, pergunta em uníssono o grande coro de quem escreve.

Porque não nos podemos limitar a viver.

Porque choras? – pergunta uma voz.

- Não sei – respondo. – Certamente é porque me sinto feliz.

No comboio, continuo a escrever febrilmente, como se tivesse ressuscitado de um mar de recordações. O Alain desvia os olhos do livro e olha pela janela. O tempo contrai-se. Quase sem nos darmos conta, estamos a chegar a Paris. O Aurélien dorme.

Ocorre-me a ideia de que os jovens parecem belos quando estão a dormir, ao passo que os velhos, como eu, parecem já mortos.

Patti Smith em Devoção

CANTO POPULAR


A mulher que me prepara a carne

é  tão bela como o sol.

Mas o cavalo que eu cavalgo

é mais belo do que todas as mulheres.

                       Aiá ah!

 

Eu quero que me queimem um braço

se me roubarem o meu cavalo!

O meu cavalo e eu, eu e o meu cavalo

Somos um único e mesmo ser.

                      Aiá ah!

 

Quando percorre cem léguas,

todo o seu pêlo espuma

como a neve na Primavera!

E relincha de contentamento!

                    Aiá ah!

 

As raparigas nas tendas

escutam o vento a galopar

e dizem uma para as outras:

Lá vai Purev com o seu cavalo branco!

                   Aiá ah!

 

Canto popular da Mongólia, traduzido por António Ramos Rosa em

Rosa do Mundo 

quarta-feira, 24 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


Não fales, se o que vais dizer não for tão importante como o silêncio.

Provérbio árabe

OLHARES


O Armindo dizia sempre que era no Tagarro que se comiam as melhores pataniscas de bacalhau.

O Helder Pinho dizia que ao Tagarro não ia porque havia lá uma empregada que era informadora da PIDE.

A tristeza invadia o rosto do Armindo, que acrescentava que comíamos só as pataniscas, não falávamos de política.

O Helder perguntava como se podia jantar sem falar de política.

Tudo acabava na cave de um tasco que havia ali ao fundo da Calçada do Carmo, junto àquelas escadinhas que dão acesso à Rua 1º de Dezembro, o «Adriano», chamava-se o tasco. Nunca havia pataniscas, e o Helder falava sempre dos planos para, num ápice, deitar o Salazar abaixo.

O Armindo para fugir à guerra, deu o salto para Grenoble e nunca mais dele ouvimos falar.

O Salazar, por um Verão, batera com a cabeça no chão da esplanada de um forte junto ao Tejo, pancada de que veio a morrer.

Foram uns militares que, cansados de muita coisa, deitaram o Marcelo abaixo.

Quando depois encontrei, na rua, o Helder mandou-me à cara que tinha que ser a merda dos militares!

Tive a vaga ideia de saber o que ele queria dizer, mas não me lembro do que então lhe disse. Ainda não lera Philip Roth:

«Ninguém sabe a verdade de uma pessoa, e com muita frequência a própria pessoa menos do que as outras.»

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Há mais de um ano que não vou ao cinema.

Como nasce o desespero dos dias?

Estamos neste desespero há mais de um ano.

Quanto mais tempo?

Depois de tantos sacrifícios, depois de a situação aliviar um pouco, seremos os mesmos?

Que filme terei visto no S. Jorge naquela 5ª feira de 1 de Setembro de 1966?

Eu, que, nas costas do bilhete, até colocava o filme que tinha ido ver, com quem.

Desta vez está tudo em branco.

Colaboração de Aida Santos

OLHAR AS CAPAS


O Enigma das Cartas Anónimas

Agatha Christie

Tradução: Maria do Carmo Pizarro

Capa: Lima de Freitas

Colecção Vampiro nº 320

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Tenho recordado muitas vezes a manhã em que recebemos a primeira carta anónima.

Chegou quando tomávamos o pequeno-almoço e abria-a com o modo ociosos de alguém para quem o tempo passa devagar e deve fazer render ao máximo cada acontecimento. Reparei que era uma carta local com o endereço escrito à máquina. Abri-a primeiro que as outras duas, ambas com o carimbo postal de Londres, por uma delas ser, sem sombra de dúvida, uma conta, e, na outra, ter reconhecido a letra de uma das minhas maçadoras primas.

Agora parece estranho recordar que Joana e eu ficámos mais divertidos com a carta do que com outra coisa qualquer. Nessa altura, não tínhamos a mínima suspeita do que estava para vir – uma senda de sangue e violência, de suspeita e medo. 

RUA DO SÉCULO, 79


Os gradeamentos das janelas

negam a quem os contempla da rua

qualquer sugestão de vida

a ser vivida por trás das grades.

Os caixilhos de ferro forjado

sugerem locutórios de um convento

da mais ascética austeridade,

como se o espaço (cujo acesso

as grades peremptoriamente vedam)

fosse votado por inteiro a extremos

exacerbados de misticismo e de penitência.

Mas também se pressentem salões escuros,

onde paira sempre o cheiro fresco a encerado,

ou a perfume de rosas e noz-moscada;

paredes revestidas de damasco,

cobertas de grandes telas,

paisagens campestres e naturezas mortas.

Medalhões de talha dourada, segurados

por fitas de seda listrada a duas cores;

silhuetas de damas coroadas de peruca,

fantasmas da corte da Rainha Louca,

móveis nas suas molduras de tartaruga e charão.

Frederico Lourenço em Resumo:a poesia em 2010

terça-feira, 23 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


Quando alguém conta um dia ou uma vida está a calar quase tudo, as vidas são imensas e não se podem contar só por palavras. Haveria que inventar artes de encher o silêncio e de descobrir nele o peso certo do que somos. O que se é só se pode encontrar no que não é dito, nas culpas deixadas dentro, nos castigos que se vão escolhendo.

Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

Legenda: imagem Shorpy

OLHARES


Não fica longe, mas as pernas, destes tempos já não têm aquela facilidade de caminhar de outrora.

Conheci-a no Bairro Alto e estava à mão de semear.

A livraria Ler Devagar abriu portas mo ano de 1999. Depois a especulação imobiliária levou-os para a Lx Factory em Alcantara.

Fui lá algumas vezes mas já há muito que não a visito.

A falta que mais faz

A raiz, o nome, dizem tudo: «Tudo o que é bom é feito devagar ou com vagar».

Uma deliciosa linha de pensamento.

«Espero que os compradores de livros se tenham apercebido de que é melhor comprar livros nas livrarias de bairro ou de rua do que nos centros comerciais», disse José Pinho um dos fundadores da Ler Devagar.

OLHAR AS CAPAS


O Cônsul Honorário

Graham Greene

Tradução: Maria Ondina Braga

Capa: José Cândido

Livraria Bertrand, Lisboa, Outubro de 1973

O doutor Plarr, criado pelo pai com os livros de Dickens e de Conan Doyle, achava os romances do doutor Jorge Julio Saavedra difíceis de ler, mas considerava o esforço como parte das suas obrigações de médico. Dentro de alguns dias teria um dos seus usuais jantares com o doutor Saavedra no Hotel Nacional e devia aprontar-se para fazer qualquer comentário sobre o livro que ele lhe tinha tão calorosamente dedicado: «Ao meu amigo e conselheiro doutor Plarr, este meu primeiro livro para lhe mostrar que nem sempre fui um romancista político, e para revelar, como só se pode fazer a um amigo íntimo, o primeiro fruto da minha inspiração.» O doutor Saavedra, na realidade, não era nada taciturno, mas o doutor Plarr suspeitava de que ele se considerava um Moreno manqué Talvez fosse significativo o facto de ter dado a Moreno um dos seus nomes de baptismo…

TIRAR O VÉU A CARTAS DESTA VALIA


A capa do precioso livrinho já mereceu um Olhar.

Hoje, reproduzo as palavras que os editores, Emanuel Carneira e Paulo da Costa Domingues, colocam no prefácio. No meio de todo o lixo que por aí campeia, sabem bem estas palavras:

«Tem-se, por vezes, a sorte de ler aquilo que poetas e editores entre si trocam de mensagens. Fala-se de livros, fala-se do como dar a ler a oficina poética em páginas límpidas. Conspira-se sobre esboços a legar ao Futuro. Tem-se, por vezes, sorte. A sorte de testemunhar da fábrica, a sorte de sermos nós o autêntico destinatário, o alvo verdadeiramente cultural de preocupações e minúcias editoriais. Cuja implícita pedagogia é de agradecermos.
Aqui, numa toada que nos faz lembrar o bailado felino de dois gigantes criativos que se respeitam mutuamente e que, mutuamente, procuram eles (e encontram) o melhor terreno para a travessia dalguma arte vinda do outro lado do oceano. E se é um triângulo o que aqui temos, não é ele o buraco negro sorvedouro de matéria, mas, isso sim, o triângulo “amoroso” revelador do espírito de uma época culta irrepetível. Tirar o véu a cartas desta valia, que circunstâncias várias acabam, tantas vezes, por votar a uma invisibilidade perene – não fosse a acção dos que se dedicam, com obstinado entusiasmo, à preservação de arquivos e da memória histórica – favorece, pois, a possibilidade de enquadrar, de avivar protagonismos, de desenterrar detalhes dessa extraordinária aventura humana, poética e/ou editorial.
Em cena: Mário Cesariny, poeta-ex-editor proponente de um original inédito do poeta brasileiro Sérgio Lima, a Vitor Silva Tavares, editor-poeta e guardião do Subterrâneo Três. O livro a que tudo se refere – Aluvião Rei – sairia chancelado & etc, no mês de Setembro de 1992.
Da transcrição dos manuscritos, vai aproximativamente diplomática.»

LEAVIN'TOWN


Ao fazer a mala reparou que pouco

levava daquela lúgubre cidade.

Alguns vestidos, as primeiras frésias

que tivera de presente, agora murchas,

uma dezena de exemplares de Moody

que lhe serviam para amortalhar o resto.

 

Se é que alguma coisa restava, pensou

junto ao aparador, enquanto no espelho

se perdia o fogo ruivo dos cabelos,

sublinhado pelo negrume do olhar.

Ao ajoelhar-se sobre a mala, escreveu,

em vez do seu nome, «Goodbye to love».

 

Era também a sua única morada,

até que a morte ou a chuva a apagassem.

 

Manuel de Freitas em resumo: a poesia em 2011

 

Legenda: fotografia Shorpy

segunda-feira, 22 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


Na vida, há sempre comédia na tragédia e vice-versa.

Angelica Huston

QUOTIDIANOS


Quando foi trabalhar para a agência, ficávamos dispostos em pequenos gabinetes, só mais tarde foi criado um open space.

 Mas no tempo dos gabinetes, um chefe e quatro trabalhadores, até dava para ouvir a respiração de cada um.

O Esteves, a cinco anos da reforma, passava noites e noites de insónias. 

Volta e meia adormecia frente à máquina de escrever.

- Então, Esteves, que é isso?

- Desculpe Sr. Rolo, mas almocei favas!...

OLHAR AS CAPAS


Os Dados Estão Lançados

Jean-Paul Sartre

Maria Luísa Vieira da Rosa

Capa: F.C.

Editorial Presença, Lisboa, Outubro de 1972

Pedro, que não teve ainda possibilidade de dizer palavra, subitamente dá vazão à sua Cólera e olha os mortos com um ar de desafio.

- E então? O que é que isso prova? Que vocês falharam na vossa vida?

Os mortos respondem todos em uníssono:

- Vocês também, Falhámos, pois decerto. Todas as pessoas falham na vida.

O velho que esteve silencioso desde que chegou ao quarto, toma a palavra e a sua voz domina a confusão:

- Falha-se sempre a vida, no momento em que se morre.

- Sim, quando se morre cedo de mais – exclama Pedro.

- Morre-se sempre demasiado cedo…,  ou demasiado tarde. 

DÁDIVA


A flor que me não deste

e, esquiva, recusaste,

naquela tarde triste,

- uma rosa amarela

debruçada na haste –

foi afinal aquela

a flor que me entregaste,

pra sempre me entregaste,

naquela tarde triste,

naquela tarde agreste!...

Saúl Dias