A moral desta história é, para o público, um pau de
dois bicos. É a moral da injustiça e a moral da justiça, a moral da razão e a
da prepotência. Cada qual tirará a moral a seu modo, conforme o conteúdo do
porta-moedas. Num teatro, a moral é directamente proporcional ao preço do
assento.
Hoje apenas tenho uma notícia para todos: Só o medo
subsiste. Agora só o medo resiste ainda. Em todos os bancos só os cheques do
medo têm cobertura. É medo que abre trincheiras contra o futuro, o medo da paz
que comanda as batalhas. A pólvora do medo alastra pela nossa cidade. O medo
devora o medo.
Só pelas mãos a vitória é possível. Só as mãos, o
suor, os corpos, hão-de arrombar os cofres do luxo e do excesso do medo.
Nunca teve
certezas de nada, também sabe que não serve de exemplo para ninguém.
Ainda no outro
século, o médico que lhe prestava assistência no posto da Junta de Freguesia, perguntou-lhe
por vacinas, fossem elas quais fossem. Tirando as que teve que tomar durante a
tropa, nunca mais as frequentou. É conveniente, por Outubro, tomar a vacina
contra a gripe, disse-lhe o médico. Nunca está engripado, acabou por responder.
Mas pode vir a estar, ripostou. Se tiver que ser, vamos a isso e, a partir daquele
ano, por Outubro vacina-se.
Os tempos agora
são de pandemia. Aguarda que o chamem para ser vacinado contra o Corvid-19.
Não consegue
entender como há gente-anti-vacinas. Tanta gente, mesmo.
Não lhes chama
qualquer nome mas, pensa, que não estão a agir correctamente. Contudo, se não
querem ser vacinados, pelo menos não incitem os outros a seguir o mesmo caminho.
Omar Khayyam, um
poeta e astrónomo persa que morreu com 83 anos, escreveu esta frase:
«Se os que amam
o vinho e o amor vão para o inferno, então o paraíso deve estar vazio.»
Está um bonito
dia de sol, a temperatura está bem amena.
Que bem sabe
ouvir I Love you, Porgy neste velho EP.
Numa entrevista
ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco
Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos
minutos de jazz, o José Duarte respondeu:
Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24
horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos
70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a
tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal,
expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe
contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que
eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia
caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio
orgulhoso.
Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a
Lisboa, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.
-Há coisas
preciosas que me foram tiradas e criaram uma situação que nem com muito
trabalho posso ultrapassar, et cetera.
Está a perceber o que eu quero dizer?
- Não estou a perceber
muito bem. Refere-se só ao envelhecer, ou há mais qualquer coisa em particular?
- Acho que só me
referia ao envelhecer.
- Agora percebo.
- Isto está a dar
cabo de mim, portanto o melhor é ir-me embora. Não vou obedecer ao meu impulso
de tentar beijá-la.
- É melhor não.
- Não nos levaria a
lado nenhum.
- Tem razão. Mas
foi bom que tivesse cá vindo esta tarde. Foi muito bom.
- Você é uma
sedutora?
- Não, não, de
maneira nenhuma.
- Tem um marido,
tem um amante, e agora quer ter-me a mim como amigo. Colecciona homens? Ou são
os homens que a coleccionam a si?
- Acho que já colecionei
homens e eles já me coleccionaram a mim.
- Você só tem
trinta anos. Já colecionou muitos homens?
- Não sei quantos
são muitos.
- Quero eu dizer,
desde que deixou a faculdade, entre a festa de fim de curso e esta tarde, que
terminou consigo a colecionar-me com o seu poder de sedução… Mas agora está a
comportar-se como uma criança, como ase não tivesse esse poder. Nunca ninguém
lhe disse que tinha esse poder?
- Já me disseram.
Mas agora estava-me a rir porque se você se considera um homem coleccionado,
não sei como hei-de contar os homens que já colecionei.
A inquietação começou em Julho, quando a Sr.ª Rebeca,
uma viúva amargurada que vivia numa imensa casa de dois corredores e nove
quartos, descobriu que as persianas das janelas estavam rasgadas como se
tivessem sido apedrejadas da rua. A primeira descoberta foi feita no seu
quarto, e pensou que deveria falar sobre aquilo com Argénida, sua criada e
confidente desde que o seu marido morrera. Depois, revirando os seus trastes
(pois havia muito tempo que a Sr.ª Rebeca não fazia outra coisa senão revirar
os seus trastes), descobriu que não só as persianas do seu quarto, mas todas da
casa estavam estragadas.
- Minha querida,
estou comovida e consternada. O nosso bondoso e querido doutor disse ontem ao
meu Nikodine Alexandreitch que o seu marido morreu. Diga-me, minha querida! Mas
há males que vem por bem. O seu marido era sem dúvida nenhuma um homem nobre, excepcional;
um santo. E os homens como êle são mais precisos no céu do que na terra.
Porque escrevemos?,
pergunta em uníssono o grande coro de quem escreve.
Porque não nos
podemos limitar a viver.
Porque choras? –
pergunta uma voz.
- Não sei –
respondo. – Certamente é porque me sinto feliz.
No comboio,
continuo a escrever febrilmente, como se tivesse ressuscitado de um mar de
recordações. O Alain desvia os olhos do livro e olha pela janela. O tempo
contrai-se. Quase sem nos darmos conta, estamos a chegar a Paris. O Aurélien
dorme.
Ocorre-me a ideia
de que os jovens parecem belos quando estão a dormir, ao passo que os velhos,
como eu, parecem já mortos.
O Armindo dizia sempre que era no Tagarro que se comiam as melhores pataniscas de bacalhau.
O Helder Pinho dizia que ao Tagarro não ia porque
havia lá uma empregada que era informadora da PIDE.
A tristeza invadia o rosto do Armindo, que acrescentava
que comíamos só as pataniscas, não falávamos de política.
O Helder perguntava como se podia jantar sem falar de
política.
Tudo acabava na cave de um tasco que havia ali ao fundo
da Calçada do Carmo, junto àquelas escadinhas que dão acesso à Rua 1º de
Dezembro, o «Adriano», chamava-se o tasco. Nunca havia pataniscas, e o Helder
falava sempre dos planos para, num ápice, deitar o Salazar abaixo.
O Armindo para fugir à guerra, deu o salto para Grenoble
e nunca mais dele ouvimos falar.
O Salazar, por um Verão, batera com a cabeça no chão da
esplanada de um forte junto ao Tejo, pancada de que veio a morrer.
Foram uns militares que, cansados de muita coisa, deitaram o Marcelo abaixo.
Quando depois encontrei, na rua, o Helder mandou-me à
cara que tinha que ser a merda dos militares!
Tive a vaga ideia de saber o que ele queria dizer, mas
não me lembro do que então lhe disse. Ainda não lera Philip Roth:
«Ninguém sabe a verdade de uma pessoa, e com muita
frequência a própria pessoa menos do que as outras.»
Tenho recordado
muitas vezes a manhã em que recebemos a primeira carta anónima.
Chegou quando
tomávamos o pequeno-almoço e abria-a com o modo ociosos de alguém para quem o
tempo passa devagar e deve fazer render ao máximo cada acontecimento. Reparei
que era uma carta local com o endereço escrito à máquina. Abri-a primeiro que
as outras duas, ambas com o carimbo postal de Londres, por uma delas ser, sem
sombra de dúvida, uma conta, e, na outra, ter reconhecido a letra de uma das
minhas maçadoras primas.
Agora parece
estranho recordar que Joana e eu ficámos mais divertidos com a carta do que com
outra coisa qualquer. Nessa altura, não tínhamos a mínima suspeita do que
estava para vir – uma senda de sangue e violência, de suspeita e medo.
Quando alguém conta
um dia ou uma vida está a calar quase tudo, as vidas são imensas e não se podem
contar só por palavras. Haveria que inventar artes de encher o silêncio e de
descobrir nele o peso certo do que somos. O que se é só se pode encontrar no
que não é dito, nas culpas deixadas dentro, nos castigos que se vão escolhendo.
Não fica longe, mas as pernas, destes tempos já não têm aquela
facilidade de caminhar de outrora.
Conheci-a no Bairro Alto e estava à mão de semear.
A livraria Ler
Devagar abriu portas mo ano de 1999. Depois a especulação imobiliária levou-os
para a Lx Factory em Alcantara.
Fui lá algumas vezes mas já há muito que não a visito.
A falta que mais faz
A raiz, o nome, dizem tudo: «Tudo o que é bom é feito devagar ou com vagar».
Uma deliciosa linha de pensamento.
«Espero que os compradores de livros se
tenham apercebido de que é melhor comprar livros nas livrarias de bairro ou de
rua do que nos centros comerciais», disse José Pinho um dos fundadores da
Ler Devagar.
O doutor Plarr, criado pelo pai com os livros de Dickens e de Conan
Doyle, achava os romances do doutor Jorge Julio Saavedra difíceis de ler, mas
considerava o esforço como parte das suas obrigações de médico. Dentro de
alguns dias teria um dos seus usuais jantares com o doutor Saavedra no Hotel
Nacional e devia aprontar-se para fazer qualquer comentário sobre o livro que
ele lhe tinha tão calorosamente dedicado: «Ao meu amigo e conselheiro doutor
Plarr, este meu primeiro livro para lhe mostrar que nem sempre fui um
romancista político, e para revelar, como só se pode fazer a um amigo íntimo, o
primeiro fruto da minha inspiração.» O doutor Saavedra, na realidade, não era
nada taciturno, mas o doutor Plarr suspeitava de que ele se considerava um
Moreno manqué Talvez fosse
significativo o facto de ter dado a Moreno um dos seus nomes de baptismo…
Hoje, reproduzo as palavras que os editores, Emanuel Carneira
e Paulo da Costa Domingues, colocam no prefácio. No meio de todo o lixo que por
aí campeia, sabem bem estas palavras:
«Tem-se, por vezes, a sorte de ler aquilo
que poetas e editores entre si trocam de mensagens. Fala-se de livros, fala-se
do como dar a ler a oficina poética em páginas límpidas. Conspira-se sobre
esboços a legar ao Futuro. Tem-se, por vezes, sorte. A sorte de testemunhar da
fábrica, a sorte de sermos nós o autêntico destinatário, o alvo verdadeiramente
cultural de preocupações e minúcias editoriais. Cuja implícita pedagogia é de agradecermos.
Aqui, numa toada que nos faz lembrar o bailado felino de dois gigantes
criativos que se respeitam mutuamente e que, mutuamente, procuram eles (e
encontram) o melhor terreno para a travessia dalguma arte vinda do outro lado
do oceano. E se é um triângulo o que aqui temos, não é ele o buraco negro
sorvedouro de matéria, mas, isso sim, o triângulo “amoroso” revelador do
espírito de uma época culta irrepetível. Tirar o véu a cartas desta valia, que
circunstâncias várias acabam, tantas vezes, por votar a uma invisibilidade
perene – não fosse a acção dos que se dedicam, com obstinado entusiasmo, à
preservação de arquivos e da memória histórica – favorece, pois, a
possibilidade de enquadrar, de avivar protagonismos, de desenterrar detalhes
dessa extraordinária aventura humana, poética e/ou editorial.
Em cena: Mário Cesariny, poeta-ex-editor proponente de um original inédito do
poeta brasileiro Sérgio Lima, a Vitor Silva Tavares, editor-poeta e guardião do
Subterrâneo Três. O livro a que tudo se refere – Aluvião Rei – sairia chancelado & etc, no mês de
Setembro de 1992.
Da transcrição dos manuscritos, vai aproximativamente diplomática.»