domingo, 11 de abril de 2021

LIBERTAÇÂO


Descerão por paredes sangrentas

e subirão do asfalto

ganindo com um prego na língua

com os pulsos atados às patas

sobre pulmões raivosos em barcos de esterco

e não olharão nem para baixo nem para o alto

mas para a frente

para o horizonte de fatias vermelhas

e para trás

para os afogados sem mar sem terra natal sem paisagens marinhas

cada um com um buraco em seu peito

esguichando palavras estridentes

descerão atravessando gargantas

e subirão pela espinha a golpes de jejum

descerão empurrando palavras

transportando-as ao pescoço como cintos de salvação

abrindo crateras nas cabeças queridas

e olhos nos olhos dos aflitos

subirão do asfalto

transparentes e feridos

com os olhos nas mãos

a cabeça no sangue

chegarão aos pares ligados pela boca

com um estandarte negro seguro nos dentes

e descerão sempre cada vez mais e cada vez mais alto

até chegar à orla do inferno chorarem as últimas lágrimas e partirem de vez

António José Forte de 40 Noites de Insónia em Poesia Portuguesa do Pás-Guerra

sábado, 10 de abril de 2021

POSTAIS SEM SELO


O meu passatempo favorito é deixar passar o tempo, aproveitar o meu tempo, perder o tempo, viver a contratempo.

Françoise Sagan 

OLHAR AS CAPAS


As Inumeráveis Águas

Nuno Júdice

Capa: Dorindo Carvalho

Colecção Cadernos Peninsulares nº 6

Assírio & Alvim, Lisboa Abril de 1974


Dobro o joelho perante o poema. Mais precisamente,

não só o joelho, mas o corpo todo, e as mãos, até formar

os dois termos de uma figura em cuja interpretação

gastei os olhos e o espírito. Mas o impulso criador libertou-me

desse efémero exercício, atraindo-me ao domínio

da especulação mais abstracta sobre as palavras,

unido em figuras de outro tipo os objectos mais diversos

e contraditórios. Obtive assim um estranho universo,

não o reflexo ou a imagem deste, mas por vezes o seu contrário,

e outras vezes algo que já se situava depois (ou antes)

e em que o brilho intenso do ser original contaminava

o próprio gesto verbal ou poético, despertando-me da letargia

da vida comum, incitando-me ao contacto físico

com essas outras realidades essenciais e primitivas.

Pouco depois, porém, voltando a mim, levantava-me

recuperando o sentido geral do mundo e do acaso. A relação

entre a chávena de café e dois dedos, o polegar

e o indicador, da mão direita, prendia toda a minha

atenção; e ao tactear o rebordo ainda quente,

como se cumprisse um culto, descia vertiginosamente

para dentro da vida, onde finalmente me surpreendia

quieto, com a respiração baixa e o olhar fixo

na súbita revelação de nada.

O MAIS CLÁSSICO DRY-MARTINI


Sardi’s, fun­dado em 1921. No Sardi’s bebia-se o mais vibrante, o mais clássico dry-martini, generoso e geladíssimo gin com meia-gota de vermute bianco seco, gota cortada à faca quando já vai no ar a cair da garrafa para o copo cónico e canónico. Leva-se à boca e logo desliza pela garganta um urso polar que nos transforma o apa­relho diges­tivo na mais ampla e lumi­nosa auto-estrada de desejo e contente melancolia. Bebe-se ao bal­cão do velho bar: era o mais des­pre­ten­si­oso e dinos­sáu­rico bar de Nova Ior­que, com tanto cheiro a casa dos nos­sos avós, que só se levam ao Sardi’s os mais anti­gos e incon­di­ci­o­nais amigos.

Manuel S. Fonseca em A PáginaNegra

AVISO


O homem que nasceu de uma mentira

o homem que cresceu numa sombra de medo

o homem que jantou com o silêncio à mesa

o homem que dormiu entre os braços da angústia

o homem que escreveu o nome na parede do cárcere

o homem que gritou sem que ninguém o ouvisse

o homem que trazia inocência e solidão apenas

o homem que devorou sua própria pureza

o homem que cuspiu desesperado na rosa

o homem que bateu desesperado nos filhos

o homem que beijou desesperado a mulher

o homem que ficou sem cova junto ao muro

o homem que trocou por um ovo um amigo

espera-te       ainda te espera

António Rebordão Navarro em Notícias do Bloqueio nº3, Dezembro 1957 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

POSTAIS SEM SELO


A solidão é boa para não se estar sozinho.

José Gomes Ferreira 

Legenda: pintura de Edward Hopper

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Se o cidadão-português-vulgar-de-lineu já muitas dúvidas tinha em relação à Justiça portuguesa, irá deitar-se, esta noite, ainda mais depressivo, apreensivo, amedrontado.

Da leitura pública do despacho de pronúncia, montado pelo juiz Ivo Rosa, 6.700 páginas de prosa, da acusação do Ministério Público contra José Sócrates, Ricardo Salgado e outros, ressalta que a maior parte das acusações já prescreveram, outras o juiz entende que o Ministério Público não fez com competência o seu trabalho.

Apenas 5 dos 28 arguidos vão a julgamento.

Sócrates será  julgado por seis crimes: três de branqueamento de capitais e três de falsificação de documentos, Ricardo Salgado será julgado por três crimes de abuso de confiança, Armando Vara será julgado por um crime de branqueamento de capitais, João Perna, o motorista de Sócrates, será julgado por detenção de arma proibida.

O juiz Ivo Rosa reduz, quase a cinzas, o megaprocesso, Operação Marquês, elaborado pelo Ministério Público, que vai recorrer da decisão.

Este processo que já demorou sete anos e qualquer coisa, arrisca-se a ser concluído lá para o ano 2026.

A justiça portuguesa sai arrasada e desfeita desta diatribe de Ivo Rosa que, ao que dizem os entendidos-más-línguas tem contas a ajustar com o Ministério Publico e com o Juiz Carlos Alexandre e aproveitou a oportunidade para os deitar abaixo. O que poderia ser dirimido num qualquer tasco, teve, durante a tarde do dia de hoje, o palco da Campus Justiça, os holofotes das televisões.

Já o entardecer acontecia na cidade, quando as televisões ainda apanharam Sócrates, numa esplanada do Parque das Nações, com os seus advogados, a beber uns fininhos e a comer umas sandes mistas em pão de forma.

Não resistiu em afirmar que «todas as grandes mentiras da acusação caíram» e, cereja no topo do bolo,  quer voltar à política.

Chegará?!

E será possível, neste país, alguém ser condenado por corrupção?

1.

 Foi hoje anunciado que a 92.ª edição da Feira do Livro de Lisboa vai realizar-se entre 26 de Agosto e 12 de Setembro, no Parque Eduardo VII, com as mesmas condicionantes do ano passado. mas o importante é que os livros venham para a rua, possam ser olhados, folheados.

2.

Um restaurante em Lisboa abriu, na quarta-feira, ilegalmente as suas portas para que um grupo de gente famosa pudesse assistir à transmissão televisiva do Porto com o Chelsea.

Não li a notícia, apenas o cabeçalho.

Alguém foi preso? Alguém pagou multas?

Há dias, um desgraçado foi multado pela Polícia Municipal, à porta da leitaria do bairro, porque estava a comer «gomas».

3.

Nos últimos 45 anos fecharam mais de mil quilómetros de linhas ferroviárias, e três capitais de distrito, Viseu, Vila Real e Bragança ficaram sem acesso ao comboio.

 4.

Disse Ana Sousa Dias:

«O acto amoroso, caramba, é muito mais complicado para um homem do que para uma mulher. Nós temos esse lado de concha sempre pronto, mesmo que o desejo não nos assista, o nosso corpo faz-se pronto, e o deles não, têm de estar sempre a prestar a prova disso. Essa sim, é uma grande diferença.»

UMA RIGOROSA CEGUEIRA MECÂNICA

 

Há meia-dúzia de horas, escrevia a Seve, um viajante deste blogue, que a pandemia, suposta de nos dar outros tempos livres, só nos trouxe tempos mortos. Dramáticos tempos… diga-se...

Lei agora o que sente o Bicho Ruim de Rui Manuel Amaral:

«Embrutecido pelo trabalho e pela ordem monótona das tarefas quotidianas, receio estar a transformar-me num excelente funcionário. À noite, leio umas páginas e não leio nada. Se vejo um filme, não vejo coisa nenhuma. É como se tivesse sido acometido por uma rigorosa cegueira mecânica.»

OLHAR AS CAPAS


O Nariz de Cleópatra

Augusto Abelaira

Capa: Guilherme Casquilho

Livraria Bertrand, Lisboa 1962

Abílio – Não, não gosto de viagens. Mas herdei – ouve, está a ouvir? Herdei uma fortuna, uma fortuna, passo os dias sem nada que fazer.

Mário – Passa os dias como?

Abílio – Sem nada que fazer.

Mário - Que desculpa! Há sempre que fazer, mesmo para um homem rico. Basta o amor ao trabalho…

Abílio – Precisamente! Não tenho amor ao trabalho, talvez por falta de hábito. Compreende… Cresci, passei a adolescência e parte da juventude à espera da morte do meu padrinho, nunca precisei de ganhar o pão de cada dia…

Mário – O seu padrinho ajudava-o?

Abílio – Era um homem superior! Surpreendi-o muitas vezes a olhar para mim, envergonhado por ainda não ter morrido.

Mário – Podia fazer-lhe uma doação…

Abílio – Receava que eu me tornasse ingrato, que o tratasse mal na velhice. Preferiu suicidar-se.

NÃO SE ACORDA UM POVO QUE DORME

Cuidado, pise-se com cautela, porque estamos no cerne das demagogias. Um passo em falso e é-se trucidado. Nesta caverna, há um povo dormente que pode ser açulado por quem conheça a fórmula facílima. Fale-se baixinho e à puridade. Nunca se acorda um povo que dorme.

O povo é sábio? Não - cicie-se -, nunca em parte nenhuma e em nenhum tempo, um povo foi sábio. Há por aí bibliotecas e registos de quatro mil anos de História. Queiram ter a bondade de descobrir um momento qualquer, mesmo fugaz, em que, nesta trapalhada sanguinária e milenar, um povo tenha sido sábio.

Mário de Carvalho em O Que Eu Ouvi Na Barrica Das Maçãs

POESIA DE PAREDE


                  Uma vez exactamente em 1967, em pleno fascismo, à maneira

                  dos «jornais de parede lembrei-me de escrever «poesias de pa-

                  rede», para colar no quarto do meu filho Alexandre.


Alexandre: faz como eu.

Fecha-te nestas quatro paredes,

mas sonha que andas lá por fora

(na terra sem céu)

a matar as sedes

da gente que chora.

 

O moleiro mói melhor a farinha para o pão

no isolamento do moinho,

mas com a condição

 de ouvir bater no coração

o do vizinho.

 

Acredita, Alexandre, que a solidão

é boa para não se estar sozinho

José Gomes Ferreira em APoesia Continua

quinta-feira, 8 de abril de 2021

POSTAIS SEM SELO


 

Os cacilheiros são os habitantes mais simpáticos do Tejo.

Luís Miguel Correia em Cacilheiros

Legenda: fotografia tirada de Cacilheiros

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Sabemos que o botas de Santa Comba, por todos os meios – todos mesmo! – tentou manter o povo no analfabetismo, na incultura e, em grande parte conseguiu o objectivo.

Mas ouve sempre quem colocasse pauzinhos na engrenagem e contribuísse para que o resultado não fosse tão desastroso.

Por aqueles tempos, escritores, jornalistas, editoras, sempre se dispuseram, com sacrifícios de ordem vária, a despertar o gosto pela cultura geral, pela leitura, com a publicação de pequenos cadernos, como esta antologia de autores portugueses e estrangeiros.

Foi assim que muitos tomaram conhecimento com diversos livros e autores e, quando caso disso, partiram à descoberta de outros caminhos.

Estes Cadernos Mercúrio foram publicados nos anos 50. 

Apenas tenho este nº 4 que comprei numa banca que, à entrada do Parque Mayer, vendia revistas e livros usados a preços bem acessíveis. 

A colecção completa supõe-se composta por 8 números. 

Este nº 4 tem contos de José Rodrigues Migueis, O. Henry, Georges Simenon, Giovanni Papaini, Machado de Assis, Pearl S. Buck. Mérimée. Roal Dahl, H. Castro Guimarães, Carneiro Giraldes.

Em Agosto de 2017 a Frenesi Loja colocou à venda sete volumes da Colecção Mercurio e avança outros autores que foram antologiados: «Publicação em série de vários ficcionistas reconhecidos. Para além de autores estrangeiros como Cervantes, Maupassant, Dickens, Hemingway, Roald Dahl, Lermontov, Balzac, Strindberg, Sartre, James Joyce, Poe ou Dostoiewski – onde se destacam ainda mestres do policial como Frank Gruber, Conan Doyle ou Simenon –, também os autores portugueses, entre vivos e mortos, estão amplamente representados, a saber: Trindade Coelho, Manuela Porto, Fialho de Almeida, Guedes de Amorim, Garrett, Branquinho da Fonseca, Rodrigues Miguéis, Manuel da Fonseca, Camilo, etc.».

Os 7 volumes estavam à vanda por 70,00 euros e segundo informação da Frenesi: «exemplares pouco manuseados; miolo limpo».

Legenda: imagem Frenesi Loja

OLHAR AS CAPAS


Mercurio

 Nº 4

Antologia dos Melhores Contos dos Melhores Autores

Tradução: José Villaret e Santino Siragusa

Ilustrações: Henrique Brito

Agência Jornalística e Editorial, Lda, Lisboa s/d

E esse vento, nunca vi nada assim. Diz que vai por aí muito destroço, mortes, inundações. A chuva cai como no cinema. Uma chuva mesmo americana. E os vizinhos a olhar. Que esperam eles? O pai sai, em mangas de camisa. São horas de ir limpar as cinzas da fornalha, sacudir as grelhas, recolher o lixo do elevador por onde sopra um vento  que cheira a podridão. «All right! Let me go!». O janitor vai ao seu serviço e a morta, fica morta. A chuva amainou. A noite parece cansada do temporal. O ar está morno.

«Gee», a gente esta noite vai mas é ao cinema distrair um migalho. A casa ficou cheia do crime

José Rodrigues Miguéis do conto Beleza Orgulhosa

ASPERA É A TERRA EM QUE VIVEMOS


Áspera é a terra em que vivemos:

Avara nas entregas da alegria,

Pródiga em tristezas. Ásperos

Também os símbolos misérrimos

Que deltam o escasso oxigénio.

 

Onde a mulher, o beijo da vitória,

o fogo de artifício, a aclamação?

 

Ás pero é o amor de armas na mão,

a falta de lençóis, a flat de cimento…

Ás pera a noite rude e a miragem

em que sempre se crispam os nossos dentes.

 

De que tamancos nascerá a vida?

E onde o soro, o sal, o seu tempero?

 

Ás pera a costura onde se esconde

o piolho propulsor. Na forja ainda

o martelo que epitafe o seu destino,

o peso que o arraste ao seu inferno.

 

Que fado nos persegue? Que guitarra

acompanha esta dor?

Egito Gonçalves em Os Arquivos do Silêncio

Legenda: pintura de Jean-François Millet

quarta-feira, 7 de abril de 2021

POSTAIS SEM SELO


A morte é estranha e existe.

Paulo Tavares

AINDA AS LIVRARIAS... AINDA OS LIVROS...


Mark Pocan, membro da Câmara dos Representantes nos Estados Unidos, escreveu, há dias, no seu «Twitter» que o facto de a Amazon pagar 15 dólares por hora não faz que aquilo seja um bom emprego, quando os trabalhadores, para cumprirem os horários excessivos de trabalho, são obrigados a mijar em garrafas de plástico para não perderem qualquer tempo na deslocação aos sanitários.

A Amazon argumentou:

Se fosse verdade, ninguém trabalharia para nós.

Aqui deveríamos pensar que estes capitalistas da Amazon - são TODOS assim - são mesmo gente que não respeita a dignidade dos trabalhadores, nem admitem que estejam sindicalizados.

Por estas e por outras, sou um defensor das livrarias. Nem aceito as livrarias dos grandes poderes da editoras como a Leya, ou a Bertrand. Quero livrarias indeoendentes.

Sei que os tempos estão perigosos para as literaturas.

Mas em algum tempo foram fáceis?

As livrarias, aos poucos, têm vindo a desaparecer.

Lembro sempre o arrepio do Jorge Silva Melo quando viu fechar uma livraria em Campo de Ourique.

Numa crónica a que chamou Já Fechou a Livraria, incluída no seu Século Passado, conta que uma pequena livraria abriu um dia em Campo de Ourique mas não chegou a estar aberta um ano.

«Por que não fui interlocutor solidário daquela senhora que efectivamente ousou e foi vencida? Por que hei-de perdoar-me a mim? Não foi isso mesmo o que eu disse àquele pequena livraria? Que não a queria? Que não me servia para nada? Que lhe prefiro a Internet e as fnacs? Se a pequena livraria fechou, fui também eu que a fechei».

Legenda: montra Abrilista da Livraria Ler em Campo de Ourique 

DEMASIADO VAZIO

Ainda não percebi as razões que levaram as autoridades (sanitárias e políticas) deste país, a fecharem as livrarias em tempo de pandemia. Nunca vi excesso de pessoas às portas das livrarias de modo a constituírem perigo de contágio. 

Uma idiotice como outra qualquer, uma ignorância como outra qualquer.

Perguntaram a Joaquim Manuel Magalhães o que lhe sugeria as cidades sem livrarias:

«Mostra-me um demasiado vazio, sobretudo por nesses armazéns apenas se encontrarem livres inúteis que dizem ter um público. Um gosto público que se abastece de nada, nem sequer sabe se gostará de ler. Gosta de ler o que para ali está. Mas em Londres, Paris, Madrid também já não há livrarias ou boas casa para poder comprar discos. Encontrei uma em Berlim, mas também já deve ter desaparecido. Falam em globalização. Mas onde encontrar tanto o antigo como o novo a não ser nas Amazons europeias ou equiparáveis?»

 

OLHAR AS CAPAS


O Caso da Dactilógrafa Aterrada

Erle Stanley Gardner

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues

Capa: Lima de Freitas

Colecção Vampiro nº 265

Livrios do Brasil, Lisboa s/d

Perry Mason olhava o recurso que Jackson, o seu escriturário, submetera à sua aprovação.

Della Street, sentada do outro lado da secretária, interpretou correctamente a expressão do advogado.

- Que está errado?

- Diversas coisas – respondeu-lhe Mason. – Para começar, tive de o encurtar, de 96 páginas para 32.

- Meu Deus! O Jackson disse-me que já o encurtara duas vezes e não lhe podia tirara nem mais uma palavra…

- Com estamos nós de dactilógrafas, Della? – perguntou o advogado a sorrir.

- Stella está em casa com gripe, e Anne encontra-se positivamente submersa num alude de trabalho.

- Nesse caso temos de arranjar uma dactilógrafa de fora, pois o recurso tem de estar pronto amanhã, para o copiador.

- está bem. Telefonarei à agência e pedirei que mandei imediatamente uma dactilógrafa.

- Entretanto, Della, darei uma nova vista de olhos a esta história, para ver se lhe posso tirar mais quatro ou cinco páginas. Os recursos não devem ser escritos para impressionar o cliente. Devem ser concisos e, sobretudo, quem os redige deve fazê-lo de maneira que o juiz tenha uma ideia clara dos factos da causa, antes de haver qualquer argumento acerca da lei. Os juízes conhecem as leis… ou, se não conhecem, têm empregados que as podem consultar por eles.

POEMA EM CONTINUAÇÃO DE UM OUTRO


                                            ao Felisberto Lemos

Não me governam astros. Não me ilude

o mistério de qualquer força oculta.

Se pouco sei das coisas, de mim mesmo

sei o que aprendem os homens solitários,

os exploradores solitários da própria cabeça.

 

Porém sou fraterno – ou mais precisamente

não  sou tão egoísta, nem me ufano tanto,

que esqueça rios e pontes deste sítio.

Porque é verdade, foi um empenho

que  os melhores do meu tempo se buscaram.

 

Como se não bastasse a complicação

de um solitário que se diz fraterno,

quero lembrar que sou pelo amor,

suas virtudes e armas

contra a melancolia.

 

Passou-se tudo isto numa pequena

terra da Europa, entre gentes

onde grassava a poltronaria.

O vento golpeava brutamente as ramadas altas.

Também se lhe chamou o século sem altura.

 

Olho, lá longe, o brilho dos astros,

Castor, Rigel, Deneb, Formalhaut.

Mas não me governam. Eu quero o dia claro

sobre os campos da minha terra,

o pensamento claro devorando-me a cabeça.

 

Fernando Assis Pacheco de Cuidar dos Vivos em A Musa Irregular

terça-feira, 6 de abril de 2021

POSTAIS SEM SELO

Deve ser aborrecido a morte sem vivos que nos escrevam.


 Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

A AVENTURA ACABOU


4 de Fevereiro de 1969

Na secretária, um ramo de mimosas. Trouxe-as de Fontanelas e ao seu aroma de quando? Estradas da serra, do Alentejo. Abrem a memória mas não a referenciam. Memória do tempo, de caminhos largados à infinitude. Memória de ter sido. Como nunca, aliás, mas só raramente, o «jamais». Para o passado e futuro. Suspendo-me, olhando. Separado. Um certo cansaço de ler ainda. Excepto o já lido. Como é estranho, por exemplo, haver ainda pintores e críticos deles. A arte é de outrora, do meu tempo. Como se fala ainda de arte? A aventura acabou.

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente Vol. I

OLHAR AS CAPAS


Cacilheiros

Luís Miguel Correia

Aguarelas: Rodrigo Bettencourt da Câmara

EIN – Edições e Iniciativas Náuticas, Massamá, Junho de 1996

Os transportes fluviais do rio tejo acompanharam a evolução económica gradual que com os anos modificou o País. Durante muitas décadas os Vapores Lisbonenses coexistiram com concorrentes mais tradicionais. Do Cais do Sodré para Cacilhas, a alternativa aos vapores de rodas era o bote cacilheiro e de Belém para o Porto Brandão também se navegava à vela, de bote catraio.

A carreira do Porto Brandão foi durante muitos anos efectuada pela Sociedade Cooperativa dos Catraeiros do Porto de Lisboa com pequenas lanchas motoras, como a Maria Edekltrudes, de 27 toneladas, construída em madeira no Porto Brandão em 1923, ou a Odile, de 31 toneladas, construída também em madeira, no Talaminho, no ano de 1942. A Cooperativa dos Catraeiros foi fundada no Porto Brandão a 1 de Maio de 1923 e além dos referidos serviços de passageiros, as suas lanchas efectuavam rendições de tripulantes e abastecimento de navios fundeados no Tejo e reboques. O ambiente criado pelo estado Novo nos anos trinta inspirou algumas mudanças de estilo nos Catraeiros do Porto Brandão, que resolveram mudar à posteriore a data da fundação da sua cooperativa de 1 de Maio para 1 de Abril, evitando assim quaisquer conotações eventualmente subversivas. Em 1951 o barco de passageiros que construíram para a carreira recebeu o nome de 1 de Abril.

MANHÃ


- Bom dia. Diz-me um guarda.

Eu não ouço...apenas olho

das chaves o grande molho

parindo um riso na farda.

 

Vómito insuportável de ironia

Bom dia, porquê bom dia?

 

Olhe, senhor guarda

(no fundo a minha boca rugia)

aqui é noite, ninguém mora,

deite esse bom dia lá fora

porque lá fora é que é dia!

Luís Veiga Leitão em Ciclo de Pedras 


segunda-feira, 5 de abril de 2021

POSTAIS SEM SELO


Há barcos que gostamos de perder, que partem devagar para outras mortes e nos deixam juntos, sem palavras.

Manuel de Freitas

Legenda: pintura de PierreBonnard