terça-feira, 23 de junho de 2020

MUDANÇA DE IDADE


Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores noturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.

Mia Couto

Legenda: fotografia de Gerard Bloncourt

segunda-feira, 22 de junho de 2020

BIG BILL BROONZY - BLACK, BROWN AND WHITE


Tenho andado por aqui a falar-vos da música nos Estados Unidos da América com tantas palavras quando, muitas vezes, uma música vale mais  que mil palavras.

É possível contar a História da América sem grandes palavras, apenas com recurso às suas canções.

Por esse motivo e para aligeirar a nossa conversa, lembrei-me de vos enviar, de vez em quando, uma canção, acompanhada da respetiva letra, que seja isso mesmo, uma pequena parte da História da América. 

 Não me irei esquecer dos consagrados mas, na medida do possível, irei privilegiar intérpretes menos conhecidos. 

Se achar que isso pode ter algum interesse, até pode ser que vos envie mais do que uma interpretação da mesma canção.

Os comentários serão mínimos e apenas para enquadrar a Música na História, quando isso for necessário.

Nada vos direi acerca dos intérpretes. Hoje a informação é tão acessível que quem não os conhecer e estiver interessado, não terá qualquer dificuldade em a encontrar.

Para começar escolhi este “Black, Brown and White”, que Big Bill Broonzy gravou no início dos anos 50, embora a deva ter escrito muitos anos antes. Um dos maiores libelos contra o racismo da História da música americana.

O motivo é óbvio e dispensa comentários…

Se quiserem vejam-no como uma pequena homenagem a George Floyd e uma forma de também eu dizer que “black lives matter”.

This little song that I'm singin' about
People you know it's true
If you're black and gotta work for a living
This is what they will say to you
They says if you was white, should be all right
If you was brown, stick around
But as you's black, m-mm brother, git back git back git back

I was in a place one night
They was all having fun
They was all byin' beer and wine
But they would not sell me none
They said if you was white, should be all right
If you was brown, stick around
But if you black, m-mm brother, git back git back git back

Me and a man was workin' side by side
This is what it meant
They was paying him a dollar an hour
And they was paying me fifty cent
They said if you was white, 't should be all right
If you was brown, could stick around
But as you black, m-mm boy, git back git back git back

I went to an employment office
Got a number 'n' I got in line
They called everybody's number
But they never did call mine
They said if you was white, should be all right
If you was brown, could stick around
But as you black, m-mm brother, git back git back git back

I hope when sweet victory
With my plough and hoe
Now I want you to tell me brother
What you gonna do about the old Jim Crow?
Now if you was white, should be all right
If you was brown, could stick around
But if you black, whoa brother, git back git back git back 


Texto de Luís Miguel Mira



OLHAR AS CAPAS



As Aventuras de Huckleberry Finn

Mark Twain
Tradução: Daniel Augusto Gonçalves
Capa: Pinto Vieira
Colecção Histórias para a Juventude nº 6
Livraria Civilização Editora, Porto, Março de 1980

Vossemecês não me conhecem se não leram um livro chamado “As Aventuras de Tom Sawyer”, mas isso não tem importância. O livro foi escrito pelo senhor Mark Twain que, de uma forma geral, não se afastou da verdade. Houve coisas que ele exagerou mas, repito, de uma forma geral, não se afastou da verdade. Isso, aliás, pouco importa. Nunca encontrei ninguém que não pregasse a sua peta, uma vez por outra, a não ser a tia Polly, ou a viúva, ou talvez a Mary. A tia Polly - é a tia do Tom-, Mary e a viúva Douglas tudo o que há a dizer a respeito delas está escrito nesse livro – que é fundamentalmente um livro honesto; com alguns exageros, como já disse.

PORÉM NÃO DEVEMOS ESQUECER


Porém não devemos esquecer o mar que é o princípio e o fim de todas as 
        coisas
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes
       de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal
        que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá 
       impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço
        como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal
        a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se alimentarem diante
        da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a
         fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os 
       dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes
      de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro 
       reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida
      do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem
         a escarpa a caminho da terra ocupada

José Saramago em O Ano de 1993

domingo, 21 de junho de 2020

ETECETERA


O primeiro-ministro António Costa, para além de outras afirmações, considerou que a escolha de Lisboa pela UEFA para receber a fase final da Liga dos Campeões é um prémio merecido aos profissionais de saúde, pela forma como provaram que o sistema de saúde português é robusto para responder a qualquer eventualidade.

Acho esta afirmação de uma insuportável indelicadeza, um lamentável disparate, uma autêntica ofensa.

Aliás, tudo o que tem rodeado as notícias sobre esta porcaria da final da Liga dos Campeões, tem sido um fartar vilanagem, qual concurso para ver quem pior põe a pata na poça.

Fazer deste acontecimento algo histórico, que tivesse levado o presidente da república a arranjar uma cegada com a presença do primeiro-ministro, do presidente da Câmara de Lisboa, do presidente da assembleia da república presidente da federação de futebol, nem ao careca lembrava.

Há demasiados imbecis entre os governantes deste país.

Algo está muito podre!...

1.

«Eu gosto muito do meu país, mas não tenho muitas ilusões sobre ele. É um país atrasado, pouco desenvolvido, sem massa crítica, pouco culto, sem grande qualificação da mão-de-obra, muito dependente de vagas de superficialidade, onde a maioria das pessoas trabalha duramente para não receber sequer o mínimo vital, sem vida cívica autónoma do Estado, com uma economia débil, desindustrializado, com uma agricultura desigual, pouco cosmopolita, com muitos aproveitadores e alguns bandidos, mas aí como os outros.

É um país que cada vez menos tem autonomia política, dependente da transferência dos centros de decisão para Bruxelas. Aquilo em que somos melhores não coloca o pão no prato ao fim do dia, como agora se diz. Temos uma língua e uma literatura de valor universal, a melhor obra dos portugueses, mas ninguém come literatura. E temos uma democracia que é um valor que só quem sabe o que é ditadura percebe qual é. É mau? Não é mau, há muito pior, mas é sofrível, e sofrível não permite andar por aí a bater em pandeiretas.»

José Pacheco Pereira no Público

2.

Os tempos estão terríveis.

Mas não para todos, e isso é uma história tão velha como o mundo.

Em Portugal, estão a vender-se casas acima dos 10 milhões de euros.

Quem conta é o suplemento de economia do Expresso.

Chegam em jactos privados e pedem para verem o melhor que houver no mercado e adiantam que o preço não é problema.

São celebridades do futebol, da área da música, magnatas do petróleo, multimilionários de Hong Kong, de Singapura.

3.

O governo desaconselha férias fora da Europa e que as devem privilegiar cá dentro. Assim como a lembrar o velho slogan de que há sempre um Portugal desconhecido que espera por si.

Se assim entenderem há um maravilhoso livro de José Saramago que os pode ajudar imenso: Viagem a Portugal.

4.

Ricardo Salgado, que há muito já devia estar com os costados na prisão, almoçou um destes dias, em Lisboa, com um grupo de economistas e antigos banqueiros.

O restaurante foi o Xico Rolo, em Lisboa, que abriu portas propositadamente para este grupo.

5.

Perto de 100 mil trabalhadores, ao fim de três meses de pandemia, perderam o emprego, mais de 800 mil entraram em lay-off e mais de um milhão viram os rendimentos cortados.

6.

Menor de 14 anos mata outro de 15 em ajuste de contas pela Internet.

Seis crimes em cinco meses.

7.

A Polícia de Segurança Pública foi chamada a interromper uma festa junto à praia em Carcavelos, no concelho de Cascais.

Situações deste género vão-se verificando um pouco pelas cidades do país.

8.

Sem festas e romarias, as autarquias do Alto Minho temem perda de receitas na economia local na ordem dos 30 milhões de euros, de acordo com estimativas avançadas pelos presidentes de câmara dos concelhos de Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez e Caminha.

O presidente da Câmara de Viana do Castelo, José Maria Costa, estima que o cancelamento no formato habitual das Festas d'Agonia representará uma perda direta de receita de 10 milhões de euros, sobretudo nos setores do comércio, restauração e hotelaria.

9.
A Itália é um dos países que mais tem sofrido com a pandemia.

O Nápoles ganhou a final da Taça de Itália na quarta-feira, frente à Juventus o que gerou uma onda de festejos na principal cidade do sul de Itália, com grandes aglomerados de adeptos a desafiar o distanciamento imposto face à pandemia do novo coronavírus que assola Itália e o mundo.

Em motas, com bandeiras ao alto, fogo de artifício, cânticos e buzinadelas, milhares de apoiantes do Nápoles invadiram praças sem respeitar o distanciamento físico e as regras de segurança definidas pelas autoridades de saúde para evitar a propagação do novo coronavírus.

10.

Um arcebispo advertiu, durante uma missa em Valência que o diabo existe no meio de uma pandemia nas pesquisas de vacinas e curas. Há informações extremamente dolorosas de que uma das vacinas é feita a partir de células de fetos abortados. Isso é desumano, cruel. Não podemos elogiá-lo ou abençoá-lo. Muito pelo contrário. Nós somos a favor do homem, não contra o homem. Primeiro matam-no e depois manipulam-no. Temos mais um infortúnio. É um trabalho do diabo.

11.

O receio de uma segunda vaga na China levou as autoridades a avançar com restrições em vários bairros de Pequim, onde os moradores estão também a realizar testes em massa.

A China admitiu a necessidade urgente de melhorar a higiene nos seus mercados abastecedores e na cadeia de fornecimento alimentar, após novo surto de covid-19 em Pequim ir já em 158 casos.

12.

Na quinta-feira passada, aos 103 anos, morreu a cantora Vera Lynn, interprete da música We'll Meet Again, ouvida, durante a segunda guerra mundial, pelos britânicos quando se refugiavam, dos bombardeamentos alemães, nas estações do metropolitano, escrita por Ross Parker e Hughie Charles.


Quando as nuvens escuras descobrirem o sol, voltaremos a encontrar-nos, não sei onde, não sei quando, mas voltaremos a encontrar-nos.


ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

LUIZ PACHECO, EDITOR

Os últimos anos de vida, Luiz Pacheco passou-os em Lares de Terceira Idade.

Um desses lares, penso que terá sido o primeiro, situava-se em Palmela:

Era um lar no meio de uma serra, com o ar puríssimo de Palmela, uma construção nova, em arco, sem vizinhança, sem casas à volta… Era muito bonito… Fui para lá logo quando aquilo começou… no início, a fase da promoção, serviam um bacalhau altíssimo, as torradas pareciam as das pastelarias da Baixa, dois andares de torradas, molhadas em manteiga, o café com leite vinha com dois pacotes de açúcar… depois, um dia começou a aparecer só um pacote, vieram as economias,,, as torradas passaram a ter só um andar com uma lambidela de margarina… Agora este aqui, do Príncipe Real, já se aproxima mais da generalidade. Por exemplo as giletes que eles dão algumas já barbearam mortos. Tu não fazes ideia,,, Isto é um armazém de pré-cadáveres, é uma parada de monstros.

Num qualquer livro que comprara do Pacheco, encontrava-se um Bilhete-Postal-Porte-Pago para inscrição como assinante da Contraponto.

Foi assim como me constituí como o Assinante nº  84 e passei a receber, pelo correio, todos os livros editados pela Contraponto.

Um dia soube que a sogra do Santos Costa estava nesse lar de Palmela e sugeri que fizesse uma visita ao Pacheco e se constituísse, para poupar tempo e os portes, como portador dos livros. Livro na mão, pagamento feito pelo Santos Costa.

Entretanto a sogra do Santos Costa morreu e eu perdi o meu correio privilegiado.

Um dia, Novembro de 1998, recebi pelo correio, mais um livro do Pacheco, o Prazo de Validade.

Lá dentro um recado manuscrito:

Você é uma jóia de pessoa, mas é um CRAVA do pior. Agora que aquele senhor não vem aqui já (faleceu a D. Celeste), ou V. me envia 2.000$00 ou é saneado do meu ficheiro de assinantes.

O Santos Costa garantiu-me que todos os livros que trouxera de Palmela tinham sido pagos.

Mandei uma amável carta ao Pacheco, perguntando-lhe qual o livro que ficara por pagar.

Resposta em Pachecal-Postal:

Desfazia-se em desculpas. Tinha-me confundido com um assinante do Porto e adiantava que era capaz de enganar muita gente nunca um dos seus assinantes.

O Postal é o que aí está, e Pacheco deixou recado manuscrito:

Pegue nesta miúda e leve-a para o MECO.

Mais tarde, enviado pelo Pacheco, recebi um pacote contendo três livros e um recado, escrito a esferográfica verde:

Estão aqui uns livrecos, que certamente já terá, e se assim for, ofereça-os a um amigo.

Não tem de pagar nada. Você é um compincha.

Desconcertante este Pacheco.

Razão plena quando dizia: a Contraponto sou eu!

Nota do Editor: a descrição do lar de Palmela é tirada de uma entrevista dada a João Pedro George e incluída em OCrocodilo Que Voa.

Texto publicado em 16 de Agosto de 2014

RELACIONADOS


Contra capa de Pele Negra, Máscaras Brancas de Frantz Fanon.

OLHAR AS CAPAS


Pele Negra, Máscaras Brancas

Frantz Fanon
Prefácio: Francis Jeanson
Tradução: Alexandre Pomar
Paisagem, Porto s/d

                        Falo de milhões de homens a quem sabiamente
                        inculcaram o medo, o complexo de inferioridade,
                        o temor, a genuflexão, o desespero, o servilismo.
A.    Césaire, Discours sul le Colonialisme

A explosão não se dará hoje. É demasiado cedo… ou demasiado tarde.
Não venho armado de verdades decisivas.
A minha consciência não é atravessada por fulgurâncias essenciais.
No entanto, com toda a serenidade, penso que seria bom que algumas coisas fossem ditas.
Eu vou dizer, não gritar essas coisas. Porque há muito tempo que o grito saiu da minha vida.
E está tão longe…
Escrever este livro porquê? Ninguém mo pediu.
Sobretudo aqueles a quem ele se dirige.
Então? Então, calmamente, respondo que há demasiados imbecis neste mundo. E já que o digo, trata-se de o provar.
Para um novo humanismo…
A compreensão dos homens…
Os nossos irmãos de cor…
Eu acredito em ti, Homem…
O preconceito de raça…
Compreender e amar…
De todo o lado me assediam e se me tentam impor dezenas e centenas de páginas. No entanto uma só linha bastaria. Uma só resposta a fornecer e o problema negro despe-se da sua seriedade.
Que quer o homem.
Que quer o homem negro?

O FUNCIONÁRIO CANSADO


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa de Viagem Através de Uma Nebulosa em Obra Poética Vol. I

sábado, 20 de junho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

COHEN EM LISBOA

Tirando alguns de música clássica na Gulbenkian, não sou de concertos.

Os motivos são aparentemente claros, umas vezes porque os preços dos bilhetes saltam a barreira de economia caseira, outras o desconforto dos locais e como sou  um tanto ou quanto duro de ouvido, a deficiência obriga a escolher os lugares mais caros.

Leonard Cohen é uma das muitas referências que transporto pela vida.

Veio duas ou três vezes a Lisboa.

Está por cá, novamente.

Com 78 anos feitos no passado dia 21 de Setembro, é provável que esta fosse uma última oportunidade para assistir a um concerto seu.

Se bem que me cause arrepios Cohen a cantar no Pavilhão Atlântico – tem um som completamente a desejar, ao que dizem – ainda fui até lá baixo, para ver como era isso do preço dos bilhetes.

A meio da tarde, as bilheteiras estavam abertas e nos vinte minutos que por ali permaneci, nenhum movimento a não ser um cidadão que perguntou pela possibilidade de trocar de lugar.

Já tinha olhado a tabela de preços: o bilhete mais barato custava 30,00 euros, o mais caro 85,00 euros e era neste lugares que eu teria de me sentar para, minimamente, ouvir qualquer coisa de jeito.

Ainda não foi desta que fui ouver Leonard Cohen.

Apesar da idade, é provável que volte.

Aparecem sempre umas dívidas antigas que terão de ser liquidadas.

Tirei uma fotografia ao cartaz.

 Neste momento já terá subido ao palco, com a quantidade certa de vinho, arrancou com take this waltz and dance do the end of love,  e lá pelo meio lembrará que  como um pássaro num fio pousado, como um bêbado num coro nocturno eu tentei a meu modo ser livre.

Neste momento estou  a ouvir o CD que regista o concerto que em Maio de 1993 realizou em Zurique.

Abro o seu Filhos da Neve na página 89 e copio:

Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em apartamentos mobilados.
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
e escrevem isto mesmo


Texto publicado no dia 7 de Outubro de 2012

SNAKE OIL OU, SE PREFERIREM, BANHA DE COBRA


Quando eu vivia no Campo Pequeno, mesmo defronte do jardim, costumava assistir às exibições dos vendedores de “banha de cobra” que por lá passavam.

O esquema era sempre o mesmo. Chegavam com o seu grande malão, escolhiam um local estratégico e faziam-se anunciar. As pessoas aproximavam-se e rapidamente se formava um círculo em volta do vendedor, que iniciava, então, a sua preleção.

Eu era miúdo de 7 ou 8 anos, e com facilidade arranjava sempre um lugar de primeira fila.

Um dia um desses vendedores chamou-me para o ajudar.

A medo, lá avancei para o meio do círculo, para junto dele. Não me lembro de tudo nem sequer do que ele vendia, mas lembro-me perfeitamente que, a determinada altura, me pôs um saco preto nas mãos e me disse: “agora abre a boca o mais possível”…


Eu, é claro, abri a minha pequena boca o mais que podia e a multidão desatou a rir à gargalhada.

“Não é a tua boca, rapaz!”, disse o vendedor, “é a do saco”…

Ora se eu nem sequer sabia que um saco tinha boca, como é que a poderia abrir…?

É claro que tudo isto era estudado pelo vendedor e ele sabia muito bem o bom impacto que esta graçola tinha na assistência.  Já devia ter feito esta cena com dezenas de miúdos e sabia que a reação deles era sempre a mesma, ou seja, abrir a própria boca…

Mas eu não me ralei nada porque, imaginem, depois de no final ter concretizado todas as suas vendas, o homem deu-me uma moeda de vinte e cinco tostões!


Ora vinte e cinco tostões, meus amigos, era algo que nunca antes tinha sentido na palma da minha mão… Uma pequena fortuna…!

Comprei gelados, rebuçados, chupa-chupas, pastilhas-elásticas, bonecos da bola e o dinheiro não se esgotava...

É claro que, a partir daí, ainda mais “à coca” ficava e sempre que chegava um novo vendedor ao jardim, aí estava eu na primeira fila à espera de ser chamado para trabalhar…

A verdade é que  nunca mais aconteceu e esta minha carreira de artista ambulante foi de muito curta duração.


Mas agora perguntarão vocês:  que raio de banha de cobra é que este gajo se prepara para nos impingir hoje, com toda esta conversa…?

Vou falar-vos  da importância dos vendedores de “banha de cobra” na difusão da “Folk Music” ou, se preferirem um conceito mais genérico, da música tradicional nos Estados Unidos. 


A esses vendedores, que impingiam a um público crédulo e ignorante poções milagrosas  como “snake oil”, “wizard oil” e outras coisas afins à base de ópio,  morfina, cocaína e álcool, dava-se, então, o pomposo nome de “Medicine Shows”.

Mas antes de vos falar deles convém apresentar, primeiro, os chamados “Minstrel Shows”, já que a forma de atuação destes constituiu, de certa modo, uma inspiração para os “Medicine Shows”.

Os “Minstrel Shows” são um espetáculo que teve a sua origem na Europa e foi introduzido nos Estados Unidos, com algumas adaptações,  através dos bares, tabernas e teatros de Nova Iorque, nos inícios do Séc. XIX.

Com o progresso das vias de comunicação, daí partiram, de uma forma itinerante, para todo o território, em especial para o longínquo Oeste, podendo ser considerados como uma das primeiras formas de entretenimento popular tipicamente americanas.

Mantiveram-se em atividade até aos inícios do Séc. XX, embora tivessem o seu período áureo até ao início da Guerra de Secessão. Entraram em acentuado declínio após o final da Guerra, tendo sido progressivamente substituídos pelas “troupes” de “Vaudeville” e pelos referidos “Medicine Shows”.


Os “Minstrel Shows” são um  misto de espetáculo cómico e de espetáculo de dança e musical, e caracterizavam-se pela presença de um ou mais atores brancos com a cara pintada de preto, mantendo, apenas, uma pequena faixa branca em torno dos olhos e da boca. Quem se lembrar de Al Jolson em “The Jazz Singer”, primeiro filme falado da História do Cinema, percebe bem aquilo a que me estou a referir.

Este “shows”, que durante algumas décadas percorreram o território dos Estados Unidos de lés a lés com “troupes” de diferente dimensão,  tiveram aspetos positivos e outros francamente negativos.

Um dos aspetos positivos foi o de manterem os territórios em contacto, já que iam aos lugares mais recônditos e, para muito boa gente, este era o único contacto regular que podiam manter com gente vinda do do exterior.

Outro aspeto relevante foi a difusão da Música de umas regiões para outras. A determinada altura da sua existência  estes “shows” eram tão importantes que até compositores de prestígio como Stephen Foster, considerado o Pai da Música Popular Americana, escreviam músicas que lhes eram destinadas, e clássicos da “Folk Music” como “Oh! Susanna”, “Campdown Races” e “My Old Kentucky Home” vieram à luz nesses dias e nesse contexto. E até “Dixie”, o hino dos Confederados, deve a sua origem aos “Minstrel Shows”.


Como aspeto francamente negativo fica a triste imagem que estes espetáculos deixavam do Negro americano e o evidente racismo de que se revestiam. Se sempre existiu e continua a existir um profundo racismo na Sociedade americana, os “Minstrel Shows” têm, seguramente, a sua quota-parte de responsabilidade histórica, porque foram eles quem, durante décadas, ajudaram a consolidar  essa imagem junto de uma vastíssima audiência Branca.  As estátuas de “Minstrels” que se ponham a pau, portanto...

Um espetáculo de “Minstrel” era, geralmente, dividido em três partes: uma primeira parte de dança e canções, com algumas graçolas pelo meio; uma segunda parte assente num discurso satírico alusivo a acontecimentos da época; um terceira e última parte de representação teatral de cariz popular e humorístico, com cenas quase sempre passadas nas plantações, opondo um Negro a um Branco.   


A lógica desta terceira parte do espetáculo era algo semelhante à do palhaço rico “versus” palhaço pobre, do Circo, em que o primeiro humilha o segundo, para deleite da assistência.

O palhaço rico era aqui o “Dandy”, muitas vezes associado a alguém do Norte, ao capataz ou mesmo ao próprio proprietário das plantações rurais.

O palhaço pobre era o Negro, quase sempre representado, de uma forma estereótipada, como alguém infantil, simpático mas preguiçoso, pouco inteligente e demasiado dado à bebida, à dança e à cantoria. E esta última parte acabava  sempre com o Negro a sapatear e a cantar  umas músicas que se pretendia fazer crer que era a verdadeira Música Negra, mas que era, na maioria dos casos, uma mera mistificação.

A maior parte destes espetáculos fazia uma apologia da escravatura. A ideia que transmitiam era que o Negro era bem tratado nas plantações e era aí que ele se sentia bem e desejava permanecer.

Com o final da Guerra da Secessão este discurso começava a não fazer muito sentido mas, curiosamente, muitos foram os Negros libertos no final da Guerra que, à falta de melhor ocupação, optaram por integrar este tipo de espetáculos. Pintavam-se de branco à volta dos olhos e da boca, como quem emita homem branco a disfarçar-se de negro... 


O tom paródico dos espetáculos manteve-se, o discurso racista atenuou-se um pouco e os negros até trouxeram consigo para os  “Minstrels” as suas músicas autênticas, que não tardaram a tornar-se património da Música Tradicional Americana, como é o caso de “Frankie and Albert”, “The Boll Weevil” ou “The Blue-Tail-Fly”.

Como sempre sucede neste tipo de espetáculos, a dimensão e a ambição dos “Shows” era muito diferente, desde uma simples carroça com duas pessoas até uma ou mais carruagens com os artistas e o respetivo equipamento. Mas o mais habitual era serem, apenas, entre quatro a 6 elementos.

Também a localização do espetáculo variava em função da ambição e dos meios de cada um: uma sala de espetáculos alugada para os mais poderosos, com bilhetes pagos à entrada; o terreiro da aldeia para outros, com recolha de uma moedinha com o chapéu no final do espetáculo…

Resta reforçar, para concluir, a ideia de que alguns destes grupos de “Minstrels” atingiram uma enorme projeção a nível nacional. É o caso , por exemplo, dos “The Virginia Minstrels”, que integravam o compositor Dan Emmett, autor de “Dixie”, ou dos “Christy Minstrels”, cujo nome não contém qualquer conotação religiosa, mas antes se refere a Edwin Pearce Christy, o seu “leader”. Estes “Christy Minstrels” eram tão importantes no seu tempo que fizeram acordos de exclusividade com Stephen Foster, o compositor de “Oh! Susanna” de que já atrás vos falei, para algumas das suas canções.

E como isto anda sempre tudo ligado, por ocasião do “Folk Revival” dos ano 60 estes “Christy Minstrels” viriam a ser homenageados por um grupo “Folk” que se chamou “The New Christy Minstrels”. Era um grupo muito grande de onde estavam sempre a sair uns e a entrar novos elementos, e pelo qual passou gente de nomeada como Randy Sparks, o fundador, Barry McGuire, John Denver, Kenny Rogers, Gene Clark ou Roger McGuin.     

E de “Minstrel Shows”, por hoje,  já chega...   

Passemos, então, aos “Medicine Shows”.   

Como é sabido, o discurso Humanista dos dirigentes do Norte no que respeita à escravatura ocultava uma outra realidade, que era a de um Sistema Capitalista que já não aguentava ficar confinado a algumas centenas de grandes consumidores nos estados do Sul, mas antes necessitava de uma enorme extensão de pequenos consumidores para poder alargar os seus tentáculos… 

O Norte industrializado olhava para os Estados do Sul, predominantemente rurais, como potenciais clientes para os seus produtos, e para a vastíssima mão-de-obra escrava como potenciais consumidores.  

Enquanto escravos não remunerados não teriam essa possibilidade, mas um enorme exército de pequenos trabalhadores rurais, mesmo mal remunerados mas podendo comprar a crédito, já seria muito bem visto...  

O surgimento dos “Medicine Shows” nas décadas que se seguiram ao final da Guerra da Secessão insere-se, assim, nessa lógica de expansão de um pequeno capitalismo.

Na sua essência  e itinerância, os “Medicine Shows” eram semelhantes aos “Minstrel Shows”, mas em lugar de venderem um bilhete para um espetáculo, vendiam um produto.

Vendiam, é claro, gato por lebre, óleos de cobra ou de lagarto que, segundo eles, tinham a particularidade de serem bons para todos as maletas de que as pessoas padecessem, fosse elas quais fossem. “Good for what ails you”, que era uma das expressões publicitárias mais utilizadas na época.

Feitos à base de ópio, morfina, cocaína e álcool, estes “elixires milagrosos” deixavam a quem os tomava uma sensação de bem estar, ao mesmo tempo que gerava e acentuava dependência. Quanto mais se tomava mais se desejava tomar... 


Os “Medicine Shows” eram, também, mais sofisticados no seu conteúdo. Embora continuassem, muitas vezes, a recorrer à velha figura do “coloured white”, não tinham um cariz tão racista como o dos seus antepassados “Minstrels”.

Nos seus espetáculos não havia apenas música, dança e humorismo, como nos “Minstrel Shows”, mas sim exibições mais completas de partes de peças teatrais populares à época, mágicos, prestidigitadores, ventríloquos, contorcionistas, trapezistas e malabaristas de toda a espécie, numa lógica já muito próxima do espetáculo de Circo,  em exibições que chegavam a durar mais de duas horas. Quase sempre de noite e iluminadas com tochas de querosene, razão pela qual o trajeto dos “Medicine” era também designado por “kerosene circuit”...

No intervalo entre cada uma destas atuações subia ao palco o “Doutor” com a sua cartola, o qual, com um discurso inflamado e chamando muitas vezes  a testemunhar  pessoas que já teriam comprovado o extraordinário sucesso dos “tratamentos”, apresentava o produto ou produtos que tinha para vender, preparando o público para o “grand finale” que era a venda e o “show” de encerramento.  

Para quem assistia não havia muita coisa a perder, porque pagar bilhete por um espetáculo ou comprar um frasco de “snake oil” era indiferente, com a vantagem deste espetáculo ser muito mais atrativo e variado. E o que atrás se disse em relação aos “Minstrel Shows” também é válido para os “Medicine”:  para a população local, esta era uma das raras oportunidades que tinha para contactar com outras terras e outras gentes…

Consoante o potencial para o negócio da região onde se instalavam, estes “Medicine Shows” podiam ficar mais ou menos tempo…

Em regra enviavam sempre alguém com antecedência para colar cartazes a avisar a população da sua chegada e depois podiam ficar instalados no mesmo lugar até mais de um mês, consoante as perspetivas de negócio.

Durante esse período socializavam, estabeleciam contacto com as populações a aprendiam novas canções e novas danças, que depois levavam para as outras regiões onde prosseguiam o seu negócio, tendo, desta forma, a possibilidade de apresentar sempre repertório nunca visto e ouvido

Numa época onde ainda não havia rádio nem gravações discográficas, esta era uma das poucas alternativas que existiam para a transmissão oral das canções de umas regiões para outras, e do mundo rural  para as grandes cidades, onde eram, muitas das vezes, ouvidas pela primeira vez.

Era, também, habitual os mais importantes “Medicine Shows” distribuírem, gratuitamente ou a um preço muito simbólico, folhetos publicitários onde constavam as vantagens dos produtos vendidos, o programa dos espetáculos e as letras de algumas das canções  apresentadas.

Uma das mais importantes “troupes” de “Medicine Show”, a “Hamlin´s Wizard Oil Company”, editou um “booklet” com as letras de 63 canções, a que deu o pomposo nome de “Humorous and Sentimental Songs as Sung Throughout the United States by Hamlin’s Wizard Oil Concert Troupes in Their Open Air Advertising Concerts”. Deixo-vos a fotografia da capa.

Mas, para além da curiosidade, pouco interessa o nome… O importante é que chegavam a andar em viagem pelos Estados Unidos 100 “troupes Wizard” em simultâneo, o que representava um enorme potencial de divulgação da Música, quer através dos espetáculos quer também, e muito, através desses livrinhos, a que muitas vezes se chamavam “Songsters”.

Como já vos dei a entender, nos “Medicine Shows” havia desde a “mercearia da esquina” até às grandes superfícies, ou seja, desde uma ou duas pessoas que viajavam na sua carroça até às enormes “troupes” com grandes carruagens e palco próprio.


Acabei de vos falar da “Wizard Oil”, uma das maiores, mas grandes foram, também, “The Quaker Medicina Company” e, sobretudo, a “Kickapoo Indian Medicine Company”, que garantia que os seus produtos eram muito antigas e secretas receitas índias e que organizavam os seus espetáculos em torno dessa imagética: tendas índias, atores vestidos de índios, simulacros de danças e cerimónias índias, assaltos a caravanas, etc.

Com a entrada no Séc. XX,  e perante crescentes notícias de ocorrência de doenças muito graves e até de mortes devido a ingerência destes produtos, o Governo Federal reforçou a legislação tendente à proteção do Consumidor, como foi o caso do “Pure Food and Drug Act, de 1906. Esta nova legislação, por um lado,  e a progressiva introdução de sistemas de venda através do Correio, por outro, foram um duro golpe para os “Medicine Shows”, que entraram em declínio, embora alguns tenham sobrevivido até aos anos 50.

E nas primeiras décadas do século passado ainda  passou por esses espetáculos gente que acabaria por se tornar muito importante na história da Música na América: Jimmie Rogers, o futuro “singing brakeman”, Gene Audry, o “singing cowboy”, Bob Willis, o “King of western swing”,  Roy Acuff, o “King of Country Music” e até um muito jovem Hank Williams são, apenas, alguns exemplos.  

E se vos contei que no Séc. XX tinha havido homenagens aos “Minstrels”, os “Medicine” não lhe ficam atrás. Uma das bandas “Country/Folk” mais populares nos Estados Unidos, nos dias de hoje, é de Nashville e chama-se, precisamente, “Old Crow Medicine Show”...

E com esta me vou, que já é hora.   

Mas fiquem descansados… Se esta mistela que hoje vos dei a beber não vos fizer nenhum bem, mal também não fará, certamente.

E a  verdade é que a grande História da Música na América também é feita de pequenas histórias, como estas...   

PS:

Este CD que vos mostro contém músicas de “Medicine Shows” gravadas nas décadas de 20 e 30 do século passado.

A fotografia, no entanto, é de 1895, e acaba por representar as duas figuras do “Dandy”, de chapéu de coco, e do “pobre Negro”, de que vos falei no texto.

Parte das informações que vos dei foram retiradas do livro que acompanha o CD. 

Texto de Luís Miguel Mira

OLHAR AS CAPAS



Os Segredos da Censura

César Príncipe
Capa: José Araújo
Colecção  Nosso Mundo nº5
Editorial Caminho, Lisboa, Maio de 1979

24/12/70 (Tarde da véspera de Natal). «Telegrama da lenda japonesa acerca de Jesus Cristo. Em título, não se pode dizer que Jesus Cristo morreu no Japão com 106 anos e três filhos. Outro título para CORTAR: “Não haverá missa do galo para 16 bascos que aguardam sentença”. Não têm missa do galo como não têm outras coisas. Não vão, por exemplo, nem ao cinema nem ao teatro… Coronel Saraiva.» 

A INVENÇÃO DAS CLARABÓIAS


No princípio, aprenderam a ter medo e protegerem-se.
Construíram casas de pedra e lama, pequenos refúgios
onde não tardaram a sentir-se cada vez mais sós.

Sonharam que, um dia, um feixe de luz haveria
de afagá-los. E, fascinados pelo céu, desenharam
óculos pelos telhados.

Tiveram, desde logo, a companhia das estrelas.
Hoje os deuses ainda passam os olhos pelas casas
todas as noites, antes de adormecerem.

Maria do Rosário Pedreira Em A Casa e o Cheiro dos Livros

sexta-feira, 19 de junho de 2020

POSTAIS SEM SELO


Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capa z de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobrevirá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.

Carlos Ruiz Zafón em O Jogo do Anjo

CARLOS RUIZ ZAFÓN (1964-2020)


Morreu o escritor catalão Carlos Ruiz Zafón.
Tinha 55 anos e há dois anos que lutava contra um cancro.
Gostei imenso de ler  ASombra do Vento.
Se não gostasse tanto de livros, a sua leitura ter-me-ia lançado nessa aventura porque é um fascínio, um enorme prazer viajar pelos seus livros.

…senti que se me apertava a garganta e, à falta de palavras, mordi a voz»

LUIZ PACHECO, EDITOR


Mais um livro das Edições Contraponto e, como habitualmente, uma carta para os seus assinantes.
E sempre um

SAÚDE    &   BICHAS!

OLHAR AS CAPAS



A Minha Mulher

Luiz Pacheco
Tradução: Luiz Pacheco
Capa e ilustrações Luís Filipe
Edições Contraponto, Setúbal, Abril de 1996

Agora em minha casa, no pátio e mais longe ainda, vai uma lida insana. O doutor Sobole costuma chamar a isto «a orgia da caridade». A minha mulher vem muitas vezes a minha casa e, com a sua expressão monacal, inspeciona com um olhar penetrante todas as salas, como se ainda ali procurasse alguma coisa mais que possa ser dada aos famintos, para «encontrar a justificação da sua vida». E prevejo que, graças a ela, dentro de pouco tempo nada restará da nossa fortuna; ficaremos pobres.
Mas isso não me inquieta grandemente e sorrio-lhe com alegria. Desde que me embrenhei na turba dos indiferentes, também eu me tornei indiferente; e sinto-me bem assim.
O que virá a ser de nós mais tarde, não o sei.

CONHEÇO


Conheço
entre todas
a jarra que enfeitaste

têm o jeito
com que compões o cabelo
as flores
que tocaste

António Reis em Poemas Quotidianos

Legenda: pintura de Ernest de Nagy

quinta-feira, 18 de junho de 2020

SARAMAGUEANDO


Os Poemas Possíveis

José Saramago

Colecção Poetas de Hoje nº 22
Portugália Editora, Julho de 1966 

No momento em que soube da morte de José Saramago, fiquei sem capacidade para dizer alguma coisa a quem quer que  seja, eu incluído.


Bem tentamos, mas nunca estamos preparados para a morte. 


Principalmente a morte daqueles de quem muito gostamos.


Entendi, então, que a minha homenagem passaria pela simplicidade de colocar, aqui, a capa do primeiro livro que li de José Saramago, "Os Poemas Possíveis” e trazer as últimas palavras de “As Intermitências da Morte”. 


Nada mais.


Decidi depois, em cada dia, ir apresentando todos os seus livros. Sem entrar em grandes detalhes porque apenas sou um leitor e nunca um crítico.

Com Caim a apresentação  dos livros de José Saramago chegou ao fim.


Mas tenho que voltar ao princípio, a Os Poemas Possíveis.


Foi na Livraria Portugal, naqueles escaparates que ainda hoje estão ao meio da sala do rés-do-chão, que topei, pela primeira vez, com o nome de José Saramago.

Estávamos em 1966, tinha então 21 anos, e não fazia a mínima ideia quem era José Saramago, tão pouco dele ouvira falar. Mas o livro que olhei fazia parte de uma colecção de prestígio: “Colecção Poetas de Hoje” da "Portugália Editora”.


Folheei o livro e do que fui vendo nascia um sentimento de gosto e prazer.

Houve tempo para passar os olhos pela “Fala do Velho do Restelo ao Astronauta”, mais dois, três poemas, mas a decisão foi apenas uma: estava com a minha gente.


E tudo começava logo no primeiro poema do livro:


“Até ao Sabugo”


“Outros porão em verso outras razões,
Quem sabe se mais úteis e urgentes,
Mas ninguém se refaz a natureza,
E como quem prevê acusações,
Aqui direi que busco a só maneira
De todo me encontrar numa certeza,
Leve nisso ou não leve a vida inteira.

Assim como quem rói as unhas rentes.”


Ainda hoje o livro tem o preço escrito a lápis pelo livreiro: 40 escudos.


E era daqueles  livros que, gostosamente, se tinham de abrir com uma faca. 


O quanto lamentei quando os livros passaram a dispensar o exercício desse prazer, demorando os olhos pelas páginas que se iam revelando e até o livro estar aberto por completo. Só depois a leitura começaria.


Foi assim que começou a minha josésaramaguite aguda.


Feliz do leitor que, por si só, descobre um autor que desconhece, que sem qualquer tipo de ajuda passa a gostar de alguém que, ainda não saberá, um dia será Prémio Nobel da Literatura.


Se isto não é a felicidade, eu andei por lá perto!


Fiquei à espera de outros livros, outras descobertas.


O meu pai era assinante da Seara Nova, e no nº 1459 referente a Maio de 1967, deparo com uma crítica de José Saramago ao romance A Execução de Júlio Moreira.

Num livro, publicado em Abril de 2010, pela Editorial Caminho e que reúne a correspondência trocada, durante os anos de 1959 e 1971, entre José Rodrigues Migueis e José Saramago, Saramago escreve:

Sabe que fui promovido a crítico literário? E da “Seara”, ainda por cima, que é coisa fina (…) Abri a boca, de puro pasmo.(…) e eu honesto e perplexo, modesto e desconfiado, dou as minhas razões contra: falta de preparação de grau universitário, pouco tempo disponível, ou nenhum, independência ideológica, etc., etc. (…) Acabei por aceitar. E lá estou. Veremos por quanto tempo. É que, de mim para mim, assentei que, à mais pequena pressão ou torcidela de nariz, tiro de lá os pés. Para o último número escrevi duas críticas, uma das quais a Censura deitou abaixo. Bom princípio.

(Carta datada de 8 de Maio de 1967)

Quem me conhece, sabe que nutro por José Saramago um gosto e uma admiração que vão para além da simples relação autor/ leitor.

Óbvio que nem tudo o que José Saramago escreveu, ou disse, ou atitudes que tomou, ou polémicas que manteve, alguma coisa não me provoque reparo, mas de modo algum, ofusca a imagem que dele faço: de um homem de rara personalidade, de braço dado com um brilhante escritor.

Do que de Saramago há aqui pela casa, irei revelando: os livros que outros escreveram sobre a sua obra, entrevistas, opúsculos, o enorme dossier que fui organizando ao longo dos tempos e, acima de tudo, olharei as páginas riscadas de todos os seus livros.

Por aqui continuará José Saramago.

Para que a homenagem possa prosseguir.


Legenda: Fotografia da página da Seara Novacom a crítica de José Saramago ao livro A Execução de Júlio Moreira

Texto publicado em 27 de Julho de 2010